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(Ainda) a IVG

Começo por dizer que não concordo muito com o termo “IVG”, já que uma interrupção pressupõe, em princípio uma retoma, ou continuação. Parece-me que o termo correcto seria CVG (Cancelamento Voluntário da Gravidez).

Adiante.

A chamada IVG tem servido, entre outras coisas, e principalmente neste espaço, para funcionar como arma de arremesso entre crentes e não-crentes (vulgo ateus, entre os quais me incluo, naturalmente) esquecendo-se, ambos os grupos, de que aceitar a despenalização do aborto, vamos chamar os bois pelos nomes, não é a mesma coisa que concordar com o aborto. Porque antes de “julgar” a Lei, é preciso analisar o “espírito da Lei”. E esse “espirito” (quem foi que disse que só os crentes é que têm espírito?) parece querer dizer-nos que se uma mulher decide abortar, não há nada a fazer: tomou a decisão, e vai levá-la por diante, concorde-se ou não com ela. Então, há duas hipóteses: ou a mulher pratica o aborto em condições de higiene e segurança sanitária, ou recorre a uma abortadeira de vão-de-escada, com as consequências previsíveis. Apenas e só. Partir para a conclusão de que o legislador e quem o apoia mé a favor do aborto porque concorda com esta lei, é o mesmo que dizer que ao despenalizar o consumo de estupefacientes o legislador apoia o tráfico de droga. E não venham argumentar que um aborto é um crime, porque só o é nos termos definidos em lei; outrossim não venham com o argumento de que se trata de um homicídio, porque esse também está tipificado em lei. Basicamente, homicídio é tirar a vida a uma pessoa, e um feto não é uma pessoa. Pelo menos, nunca assisti ao funeral de um feto (“fruto” de aborto, espontâneo ou não), nem ao baptismo de um ente antes do seu nascimento.

De qualquer modo, não é isso que está em causa, mas sim a diferença, que é grande, entre concordar com a despenalização do aborto e concordar com o aborto, “tout-court”.

12 thoughts on “(Ainda) a IVG”
  • Oscar

    O sr. José produziu várias afirmações incorrectas, que importa rectificar.

    Começa vossemecê por referir que o termo IVG deveria ser substituído por CVG, ou seja por Cancelamento Voluntário da Gravidez.

    Ora, se essa argumentação fosse válida, então, noutras situações de “cancelamento” de vidas, deveríamos dizer o quê:

    Cancelamento Voluntário da Vida de um Ser Humano, no caso de Homicídio, Suicídio e Eutanásia ?

    Ficaria um bocado confuso e anacrónico, não acha ?

    Porquê usar eufemismos para substituir os termos logicamente correntes e correctos ?

    Porque os partidários do aborto, no actual quadro legal de livre decisão da mulher, no fundo estão convictos da imoralidade do aborto, mas têm vergonha de assumirem a sua posição favorável ?

    Se a tese do Sr. José fosse válida, então também iria dizer o quê ? Que existem muitos homicídios e que portanto seria preferível que os assassinos pudessem fazer o seu trabalho sujo sem serem importunados pela Justiça ?

    E, para além disso, como é que vossemecê resolve o problema do aborto clandestino, das mulheres que decidam abortar para além das 10 semanas, por sua livre decisão ?

    O que é que tem a dizer sobre isso ? Nada ?

    O aborto, se vossemecê se der ao trabalho de consultar o Código Penal, continua a ser crime.

    Essa prática só não será punível nas condições taxativas do artigo 142º.

    Mas, exceptuando esses casos, em todas as demais situações o aborto é crime.

    Porque assim será, sr. José ?

    Porque o feto é uma coisa, que pode ser deitada ao caixote do lixo, só porque a progenitora assim entende ?

    • GriloFalante

      Tens toda a razão, pá. Realmente, o Zé não percebe nada disto. Ainda não descobriu que Homicídio é Interrupção Voluntária de Vida, e não Cancelamento.
      As coisas que tu sabes, pá!

      • Oscar

        Ó sr. Grilo, vossemecê leva tudo tão ao pé da letra…

        No seu cérebro não há lugar para mais do que essa abordagem literária tão elementar ?

        Pelos vistos, vossemecê não consegue perceber um comentário levemente sarcástico, ironizando com a expressão ridícula do Sr. José…

  • João Pedro Moura

    JOSÉ MOREIRA disse:
    “… nunca assisti ao funeral de um feto (“fruto” de aborto, espontâneo ou não), nem ao baptismo de um ente antes do seu nascimento.”

    Ora aqui está a parte “religiosa” da questão…
    Os hipócritas do “pró-vida”, quase todos religionários católicos, mormente a Igreja, tão compungidos com o abortamento do feto ou, ainda mais pequenino, do embrião, clamam contra a morte de tal ser, mas não defendem o batismo do mesmo. Porquê??? Então, se é uma vida humana, com a dignidade que lhe inere, por que é que já não lhe atribuem dignidade suficiente para ser batizado???!!!

    O desprezo totalitário pelo ser humano é tanto, por parte da clericalha tartufa e seus sequazes, supostamente defensores da “vida”, que querem transformar a mulher numa mera incubadora, acéfala, espécie de máquina biológica, sem vontade, sem desejo, que estaria para ali, pronta para engravidar e parir, mesmo que não tivesse condições para receber o nascituro ou, coisa de supina e de primacial importância, mesmo sem desejo de ter uma criança, argumento essencial da liberdade humana.

    • Oscar

      “Os hipócritas do “pró-vida”, quase todos religionários católicos,…”, disse vossemecê.

      Mas, ó sr. João,naqueles que sobram dos ” quase todos” também se enquadram o sr. Christopher Hitchens e todos os ateus que também militam em várias organizações anti-aborto ?

      E que dirá vossemecê desta posição do sr. Christopher:

      “Eu já tive muitas discussões com alguns dos meus colegas materialistas e secularistas sobre este ponto, mas acho que, se o conceito de ‘criança’ significa alguma coisa, o conceito de ‘criança ainda não nascida’ também pode significar algo. Todas as descobertas da embriologia, que têm sido muito consideráveis na última geração, parecem confirmar aquela opinião, que eu acho que deve ser inata em todos nós. É inato no juramento de Hipócrates. É o instinto de qualquer um que já viu um ultrassom. Portanto, a minha resposta é ‘sim’”.

      Vocês, os ateus, também estão divididos em relação à questão do aborto, já reparou ?

      O sr. João, pelos vistos, está-se nas tintas para o direito de o feto nascer.

      O sr. Christopher já não.

      Qual dos vocês os dois é eticamente mais evoluído ?

      O sr. Christopher que, nesta matéria, teve a sensibilidade de perceber que o embrião ou o feto não é uma coisa ?

      Ou vossemecê que trata esses seres vivos indefesos da mesma forma que o Hitler os tratou noutro tipo de genocídio ?

      http://www.aleteia.org/pt/saude/artigo/uma-poderosa-argumentacao-laica-e-ateia-contra-o-aborto-5821217999159296

      • GriloFalante

        “Vossemecês, os ateus, também estão divididos em relação à questão do aborto, já reparou ?”

        Naturalmente que sim. Ser ateu não significa, nem pouco mais ou menos, ser carneiro num rebanho. Ser ateu significa, além do mais, ser livre-pensador, se é que sabes o que é isso. Mas eu digo-te: significa ter opinião própria. Eu não sou obrigado a pensar igualzinho ao Hitchens, por muito que respeite a sua opinião que, inclusivamente, não se baseia em dados científicos. Mas como tu não sabes ler, embora saibas juntar as letras, o que já é um avanço cultural, eu faço um “copy-paste: ” Todas as descobertas da embriologia (…) parecem confirmar aquela opinião (…). Percebeste, ou ainda precisas de um desenho?

        • Oscar

          Vossemecê parece continuar muito zangado com a sua vida, sr. Grilo…

          Claro que todas as descobertas da embriologia parecem confirmar aquela opinião, mas, pelos vistos, é o sr. Grilo quem ainda não consegue perceber frases elementares.

        • N*

          Interessante que consegues ter ateus com opiniões diferentes, mas os carneiros das religioes, têm que seguir em filinha!

          • Oscar

            Então deve ser por isso que há crentes em Deus que são favoráveis ao aborto e outros que são contra…

            Deve ser a chamada lógica da batata, sr. N*

    • N*

      nunca me tinha apercebido deste argumento, mas confesso interessante!

      • Oscar

        De facto, é muito interessante ver o sr. João a defender a teologia do baptismo dos fetos…

        Qualquer dia, também o veremos aqui a defender o baptismo do zigoto, já faltou mais…

  • Ateu Direito

    O aborto não pode ser transformado numa questão política. E os cidadãos não têm nada que pagar a quem quer abortar, salvo excepções já previstas na lei. Não pode também servir como meio de contracepção. Agora dizer que um feto não é uma vida… isso já é capaz de ser esticar um pouco a corda.
    Mas é engraçado que parece que o ateísmo desde que foi tomado de assalto por uma pandilha de eternos revolucionários saudosistas não se discute outra coisa senão os dogmas fanáticos desses seres invertidos. Ele é o aborto, a causa gay, os animaizinhos, a liberdade das drogas, o feminismo, a proteção aos direitos humanos dos maiores crápulas que a humanidade já produziu, a xenofobia (que só existe em relação a determinados grupos…vá-se lá saber porquê…), o “racismo”, a opressão da própria sombra, a questão de género (como se o género fosse sequer uma questão…) etc, etc.
    Resumindo: o ateísmo hoje é apenas um braço armado de alguns esquerdistas mais fanáticos, de anarcas imbecis, de caviares idiotas que vivem do ódio, do ressabiamento e do desajuste social, um antro de cobras venenosas sempre a cuspir na sua própria civilização e a escarrar fel ao mesmo tempo que urram “tolerância”. Há certas coisas que sempre que se infiltram em algo positivo conseguem destrui-la por completo.

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