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Milagres – I

Há dois tipos de crenças em relação aos milagres. Existe quem acredita que podem envolver uma violação das leis naturais, e existe quem não acredita em tal coisa.

Quando se justifica acreditar na ocorrência de um determinado milagre? David Hume dá uma excelente resposta a essa questão:

«Nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre, a menos que o testemunho seja de tal tipo que sua falsidade seria mais miraculosa que o fato que ele tenta estabelecer»

Por outras palavras, devemos sempre acreditar na hipótese mais plausível. Podemos olhar para esta máxima do ponto de vista do conhecimento que temos hoje sobre probabilidades. Sejam A e B dois acontecimentos, a probabilidade de A dado B é dada por:


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Assim, se A for o milagre, e B for a existência do conjunto de evidências que temos para esse milagre (testemunhos, etc.) podemos encarar B como a união do conjunto dos diferentes acontecimentos possíveis que poderiam dar origem a essas evidências – a autenticidade do milagre (A), a falsidade dos testemunhos, equívoco, ou outras, a que chamaremos C. Tendo em conta que são conjuntos disjuntos, e que a intersecção de dois conjuntos não pode ser superior a qualquer deles, a expressão anterior implica:


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Aqui temos: se a falsidade das evidências for mais miraculosa que o milagre que se pretende estabelecer (P(C) < P(A)), é razoável acreditar que o milagre ocorreu (P(A|B) > 0.5). Mas se acontece o contrário, não faz sentido acreditar que o milagre tenha ocorrido (P(~A|B)>0.5).

Um exemplo ilustrativo: o Gustavo, grande amigo meu, diz que morreu e passados dois dias ressuscitou, e descreve a experiência em grande detalhe, com enorme seriedade. O acontecimento A é a ressurreição do Gustavo, o acontecimento B é o seu testemunho. Para simplificar, vamos supor neste caso que não existe nenhuma outra explicação para o seu testemunho além da autenticidade do milagre e da mentira deliberada (não é possível que seja um equívoco, etc..). Como o Gustavo é extremamente honesto, eu diria que a probabilidade dele mentir é uma num milhão (P(C)=0.000001). Ninguém discordará que a probabilidade de alguém ressuscitar passados dois dias é muito inferior a um em mil milhões (P(A)<0.000000001). Assim, qual é a probabilidade de que o milagre descrito pelo Gustavo seja autêntico? É inferior a um em 1000 - aquilo que é muito mais plausível é que Gustavo, apesar da sua honestidade, esteja a mentir deliberadamente (P(C|B)>0.999).

E se considerarmos que é possível que Gustavo esteja equivocado? Como a sua descrição parece detalhada, e a sua convicção inabalável, parece difícil imaginar que tal equívoco seja possível, mas isso é ignorância sobre a natureza humana, equívocos deste tipo acontecem a pessoas saudáveis com mais frequência do que imaginaríamos. Suponhamos que a probabilidade de equívoco a priori é de um em dez mil (P(D)=0.0001). Neste caso, temos que a probabilidade de que Gustavo esteja equivocado (P(D|B)) é cerca de 99%. Neste caso a probabilidade de mentira deliberada (P(C|B)) passa a ser próxima de 1%. Por fim, considerando a possibilidade de equívoco nestes moldes, a probabilidade do milagre ser autêntico (P(A|B)) passa a ser ainda menor (inferior a um em cem mil).

Como é natural, no que diz respeito a milagres que implicam violação das leis naturais, a sua probabilidade a priori é extremamente reduzida, pois de outra forma tais leis não teriam sido estabelecidas. Assim, para que fosse razoável acreditar neles face às evidências disponíveis seria necessário que a autenticidade destas merecesse mais crédito que as próprias leis naturais que teriam sido violadas – o que é manifestamente difícil…

Já no que diz respeito a milagres que não implicam violação das leis naturais, creio que o próprio conceito é absurdo. No próximo texto sobre este assunto procurarei explicar porquê.

42 thoughts on “Milagres – I”
  • Hhh

    Ora, estás a esquecer a parcela principal da equação dos religiosos que creditam em milagres.

    Eles QUEREM acreditar.  Ponto.

    Basta ver a atitude deles em relação aos milagres das outras religiões.

    Pergunta a um católico o que pensa ele das “curas miraculosas” que “Asclepio” operava rotineiramente nos seus templos.

    Pergunta-lhe o que pensa das “curas miraculosas” operadas rotineiramente pelos orixás.

    Pergunta-lhe pelos milagres operados pelos deuses hindús.

    Pergunta também pelos espectaculares “milagres” operados pelos espiritos xamanistas.

    Pergunta-lhe pelos espantosos milagres dos espiritos testemunhados pelos seguidores da religião espirita.

    Pergunta-lhe pelos milagres fervorosamente testemunhados pelos milhares de crentes CRISTÃOS da igreja vida abundante.

    Ou até, pergunta-lhe pelos “magníficos mlagres” que todos podemos testemunhar em directo e a cores quando ligamos o canal da igreja universal.

    Essencialmente vai achar que é tudo TRETA e se for preciso até usa os mesmos argumentos do que tu para o demonstrar.

    Mas o facto é que nos milagres da religião de que gosta mais ele já QUER acreditar e está-se a marimbar para o resto.   Mesmo que esse resto seja a lógica, a lei das probabilidades ou a ética.

    • Anónimo

      Moloch Baal o agnóstico,e vassalo dos ateus, a debitar as suas habituais patacoadas

      • Jvgama

        Concordância não é vassalagem, e discordância não implica inimizade ou ódio. 

        E já agora, não me identifico com a frase do Orson Welles, citada pelo Luíd Grave Rodrigues.

      • Hhh

        Já te disse que nem todos são como tu e nem toda a gente se rege por ódiozinhos pessoais mesquinhos.  

        Posso estar em completo desacordo com alguém e até sentir-me profundamente ofendido e entrar em “guerra” com alguém. 

        Mas se esse alguém, antes, durante, ou a seguir, disser alguma coisa em que tem toda a razão eu só tenho de o admitir.

        A tua tentativa de me picar contra os ateus só funcionaria se eu fosse uma histérica rancorosa como tu.

        Se até a ti, que me clonas os nicks para me impedir de participar, se até ao Mr X que me considera a mim e à minha família como “lixo humano” eu dou razão, quando acho que têm, porque raio não ia dar razão aos ateus quando acho que têm razão ?

        Não te estás a ver ao espelho.

         Há pessoas que têm princípios.

        • Anónimo

          “Se até a ti, que me clonas os nicks para me impedir de participar”

          Moloch Baal, o nojento e reles caluniador e mentiroso

          • hhh

            Sim ?

            Até recentemente tu me voltaste a ameaçar com clonagens.  Que não há uma sem duas, que eu estava mesmo a pedir para ser corrido OUTRA VEZ etc etc.  

            Ora como eu só fui “corrido” por clonagem dos nicks, a tua ameaça foi bastante clara….

            És mesmo um santarrão.  

            Mas de pau carunchoso…

      • Hhh

        Já te disse que nem todos são como tu e nem toda a gente se rege por ódiozinhos pessoais mesquinhos.  

        Posso estar em completo desacordo com alguém e até sentir-me profundamente ofendido e entrar em “guerra” com alguém. 

        Mas se esse alguém, antes, durante, ou a seguir, disser alguma coisa em que tem toda a razão eu só tenho de o admitir.

        A tua tentativa de me picar contra os ateus só funcionaria se eu fosse uma histérica rancorosa como tu.

        Se até a ti, que me clonas os nicks para me impedir de participar, se até ao Mr X que me considera a mim e à minha família como “lixo humano” eu dou razão, quando acho que têm, porque raio não ia dar razão aos ateus quando acho que têm razão ?

        Não te estás a ver ao espelho.

         Há pessoas que têm princípios.

      • Anónimo

        És mesmo sacana …

    • Mr X

      Eu digo-te que os milagres operados por Deus
      omnipotente, uno e trino, Senhor da criação e de todo o universo, são milagres,
      chames tu a Deus o nome que quiserem ou sejam
      por intermédio de um forem.  

       

      Se perguntas: entre uma entre uma
      legião infindável de gente séria e honesta há alguns charlatães?

      A resposta é: Sim.

      Tu és a prova disso!

      • Jvgama

        A argumentação do comentário acima:

        «Há milagres, porque sim.

        E és um charlatão, toma, toma, toma!»

        uma resposta ao mesmo nível seria:

        «Quem diz é quem é, e o teu pai cheira a chulé.»
        Porque todos temos 5 anos de idade, e somos incapazes de uma discussão com mais nível. 

        Eu consigo debater civilizadamente com os crentes que obstam às minhas posições com argumentos. Posso discordar desses argumentos, e como tal, exponho as razões da minha discordância, e ninguém insulta ninguém.

        Mas tu, pelos vistos, és incapaz de argumentar sem agressividade e ofensas pessoais. Talvez porque te faltem argumentos, talvez porque para ti seja essa a forma normal de discutir. 

      • hhh

        Hummm

        Então os milagres :

        – Da igreja universal.

        –  Dos satanistas.

        – Dos pagãos.

        – Das testemunhas de jeová.

        Etc..

        São verdadeiros ?

        Bem, então a igreja católica quando diz que é o caminho para a verdade é mentirosa, porque qualquer uma serve.

  • Jvgama

    É um fideísmo não assumido.

  • Kavkaz

    Os crentes poderiam pedir um milagre aos deuses deles! Pediriam para o próximo Euromilhões sair a um ateu da Associação dos Ateus Portugueses. Há algum inconveniente que os cento e muitos milhões saiam a um ateu e não a um crente muito crente?

    • Mr X

      Acho que sim, pois eu receio que te tornasses um fundamentalista com dinheiro, exactamente com os mesmo princípios e forma de actuar do Bin Laden. 

      Ou será que, apesar de todo o ódio, falta de civismo e educação e com a propensão para o fundamentalismo destrutivo que aqui demonstra, tu achas que és melhor do que ele? 

      • Kavkaz

        Eu não acho nada. Quem acha tudo são os crentes. Até deuses eles acham…

      • hhh

        Yap.

        Tu não demonstras ódio nenhum quando chamas aos outros “lixo humano”.

        De bonzinho é que tu não tens nada.

  • Mr X

    E se eu te disser que um individuo está mergulhado na água 30 minutos sem qualquer auxiliar de respiração e depois sai de lá, cumprimenta-te e vai contigo contar-te a experiência,  cientificamente as tuas contas dão exactamente os mesmos valores. 

    Mas eu posso apresentar-te alguém que o faz. 

    • Anónimo

      30 minutos! Esse individuo deveria concorrer para o record do mundo que está 10 min. abaixo. E só com oxigenio puro… Que grandes pulmões 😮

    • hhh

      Ora, o que isso ao pé de um urso a andar de bicicleta, como eu já vi num circo ?

      O urso é miraculoso ?

      O tipo que citaste tem um treino especial em apneia ?

      Sim, há tipos que conseguem aguentar esse tempo.

      Pronto.

      Agora podias explicar-nos o que é que essa cena tem a ver com o que estava a ser discutido ?

      Mais valia ficares pelo tradicional “não generalizem, não generalizem que isto não é o que parece”.

      Agora até te socorres de anedoctas do livro dos recordes para fazer esquecer o assunto da discussão.

  • Mr X

    Mas, tu tens coisas espectaculares, daquelas que merecem uma lápide, tipo esta: 

    “se a falsidade das evidências for mais miraculosa que o milagre”

    Queres um Óscar ou um Nobel?

  • Jvgama

    «Aqui temos: se a falsidade das evidências for mais miraculosa que o milagre que se pretende estabelecer» 

    Se calhar está além da tua compreensão, mas creio que a maioria dos leitores foi capaz de discernir o significado complexo desta frase…

  • Anónimo

    1)”Como é natural, no que diz respeito a milagres que implicam violação das leis naturais, a sua probabilidade a priori
    é extremamente reduzida, pois de outra forma tais leis não teriam sido
    estabelecidas. Assim, para que fosse razoável acreditar neles face às
    evidências disponíveis seria necessário que a autenticidade destas
    merecesse mais crédito que as próprias leis naturais que teriam sido
    violadas – o que é manifestamente difícil…”

    2) “Se digo “Todos os cisnes são brancos”, basta a observação de um único
    cisne preto para refutar a minha teoria. Contudo, se eu observar dois
    milhões de cisnes brancos o próximo cisne que observar pode muito bem
    ser preto: por outras palavras, a generalização é muito mais fácil de
    refutar do que de demonstrar.” Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Lisboa, Gradiva, 1998, pp.179-180″

    JVG

    Quantos homens na Terra conseguem correr 100m em 9, 58 s, em tantos biliões ?

    Resposta certa: 1

    Isso é milagre ? Não.

    Mas qual é a probabilidade de esse acontecimento ocorrer ? 1 em quantos biliões ?

    O facto de ela ser absolutamente improvável, aferida pela enorme quantidade de pessoas incapazes de alcançar essa proeza, torna-a improvável ou impossível ?

    Não, apenas significa que é raríssima a hipótese de ser obtida,mas não impossível.

    Na história da Humanidade, também só existiu um Jesus de Nazaré.

    A partir desta reflexão, a equação da lógica das probabilidades desaba em relação à impossibilidade de ocorrência dos milagres, independentemente de configurarem ou não superação das leis da Natureza

    • Jvgama

      «Não, apenas significa que é raríssima a hipótese de ser obtida,mas não impossível.»Nada disso obsta ao que está escrito no texto. Se a minha alegação fosse que essas coisas são impossíveis, falava numa probabilidade «a priori» de zero, e a conversa acabava por aí. Mas como eu falei sempre em probabilidades superiores a zero, aquilo que o impertinente apresenta como objecções ao meu texto, são afinal o seu ponto de partida.

  • Jvgama

    «Não, apenas significa que é raríssima a hipótese de ser obtida,mas não impossível.»

    Nada disso obsta ao que está escrito no texto. 
    Se a minha alegação fosse que essas coisas são impossíveis, falava numa probabilidade «a priori» de zero, e a conversa acabava por aí. Mas como eu falei sempre em probabilidades superiores a zero, aquilo que o impertinente apresenta como objecções ao meu texto, são afinal o seu ponto de partida.

    • Anónimo

      Obsta sim, nos termos que Nigel Warburton facilmente desmontou e que Karl Popper certamente subscreveria.

      Hoje, só mesmo muito poucos, como você, ainda alinham pela falaciosa fórmula de Davi Hume.

      • Jvgama

        Impertinente, tanto não é falaciosa a «fórmula» de Hume, que mesmo muitos daqueles que alegam refutá-la mais não fazem do que demonstrar a sua incompreensão.Tomemos o exemplo do impertinente, que fala sobre o facto de ser mais fácil refutar uma generalização do que demonstrá-la. Como crê que isso obste ao argumento apresentado? Se o argumento não presume, implícita ou explicitamente, o contrário. Onde está a falácia? O impertinente é capaz de encontrar alguma falácia? Explicá-la por palavras suas?

      • Jvgama

        Impertinente, tanto não é falaciosa a «fórmula» de Hume, que mesmo muitos daqueles que alegam refutá-la mais não fazem do que demonstrar a sua incompreensão.Tomemos o exemplo do impertinente, que fala sobre o facto de ser mais fácil refutar uma generalização do que demonstrá-la. Como crê que isso obste ao argumento apresentado? Se o argumento não presume, implícita ou explicitamente, o contrário. Onde está a falácia? O impertinente é capaz de encontrar alguma falácia? Explicá-la por palavras suas?

      • Jvgama

        A «”refutação”» de John Earman conforme exposta aqui http://www.youtube.com/watch?v=aUMsCKlIBAo&feature=related é particularmente deliciosa. Consiste na exposição da fórmula exposta neste texto, que não é mais do que a forma correcta de exprimir o argumento de Hume na linguagem matemática do estudo das probabilidades. William Craig expõe o argumento de Hume (fazendo a alegação absurda de que no caso da ressurreição a falsidade do testemunho seria mais milagrosa que a ressurreição, que, apesar do seu absurdo, corresponde à aceitação dos termos de Hume enquanto critério de aferição) enquanto imagina estar a rebatê-lo. 

        Antes de «refutar» Hume, convém perceber o que é que Hume afirma. 

      • Jvgama

        A «”refutação”» de John Earman conforme exposta aqui http://www.youtube.com/watch?v=aUMsCKlIBAo&feature=related é particularmente deliciosa. Consiste na exposição da fórmula exposta neste texto, que não é mais do que a forma correcta de exprimir o argumento de Hume na linguagem matemática do estudo das probabilidades. William Craig expõe o argumento de Hume (fazendo a alegação absurda de que no caso da ressurreição a falsidade do testemunho seria mais milagrosa que a ressurreição, que, apesar do seu absurdo, corresponde à aceitação dos termos de Hume enquanto critério de aferição) enquanto imagina estar a rebatê-lo. 

        Antes de «refutar» Hume, convém perceber o que é que Hume afirma. 

      • hhh

        A GENERALIZAÇÃO !

        A tua desculpa favorita !

        Estava a ver que nunca mais sacavas da tua bomba atómica argumentativa.

        Aquela que, por regra geral nunca ter nada a ver com que se está a discutir, também nunca ninguém te consegue rebater.

        Enquanto fica tudo atarantado a pensar que raio terá aquilo a ver tu ZÁS consideras-te o “vencedor” da discussão, porque conseguiste distrair o pessoal do assunto em discussão.

        És verdadeiramente brilhante !

        Em tribunal serias o orador mais famoso.

        Não ganhavas causa nenhuma, mas precisamente por isso eras famoso.

        Toda a gente acorrria à barra para tentar perceber para que raio vais tu buscar coisas que não têm a ver com coisissima nenhuma.

        Pelo amor de deus, quando morreres doa o teu cerebro à ciência.

  • Jvgama

    Impertinente, tanto não é falaciosa a «fórmula» de Hume, que mesmo muitos daqueles que alegam refutá-la mais não fazem do que demonstrar a sua incompreensão.

    Tomemos o exemplo do impertinente, que fala sobre o facto de ser mais fácil refutar uma generalização do que demonstrá-la. Como crê que isso obste ao argumento apresentado? Se o argumento não presume, implícita ou explicitamente, o contrário. 

    Onde está a falácia? O impertinente é capaz de encontrar alguma falácia? Explicá-la por palavras suas?

    • Anónimo

      «Nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre, a menos
      que o testemunho seja de tal tipo que sua falsidade seria mais
      miraculosa que o fato que ele tenta estabelecer»

      David Hume

      Nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre, porquê ? Porque o David Hume o diz ?

      A menos que o testemunho seja de tal tipo que a sua falsidade seria mais miraculosa que o facto que ele tenta estabelecer ? Porquê ? Porque o David Hume o diz ?

      Hoje, nenhum historiador sério nega a existência histórica de Jesus de Nazaré. E nos evangelhos constam vários acontecimentos, atribuídos à autoria de Jesus Cristo, que foram sendo consecutivamente reafirmados ao longo dos séculos.

      Os seus apóstolos estão concretamente referenciados, não foram figuras de ficção. Conhecem-se os seus nomes, os seus trajectos de vida e as circunstâncias concretas em que faleceram, a maior parte martirizados, exceptuando o caso de João Evangelista.

      Flávio Josefo escreveu sobre a morte trágica de Tiago, irmão de Jesus.

      Porque haveria de duvidar dos milagres atribuídos a Jesus de Nazaré ? Porque não os presenciei directamente ?

      A maior parte dos acontecimentos, que damos por adquiridos, são-no por relatos indirectos.

      Quem, em absoluto, me diz que muitos dos acontecimentos históricos não foram forjados ?

      Quem, em absoluto, me assegura que o Homem foi à Lua numa ” casca de noz” ?

      Você pode duvidar de tudo e de mais alguma coisa.

      Que o filósofo Sócrates nunca existiu porque não produziu nenhum livro, que a estátua que o representa foi forjada e por aí adiante.

      E que o Homem não foi à Lua.

      Mas os eventos atribuídos a Jesus de Nazaré foram reafirmados por várias testemunhas e o Cristianismo não surgiu de uma história ficcionada.

      O Santo Sudário não é ficção. Você pode pensar que é forjado, mas muitos, como eu, pensam que são avassaladoras as provas da sua veracidade.

      Estive a ver os impressionantes vídeos publicados pelo Joaquim Silva e não conheço nenhuma argumentação, minimamente consistente, que refute que, quer o Sudário de Turim, quer a Santa Face de Manoppello, representam Jesus de Nazaré.

      Eu acredito que o filósofo Sócrates existiu, apesar de ele nunca ter produzido nenhuma obra escrita e acredito que todos os acontecimentos, com ele relacionados, transmitidos por Platão,são verdadeiros ?

      Porque haveria de duvidar ?

      Você acredita que o Homem foi à Lua numa ” casca de noz” ? Como pode saber se as imagens televisivas de Neil Armstrong a andar na Lua não foram forjadas pelos americanos ?

      Os milagres ultrapassam as leis da Natureza ? Não sei se ultrapassam, não conheço todas as leis da Natureza. Mas, mesmo que ultrapassem, quem lhe diz que o Sobrenatural não existe ?

      O David Hume era ateu e não acreditava no Sobrenatural ? É com ele.

      Mas eu não abdico de sustentar que a frase, que dele acima citei, é absolutamente falaciosa :

       ” Nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre”, porquê ? Porque o David Hume é céptico em relação ao Sobrenatural ?

      Essa argumentação é tão racionalmente fraquinha que nem admira que vários milhões de pessoas a ela não tenham aderido, exceptuando um número muito diminuto de ateus e agnósticos que optaram por subscrever uma tese filosófica, intelectualmente indigente…

      • Jvgama

        Impertinente, a sua incompreensão do argumento de David Hume que pretende criticar é de tal forma flagrante, que o Impertinente (tal como William Craig conforme mencionei antes) tenta defender a plausibilidade da ressurreição aceitando os termos do argumento. Ou seja, considera o argumento válido e usa-o, só que não se apercebe disso.

        Note que o argumento citado não implica, por si, que a ressurreição não ocorreu. Implica que só seria razoável acreditar na ressurreição caso a falsidade dos testemunhos fosse mais extraordinária que o milagre em causa. E, aceitando isto implicitamente, é precisamente isso que o Impertinente alega no seu comentário – que os testemunhos são extraordinariamente fiáveis. Que podemos duvidar deles, mas aí teríamos de duvidar que o homem foi à lua, tão sólidos e inquestionáveis são os testemunhos que falam na ressurreição, cuja falsidade seria ainda mais extraordinária que a ressurreição.

        «Nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre, porquê ? Porque o David Hume o diz ?» Hume não diz isso. Bart Ehrman diz isso, e eu discordo.

        «A menos que o testemunho seja de tal tipo que a sua falsidade seria mais
        miraculosa que o facto que ele tenta estabelecer ? Porquê ? Porque o
        David Hume o diz ?»

        Sim, o que Hume diz é a versão completa: «Nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre, a menos que o testemunho seja de tal tipo que a sua falsidade seria mais
        miraculosa que o [milagre] que ele tenta estabelecer»

        Em estatística chama-se a isso o critério de máxima verosimilhança. Apesar do nome técnico, é também uma regra de bom senso: se existem duas possíveis explicações para um fenómeno, deve-se escolher a menos extraordinária, porque tem mais probabilidade de ser a correcta.

        «Os milagres ultrapassam as leis da Natureza ? Não sei se ultrapassam,
        não conheço todas as leis da Natureza. Mas, mesmo que ultrapassem, como
        sabe que o Sobrenatural não existe ?»

        Hume considera essa possibilidade, e é a incompreensão do argumento de Hume que leva o impertinente a alegar que não. Repare bem na diferença entre isto:

        «Como é natural, no que diz respeito a milagres que implicam violação das leis naturais, a sua probabilidade a priori
        é nula, pois não existe sobrenatural. Assim, nunca seria razoável acreditar neles face às
        evidências disponíveis, mesmo que a autenticidade destas
        merecesse mais crédito que as próprias leis naturais que teriam sido
        violadas – o que é impossível»

        e isto:

        «Como é natural, no que diz respeito a milagres que implicam violação das leis naturais, a sua probabilidade a priori
        é extremamente reduzida, pois de outra forma tais leis não teriam sido
        estabelecidas. Assim, para que fosse razoável acreditar neles face às
        evidências disponíveis seria necessário que a autenticidade destas
        merecesse mais crédito que as próprias leis naturais que teriam sido
        violadas – o que é manifestamente difícil… »

        Se o primeiro destes dois textos correspondesse ao argumento de Hume, a objecção do impertinente faria sentido. Mas como o segundo é que corresponde, verifica-se que o impertinente não compreendeu o argumento que procura refutar. Assim, é algo imprudente classificar esta tese como «racionalmente fraquinha e confrangedora».

      • hhh

        Acontece que, se as testemunhas de que o homem foi à Lua fossem apenas meia dúzia de agentes da CIA, interessados em fazer propaganda americana.  

        Se esses agentes testemunhassem não como testemunhas oculares, mas apenas porque teriam ouvido dizer a outra meia dúzia de outros agentes da CIA entretanto já mortos.

         Se  essas “testemunhas” só tivessem tomado conhecimento do assunto  70 anos depois dos factos, e por interposta pessoa,  sem que houvesse quaisquer outros testemunhos da parte dos outros departamentos de estado, serviços militares, políticos e de jornalistas americanos.  

        Se só essa meia dúzia de estemunhos indirectos e interessados fossem as únicas provas de que o homem foi à Lua, então qualquer pessoa sensata teria toda a razão em ser cauteloso e considerar a ida do homem à Lua como uma hipótese entre outras.

        Se, para além disso, esses testemunhos tardios e indirectos, alegassem que os astronautas teriam ido à Lua, não por meios naturais, através da ciência aplicada e usando máquinas perfeitamente dentro do nosso alcance técnico, mas que, teriam lá chegado por meios sobrenaturais, ao colo de querubins por exemplo, então as probabilidades seriam monstruosamente CONTRA essa possibilidade, porque andar ao colo de querubins é coisa nunca vista e, mesmo que tudo pudesse ser possível, estaríamos a falar de uma possibilidade contra 10 biliões de essa hipótese ser verdadeira.

        Assim, total ausência de testemunhos directos, os únicos testemunhos seriam indirectos e pessoas comprometidas por interesses pessoais no assunto e ainda por cima fariam alegações sobrenatuaris que, se não impossíveis, na melhor das hipóteses altamente improváveis.

         Então, nessas condições, qualquer pessoa honesta e com juízo obviamente que encararia a ida à Lua ao colo de querubins com muito cepticismo. 

        Se o não fizesse era maluco.

        Acontece que a ida à Lua, ao contrário do que tu, com a tua demagogia do costume tenta fazer crer, não foi nada disso e nada teve a ver com situações obscuras e duvidosas como a feitura da Bíblia.

        A ida à Lua foi um projecto público que envolveu milhões de pessoas, das quais centenas de milhares tiveram participação directa.  Foi testemunhada por centenas de milhares de jornalistas de todo o mundo, dezenas de milhares de funcionários, militares e políticos, até inimigos dos estados unidos – a Rússia nunca negou que fosse verdade.

        Logo, qualquer comparação entre as duas situações é completamente impossível – da parte de uma pessoa honesta.

        Quanto a Sócrates, existe uma razão muito simples para a sua existência estar, no campo das probabilidades, logo à partida muito acima dos evangelhos como possibiliade.

        1º- Existem TRÊS fontes CONTEMPORÂNEAS que atestam a sua existência, uma favorável, Platão, uma imparcial  Xenofonte, e uma CRITÌCA, Aristófanes. 

        2º- Todas as fontes são contemporâneas e duas não estão directamente comprometidas com interesses próprios na causa “Sócrates”.

        3º- Todas as fontes dão testemunho de factos perfeitamente plausíveis e possíveis sem que seja necessário violar as leis da física e as normas da realidade tal como todos a conhecemos.

        4º-  Se as fontes pretendessem que a vida de Sócrates violasse as regras da plausibilidade, por exemplo afirmando que Sócrates costumava voar, batnedo os braços, à volta de Atenas nas noites de Luar ou que andasse sobre as águas do Pireu ou ressuscitasse mortos com a ajuda de Júpiter.    

        Nesse caso evidentemente que esses relatos perderiam a maior parte da sua plausibilidade e teriamos todas as razões para duvidar pelos menos dessas partes mirabolantes considerando-as como liberdades poéticas, superstição ou propaganda demagógica para cativar adeptos para Sócrates emprestando-lhe uma aura de divinidade.

        Conclusão:

        Como de costume as tuas comparações não têm nada a ver com nada.

        Para encontrares paralelos com a obscura feitura da Bíblia tens de ir buscar exemplos muito mais obscuros e duvidosos, como os Protocolos dos Sábios de Sião, as profecias de Nostradamos ou a cabala da Madona.

      • BBB

        Ninguém tira o teclado a esta criatura sem conteúdo nenhum, só sabe escrever bálsamos para jumentos?

  • Jvgama

    Impertinente, tanto não é falaciosa a «fórmula» de Hume, que mesmo muitos daqueles que alegam refutá-la mais não fazem do que demonstrar a sua incompreensão.

    Tomemos o exemplo do impertinente, que fala sobre o facto de ser mais fácil refutar uma generalização do que demonstrá-la. Como crê que isso obste ao argumento apresentado? Se o argumento não presume, implícita ou explicitamente, o contrário. 

    Onde está a falácia? O impertinente é capaz de encontrar alguma falácia? Explicá-la por palavras suas?

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