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  • 4 de Novembro, 2014
  • Por Carlos Esperança
  • Ateísmo

Um ateu num curso de cristandade.

Por

Paulo Franco

São múltiplas as formas de demonstrar que a Fé num qualquer Deus é uma simples projecção das necessidades do nosso ego satisfeitas apenas à custa da total incoerência intelectual e da ausência de responsabilidade moral.
Atentemos às seguintes histórias contadas por pessoas que, com elas, procuravam justificar a sua fé:

Depois de muitos “debates” sobre religião, aceitei um convite para ir fazer um curso de cristandade. Para contextualizar melhor a história, convém dizer que esse convite foi-me dirigido anteriormente várias vezes e sempre recusado devido à minha total repulsa em acreditar num Deus misógino, homofóbico e que comete genocídios.

Nesse curso de cristandade, que durou 3 dias (bem agradáveis, por estranho que pareça), tínhamos várias sessões onde ouvíamos testemunhos de pessoas onde tentavam demonstrar o efeito que a fé tinha nas suas acções diárias. Uma dessas pessoas, ao dar
o seu testemunho (ao qual se dá o nome de “rolho”) conta a seguinte história: um dia o carro desse individuo avariou, o homem desligava a chave do carro mas o carro não parava, então, depois de dar muitas voltas à cabeça para resolver o problema, decide rezar segurando nas mãos o crucifixo que tinha recebido aquando do seu próprio curso de cristandade e, milagre dos milagres, o problema acabou por desaparecer. Esta história foi contada para que a plateia ouvinte percebesse o poder de Deus.

Mas vamos lá pensar um bocadinho sobre a moralidade desta história: então estas pessoas acreditam que se pedirmos a Deus para nos arranjar uma avaria no carro, se o pedido for feito com genuíno fervor religioso, Deus armar-se-á em mecânico e resolve o problema mas este mesmo Deus não liga nenhuma aos pedidos desesperados dos pais que vêem os seus filhos morrer de uma qualquer doença.

Convêm lembrar que, segundo estatísticas de 2010, morreram nesse ano cerca de 24 mil crianças por dia com menos de 5 anos de idade. Aqui não há alternativa: ou acreditamos realmente que Deus consertou o carro ao homem, e portanto temos de considerar a hipótese de estarmos perante um Deus com noções de prioridade realmente esquizofrénicas; ou consideramos a hipótese, aparentemente mais razoável, de um homem que, compenetrado de um egocentrismo que absorveu da cultura católica e que nunca teve capacidade de colocar em causa, está apenas a ser vitima e beneficiário, ao mesmo tempo, de uma cândida ingenuidade.

Outra história desconcertante e igualmente imoral foi-me contada por um ex-militar que está convencido de que Deus lhe salvou a vida quando esteve na guerra do ultramar. Não interessa aqui dissecar os pormenores da história mas interessa salientar que este individuo está convencido que foi a proteção de Deus que o salvou da morte. Mais uma vez, se recorrermos às estatísticas, verificamos que as pessoas quando vão para a guerra tornam-se muito mais religiosas. Ao longo da história da humanidade, já deverão ter morrido em conflitos militares muitos milhões de homens cheios de fé e totalmente convencidos de que gozavam de proteção divina.

Porque será que alguém se convence a si próprio que tem um Deus que o protege de todas as balas e não protege o inimigo ou não protege os próprios colegas que morrem ao seu lado?

É quase impossível ser-se mais incoerente do que uma pessoa com fé. E não está em causa a bondade destas pessoas. Estas duas pessoas que me contaram estas histórias são das melhores pessoas que eu alguma vez conheci. O que está em causa é que para se acreditar num Deus protetor tem de se fazer um contorcionismo intelectual intolerável para uma sociedade que se quer mais informada, evoluída e com maior conhecimento de si mesma.

4 thoughts on “Um ateu num curso de cristandade.”
  • Frei Bento

    Estimado e amantíssimo irmão em Cristo, muito de descoroçoa o facto de ter vindo a este pasquim pôr em causa a omnisciência e, sobretudo, a capacidade de decisão de Deus Nosso Senhor. Depois de vários e ilustres comentadores terem chegado à conclusão (pelo menus, um chegou) de que a mente de Deus é incognoscível, embora esse comentador a conheça perfeitamente, mas isso é outra conversa, eis que o Paulo Franco se arroga o direito de questionar as decisões divinas. Valha-me o Santo Cristo dos Milagres mai-lo Senhor Jesus da Capelinha!
    Deus, na sua infinita omnitude é que decide se, sim ou não, repara um carro ou salva uma criança de morrer no meio do maior sofrimento. Repare que é muito mais fácil reparar um carro, que só avaria de vez em quando, do que salvar crianças, que morrem todos os dias.Já viu a trabalheira que era? Depois, espero que não duvide do poder da oração. Eu tenho provas de que funciona. Olhe, uma vez calhou-me a mim ir à povoação recolher as dádivas, e não é que o filho da puta do burro, Deus me perdoe, se recusou a andsar? Nem para trás nem para a frente? Vai daí, desatei a declinar a minha lengalenga favorita, “Kirye eleison, Clistereison”, na versão “canto gregoriano” (há colegas que lhe chamam “canto gregoriasno”, mas acho que é para a galhofa). Olhe que o burro começou logo a andar, se calçhar ansioso por se afastar de mim. Então ainda duvida?
    Quanto à salvação do soldado, também não vejo onde esteja a dúvida. Para já, os terroristas eram todos ateus, porque eram comunistas. Portanto, e por maioria de razão, a salvar salvava-se o crente. Lembre-se das palavras de Jesus, Filho e Pai ao mesmo tempo: “Aquele que crer em mim, será salvo”. Alguma dúvida? Claro que o irmão perguntará :”E então por que razão não salvou os outros que morreram? Eram todos ateus?” Olhe, se calhar eram, e está, aparentemente, respondido. Mas há que lembrar as preclaríssimas palavras de um estimado comentador, Opus Dei assumido e ateu infiltrado: Deus pode permitir que um mal ocorra, se isso servir um bem superior. Se não foi assim, a ideia é essa. Ou seja, se Deus salvasse todos os combatentes, o Estado português ficaria à rasca a pagar pensões a essa tropa toda, e para lhes arranjar emprego. Isto, para já não falar nos efeitos que, na altura, teria na logística. O que é que se iria fazer a todos aqueles sacos para cadáveres?
    Deus escreve direito por linhas tortas.
    Saúde e merda, que Deus não pode dar tudo.

  • Molochbaal

    Realmente o melhor é conhecer sempre o pensamento dos outros.

    Também já estive num desses cursos e confesso que achei a coisa muito pobre.

    Não colocam questões “complicadas”, evitam aprofundar o que quer que seja e limitam-se a enaltecer superstições de forma completamente superficial.

    Neste blog abordam-se e aprofundam-se as questões da crença de forma muito mais séria do que em qualquer curso de cristandade católica.

    Já os evangélicos são diferentes. Esses de facto estudam a bíblia, mas à lá fifi, escolhendo os bocados de k gostam mais e interpretando-os à sua vontadinha.

    • Molochbaal

      Por outro lado, talvez a pobreza intelectual seja mesmo a essência da coisa.

      É uma tradição da igreja, que até já proibiu a bíblia em vernáculo, não fosse o pessoal descobrir que a escritura é completamente contraditória.

      É assim k conseguem crentes idiotizados que afirmam que deus é incognoscível, mas que o conhecem perfeitamente ao ponto de saber, sem qualquer sombra de dúvida, quais são os seus atributos.

      Por exemplo, afirmam orgulhosamente que deus é omnisapiente sem sequer saber o que omnisapiente quer dizer.

      Mesmo que soubessem o que significa omnisapiente – não vamos exigir tantoooooooo – se deus é incognoscível, não poderiam saber se deus é omnisapiente.

      Porque, significando incognoscível a impossibilidade de algo ser conhecido, deus tanto poderia ser omnisapiente como omniburro, como alguns deles são, que eles não poderiam ter maneira de saber.

      Já agora explico esta palavra tão difícil para os fifis.

      incognoscível = impossível de se conhecer

      Ou seja, tudo aquilo que eles dizem saber sobre deus, é MENTIRA.

      E no entanto dizem-no.

      Talvez a ignorância seja mesmo indispensável para alcançar um resultado destes.

      Ou isso ou um tumor que lhes coma 90% do cérebro.

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