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Turquia – a segunda morte de Atatürk?

Por

E-pá

Por natureza cívica (civil) e por formação democrática (representativa) não nutro qualquer tipo de simpatia por golpes militares.
A política – entendida com um civilizado terreno de luta doutrinária com vista ao bem comum – não pode ter as suas reservas morais sediadas em casernas ou paradas. Como não pode ficar contida nas paredes das igrejas ou mesquitas.
Contudo, estas preposições de princípio não podem inibir uma análise dos factos (sem atribuir-lhe um conteúdo meramente justificativo) e uma interpretação de todas as consequências (reais, possíveis e até especulativas).
A tentativa de golpe militar ocorrida ontem na Turquia tem uma elevada capacidade intrínseca para alterar frágeis equilíbrios no Médio-Oriente, já que este país, está colocado no epicentro de numerosos conflitos (guerra civil síria, colapso do Iraque, etc.) e altas tensões políticas (Irão) e sociais (migratórias).
No entanto, as grandes consequências serão internas, isto é, no regime. O 15 de Julho poderá ficar na história do Levante como o fim de uma já manietada democracia turca, onde a liberdade de expressão (fecho de órgãos de comunicação e prisão de jornalistas), a separação de poderes (depurações do edifício judicial), a independência das forças militares (decapitação selectiva das cadeias de comando) e os direitos das minorias (genocídio arménio e repressão sobre curdos) são diariamente constatadas e violadas, com a olímpica complacência do Ocidente.
O golpe fracassado de ontem vai possibilitar o desmantelamento da república turca criada por Atatürk, em 1923, na sequência da derrocada do califado otomano. A Turquia vai encetar, a todo o gás, uma deriva para estabelecer um Estado Islâmico. A laicidade – a separação entre a política e a religião – que foi um apanágio da nova republica turca vai dar lugar à sharia. Os primeiros indícios estão aí link.
Ficam no ar, para a posteridade, várias questões:
– A Turquia vai continuar a ter condições para ser o braço armado da NATO na região?
– A Turquia vai ressuscitar, sob a sombra tutelar de Erdogan, o velho califado e assimilar o Daesh?
– A Turquia e a UE vão continuar as conversações sobre uma eventual adesão ou associação?
Não deverá demorar muito até termos respostas para estas questões.
Entretanto, no rescaldo do golpe, devem celebrar-se as exéquias da República. Tudo indica que Atatürk foi vitimizado com uma segunda morte.
1 thoughts on “Turquia – a segunda morte de Atatürk?”
  • João Pedro Moura

    E-PÁ disse:

    1- “Contudo, estas preposições de princípio…”

    Querias dizer “proposições”…
    “Preposições” é outra coisa…

    2- “O golpe fracassado de ontem vai possibilitar o desmantelamento da república turca criada por Atatürk, em 1923, na sequência da derrocada do califado otomano. A Turquia vai encetar, a todo o gás, uma deriva para estabelecer um Estado Islâmico.”

    Não vai nada! E o passado do partido dominante e governante turco tem demonstrado isso…
    O que acontece é que estamos perante uma democracia conservadora, à laia das “democracias cristãs” ocidentais. Uma democracia… islâmica, portanto…
    Isto é, o pessoal governante e dominante turco é constituído por pessoas laicas, tal como os antigos partidos “democratas cristãos” ocidentais, mas que perfilham a religião islâmica, sem grandes alardes, contudo.

    Os turcos são suficientemente evoluídos para se destacarem da boçalidade arabesca e médio-oriental. Os turcos balançam entre o oriente, islâmico e retardado, e o ocidente, democrático e liberal.
    E a tentativa, maluquinha, de golpe de Estado, mostra-nos, aparentemente, o estertor do pessoal estratocrata militar, menos propenso aos revestimentos ideológicos islâmicos e mais afeto ao poder militar, mesmo que mais propenso à laicidade, à maneira turca.

    3- “ A laicidade – a separação entre a política e a religião – que foi um apanágio da nova republica turca vai dar lugar à sharia. Os primeiros indícios estão aí…”

    A suposição de estabelecimento da pena de morte não é nenhum indício de islamismo, porque essa pena não é apanágio de islamitas…
    Significa, apenas, o reforço de penas judiciais, através da pena capital, para dissuadir futuros cometimentos militares, com consequências muito mortais, como este golpe, bem como as crueldades terroristas.

    4- “ A Turquia vai continuar a ter condições para ser o braço armado da NATO na região?”

    Vai, claro.

    5- “A Turquia vai ressuscitar, sob a sombra tutelar de Erdogan, o velho califado e assimilar o Daesh?”

    É preciso conjugar uma avultada dose de estupidez e maluqueira para formular tão desaustinada pergunta!
    Tu farás a mínima ideia do que era o califado islâmico medieval???!!!
    Era uma espécie de “Estado islâmico”, que ia desde Córdova, cidade espanhola, até Bagdade. Isto na Idade Média e quanto a capitais do ocidente e oriente islâmicos; depois, ao longo dos séculos, foi-se encurtando, até ficar confinado ao domínio otomano, que tinha o dobro do tamanho da atual Turquia, pois abrangia os árabes à volta…
    Estás a imaginar o poder turco atual a absorver Estados como o Iraque, Síria, Líbano Jordânia, etc.???!!!
    Mais o Daesh???!!!
    Pareces o Carlos Esperança, mais as suas maluqueiras de análise política, hiperbólica e tresloucada…

    6- “ A Turquia e a UE vão continuar as conversações sobre uma eventual adesão ou associação?”

    Decerto que vão…

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