DA INCOGNOSCIBILIDADE … DOS TEÍSTAS (3 de 3)
João Pedro Moura
TERCEIRA TESE TEÍSTA – Deus deu liberdade às pessoas, logo, cada um fará o que entender e assumirá as suas responsabilidades, de que deus está ilibado.
Nessa perspetiva, acrescento que o deus dos crédulos também deu “liberdade” aos mares, aos ares e à terra para estremecerem, quando quiserem, e varrerem com ondas possantes e avantajadas, aquáticas, aéreas e sísmicas, as populações indefesas, causando a morte de milhares e milhares de pessoas, de vez em quando…
Esse mesmo deus também deu “liberdade” às suas tropas microscópicas para atacarem, denodadamente, diversas pessoas ou massas populacionais, infligindo pesadas baixas e causando, assim, males terríveis, com um sofrimento enorme…
TERCEIRA ANTÍTESE ATEÍSTA – Se o deus dos crédulos deu “liberdade” às pessoas e à natureza, e sendo tal deus absolutamente omnipoderoso, então nunca poderia ser ilibado das consequências de tal “liberdade”, pois que ele é omnisciente e omnipotente, logo, sabe sempre o que vai acontecer, porque assim determinou…
Imaginemos um conjunto de engenheiros, responsáveis, por exemplo, pela elaboração de automóveis, computadores e telemóveis.
Esses criadores de objetos fazem-nos para funcionar normalmente. Eventualmente, um ou outro desses objetos falha na sua prestação, o que é um mal, mesmo que o objeto tenha até 1 ano ou 2 de “vida”.
Se a falha desses objetos estiver abrangida pelo prazo de garantia, a reparação será gratuita; senão, será custosa…
Nenhum engenheiro conceberá um objeto para falhar em pouco tempo, nem para falhar a médio ou longo prazo, pois que a excelência de conceção e produção serve para promover uma marca. E o prestígio daí decorrente favorecê-la-á a longo prazo.
Todavia, nenhum engenheiro poderá garantir o funcionamento contínuo das suas criações, pois que as pessoas são falíveis. Logo, os objetos que criam, também…
Nenhum engenheiro poderá antever o momento de tal falibilidade nem maneira de a evitar…
As coisas falham, de vez em quando, e, ou reparam-se ou deitam-se fora…
Agora, deus!…
O que é que este colosso, dos crédulos e dos néscios, terá a mais que os vulgares e mortais engenheiros não tenham?!…
Pergunta ingénua e singela, para resposta óbvia:
– O deus dos crédulos é omnipotente, omnisciente e omnipresente, criador, governador e justiceiro, logo, nada nem ninguém, por minúsculo pensamento ou cometimento que tenha ou faça, o poderia ter ou fazer sem ser determinado por esse deus…
Pretender que tal excelsa entidade celestial teria dado “liberdade” à natureza e às pessoas, para fazerem o que quisessem, é pretender que esse colosso de fancaria, mental e intelectual, não saberia o que essas mesmas natureza e pessoas fariam com tal “liberdade” outorgada pelo divo imane.
Seria pô-lo ao nível da engenharia terrestre, que também concebe e cria coisas, dando-lhes “liberdade” para funcionarem, mas, depois, as coisas falham e as responsabilidades serão assumidas, conforme a garantia do objeto…
Mas deus!…
Deus criou tudo, por definição dos crédulos e das suas igrejas. Logo, desde o mais simples átomo até à molécula mais complexa, desde o mais tíbio pensamento até à mais elaborada conceção e execução, tudo foi determinado por deus, porque este sabe sempre o que vai acontecer no futuro, individual e coletivo, tal como aconteceu no passado.
Portanto, o deus dos crédulos e néscios é o responsável absoluto, pois que criador e omnipoderoso absoluto.
Imaginemos uma criança, dilacerada por um cancro, a definhar lentamente até morrer; imaginemos um indivíduo atropelado por um carro; imaginemos outro indivíduo rebentado por uma bomba!
O quesito surge, então, absolutamente imperativo e incontornável:
– Deus sabia ou não sabia que tais situações iriam ocorrer?!
A resposta é imediata, porque evidente, axiomática, apodítica: SABIA!!!
Se sabia, porque não evitou ou evita os infaustos acontecimentos de destruição, sofrimento e morte, que afligem as pessoas e as levam a impetrar por benesse divina, a um deus que lhes causou esses mesmos males???!!!
“A mente de deus é incognoscível”… “Os mistérios divinos são insondáveis”… dizem os néscios e crédulos, que afirmam deus e, portanto, acham que o conhecem suficientemente, para poder afirmar a sua existência e justificar as suas (in)ações…
Mas, realmente, não adianta sustentarem uma pretensa incognoscibilidade do seu deus, quando estão sempre a afirmá-lo e a dar-lhe “graças”, por isto e por aquilo…
Não adianta tecerem loas a tal deus, quando louvam o seu omnipoder, capaz, portanto, de antever tudo e tudo favorecer ou evitar…
Não adianta encomiá-lo por venturas e bondades e desconhecê-lo por desventuras e maldades… até porque quem causa uma coisa e o seu contrário está impregnado de perversidade e monstruosidade… absolutas…
O problema permanece, firme e hirto, como uma barra de titânio, e põe-se assim:
– Como conciliar a existência dum deus, portanto, omnipoderoso, com a liberdade outorgada pelo mesmo, segundo os religionários?!
Simplesmente, não se pode! É impossível um deus “dar liberdade” e ser ilibado das consequências dessa liberdade! Deus, segundo os crédulos, sabe tudo, tudo pode e em tudo está presente. Logo, é o causador de tudo!
Mas então, dizem os religionários, a ser assim, nós seríamos umas marionetas, manipuladas, absolutamente, por esse deus.
Inevitavelmente que o seríamos!…
Mais: nem serviria para nada impetrar benesses, através da oração, a um deus que tem tudo programado há biliões de séculos…
Deus é, historicamente, uma projeção mental de explorados e oprimidos e de todos aqueles que se sentem demasiado sós ou são muito curiosos pelos fenómenos da natureza e da sociedade e não conseguem explicar tudo, sem uma intervenção colossal, sobrenatural, que lhes conforta as mentes e lhes dá esperança no futuro…
A história dos deuses é a história da humanidade: nascem, crescem e morrem, conforme as necessidades psicológicas (“espirituais”…) humanas e o jogo de forças das igrejas e suas alianças com as personalidades e poderes certos no momento certo…
Não há “incognoscibilidade” de deus! O que há é “incognoscibilidade” dos… teístas, dos crédulos, que o afirmam tanto mais quanto menos o conhecem…
O verdadeiro problema está nos teístas, nas pessoas crédulas, incapazes de demonstrarem o seu deus, mas capazes de infligirem sofrimentos e mortes, em nome do seu deus, dito bondoso e misericordioso…
…E que não conseguem demonstrar a existência do mesmo.
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