Loading

A Igreja católica e os funerais

Deixem que um ateu defenda a Igreja católica, frequentemente poupada quando merecia ser criticada e, não poucas vezes, injustamente censurada.

É vulgar criticar-se um padre por recusar os sacramentos a quem em vida os considerou placebos, maltratar um ministro do culto por faltar com as rezas e as cantorias a um ateu ou crente de uma religião concorrente, como se um médico fosse obrigado a receitar ave-marias para uma pneumonia ou um ateu condenado a missa de corpo presente.

Ver a bandeira do PCP aspergida com água benta não lembra ao Diabo cuja existência é tão improvável como a diferença da água benta da outra.

O facto de o velório se ter realizado na igreja de A-dos-Loucos e de a defunta se chamar Maria de Fátima não era motivo para obrigar o padre a aceitar a bandeira do PCP sobre o caixão. Mandou retirá-la e fez bem. Não é preciso ser muito letrado para perceber que o comunismo e a religião são incompatíveis.

Desmiolada foi a família a querer impor ao padre a bandeira do PCP no templo de uma religião que excomungou o comunismo. Certamente que a Maria de Fátima, incapaz de se pronunciar, como soe acontecer aos defuntos, se fosse comunista seria a primeira a enjeitar os pios ofícios fúnebres.

Não se pode deixar de louvar a coerência do padre que a família do defunto afrontou confundindo o martelo com a cruz romana.

6 thoughts on “A Igreja católica e os funerais”
  • João Pedro Moura

    CARLOS ESPERANÇA disse:

    “Não é preciso ser muito letrado para perceber que o comunismo e a religião são incompatíveis.”

    Não! Neste caso é preciso ser muito letrado para perceber que o comunismo e a religião são compatíveis…

    O caso não é bem assim, como tu expões, Carlos.

    Ora, vamos lá dissecar, ideologicamente, o fenómeno do comunismo…

    1-“Comunismo” deriva de “comum”…
    Portanto, é um sistema político-ideológico que defende não só a comunitarização da propriedade de meios de produção e, eventualmente, de bens pessoais, mas também a igualdade de condição social, intelectual, académica, de modo a que não haja destrinças entre trabalho intelectual e manual.

    Isto é, as fábricas e os serviços comerciais seriam propriedade coletiva e os indivíduos poderiam trabalhar num dia como engenheiros, médicos e professores, e, noutro dia, os mesmos indivíduos como agricultores, operários ou outras profissões, eminentemente manuais.

    É o comunismo em todo o seu esplendor: igualitarismo social, abolição de classes e diferenças de categorias profissionais, com harmonização individual e coletiva do trabalho intelectual e manual, distribuído por todos, e, em última instância, abolição do dinheiro e extinção do Estado, por falta de classes sociais, logo desnecessidade dum aparelho repressivo duma classe sobre outras, segundo a aceção marxista-leninista.

    2- Ora, tudo isto pode ser defendido, mesmo que tido por extravagante, por uma pessoa crente em deus.

    Aliás, nos kibbutz israelitas, pelo menos dantes, mas não sei até que ponto na atualidade, era um sistema comunista que lá se praticava, onde até a roupa que vinha da lavandaria coletiva poderia ser levada por outras pessoas, que não as que levaram a roupa para lavar…

    …E, pelo menos alguns membros dos kibbutz seriam crentes, pois tal comunismo derivava de sistemas comunitários ancestrais, praticados pelos israelitas bíblicos, misturados, modernamente, com o socialismo soviético, donde emigraram, e foram influenciados, numerosos judeus para Israel.

    3- Todavia, o moderno comunismo, de matriz marxista-leninista, pois elaborado, fundamentalmente, por Karl Marx e reforçado por Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido por Lenine, tem uma componente ideológica ateísta, inextricável desse mesmo marxismo-leninismo, mas extricável da doutrina social do comunismo.

    Dito doutra maneira: todo o marxista-leninista é comunista, mas nem todo o comunista tem de ser marxista-leninista…

    Vejam-se os exemplos dos kibbutzim israelitas e do comunitarismo (comunismo…) cristão primitivo ou doutro qualquer comunitarismo mais moderno, como o dos hippies, ou alguma seita religiosa…

    Aliás, o sistema de vida comunitária conventual é uma forma de comunismo, ao mais alto grau, quer na vertente de trabalho intelectual, quer na vertente de trabalho manual, ambos feitos por todos, além da propriedade coletiva e do despojamento de riquezas individuais, a começar pelo dinheiro…

    (O nosso amigo Frei Bento, insigne comentador desta casa, deve ter alguma coisa a dizer sobre isto…)

    4- Portanto, a senhora comunista, ou supostamente comunista, que faleceu, poderia sê-lo e até ser militante do PCP, mas recusar a componente ideológica ateísta do marxismo-leninismo, aceitando a doutrina social e política do mesmo.

    A atestar isto, sabemos que há católicos no PCP, ou, pelo menos, crentes. E o PCP não os expulsa por isso.

    Esses militantes só serão coerentes se se intitularem comunistas, mas não marxistas-leninistas, isto é, se aceitarem a doutrina social e política do comunismo, mas rejeitarem a componente ateísta do marxismo-leninismo…

    Quanto ao facto de tais crédulos militarem num partido marxista-leninista, poderão justificar com aquilo que eu disse acima: aceitam, no geral, a doutrina e a práxis, rejeitando o ateísmo.
    E se o partido aceitar isso, mesmo intitulando-se marxista-leninista, é lá com ele…
    É uma questão de tolerância ideológica…

    5- A doutrina comunista, marxista-leninista, não está assim tão distante, como parece, em relação à escatologia religiosa: ambas convergem na defesa de sistemas de vida paradisíaca, no corolário evolutivo dos seus sistemas ideológicos…

    …Só que, o comunismo defende a revolução e a construção dum sistema terrestre paradisíaco, meramente pela ação humana, separando os “bons” dos “maus” e eliminando estes, por morte ou reconversão; os religionários defendem um preceituário de “bom comportamento”, individual e social, supostamente determinado por um colosso absoluto, mas esperando pelo juízo final dessa figura tutelar, que separaria os “bons” dos “maus”, encaminhando aqueles para um sistema de vida paradisíaca e estes para uma pena infernal… perpétua…

  • Frei Bento

    O irmão João Pedro Moura, escreveu “(O nosso amigo Frei Bento, insigne comentador desta casa, deve ter alguma coisa a dizer sobre isto…)” referindo-se a um aliás bem elaborado discurso relativo a “comunismo/religião”.
    Caríssimo irmão em Cristo, está bastante correcto, designadamente no parágrafo em que me alude e de cujo facto, leia-se alusão, muito me orgulho, pese embora a minha enorme e inultrapassável humildade. E se digo “bastante correcto” é porque, em verdade lhe digo, no que à nossa Abadia concerne a correcção não atinge a plenitude. Na verdade, o filho da p… o nosso santo Abade entende que tudo deve ser compartilhado entre os irmãos, mas ele não entra nesse jogo, o sacana. Por exemplo, quando a vitela assada chega à mesa, ele é o primeiro a retirar a parte que lhe interessa – a mais tenra – sendo o resto dividido irmãmente, como cães. Somos nós que, na verdade, executamos as tarefas necessárias ao quotidiano medíocre em que vivemos, mas o cabrão, Deus me perdoe, limita-se a dar ordens e a verificar a exactidão do cumprimento respectivo. A e verdade é que frade que não faça as coisas como ele acha que devem ser feitas, já sabe que vai ter de limpar as latrinas. E o mais engraçado é que o fil… o santo Abade arranja sempre quem as vá limpar: há-de haver, sempre, um desgraçado que não executou as tarefas a seu, dele, Abade, contento. Quanto ao resto, e como diz o estimado irmão, partilhamos tudo – menos, claro, as freiras da Convento das Carmelinhas Calçadas, também conhecidas por Clarinhas Calçadas, vá lá saber-se porquê… Mesmo as nossas vestes são religiosamente partilhadas. Ainda há dias, um nosso irmão decidiu lavar os seus hábitos, só que no dia seguinte choveu pra car… choveu muito, e o burel não secou. Pois logo houve um irmão que imediatamente dispensou o deu hábito sobresselente, como todos nós temos. Só que o irmão benemérito é magro como uma estaca, enquanto o irmão beneficiário é gordo como uma besta. O risível resultado é fácil de adivinhar.
    Saúde e merda, que Deus não pode dar tudo.

  • carlos cardoso

    Desta vez estou mais de acordo com o Carlos Esperança.

    Embora admita que teoricamente haja algumas afinidades entre a vida em comunidade dos primeiros cristãos e o ideal comunista, acho que “ser militante do PCP, mas recusar a componente ideológica ateísta do marxismo-leninismo” para poder praticar o catolicismo é demasiado rebuscado mesmo em A-dos-Loucos.

    Mas não me considero muito letrado…

    • JoseMoreira

      De qualquer modo, e seja como for, vai sendo tempo de a Igreja se convencer de que só manda nos vivos que o deixarem, e nos mortos cujos familiares permitirem. Eu só pergunto se a recusa seria igual, se sobre o caixão estivesse a bandeira do Benfica. P padre devia, apenas, limitar-se a recomendar a hipotética alma ao presumível deus, que é tão idiota que precisa que lhe lembrem as coisas, e mais nada.

      • carlos cardoso

        Por curiosidade fui ver imagens do funeral do Eusébio e a urna entrou na igreja coberta pela bandeira do Benfica.

        Mas, contrariamente ao PCP, não vejo incompatibilidade entre o catolicismo e o benfiquismo.

        • Frei Bento

          Caríssimo irmão em Cristo, agora já percebeu por que raios, Deus me perdoe, nos afastámos dos hipócritas da ICAR. Preferimos ser pobrezinhos, mas manter, con sagrado orgulho, as nobres tradições goliardas.
          Eu explico: para nós, tem tanto valor um cabrão de um benfiquista como um pulha de um comunista. Quer os gajos queiram quer não, são ambos filhos de Deus. Olhe, irmão, nem por acaso: ainda no Domingo passado, coube-me a mim fazer as exéquias de um sacana de um ateu. O salafrário até podia negar Deus Nosso Senhor, mas só enquanto estava vivo; porque depois de morto, o gajo nega mas é o car… o tanas. Pois posso garantir-lhe que, a esta hora, o ex-ateu já está à mão direita de Deus-Padre, juntamente com Seu Amado Filho, Jesus Cristo. E sabemos isto de ciência certa, porque o nosso Abade fala muito com Deus. É por isso que eu estou ansioso por ser Abade no Lugar do Abade, porque só os abades têm o supremo privilégio de falar com Nosso Senhor. E estou certo de que o nosso Pai me há-de dizer quem foi o filho da puta que me roubou a tecla do “backspace”, que assim não consigo emendar os erros. Ortográficos e dos outros. Mas o cabrão ainda está para durar.
          Saúde e merda, que Deus não pode dar tudo.

You must be logged in to post a comment.