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Homenagem a quem não precisou de um deus

Mário Soares – vida cumprida

As circunstâncias fazem mais pelos homens do que estes fazem por elas, mas são os homens (homens e mulheres) de exceção que moldam o futuro e marcam a História.

Há 43 anos eram de exceção os Capitães de Abril, e de exceção foram quatro líderes civis que emergiram da Revolução que os militares fizeram. E moldaram o regime.

Raramente um único país consegue ter, em simultâneo, homens da dimensão de Álvaro Cunhal, Mário Soares, Sá Carneiro e Freitas do Amaral, na diversidade das suas opções políticas, dos interesses de classe que representaram e dos projetos que serviram. Todos são dignos de admiração, para lá do julgamento pessoal das opções políticas de cada um.

Com a morte de Mário Soares, só resta Freitas do Amaral, homem sábio que os ignaros acusam de inconstante, quando foi a sua coerência a afastar dele o partido que fundou.

As circunstâncias e o homem fizeram de Soares o principal obreiro civil da democracia. Foi o mais pragmático na interpretação da vontade dos portugueses quanto ao modelo de regime que quiseram e, nisso, pôs a sua determinação, coragem física e intelectual, numa entrega que prolongou até ao fim, tal como o havia feito na resistência à ditadura.

Recorde-se que foi preso 13 vezes pela PIDE, deportado para São Tomé, por ordem de Salazar e, depois, exilado por ordem de Marcelo Caetano.

O desaparecimento de Mário Soares deixa o sabor amargo de um antifascista que parte, do lutador que nunca desistiu, de um vulto de rara dimensão cultural, cívica e política.

Deixa, como legado, o exemplo de cidadania e a grandeza de preferir a derrota à fuga ao combate, certo de que os vencedores e os vencidos têm em comum a coragem de lutar.

Tombou um gigante e o patriota de quem tantas vezes discordei, quase sempre do lado errado.

Obrigado, Mário Soares.

Requiescat in pace.

2 thoughts on “Homenagem a quem não precisou de um deus”
  • João Pedro Moura

    CARLOS ESPERANÇA disse:

    «Raramente um único país consegue ter, em simultâneo, homens da dimensão de Álvaro Cunhal…»

    Álvaro Cunhal???!!!…
    Já agora… e o Salazar???!!!

    Há uma diferença abissal entre os genuínos propugnadores da democracia e liberdade, como Mário Soares, Sá Carneiro e Freitas do Amaral e os da ditadura e opressão políticas, como Cunhal e Salazar, mesmo que disfarçados de democratas, como o Barreirinhas Cunhal…

    Cunhal e Salazar foram ambos defensores de sistemas totalitários.
    De Salazar, temos 36 anos sempre, sempre ao serviço do fascismo, da opressão política, da fraude política, enfim, um regime repudiado por todos aqueles que defendem os direitos humanos.

    De Cunhal, temos 70 anos sempre, sempre ao serviço do sistema soviético e totalitário, sem a mais leve crítica ao mesmo, mesmo quando confrontado com as prisões, banimentos e demais opressões, que desgraçaram milhões de cidadãos soviéticos e dos regimes satélites.
    Cunhal perpassou por Estaline, sem a mínima crítica; adaptou-se às críticas antiestalinistas de Nikita Krushev, no XX congresso de 1956, e suas sequelas; colou-se a todos os ditadores seguintes, de Leonid Brejnev a Konstantin Tchernenko, manifestando uma fidelidade canina, sem hesitações; afastou-se da China maoísta, quando os comunistas soviéticos se afastaram; distanciou-se do reformador Gorbatchev, quando este começou a liberalizar o regime soviético…
    Enfim, Cunhal sempre manifestou um apego devoto e fanático, filosoviético, e sempre avesso a dissidências, incluindo no seu próprio partido, cuja vaga dissidente pós-soviética foi expulsa do mesmo…
    Uma grande coerência, sem dúvida, com os seus ideais…
    Mas assim também foi Salazar e tu não integraste este nos tais “homens da dimensão”, que Portugal teve. Porquê?!

    Parece que ainda te restam alguns pruridos de consideração pelos “homens da dimensão” democrática e liberal, pelo que excluíste Salazar…
    … Mas por que incluíste Cunhal?!

  • carlos cardoso

    Mário Soares foi sem dúvida um grande homem de estado. Foi também a figura política que melhor se identificou com o “português médio”, não de um ponto de vista estatístico (ele estava muito acima da média) mas enquanto representação do que muitos gostariam de ter sido.

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