A liturgia e a fé
Quem é um ateu para se imiscuir na liturgia da Igreja católica? Que tem a inteligência a ver com o Cristo servido às rodelas na língua dos devotos ajoelhados ou passado de mão em mão de um presbítero para o beato?
Não fora a vocação totalitária da religião e os ateus dedicar-se-iam a outras tarefas.
A liturgia é o circo da fé com Cristo a saltar do cálice, com duplo mortal e pirueta sobre a patena, para acertar na língua do devoto e percorrer o tubo digestivo até acabar na rede de saneamento após a descarga do autoclismo.
As religiões vivem de rituais como os ilusionistas da prestidigitação. O Papa atual é um tudo nada diferente mas os anteriores foram avatares dos papas medievais que sofreram a mágoa de não poder acender fogueiras e de ver os ímpios indiferentes ao Inferno e aos castigos divinos.
No regresso à Idade Média, no eterno retorno ao fanatismo e à intransigência, o pastor alemão sentia a raiva da impotência e o ódio à modernidade. Sob a tiara, pensava em fazer ajoelhar os homens e pôr de rastos os cidadãos.
Nada era mais desconfortável para B16 do que viver num mundo que não se persigna, ajoelha ou submete à vontade dos padres e às ordens do seu Deus. O Vaticano é uma ditadura encravada na União Europeia e o último Estado teocrático da Europa, herdeira do Iluminismo e da Revolução Francesa, berço da democracia e reduto da liberdade.
No bairro das sotainas germinam 44 hectares de ódio, cultivados pela legião de padres, monsenhores, cónegos, bispos e cardeais. Fabricam santos, bulas e indulgências, mas é o horror à liberdade que os anima, a conspiração contra a democracia e a aversão à modernidade. Francisco, na tímida abertura, é visto com suspeitas.
O Vaticano é o Estado criado por Mussolini mas é, sobretudo, o furúnculo infecto num espaço onde o sufrágio universal não conta com o voto de Deus, ausente dos cadernos eleitorais.
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