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  • 15 de Novembro, 2014
  • Por Carlos Esperança
  • Ateísmo

E Deus criou o Mundo…

Quando Deus era um anacoreta sombrio, farto de Paraíso e da solidão, matutou em seu pensamento apanhar o barro que, em dias de chuva, se colava às botas e lhe borrava a oficina.

Recolheu a argila, amassou-a e começou a dar-lhe forma. Percorreu-a com as mãos e moldou o boneco que a água do lago lhe refletia, nas raras vezes que tomava banho.

De vez em quando regressava ao lago para recordar a face. O corpo ia-o esculpindo a olhar para o seu, embevecido como todos os narcisos. Quando acabou, tal como fazia com outras peças, pressionou o indicador sobre a estátua e fez o umbigo.

Extasiado na contemplação, continuou a aperfeiçoar o corpo, deteve-se num empenho devoto no baixo ventre e, de tanto insistir, a estátua ganhou vida.

Estava feito o homem à imagem e semelhança do oleiro.

Como ocorre com artistas em início de carreira, Deus não sabia que tinha feito a obra da sua vida embora o pressentisse pela afinidade que lhe encontrava.

Foi então que resolveu retirar algum barro e, com o que lhe sobrara, fazer outro corpo, ainda mais belo, onde refletiu a geografia do Paraíso com vales acolhedores e montes suaves. Tinha criado a mulher e, sem o saber, dado início ao Mundo.

Então o velho cenobita, arrependido, desatou aos berros, praguejou, ameaçou e proibiu. Como tinha a paranóia das metáforas disse-lhes que não se aproximassem da árvore do conhecimento, isto é, um do outro, uma ordem que a natureza rebelde das criaturas não poderia acatar.

E, assim, de mau humor, enquanto expulsava Adão e Eva para a Terra, ficou a ruminar castigos, a congeminar torturas e medos para aterrorizar a humanidade. Demorou quatro mil anos – Deus é lento a reflectir -, e mandou-lhes três religiões.

Moisés, Jesus e Maomé são os enviados de Deus que assustam a humanidade e o ganha-pão de parasitas que dividem o tempo a dar Graças, a ameaçar pecadores e a vender bilhetes para o Paraíso.

7 thoughts on “E Deus criou o Mundo…”
  • João Pedro Moura

    Como tu bem conheces deus, meu caro Carlos Esperança!…
    Isto anda tudo ao contrário…
    Os crédulos dizem que a coisa é incognoscível…
    Os ateus acabam por ser os que melhor o conhecem…

    • Frei Bento

      Caríssimo irmão João Pedro Moura, JPM para os amigos. Eu considero-me seu amigo, apesar da distância que nos separa de Deus. Infinita, como o próprio Deus. Pelo menos, o JPM é uma daquelas pessoas com quem, não obstante as divergências evidentes e insanáveis, se pode conversar. Bem melhor do que muitos dos falsos cristãos, católicos, bestas quadradas e/ou cavalgaduras esquizofrénicas que por aqui pululam. Adiante.
      Na verdade, caríssimo irmão, fica-se com a ideia, errada, naturalmente, de que os ateus conhecem melhor Deus Nosso Senhor do que os crentes. Mas repare, é tudo uma questão de fé. Ou de falta dela. Deus é incognoscível, já aqui foi dito e redito, reiterado, redundantemente repetido. Não haja ilusões: o deus que os ateus conhecem, e bem, é o deus, este com minúscula, inventado pelo Homem, e feito à imagem e semelhança deste. Ora, a verdade, e é isto que me dói, é que é, precisamente, esse deus que os Carlos e Oscares, com ou sem acento, passam a vida a discutir. Porque, meu caro irmão JPM: o Deus, aquele com letra maiúscula, o verdadeiro, o legítimo, o com certificado de garantia, o misericordioso e justo, passe a contradição, o que inspirou o Livro dos livros, o que se arrependeu do que tinha feito e tentou emendar, mas acabou por ficar tudo na mesma merda, o omnisciente e omnipotente, passe outra contradição, o omnipresente, o que mandou matar e disse “não matarás”, esse é indiscutível. E incognoscível.
      Saúde e merda, que Deus não pode dar tudo.

    • Ah Pois!

      «Os crédulos dizem que a coisa é incognoscível…
      Os ateus acabam por ser os que melhor o conhecem…»

      Os ateus sabem tudo sobre Deus. Para eles Deus é perfeitamente incognoscível e indubitavelmente existente.
      Os ateus são paranormais e estão muito além das capacidades humanas.
      Sereis semideuses ou extraterrestres?

      Não cabe dúvida de que os ateus não podem dizer que não acreditam na existência de Deus.
      Também não há registo de que os ateus tenham apresentado alguma objecção de peso, seja à existência de Deus, seja ás suas características.

      Assim, deve perguntar-se: para que serve o ateísmo?

      • Molochbaal

        “seja à existência de Deus, seja ás suas características.”

        Curioso.

        Anda aqui toda a gente, há anos, a gozar contigo, precisamente devido ao facto das características que vocês atribuem aos vossos deuses serem completamente contraditórias com a realidade conhecida.

        Além disso, já toda a gente te disse que, se dizes que os teus deuses são incognoscíveis, não podes conhecer as suas características, pelo que estás a mentir quando lhs atribuis qualquer característica.

        Mas continuamos à espera que um dia sejas capaz de explicar a tua própria ideologia – porque neste momento já todos percebemos que nem tu percebes nada daquilo em que dizes acreditar.

  • Deusão

    Outro texto primoroso. Parabéns, sr Carlos.

  • Ah Pois!

    Esta é a versão dos ateus?

    Vocês acreditam em cada história!

    Quanto tempo levou Deus a criar o Homem?
    Quanto tempo esteve Deus sem criar o Homem, depois de ter criado a Terra?
    Onde estava a sua oficina e o que produzia nela?

    • Molochbaal

      É tudo o que tens a argumentar ?

      Fingir que é culpa dos ateus que vocês acreditem numa data de parvoíces religiosas ?

      Será que nós somos os teus deuses ?

      Pelo tempo que passas neste blog, até parece…

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