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  • 24 de Novembro, 2014
  • Por Carlos Esperança
  • Ateísmo

A ciência, os milagres e a santidade

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Pensava eu, em meu pensamento, que os milagres cientificamente comprovados no laboratório do Vaticano, no mínimo de dois, eram as provas académicas de acesso à santidade que, comparadas com o mundo profano, equivaleria o primeiro milagre ao mestrado e o segundo ao doutoramento.

Pensava ainda, em meu pensamento, que a canonização, sem numerus clausus, atribuiria um alvará para novos milagres, sendo os dois primeiros as provas de exame no apertado filtro da canonização que, com o defunto ausente, fariam da Sagrada Congregação para as Causas dos Santos, a Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, com a dignidade de Prefeitura.

Compreende-se que os santos precisem de provas para poderem continuar no ramo dos milagres, sendo os primeiros obrados à experiência e os seguintes já com provimento definitivo. Isso justifica as alegadas exigências postas na comprovação científica dos prodígios pela Congregação oficial para não se repetir a exclusão do Livro dos Santos, como sucedeu a S. Guinefort que, apesar de mártir, foi exonerado quando se descobriu tratar-se de um cão e o templo, em sua honra, foi mandado arrasar pelo Papa de turno.

Um santo, depois do alvará de canonização, tem direito a biografia no Livro dos Santos, acompanhada da oração dedicada ao mesmo, de uma imagem clássica e do patronato e dia consagrado dento do culto católico. Não admira, pois, a exigência de três médicos que confirmem os milagres e a dificuldade acrescida dos defuntos em obrarem milagres de jeito, depois da evolução farmacológica e dos avanços médicos.

Exceto na oncologia, os milagres andam agora pelas varizes, furúnculos, queimaduras, moléstias da pele e, às vezes, pela fisiatria. Acontecem sempre na área da medicina e nunca na economia, física ou matemática, isto é, a santidade está confinada a medicinas alternativas.

Mas o que surpreende é a inércia dos santos reconhecidos e o frenesim dos candidatos. Lembro-me que Nuno Álvares Pereira, depois da brilhante cura do olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, queimado com salpicos de óleo fervente de fritar peixe, e logo canonizado, nunca mais curou um simples furúnculo, hemorroides ou uma fratura do colo do fémur, o mesmo acontecendo com os milhares de canonizados dos três últimos pontificados.

A canonização, se a política da santidade se mantiver, deixa de ser o diploma para obrar milagres é passa a mero pergaminho com a jubilação assinada e com lacre do Vaticano.

2 thoughts on “A ciência, os milagres e a santidade”
  • João Pedro Moura

    CARLOS ESPERANÇA disse:

    “Isso justifica as alegadas exigências postas na comprovação científica dos prodígios pela Congregação oficial para não se repetir a exclusão do Livro dos Santos, como sucedeu a S. Guinefort que, apesar de mártir, foi exonerado quando se descobriu tratar-se de um cão e o templo, em sua honra, foi mandado arrasar pelo Papa de turno.”

    Carlos, vai contar essa peta a outros…

    Não é nada disso…
    Houve outros “Guinefort”, mas a lenda desse cão concerne a uma serpente que foi morta por um canídeo, quando se aproximava dum bebé. O pai do bebé, pensando que este estava ensanguentado devido a um ataque do cão, matou esse cão. Todavia, descobriu, posteriormente, que havia uma serpente estraçalhada, perto do bebé, e que havia sido morta pelo cão, que “salvou” a criança.

    Mais tarde, esse canídeo foi como que venerado pela população local, como protetor das crianças. Mas nunca foi canonizado, porque não poderia ser…

    Houve umas reminiscências desse pseudoculto que perduraram, mas em nada concernem à Igreja, nem a santificações e ainda menos a “exonerações” do santoral…

    • Frei Bento

      Caríssimo irmão em Cristo JPM, tem quase toda a razão. E digo “quase”, porque lhe mingua alguma coisa para a ter toda. Refiro-me à razão, naturalmente.
      Consultando os alfarrábios aqui no Convento, verifico que, na verdade, a Santa Madre Igreja nunca reconheceu Guinefort como santo. Mas não é menos verdade que ao canídeo foram atribuídos alguns milagres. E que esses milagres nunca foram desmentidos pela Santa Madre Igreja. Ora, assim sendo, há que perguntar: se as graças foram impetradas ao geco; se as graças impetradas foram concedidas, quem foi o filho da puta intrometido que as fez chegar ao Senhor que, esse sim, é o verdadeiro autor de graças, milagres e quejandos? Sim, quem foi? Porque o Senhor não precisava de intérprete que lhe traduzisse as deprecadas caninas. Omnisciente como é, e já aqui foi exaustivamente demonstrado por lúcidos e desassombrados cristãos, católicos ou nem por isso, o Senhor entenderia perfeitamente o significado dos latidos e ganidos. Pois bem, e era aqui que eu queria chegar: não havendo intrometido ou intrometida, parece não restarem dúvidas de que foi Guinefort que fez chegar os pedidos ao Senhor. Lá que a igreja não o tenha tido na santa conta, isso são contas de outros rosários; mas que obrou milagres, parece não restarem dúvidas.
      Saúde e merda, que Deus não pode dar tudo.

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