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  • 22 de Maio, 2015
  • Por Carlos Esperança
  • Laicidade

Os feriados, a laicidade e a propaganda católica

Em Portugal não há feriados religiosos, há apenas feriados católicos que tiveram origem na ditadura fascista de Salazar, o que a pia propaganda silencia.

Na monarquia, alcova comum de reis e clérigos, até 1910, não havia feriados. O próprio descanso semanal, coincidente com a tradição do domingo [dia do Senhor], teve lugar, em Portugal, em 1907, num governo de João Franco, confirmado por António José de Almeida, quando ministro do Interior do Governo Provisório (1910/1911), e que, como deputado republicano, defendera o descanso semanal no parlamento monárquico.

Só na I República, logo em 13 de outubro, aparecem os feriados, todos eles cívicos, em homenagem à República, à Pátria e à Humanidade:

1 de Janeiro – consagrado à «fraternidade universal»;
31 de Janeiro – consagrado aos «precursores e aos mártires da República» data da nossa primeira revolução republicana, no Porto, em 1891;
5 de Outubro – dia da revolução vitoriosa de 1910;
1 de Dezembro – consagrado à «autonomia da pátria portuguesa», dia da independência da Coroa de Espanha, em 1640;
25 de Dezembro – consagrado «à família» (laicização do Natal).
3 de Maio – Em 1 de maio de 1912, juntou-se a «data gloriosa do descobrimento do Brasil» [aliás, errada].
10 de Junho – Em 25 de maio de 1925, «é considerada nacional a Festa de Portugal que se celebrará em 10 de junho», data improvável da morte de Camões, já festejada em Lisboa.

E foram estes os 7 feriados da República, o regime que criou os feriados nacionais.

Durante o fascismo, quando os crucifixos já ornamentavam as paredes das escolas desde 1936 (Lei de Bases da Educação Nacional) e a Concordata alterara leis civis (1940), não havia ainda feriados católicos, apesar da cumplicidade entre a Igreja e a ditadura e da propaganda católica nas escolas. Só em 1948, aparece o primeiro feriado religioso, por lei da Assembleia Nacional, o 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, padroeira do reino de Portugal desde 1646, antes de ser imaculada por dogma de Pio IX, em 1854.

Verdadeiramente, como diz o historiador Luís Reis Torgal, os feriados religiosos só são introduzidos em 1952, com o sacrifício do 31 de janeiro e do 3 de Maio em favor de três datas católicas: o Corpo de Deus (móvel), a Assunção de Nossa Senhora (15 de agosto) e Todos os Santos (1 de novembro). É então que o 25 de Dezembro se torna Natal e o 1 de Janeiro na Circuncisão de Cristo.

Depois do 25 de Abril surgem mais 2 feriados, o 1 de Maio (legislação de 27 de abril) e o 25 de Abril (fixado em 18 de abril de 1975) e, em manifesta capitulação da laicidade, na confusão iniciada na ditadura fascista entre o sagrado católico e o profano, em 12 de abril de 1976, transforma-se o feriado facultativo, Sexta-Feira Santa, data que celebra a morte de Cristo, em feriado obrigatório e, em 27 de agosto 2003, é considerado feriado o dia de Páscoa, naturalmente coincidente com um domingo.

Data de 21 de agosto de 1974 a tentativa de generalizar os feriados municipais, prática que tinha sido legalmente iniciada na I República.

Em 2012, o Governo, a maioria e o PR, eliminaram, a partir de 2013, dois feriados identitários, 5 de Outubro e 1 de Dezembro e, «apenas suspensos», durante 5 anos, para serem reconsiderados em 2018, dois católicos, escolhidos pelo Vaticano, os do Corpo de Deus e Todos os Santos, indiferentes à constitucionalidade da alteração ao Código de Trabalho. Só em 30 de agosto de 2013, os referidos feriados cívicos passaram também de eliminados a «apenas suspensos», esperando-se que a extinção do prazo de validade deste Governo, desta maioria e deste PR, os reponha.

Fonte: História, Que História? – Capítulo História e Intervenção Cívica, pág. 171/175, de Luís Reis Torgal, Ed. Círculo de Leitores, março de 2015.

8 thoughts on “Os feriados, a laicidade e a propaganda católica”
  • Oscar

    Para mim, que não sou masoquista nem católico, a minha opinião é a seguinte: quantos mais feriados melhor.

    Se são laicos ou católicos é igual ao litro.

    Eu não perderia nem um segundo a escrever um artigo sobre esta matéria.

    Mas já sei que o Carlos Esperança, enquanto não conseguir resistir à sua pulsão anti-religiosa, não deixará de vir aqui cumprir religiosamente a sua liturgia ateísta.

  • Nelson

    Obrigado Carlos!
    A historia é sempre fundamental para perceber o presente!

  • GriloFalante

    Carlos, há que dizer que o feriado do dia 1 de Janeiro – Fraternidade Universal – foi substituído, no tempo de Salazar por um feriado religioso, talvez porque “fraternidade universal” fosse coisa que não interessava^ à clericalha nem ao ditador. Assim, e durante muitos anos, nos calendários apareceu o feriado de 1 de Janeiro como sendo o da “Circuncisão do Senhor”. Pelo que é incorrecto dizer que o primeiro de Janeiro sempre foi feriado não-religioso.

    • João Pedro Moura

      O feriado da “circuncisão do Senhor”, em 1 de janeiro, é o mais engraçado de todos os religiosos…

      Agora, a Igreja já nem fala no mesmo, à medida que as pessoas se apercebem do que é uma circuncisão…

      Todavia, o fenómeno levanta alguns quesitos…

      1- Por que é que a Igreja não aplicou, in illo tempore,e continua a não defender atualmente, a circuncisão ao pessoal masculino, como aconteceu com esse figurão, que a Igreja promoveu a responsável máximo do cristianismo???!!!

      2- Então, a circuncisão, de tão importante que até existe como feriado religioso, decorrente da “circuncisão do Senhor” dos fieis, não é prática litúrgica oficial, como acontece na judiaria israelita e na mourama???!!!
      Como, assim???!!!

      3- Palpita-me que a Igreja nunca instituiu tal prática por causa do verdadeiro fundador do cristianismo, Paulo de Tarso, que desvalorizou a coisa…

      • João Pedro Moura

        Rapaziada, demos graças ao S. Paulo, que salvou as nossas pilinhas da amputação prepucial!

        S. Paulo é (foi…) fixe!

  • João Pedro Moura

    1- E o 24 de agosto???!!! Ninguém fala sobre o “24 de agosto”, que devia ser feriado e não é?!

    Então, a revolução liberal portuguesa, iniciada no Porto, em 24 de agosto de 1820, deveria ser feriado…
    Ah, já sei, não é feriado porque começou no Porto e não em Lisboa, aonde chegou muitos dias depois…

    2- Já escrevi aqui sobre isto e reitero: os feriados civis são os únicos que deveriam existir, pois a comunidade está vinculada à política.
    Assuntos religiosos são particulares e não nacionais.
    Quem quer feriados religiosos, poderá acordar com a entidade patronal nesse sentido. Mas nunca com a comunidade nacional!

    3- Um feriado religioso está a vincular toda uma comunidade nacional. Não pode ser!

    4- Isso não invalida que, por tradição, o dia de folga semanal seja ao domingo, em países de tradição cristã; à sexta-feira, em países de tradição muçulmana, e ao sábado, em Israel…
    Tendo que haver uma folga, deve-se manter o que está.
    Agora feriados religiosos é abusivo estendê-los, injuntivamente, a um corpo nacional, pluralista de ideias religiosas.

    • Oscar

      Tu deves pensar que Portugal é a Albânia de Enver Hoxha…

      • Jes Cristo

        Para orar, rogar e falar com o
        divino não são necessários feriados religiosos OBRIGATÓRIOS! O Estado da República
        Portuguesa é laico pelo que não se pode nem se deve forçar alguém a uma
        religião. Evocar a tradição é perigoso pois poderá acordar os santos e
        moralistas instintos da santa e benta Igreja Católica para desenterrar as
        torturas e cremações requintadas que ceifaram a vida a MILHÕES de vítimas; um
        HOLOCAUSTO que não pode nem deve ser se esquecido nem apagado!

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