
A Igreja chilena atravessa uma dura crise por causa dos abusos cometidos pelos membros do clero.
EFE /GIUSEPPE LAMIEFE
Há 43 anos, o maior genocida da História da Península Ibérica decidiu que Juan Carlos passasse a ser o chefe de Estado interino de Espanha, sob o pseudónimo de príncipe.
Francisco Franco fez da discricionariedade o método de decisão e da violência a arma do poder vitalício. O terror que infundiu condicionou o futuro de Espanha e o da posterior democracia cuja existência nunca admitiu ou sonhou.
O vil assassino, que morreu confortado com todos os sacramentos e rodeado de uma multidão de cúmplices do clero e das Forças Armadas, legou a Espanha um descendente de uma extinta monarquia, que mandara educar nas madraças da Falange.
A ditadura clerical-fascista extinguiu-se com a peçonha que a criara, mas o fascismo e o clero que a apoiou manteve-se incólume e resiste nos paços episcopais, paróquias, Forças Armadas e policiais, órgãos do poder e universidades que oferecem diplomas aos dignitários da direita.
A transição pacífica para a democracia poupou a Espanha a aventuras sangrentas de que só a desesperada tentativa do “23-F” foi exceção, sendo os cérebros, com escassos neurónios, os generais Milans del Bosch e Alfonso Armada, condenados a 30 anos de prisão que só em parte cumpriram.
O fracasso do golpe de Estado, de que muito provavelmente sairia chefe do Governo o general Alfonso Armada, foi atribuído ao alegado repúdio do rei. Foi uma excelente ideia para salvar a monarquia, mas não é crível que o general Alfonso Armada, que previamente informou os EUA e o Vaticano, cujas reações se desconhecem, encabeçasse um golpe contra o seu ex-pupilo. As cumplicidades civis não foram investigadas e só o líder franquista dos “sindicatos verticais”, Juan García Carrés, foi preso.
Enquanto se procuram silenciar as notícias sobre as valas comuns, onde jazem as centenas de milhares de vítimas do franquismo, fria e metodicamente assassinadas, depois de consolidado o poder contra a República democraticamente sufragada, a monarquia continua em Espanha, metida à sorrelfa na Constituição.
Os reis de Espanha são os chefes de Estado que o genocida escolheu e impôs.
Hoje, 43 anos depois de um dos últimos atos discricionários do sociopata que deteve o poder durante décadas, não podemos deixar de execrar o último ditador peninsular e denunciar as condições em que a monarquia foi reinventada.
Viva a República!
Ontem, percorri o mural de um padre católico ‘amigo’, que partilhou o meu texto «Brasil – Subsídios para a História da Pulhice Eclesiástica», antecedido de críticas vigorosas ao cardeal Orani Tempesta e omisso quanto ao que escrevi. E no Funchal!
Numerosos leitores seus, com uma única exceção, de apoio a Bolsonaro, execraram a conduta do cardeal e a da Igreja a que mostravam pertencer, sem a mais leve censura ao conteúdo ou à forma do que escrevi.
É de elementar justiça identificar o carácter polissémico do catolicismo e o percurso que grande parte dos seus crentes e clérigos fizeram. Não provam a existência de Deus, mas tornam a sua Igreja um culto melhor frequentado do que o de várias Igrejas evangélicas, sem merecer a torpeza de ser associada à implacável intolerância a que o islamismo está a conduzir os seus crentes.
Tiro, pois, o meu chapéu ao papa católico e a numerosos padres que procuram conciliar a crença com o respeito pelos direitos humanos e a militância por uma sociedade mais justa e tolerante, alheios à companhia de ateus e outros livres-pensadores onde, aliás, se encontram também homens e mulheres pouco recomendáveis.
Não pode, no entanto, a civilidade e humanismo de alguns sectores que acertam o passo com a modernidade e o humanismo, desculpar os primatas paramentados que o Concílio de Trento continua a formatar, especialmente os purpurados que João Paulo II legou.
É frequente um bispo perder a cabeça pelo barrete cardinalício, mas é imoral abdicar do cérebro pelo poder clerical e a cumplicidade com ditadores. Orani Tempesta, cardeal do Rio de Janeiro, voltou a recordar-me o epíteto de Camilo a Frei Gaspar da Encarnação, «uma santa besta», com fortes suspeitas de que este primata purpurado não seja santo.
Na Igreja católica, onde cada gesto assume marcado valor simbólico, a assinatura de um compromisso com o torturador fascista não é apenas a cumplicidade entre dois fascistas, é a nódoa na Igreja, presa aos seus preconceitos e vulnerável aos ataques de que é alvo.
O cristianismo, protestante e católico, tal como as gerações que hoje votam, esqueceram o nazi/fascismo, popular na década de trinta do século passado, mas só a Igreja pode ser responsabilizada pela amnésia da sua própria cumplicidade. E pela reincidência.
A cerca de dez dias da segunda volta das eleições brasileiras, o arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal criado por Bento XVI, Orani Tempesta, recebeu o candidato Jair Messias Bolsonaro.
O cardeal havia de saber que Bolsonaro não era o Messias que surgia para o iluminar, mas o candidato que o procurava para o comprometer. Contrariamente à IURD e a outras Igrejas evangélicas, que declaradamente o apoiavam, o prelado católico tinha a oportunidade de manter a decência. Bastava-lhe anunciar a recusa de receber qualquer dos dois candidatos que disputam a segunda volta, a fim de preservar a neutralidade da Igreja católica de que é um membro proeminente.
Recebeu-o. Foi a sua decisão. Dificilmente convencerá alguém de que o Espírito Santo exista ou, no mínimo, que o tenha ajudado no entendimento.
Sabe-se mais da alegria que percorreu os corredores episcopais, durante o encontro, do que da conversa entre o cardeal Tempesta e o capitão Bolsonaro, mas não há dúvidas de que, em alguns pontos, são gémeas as almas dos dois, e não se conhece um único ponto de discordância.
Da visita resultou um “compromisso formal”, assinado por ambos, contra “o aborto, a educação sexual e a legalização das drogas e em defesa da família e da liberdade religiosa”.
Quem, após o histórico compromisso, na sequência da fotografia que os perpetuará na História, fez a síntese do documento assinado, talvez benzido, foi Bolsonaro:
“É o compromisso que está no coração de todo o brasileiro de bem.”
A partir do próximo domingo, Jair Bolsonaro, Edir Macedo e Orani Tempesta serão ungidos pelo voto como «brasileiros de bem».
Deus, na sua inexistência, há muito que mostra a falta de jeito para milagres e o silêncio perante a pulhice eclesiástica.
Há quem não aceite que Deus é uma criação humana, a muleta para as nossas fraquezas, a explicação por defeito para as respostas que não sabemos, no fundo, uma necessidade para quem se habituou a uma dependência que, quase sempre, lhe foi incutida desde que nasceu e preservada por constrangimentos sociais.
A perversão das crenças reside na origem, na perversão dos homens que as inventaram e que lhes transmitiram a marca genética dos seus preconceitos e superstições.
O humanismo foi construído quase sempre contra as religiões, contra os deuses sedentos de sacrifícios, sofrimento e conservadorismo, defeitos que têm profissionais zelosos ao serviço da sua divulgação.
Ninguém se permitiria condenar à morte quem deixa de acreditar numa lei da física ou num axioma, mas os clérigos exigem a eliminação física dos apóstatas ou dos hereges, estes meros crentes divergentes na interpretação das alegadas mensagens de um deus imaginário.
A História ensinou-nos a relativizar as ideias na sua permanente evolução, quase sempre influenciadas pelo avanço das ciências e a apoteose de novas descobertas, mas as ideias religiosas resistem até ao absurdo, com polícias dedicados, sempre prontos a castigas os réprobos e a aplicar a jurisprudência da Idade do Bronze.
A paz não pode ser conseguida com verdades absolutas e imutáveis. É por isso que os Estados modernos, devem tratar as religiões como quaisquer outras associações em que a plena liberdade de formação não as exime ao Código Penal e os seus atos ao escrutínio da lei.
Não percebo por que motivo uma religião possa ter normas jurídicas próprias no Estado de direito, ter conventos de cuja inspeção o Estado se demita, para avaliar se as pessoas estão ali de livre vontade ou se se trata de cárcere privado e, sobretudo, conseguir furtar-se aos impostos sobre os bens e ao escrutínio sobre a forma da sua aquisição.
O arcebispado de Santiago terá de indemnizar com 670.000 dólares a três vítimas de Fernando Karadima, um influente pároco que durante décadas abusou de menoresey adolescentes.
Quem já percorreu da vida uma larga fatia, presenciou e viveu circunstâncias dolorosas e conhece os horrores de que os homens são capazes, ainda se surpreende com situações medonhas, em épocas recentes, nos países da Europa.
O ginecologista Eduardo Vela é um sobrevivente impune do roubo de bebés que durou, de forma sistemática e reiterada, 60 anos. Uma rede criminosa começou a roubar bebés, filhos de mulheres republicanas, para os dar a casais franquistas inférteis e a instituições religiosas, antes de assassinar as mães, para garantir aos filhos uma educação cristã e evitar que a lepra comunista os pudesse atingir.
Em 1959, o então diretor da clínica de San Ramón, em Madrid, Eduardo Vela entregou a um casal infértil Inés Madrigal, retirada aos pais. Foi o primeiro caso, entre dezenas de milhares, a ser julgado e provado em tribunal, com o criminoso à solta, por ter prescrito o crime. Inés Madrigal, ilegalmente separada dos pais, foi a única a obter o julgamento de um criminoso da rede que começou a atuar em 1938 e teve o seu auge após a vitória fascista de Franco. O horror prolongou-se, já em democracia, até 1996, com encenação de mortes fetais durante o parto e outras artimanhas contra famílias pobres.
Inés Madrigal, desconfiou das circunstâncias em que foi adotada, depois de ter lido no El País que a clínica de San Ramón se distinguiu na prática de tão hediondos crimes e que o médico Eduardo Vela, agora com 85 anos, tinha sido o responsável de numerosas adoções ilegais, detenções ilegais e falsificação de documentos. Foi a mãe adotiva que, ao atingir a maioridade, lhe confessou a adoção e confirmou em tribunal que a filha lhe tinha sido dada de presente pelo sinistro médico Vela.
Este foi um dos inúmeros casos que o célebre juiz Baltasar Garzón calculou terem sido, entre 1938 e 1996, cerca de 30 mil. As crianças eram separadas dos pais, sem provas de que os pais biológicos tivessem dado consentimento ou tido sequer conhecimento.
Este é mais um crime ignóbil da ditadura franquista a juntar aos fuzilamentos sumários de centenas de milhares de espanhóis, com a cumplicidade de instituições católicas.
A denúncia destes crimes contra a Humanidade e a luta para que sejam imprescritíveis são uma exigência democrática, apontando à execração pública todos os que teimam em reabilitar a memória de Franco e dos seus sequazes.
Em Espanha, os insultos a Deus ou ao apóstolo Tiago, sem queixa dos ofendidos, ainda geram condenações, mas o roubo de crianças ameaça ficar impune, tal como os outros crimes contra a Humanidade cometidos pelo franquismo, a Falange e a Igreja.
Apostila – Os dados deste texto encontram-se na imprensa nacional e internacional do mês de junho. Volto ao tema para cumprir o dever de os lembrar aos leitores quando os fascistas espanhóis pretendem reabilitar a memória de Franco e se opõem à sua trasladação do Vale dos Caídos.
As Igrejas pelam-se por mártires. Os santos têm escassa cotação e poucas se dedicam à sua criação. A ICAR entrou na era industrial com JP2, um caso de superstição e doentia fixação em defuntos a quem atribuiu passadas virtudes e poderes perenes. Para fabricar um santo basta engendrar dois milagres e cobrar os emolumentos do processo canónico. Para produzir mártires urge encontrar algozes predispostos a causar vítimas.
Os mártires podem ser dementes que procuram o Paraíso ou infelizes que estão à hora certa no sítio errado. Os suicidas islâmicos ilustram o primeiro caso, os missionários apresados por canibais fazem parte do segundo. Estes, em vez de serem benquistos pela eucaristia que levavam eram apreciados como manjar divino, em ávida antropofagia.
O nacionalismo e a fé convivem de mãos dadas. A vontade divina coincide muitas vezes com a do príncipe e este é usualmente um agente predestinado. A glória terrena facilita-lhe a bem-aventurança eterna. A rainha Santa Isabel fez o milagre das rosas, um milagre de que uma tia avó, húngara, certamente lhe enviara a receita para Aragão. Herdou-lhe o nome, o truque, a realeza e a santidade.
Nuno Álvares Pereira andou aí, depois de muitas humilhações nas provas para santo, a ser ultrapassado pelas bentinha de Balasar, os pastorinhos de Fátima e outros defuntos com milagres comprovados e devoções firmadas. Faltou-lhe o martírio que infligiu aos castelhanos e a coragem da Cúria Romana para enfrentar Espanha. Quando muitos já desistiam da canonização, o patriarca Policarpo porfiou na devoção e exigiu a Roma um milagre para dinamizar a estatuária e colocar nos altares portugueses uma peanha mais.
Destinados à santidade, o Vaticano, bairro que também usa o pseudónimo de Santa Sé, já leva três pontificados a publicar listas de mártires e defuntos virtuosos. As mortes são antigas e a utilização, para fins de propaganda, é a macabra operação de marketing que a ICAR favorece. O Cardeal Crescenzio Sepe, criado cardeal e nomeado prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos pelo inefável JP2, evocava o “generoso tributo de sangue de muitos irmãos e irmãs para o crescimento da Igreja no mundo”.
Morrer ao serviço de Deus é garantir o Paraíso – garante o clero –, com a mesma certeza com que na praça nos afiançam a excelência da hortaliça e no talho a saúde do animal de que nos cortam os bifes.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.