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Razões, razão e ter razão.

A propósito da recorrente discussão acerca da fé e da razão, e se uma exclui a outra, pediram-me que escrevesse sobre o que eu entendo serem razões, razão e ter razão (1). Ora aqui vai.

As razões são os pontos de partida dos argumentos. Podem não vir no princípio da conversa, mas estão no início do raciocínio. Por exemplo, em “é melhor levar o guarda-chuva porque vai chover”, “vai chover” é o ponto de partida, de onde se infere a conclusão. E, para fundamentarem o argumento, as razões têm de apontar para a conclusão. Marte estar em Capricórnio não é uma boa razão para levar o guarda-chuva porque, tanto quanto saiba, uma coisa não tem nada que ver com a outra. As razões têm também de invocar algo que se imponha à nossa opinião e não seja mero fruto de uma decisão arbitrária. A chuva, por exemplo. Mas dizer que levo o guarda-chuva porque decidi levá-lo é começar o argumento a meio. Falta dizer o que me levou decidir assim. Exigir que as razões não sejam arbitrárias, que moldem as nossas escolhas em vez de se moldarem a estas, é necessário para distinguir entre razões e meras desculpas.

Além disto, se queremos partilhar raciocínios e persuadir de forma racional, as razões que apresentamos também têm de ser relevantes para os outros. Se eu despejar um balde de água no sofá justificando que o fiz porque me apeteceu, nem vou parecer racional nem convencer ninguém do mérito do acto. Apesar desse impulso estar no início do raciocínio, por não haver nada racional que o preceda, não é uma uma razão que outros aceitem. Mas se a razão for que o sofá estava a arder o argumento já será mais persuasivo. Essa já é uma razão para despejar água no sofá.

Noutro sentido, a razão é a capacidade de procurar e avaliar razões, de conduzir o raciocínio para onde estas indicam e, assim, de formar opiniões com um fundamento que se possa partilhar. É a característica do animal racional que, pelo menos quando a usamos, torna a nossa espécie exímia a colaborar para obter conhecimento, a encontrar consensos e a resolver divergências de forma produtiva e sem violência. Se a razão já é importante para cada um, individualmente, para a nossa coexistência é indispensável.

Quanto à fé, se eu disser que Deus não existe porque acredito, ou porque tenho fé, que não exista tal coisa, o argumento não será racional porque esta razão não cumpre os requisitos que as razões devem cumprir: a minha crença não pode ser o ponto inicial do argumento, porque tem de haver algo que me tenha levado a acreditar nisto em vez de acreditar no contrário; o que eu acredito não determina se Deus existe ou não; e acreditar que Deus não existe não é um ponto de partida aceitável para quem não seja ateu como eu.

Se bem que eu não argumente a inexistência de Deus com base na minha descrença, nem tenha encontrado outro ateu que o fizesse, na posição contrária este erro é tão comum que é praticamente a norma. Muita gente justifica afirmar que o seu deus existe pela fé que tem nessa existência, pela sua crença, pelas crenças dos outros, tradições ou textos que considera sagrados. Nada disso serve, porque nada disso permite concluir que este ou aquele deus realmente existe, nada disso é ponto de partida num raciocínio, omitindo as razões para formar tais crenças, e nada disso será aceite por quem não partilhar delas. É por isso que os cristãos não são persuadidos pelos argumentos dos muçulmanos, nem vice-versa. Um argumento assente na fé, crença, tradição ou num testemunho escolhido arbitrariamente não dá qualquer base para consenso. Não permite determinar quem tem razão.

Em contraste, o ateísmo pode ser defendido racionalmente porque, em geral, as hipóteses que nos apresentam acerca das características dos deuses são contrárias às evidências que todos reconhecemos. Por exemplo, um deus que criou o universo em seis dias há poucos milhares de anos ou um deus que é omnipotente, infinitamente benévolo e nos ama a todos. E mesmo quando o que propõem não pode ser confrontado com o que se observa, o número de propostas mutuamente exclusivas, a impossibilidade de as testar e a falta de indícios de que os alegados peritos de cada religião saibam realmente o que dizem saber, justifica a atitude céptica de rejeitar cada uma dessas alegações até que tenha suporte adequado.

Usando a razão, um crente pode facilmente perceber esta incompatibilidade. A razão serve para avaliar hipóteses procurando as razões que as justificariam. Assim, pode ser usada para encontrar o que é que se exigiria para acreditar em cada alegação de cada religião. Por exemplo, que evidências poderiam persuadir de que Alá é o único deus e Maomé o seu profeta, ou a aceitar a doutrina da reencarnação, a infalibilidade do Papa ou a autoridade religiosa do Edir Macedo. Fazendo este exercício com imparcialidade qualquer crente, seja de que religião for, constatará que só se pode manter fiel à sua religião se exigir desta muito menos do que exigiria de qualquer outra. Se fosse consistente no seu grau de exigência para este tipo de alegações, acabaria ateu por ter de rejeitar todas como igualmente infundadas. Só pela fé é que se pode seguir uma religião em detrimento das outras, mas a fé não é razão.

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13 thoughts on “Razões, razão e ter razão.”
  • João Pedro Moura

    LUDWIG KRIPPAHL disse:

    “É por isso que os cristãos não são persuadidos pelos argumentos dos muçulmanos, nem vice-versa. Um argumento assente na fé, crença, tradição ou num testemunho escolhido arbitrariamente não dá qualquer base para consenso. Não permite determinar quem tem razão.”

    Pois não! Só que…

    “Um movimento elementar não pode ser vencido com “argumentos”. Os argumentos  só surtiriam efeito se o movimento aumentasse com argumentos.”

    WILHELM STAPEL, “Cristianismo e Nacional-Socialismo”, em: “Psicologia de Massas do Fascismo”, Wilhelm Reich, pág. 59, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1976.

  • antoniofernando

    Ludwig,

    Você anda em círculos em volta da sua própria metafísica natural. Por mais que você tente, não consegue evocar a chamada “razão” como elemento exclusivamente estruturante do ateísmo. Chega a um ponto em que você acha ” racional” conceber que o Universo tenha começado de forma acausal , sem uma Causa Primeira e a admitir a Abiogénese como explicação, igualmente ” racional” dos processos de vida, no que tange à passagem da chamada matéria inorgânica para os seres vivos. Para mim, o Universo só faz sentido com a aceitação deísta de uma Causa Primeira, a que chamo Deus, e com a recusa da mera hipótese da Abiogénese, por não estar cientificamente demonstrada. É apenas um mero palpite, uma simples convicção, uma mera hipótese de explicação da origem da vida, a que uns aderem, outros não. Como você não tem forma de asseverar a cientificidade da Abiogénese, se aderir a essa tese especulativa, você radica a sua mundividência ateísta numa posição que é também exclusivamente metafísica. E o mesmo se passa quanto à aceitação ou não de uma Causa Primeira, como origem do Universo. Eu não tenho forma de provar a existência de Deus, mas você também não tem como demonstrar que não houve uma Causa Originária. A sua tão apregoada “racionalidade superior, no ponto tão altaneiro, em que você se coloca, tem muito mais de presunçosa do que de real. Você toma a Nuvem por Juno. Só consegue ver racionalidade olhando para o seu próprio umbigo. O que não é propriamente apanágio de um espírito elevado.No fundo, você tem apenas direito à suas próprias convicções metafísicas, dado que não tem explicação cientificamente absoluta para o modo como o Universo e a vida animal surgiram. Mas onde você não tem também nenhuma explicação fisicalista, que seja universalmente aceite, é na questão da mente e da consciência humana. O Damásio, coitado,bem se afadiga a tentar demonstrar que a mente é mero produto do cérebro. Mas há ” apenas” um ligeiro ” pormenor” que ele ou Dennett não conseguiram ultrapassar: até hoje nenhum neurocientista conseguiu empiricamente demonstrar que a mente não existe para além do cérebro. Quando, muito, conseguem demonstrar que existe correlação estreita entre o cérebro e o pensamento. Não, porém, que o pensamento não preceda o cérebro. Como vê, quanto à sua apregoada racionalidade, ela ainda se movimenta muito manca e presunçosa.

    • Kavkaz

      Hoje não trouxeste a caneta para assinares por baixo!

      – Hoje tens Falta de Material.

      • antoniofernando

         Depois há ainda outra questão relevante. Queres ver:

        O Ludwig fala muito em razões. Mas, na base de muitas condutas humanas, não está a razão, mas o inconsciente, a determinar múltiplos dos nossos comportamentos.Isso qualquer manual de psicologia básica o esclarece, nem sequer é preciso citar o Damásio.

        E, para além do domínio do Inconsciente, os seres humanos ainda se movimentam a partir de subjectivas intuições e convicções.

        Todo esse ” material” , estruturante do ser humano, foi-nos conferido pela evolução, ou seja pelos genes.

        Não há ser humano exclusivamente ou preponderantemente racional. Aquilo que o Ludwig cataloga como ” racional” é apenas a parte visível do icebergue, ou seja, do Inconsciente.

        Não há divisão entre ” racional” e ” inconsciente”. E o inconsciente é até uma forma superior de racional. Se não existisse o Inconsciente nas nossas mentes, não seríamos capazes de funcionar. Para cada tarefa que executássemos, teríamos que estar sempre a reflectir sobre o mais comezinho dos actos que todos realizámos de forma rotineira e habitual.

        Quando vais a conduzir o teu automóvel, grande parte das funções, ditas automáticas, que executas, são conduzidas pelo teu Inconsciente. Todos aqueles que conduzem, sabem do que estou a dizer. Conduzimos o automóvel e só tomámos atenção consciente a um certo número de funções essenciais. Todas as demais são executadas pelos nossos Inconscientes.

        Não há também razão desligada da emoção e do sentimento. Quem tiver dúvidas leia Damásio.

        E também não há ser humano normal que não tenha crenças. O animal, em plena natureza, tem a capacidade instintiva de percepcionar que, numa determinada zona, pode estar um predador, mesmo sem o visualizar. Porquê ? Porque o processo evolutivo dotou-o da faculdade de fazer o seu próprio jogo de probabilidades, a partir de experiências geneticamente adquiridas, que se transformaram em formas de crença.

        O LK cinge a realidade do ser humano e fala de um ” compartimento estanque”, ou seja do racional, quando tal estanquicidade não existe.

        Ele, como os demais seres humanos, é conduzido, nas suas condutas, por processos essencialmente inconscientes. Ao lado consciente resta a menor porção.

        A crença em Deus, como demonstrou o cientista Dean Hamer, decorre do próprio processo evolutivo. Um ser humano normal acredita em Deus, sustenta esse cientista.

        Portanto, se alguém não reflecte com todos os seus predicados, incluindo a intuição e a crença, será exactamente LK.

        Mas aí é ele que está em falha.

        Entendeste, ou necessitas que te repita ?

        • Kavkaz

          Onde é que foste buscar esse teu “Deus”? Dedução empírica?

          Ou copiaste-lhe o nome do livro que rasgaste por falta de imaginação em lhe arranjares outro nome?

          • antoniofernando

            Deus é o maior de todos os arquétipos, como bem referiu Carl Jung. E a tua pergunta é absurda, irracional, para usar uma expressão tão querida de LK.A ideia de Deus implica a adesão intuitiva, tal, como, por exemplo, a perspectiva deísta do genial Einstein. Admitir que Deus se possa provar por ” dedução empírica” é tão menor como perguntar se é possível demonstrar empiricamente os sentimentos.O texto do LK, desta vez, não me convence. Ele equaciona uma acepção de ” racional” que já não se usa. Fez a sua época, no tempo do chamado “positivismo lógico” da escola da Viena, mas hoje, nenhuma posição ateísta intelectualmente avançada utiliza o tipo de argumentação passadista de LK, ou seja, de que há uma espécie de ” compartimento estanque” onde se localiza um específico diapasão da dita “razão”. LK entende que é racionalmente plausível, presumo, admitir a Abiogénese e a Teoria do Cego Acaso, como basilares na configuração de um pensamento ateísta. Mas eu entendo que essa fundamentação é totalmente ilógica e irracional, por um conjunto variado de razões que já exprimi.
            E aqui é que bate o ponto,na linha divisória que separa o ateísmo do deísmo, no qual me reconheço, como doutrina filosófica consistente. Para as questões basilares da existência do Universo e da Vida, LK conforma-se com uma lógica de fundamentação que, para mim, não tem ponta por onde se lhe pegue. LK certamente entenderá o contrário. Mas ele é tão livre da falar das irracionalidades alheias, como eu sou igualmente livre de não me reconhecer na sua irracionalidade ateísta, em relação a esse tipo de questões basilares, que se entrecruzam no diálogo entre ateísmo e deísmo.Por mim, não vejo como seja sensato admitir que o Universo não tenha tido uma Causa Primeira, a que chamo Deus, ou que se possa admitir uma transposição da matéria inorgânica para os primeiros seres vivos senão a partir da aceitação de que algum elemento mental, imaterial, ou já estava presente na própria matéria, ou se manifestou no exacto momento em que a primeira célula protobiótica surgiu.LK optou por falar de uma personagem caricata como Edir Macedo para tentar concluir no sentido de que um crente se tornaria ateu se encontrasse incongruências em qualquer tipo de denominação religiosa. Mas já no deísta Einstein não fala, porque, se o fizesse, ficava muito mal na fotografia do seu frágil arrazoado. Ele que se ” meta” com Einstein ou os chamados ” pais” da física quântica, todos eles crentes em Deus, que eu gostava de ver como ele se sairia dessa interpelação…

          • Kavkaz

            Esse nome “Deus” que adoptaste não é copiado do “Génesis” que rasgaste e não presta? Não podias arranjar outro nome para não misturar?

          • antoniofernando

            Hoje estou com muita paciência para te responder. Então aqui vai:

            Não oriento a minha concepção de Deus pelo AT. Ela deriva essencialmente da convicção íntima de que o Universo e a Vida só fazem sentido admitindo a existência de Deus, como Causa Primeira e Inteligente dos seus surgimentos. Essa concepção tem natureza simultâneamente intuitiva e racional, mas a intuição é fundamental para aderirmos a uma Causa Transcendente. Nesta visão específica, não vou destacar a teologia católica, que hoje já não faz parte da minha visão do mundo. Sou cristão e deísta e não considero admissível que se possa conceber Deus como um constante interventor na realidade humana, privilegiando uns em desfavor de outros, operando milagres nuns mas não noutros. A razão está presente em todos os homens, não apenas naqueles que pensam como LK e que se arvoram numa espécie de detentores totalitários do que seja a forma ” correcta” de raciocinar. A fé, a convicção, ou a intuição sobre Deus,são tão legítimas quanto a respectiva descrença.Não faz de LK mais intelectualmente capaz ou racional o facto de ele ser ateu. Assim como o deísmo ou o teísmo são meras posições filosóficas, o mesmo se passa com o ateísmo. LK tem o seu próprio esquema conceptual de justificar o seu ateísmo e eu tenho o humano direito de aderir racionalmente ao meu próprio esquema mental. Se LK entender que a sua “razão” não admite elementos de adesão intuitiva à ideia de Deus, isso vale tanto como eu subscrever que a fé, ou seja a intuição teísta, é tão válida, como forma de aquisição de Conhecimento, do que a ” enclausurada” razão de LK. Ele pode entender que deverá sempre medir a descrença em Deus pelo estrito diapasão do método científico experimental. Eu sou plenamente livre de pensar que o método científico experimental não é, de perto nem de longe, a única forma de percepcionarmos a realidade.

          • Kavkaz

            Tu não te orientas pela Bíblia. Orientas-te por ti próprio. Tens um deus inventado por ti próprio e dentro de ti, com o mesmo nome do deus do Antigo Testamento, um livro que para ti não é “sagrado” e entendeste rasgá-lo.

            Cada crente tem o seu deus à sua imagem. Quando olhamos para todos essses milhões de deuses dos crentes vemos quanto eles são diferentes. Cada crente cria o que gosta. Não irá adorar uma coisa que detesta!

            Enquanto os crentes inventam deuses e que lhe poderiam chamar, por exemplo, de Zeus, que também tem 4 letras, e é homónimo de outro deus caído em desuso pelos crentes o universo continua a mover-se sem ninguém lhe tocar. Foi assim desde sempre!

          • antoniofernando

            Pois é. Há de facto várias concepções de Deus.O que me espanta é que haja tantos ateus a querer reduzir Deus à versão do AT. Serão mesmo ateus ou antes um grupo sistemático de crentes ressabiados ?

          • Kavkaz

            Os ateus não se reduzem à versão do AT. Esta é, simplesmente, versão maioritária. Fala-se dela com mais frequência. Os ateus dafirmam que os deuses NÂO existem. Logo, dá para toda e qualquer versão inventada pelos crentes.
            Os ateus não são ressabiados. Eles estudaram e sabem o que dizem. Não falam por “fé”, que é o mesmo de falar-se sem ter a certeza confirmada do que se diz.

          • HAMONBAAL

            Tenho-vos visto com muitas desculpas esfarrapadas à pála do NT.

            Mas fifi, o NT confirma o AT.
            É por isso que a igreja católica a 99% das igrejas cristãs aceitam o AT.

            O facto de vocês ignorarem isto prova que, ou são muito mentirosos ou muito ignorantes.

  • Athan Gene

    O ateu é apático por falha já na nomeclatura; qualquer pessoa sã, com o mínimo de reaciocínio descarta qualquer probabilidade de haver “deus” seja lá como isso fosse. O forjamento de “deus”, de “divindades”, é forçosamente de “autoridade” sobre submissão, e é imposto com ferrolho do mêdo, com a lacaíce da conivência em interesses espúrios que creditam as várias “fezes”, e com o fomento de míséria, e incessante desespêro com a violência da guerra. Isso é a razão de haver uma miragem enganosa que aprisiona em correntes psicológicas os formatos dos rebanhos de “fiéis-crentes”. Infindáveis argumentos não destrancam a cabeça de crente nenhum, pois o fiel é um joguete nas mãos de parasitas que o mantém aturdido, desorientado, entupido de desinformação.
    O fiel-crente é um escravo que jogou a chave da razão e de sua liberdade fora, e enganado ao extremo, entrega sua vida, e até mata para que outros também a desperdiçem ou se matem como ele.
    Todo o Sistema Social Humano tem de mudar já, pois os regimes teo-políticos estão dizimando os rebanhos; quantidades e quantidades de gente está sendo vitimada por algum tipo de festança; as populações estão inermes à mercê de matanças e sumiços; na Rússia o putin já se empossou como verdadeiro ladrão-usurpador-impostor, e recebeu dinheiro de várias nações roubadas civilmente por elementos nocivos armados pelo pacto mafioso de “liderança mundial forte”.

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