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  • 2 de Abril, 2016
  • Por Carlos Esperança
  • Literatura

Foram-se as Indulgências… (Conto pio)

Jerónimo Felizardo estava a aliviar do luto a que a perda da amantíssima esposa, Deolinda, o obrigara. Não se pode dizer que lhe fora muito dedicado em vida nem excessivamente fiel. Mas habituara-se a ela como um rafeiro ao dono que o acolhe.

Sentia-lhe agora a falta. Deolinda de Jesus dera-lhe tudo. Mesmo tudo. Até o que é obrigação e nela nunca foi devoção e, muito menos, entusiasmo. Deu-lhe independência económica, boa mesa, respeito e uma filha. Deixou-lhe uma pensão de professora, metade do ordenado do 10.o escalão, que acrescentava a outros proventos e o punham ao abrigo de sobressaltos.

Com a filha não podia contar. Fora para Lisboa frequentar a Universidade Católica, a cujo curso e influência deve hoje o desafogo em que vive e o lugar importante no Ministério. Metera-se no Opus Dei e enjeitou a família. Mesmo a mãe, a quem fora muito chegada, só lhe merecera duas breves visitas nos três anos de doença prolongada com que Deus quis redimi-la do pecado original.

Era natural que substituísse as visitas por orações, que não exigiam deslocações nem hora certa, que haviam de prolongar a vida e o sofrimento, assim Deus a ouvisse. E ouvi-la-ia de certeza porque, além de omnipotente e omnisciente, vinham duma devota fiel à instituição que o Papa amava quase tanto como à bem-aventurada Virgem Maria.

A poucos meses de fazer meio século Jerónimo empanturrava-se de comida que Carolina, afilhada do crisma de D. Deolinda, se esmerava a cozinhar com um desvelo que a filha nunca revelara. Bem sabia que a gula era um pecado capital, mas que a prática e o exemplo eclesiástico largamente tinham despenalizado. Nem mesmo o Prefeito para a Sagrada Congregação da Fé, tão cioso guardião da moral e dos bons costumes, o valorizava demasiado. A gula não é propriamente a luxúria, que é das maiores ofensas feitas a Deus, pecado dos maiores e, de todos, o que mais contribui para a perdição da alma.

Em tudo o mais era Jerónimo um viúvo exemplar. Dera-se à tristeza e à oração. Arrependia-se das vezes em que não cumpriu o dever da desobriga, da frequência escassa à eucaristia, das missas a que faltou, em suma, das obrigações de cristão que não cumpriu com a intensidade, duração e frequência que recomendava a Santa Madre Igreja. Mas, de tudo, o objeto maior de arrependimento era o adultério que cometera e em que, sempre confessado, reincidiu.

Mas isso terminara há muitos anos. A infeliz que seduzira casara e virara fiel ao marido a quem agradecia tê-la recebido canonicamente apesar de saber que já não ia como devia. Conformado, não se importando de ficar com mulher que já não ia inteira, nunca suspeitou de ornamentos de homem casado, sempre julgou que o autor era um antigo namorado que a morte por acidente impediu de reparar a desonra.

Desse pecado se redimira já, pela confissão, penitência e promessa de nunca mais pecar.
Agora, à castidade que se impunha, ao cumprimento dos mandamentos a que se devotara, juntava uma vontade forte de conquistar indulgências nesse ano 2000 do Grande Jubileu.

Bem sabia que as indulgências requerem sempre a confissão sacramental, a comunhão eucarística e a oração pelas intenções do Papa, condições sine qua non para a sua obtenção. Quanto às disposições para a sua aquisição não era difícil cumpri-las. Bastava peregrinar a uma Basílica, Igreja ou Santuário designado para o efeito, e eram várias as opções na diocese, e rezar o Pai-nosso, recitar o Credo em profissão de fé e orar à bem-aventurada Virgem Maria, tarefas de que se desobrigava com prazer e entusiasmo. Mesmo a recomendável contribuição significativa para obras de carácter religioso ou social estava ao seu alcance e não deixaria de fazê-lo.

Embora gozando de excelente saúde e de razoáveis análises nunca é demasiado cedo para o sincero arrependimento e cuidar da alma. Veio a calhar o ano do Grande Jubileu que Sua Santidade avisadamente instituiu nesse Ano da Graça de 2000.

Jerónimo tomou como bênção do Céu ter ficado Carolina a cuidar dele. Antes de se recolher ao quarto rezavam os dois, todos os dias, por D. Deolinda, Esposa e Madrinha, respetivamente, para que a sua alma mais célere entrasse no Paraíso, aliviada das penas do Purgatório.

Passava os meses dedicado à oração, à penitência e à agricultura, outra forma de penitência que alguns teólogos interpretam como a mensagem do anjo do 3.o segredo de Fátima. Disse-me um crente praticante, e não incréu militante, que a penitência que o anjo três vezes pediu era uma forma de exigir dedicação à agricultura, modo de empobrecer e salvar a alma, vacina contra os sectores secundário e terciário onde os homens perdem a fé e a Igreja os fiéis.

No primeiro dia de maio, a seguir ao jantar, horas depois dos comunistas ateus se terem manifestado nas ruas de Lisboa e Porto, enquanto Carolina ficou a arrumar a cozinha, foi Jerónimo ao mês de Maria, ato litúrgico que na sua cidade de província sobreviveu à conversão da Rússia e à consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria.

À saída da igreja entrou no carro, dirigiu-se à quinta que distava duas léguas da cidade, deu um bocado de conversa ao caseiro e uma olhadela às vitelas, distribuiu-lhes ele próprio um pouco de ração, mandou verificar a pedra que tapava o buraco das galinhas para protegê-las da raposa, deu a bênção aos afilhados, filhos do caseiro, e regressou à cidade onde viveu em vida de D. Deolinda, por vontade dela que detestava a lavoura e o campo, e vivia agora por hábito e fidelidade à memória da falecida.

Ao regressar a casa admirou-se de ver todas as luzes acesas, exceção para o seu quarto que a luz do corredor iluminava discretamente.

Ia entrar em busca da santa Bíblia quando, sobre uma colcha de seda, na cama, deparou com o corpo esbelto de Carolina, esplendorosa escultura de 20 anos à espera de ser percorrida, vestida apenas de penumbra e longos cabelos castanhos esparsos sobre o peito, donde brotavam túmidos mamilos à espera de afago.

O quarto parecia iluminar-se progressivamente. Já uns lábios carnudos se ofereciam sequiosos e um corpo arfava em pulsações rápidas, num incontido furor de ser possuído, numa ânsia insuportável de ser saciado, primícias ávidas em busca de serem saboreadas.
Jerónimo sentiu sobrar-lhe roupa e minguar-lhe a resistência.

Foram-se as indulgências…

In Pedras Soltas (2006) – Ortografia atualizada

18 thoughts on “Foram-se as Indulgências… (Conto pio)”
  • Ícaro Cristão

    Olá caros amigo. Long time no see. Antes de mais uma Santa Páscoa para todos. Lembrei-me deste blog por causa deste filme.
    Acho que vale a pena. Trata-se do filme Gods Not Dead.
    http://putlocker.to/watch-gods-not-dead-online-free-2014-putlocker-v4.html
    Não quero ser spoiler… mas acaba bem.
    Cheers mates!

    ps: por que é que os ateus estão sempre a falar de Deus?

    • João Pedro Moura

      ÍCARO CRISTÃO perguntou:

      “por que é que os ateus estão sempre a falar de Deus?”

      Porque estão sempre a negá-lo…

      • Oscar

        Mas, ó sr. João, vossemecê também está sempre a negar a Fada dos Dentes ou o Elefante Voador ?

      • Ícaro Cristão

        Negar Deus é reconhecer a Sua existência. Uma contradição nos termos.

        • João Pedro Moura

          Não! Negar deus é reconhecer a sua inexistência…
          …Tal como tu, ao negares os deuses das outras religiões, também estás a reconhecer a sua inexistência…

          • Fulano Minasge

            match point.

          • Ícaro Cristão

            lol. Não! Eu não nego deuses de outras religiões. Eu afirmo Deus. A Palavra até é outra. Eu Proclamo Deus. O ateu, não. O ateu não tem nada para afirmar. Afirma o vazio. De tal forma vazio que não se basta a si próprio e necessita de se contradizer e tomar como existente Aquele que nega existir. E então combate Deus. Nega-o precisamente porque existe.
            Plim.
            ps; oh fulano, é precipitado, você.

          • GriloFalante

            Não, meu caro. Os ateus não combatem deuses. Não podem combater o inexistente.

          • Ícaro Cristão

            Daí a “tal” contradição.
            Obrigado por perceber o meu ponto. Questão fechada, portanto. Abraço

          • GriloFalante

            Não há contradição: negamos a existência de deuses, tal como tu. Apenas negamos MAIS UM do que tu.

          • João Pedro Moura

            ÍCARO CRISTÃO disse:

            1- “Não! Eu não nego deuses de outras religiões. Eu afirmo Deus. (…) Eu Proclamo Deus.”

            Mas esse deus, cuja existência tu defendes, mas não consegues demonstrar, é revelado por que religião?!

            2- “O ateu não tem nada para afirmar. Afirma o vazio. De tal forma vazio que não se basta a si próprio e necessita de se contradizer e tomar como existente Aquele que nega existir.”

            O teu cinismo é indisfarçável…

            Com que então, o ateu contradiz-se ao negar deus…

            O ateu pega na palavra “deus” para designar o conceito e não para tomar como existente tal entidade…

            Deus não existe! Isto é, para os ateus, a suposta entidade de deus, que, segundo o conceito dos religionários, implica a existência duma entidade omnipotente, omnisciente e omnipresente, não existe…

            …E não existe, pela simples razão de que nunca foi demonstrada…

            3- “E então combate Deus. Nega-o precisamente porque existe.”

            Ó maluquinho, alguém vai negar uma coisa “precisamente porque existe”???!!!

            Os ateus negam deus, porque os crédulos afirmam-no sem quaisquer provas…
            Os crédulos, como tu, é que afirmam deus, crendo, porque precisamente não existe.
            Se existisse, não era crença, mas sim, evidência e ciência…

            Eu não creio que Brasília é a capital do Brasil. Eu afirmo-o, perentoriamente, infalivelmente, cientificamente…

          • Ícaro Cristão

            Caro João Pedro,
            Passando por cima desse exemplo final de tão pobrezinho que é… vamos então dialogar.
            Primeiro, pela enésima vez, chamar cínico e maluquinho define mais quem o diz do que o visado. Não é caso para agressões verbais.
            O Deus de Abraão, Jacob, Moisés. Jesus, o Messias. Que existiu, diz a ciência (não me digas que a história não é ciência) e que existe, vivo, dizem os Cristãos. Que experimentam que está Vivo.
            Como disse no primeiro comment: “por que é que os ateus estão sempre a falar de Deus?” alertei para a óbvia obsessão ateia de falar tanto de Deus que entra em contradição. Como é possível falar tanto de Alguém que não existe? Não será antes um ódio a Alguém que, de facto, existe?
            Um abraço

          • João Pedro Moura

            ÍCARO CRISTÃO disse:

            1- “O Deus de Abraão, Jacob, Moisés. Jesus, o Messias. Que existiu, diz a ciência (não me digas que a história não é ciência) e que existe, vivo, dizem os Cristãos. Que experimentam que está Vivo.”

            a) Mas diz a ciência que existiu o quê???!!! O deus dos crédulos???!!!

            b) Que “existe, vivo”, quem???!!! O que dizem exatamente os cristãos e como fundamentam?!…

            2- “…alertei para a óbvia obsessão ateia de falar tanto de Deus que entra em contradição. Como é possível falar tanto de Alguém que não existe? Não será antes um ódio a Alguém que, de facto, existe?”

            Como eu já disse, os ateus referem-se a deus, enquanto conceito propalado pelos crédulos e não enquanto ser supostamente existente…

            Como é possível os crédulos falarem tanto de uma coisa, deus, que não fundamentam?! Não será antes uma fé irracional em algo que, de facto, não existe?!

          • Oscar

            “E não existe, pela simples razão de que nunca foi demonstrada…”

            Mas, como diria Carl Sagan, “a ausência da evidência não significa a evidência da ausência”, sr . João.

        • Fulano Minasge

          tem toda a razão. O que escreveu é uma contradição, logicamente equivalente a “esta frase é uma mentira”. Um exercício de futilidade.

          • Ícaro Cristão

            A resposta que dei ao Grilo aplica-se ao senhor pelo que escusarei de me repetir.

    • Fulano Minasge

      God is not dead because it never existed.
      How are u? icar.o.cristonto .

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