A morte – fonte de todas as ilusões
((Texto d’“O Fim da Fé”, de Sam Harris, enviado por Paulo Franco)
Vivemos num mundo em que todas as coisas, boas e más, acabam por ser destruídas pela mudança. O mundo só nos sustenta, dir-se-ia, para depois nos devorar a seu bel-prazer.
Pais que perdem os filhos, filhos que perdem os pais. Marido e mulher que se separam de repente, para nunca mais se voltarem a encontrar. Amigos que se despedem a correr, sem saberem que o fazem pela última vez.
Esta vida, quando considerada de um ponto de vista mais abrangente, parece não constituir mais do que um grande espetáculo de perda.
Mas a religião diz que existe um remédio para isto. Se vivermos de modo correto – não necessariamente ético, mas segundo uma estrutura de certas convicções antigas e comportamentos estereotipados – conseguiremos tudo o que queremos depois de morrermos. Quando os nossos corpos nos falharem, libertaremos apenas o lastro corpóreo e viajaremos para um reino onde reencontraremos todas as pessoas que amámos em vida.
Claro que as pessoas excessivamente racionais, bem como a restante ralé, serão mantidos longe deste lugar feliz, ao passo que aqueles que puserem fim à sua descrença ainda em vida divertir-se-ão para toda a eternidade.
Vivemos num mundo de surpresas inimagináveis – desde a energia de fusão que inflama o Sol às consequências genéticas e evolutivas da luz solar que à milhões de anos cintila sobre a Terra – e, no entanto, o Paraíso conforma-se às nossas preocupações mais superficiais com um rigor de um cruzeiro nas Caraíbas.
Isto é assombrosamente estranho.
Alguém desprevenido, seria levado a acreditar que o ser humano, no seu medo de perder tudo o que ama, criou o Céu, bem como Deus, seu guardião, à sua própria imagem.
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