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A ICAR e as ditaduras

Enquanto os Papéis do Panamá se encontram guardados pela TVI e Expresso, sabe-se mais sobre a vida de S. Karol Wojtyla.

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1 thoughts on “A ICAR e as ditaduras”
  • Fulano Minasge

    De Luis Fernando Veríssimo – publicada no jornal Folha de S. Paulo em 2010.

    Abraão e Isaque

    Deus mandou Abraão imolar seu único filho, Isaque, e oferecê-lo em holocausto a Ele sobre uma das montanhas de Moriá. E tomou Abraão a lenha do holocausto e um cutelo e levou seu filho ao lugar que Deus lhe dissera. E edificou Abraão ali um altar e amarrou a Isaque e deitou-o em cima da lenha. E estendeu Abraão sua mão com o cutelo para imolar seu único filho. Mas um anjo do Senhor lhe bradou desde os céus “Abraão, Abraão, não estenda tua mão sobre Isaque e não lhe faça mal. Agora sei que temes a Deus, pois não lhe negaste teu único filho em holocausto”. E Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro que Deus provera para oferecer em holocausto em lugar do seu filho, e assim fez. E o anjo do Senhor bradou que a semente de Abraão se multiplicaria como as estrelas do céu, e subiria à porta dos seus inimigos, e
    abençoaria todas as Nações da Terra, porque Abraão obedecera à voz de Deus.

    Muitos anos depois:

    — Eu ainda sonho com aquele dia, e acordo tremendo.

    — Você era um menino…

    — Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios d’água…

    — Você era um menino…

    — Lembro de tudo. Lembro dos trovões.

    — Era a voz do anjo, me falando dos céus.

    — Não ouvi a voz do anjo. Ouvi trovões. Só você ouviu a voz do anjo.

    — Meu filho…

    — Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Mas não consigo esquecer. Sonho com aquele dia todas as noites, e acordo tremendo.

    — Você era um menino.

    — Me lembro das nuvens escuras. De uma revoada de pássaros negros. Pássaros atônitos, chocando-se no ar. O céu parecendo recuar com o horror da cena. Um pai imolando um filho!

    — Um sacrifício. Um ritual necessário de sangue. A cerimônia inaugural da nossa tribo, com os favores do céu.

    — Um horror.

    — Uma história muito maior do que a nossa. Muito maior do que a de um filho imolado. Hoje sou o pai de nações, o patriarca do mundo, porque obedeci ao Senhor e minha semente foi abençoada.

    — Você ficou com o poder, eu fiquei com os pesadelos.

    — Nossa tribo foi abençoada. Da minha semente nasceu a nossa glória.

    — Você ficou com a glória, eu fiquei com as marcas das cordas.

    — Você viu o meu rosto contorcido de dor, filho. Viu meus olhos cheios d’água. Viu que eu estava sofrendo por ter que matá-lo.

    — O fio do cutelo encostou na minha garganta.

    — Mas eu não o matei!

    — Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.

    — Meu filho…

    — Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias

    e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.

    — O que eu sei?

    — Que deve tudo que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus incerto do

    que faz. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.

    — Ele estava me testando.

    — Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.

    — Você era apenas um menino…

    — Me lembro das nuvens escuras e dos pássaros atônitos. E do céu recuando diante daquela

    abominação: um pai matando um filho. E me lembro dos trovões.

    — Era o anjo do Senhor falando comigo.

    — Eram trovões.

    — Obedeci à voz dos céus porque temo a Deus.

    — Mais razão para temê-lo tenho eu, meu pai, que senti o fio do cutelo na garganta.

    — Na origem de todos os povos há uma cerimônia de sangue.

    — Então na origem de todos os povos tem uma abominação.

    — Esta conversa se repete, filho. Por quanto tempo ainda a teremos?

    — Por todos os tempos, pai.

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