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  • 1 de Novembro, 2014
  • Por Carlos Esperança
  • Religiões

O milagre de Cafarnaum (Crónica)

Naquele tempo, Jesus, farto da serventia que dava ao putativo pai na exígua carpintaria de Nazaré e ignorando as lides agrícolas, juntou-se aos pescadores. Os galileus eram considerados broncos pelos outros judeus mas a subsistência era mais fácil na Galileia, por chover aí e não ser a terra árida e rochosa como outras da região. Produzia cereais, azeite, vinho, frutas e mel.

Havia profissões que os filhos herdavam dos pais: ferreiros, oleiros, tecelões, pedreiros, marceneiros e curtidores, os últimos a trabalhar fora dos povoados por causa do cheiro. A estas profissões não podia Jesus aspirar.

Farto da carpintaria e inábil para outro ofício, dirigiu-se desalentado em direção ao mar. A pesca era-lhe desconhecida. Foi observando a faina e, um dia, emergindo de um dos longos silêncios, disse aos pescadores: “lançai as redes ao mar”, e foi obedecido. Quis o acaso que fosse boa a pescaria e logo os marítimos lhe pediram para os aconselhar.

Jesus pensou em seu pensamento que à primeira qualquer um tem sorte mas não se deve desafiá-la de novo. Para fugir ao assédio, dirigiu-se para Betsaida a norte do Mar da Galileia, também chamado Tiberíades ou lago de Genesaré. Receando ser reconhecido pela família de Simão Pedro prosseguiu a jornada e foi pedir abrigo a um primo que morava em Corazim. Passou por Cafarnaum, sem se demorar, e chegou a casa do primo onde ficou em meditação, durante quarenta dias. O primo, também pobre, disse-lhe que devia procurar trabalho e ganhar o sustento.

Durante a falta, os pescadores, de boa fé, puseram a correr o boato de que Jesus tinha ido para o deserto. Era o destino procurado ou invocado por quem abraçava o ramo da pregação e dos milagres, dois ofícios que, tal como hoje os de pastor e endireita, soía andarem associados.

Quando saiu de casa do primo levou merenda e alguns talentos oferecidos, guardados em um nó da túnica, e voltou para os pescadores, que o receberam em júbilo. Queriam que os guiasse a deitar redes ao mar e Jesus, em vez de tentar o palpite, começou a falar por parábolas. Ignorando a pesca, disse que não era pescador de peixes mas de almas. Fosse lá isso o que fosse, começaram a tratá-lo por Mestre e houve quem o seguisse.

Uma antiga superstição profetizava a vinda de um messias. Era a obsessão generalizada, ilusão que os judeus ainda hoje alimentam. Entre eles, previa-se o fim do mundo e que o rei do fim dos tempos seria enviado por Deus. Esse messias venceria os romanos e renovaria a glória de Israel. A ansiedade era tanta que muitos viandantes eram como tal identificados. Jesus foi o único com êxito, sem o saber, porque morreu cedo, antes de se tornar na estrela da cisão bem conseguida do judaísmo, cisão que trouxe a semente da globalização, abolindo o exclusivo de um deus para um povo eleito. Paulo de Tarso foi o obreiro bem sucedido desse golpe de sorte.

Seis séculos depois, outras tribos nómadas, igualmente crédulas, viram num pastor de camelos o profeta predito. Repetiu o sucesso. A tragédia consumou-se com a suposição de que as tolices que debitava, uma cópia grosseira do cristianismo, seita feita religião do Imperio Romano, por Constantino, eram ditadas pelo arcanjo Gabriel, anjo de quatro asas a quem atribuíram procuração divina e a Maomé a qualidade de último e definitivo porta-voz de deus, criando um monoteísta implacável de vocação belicista.

Mas voltemos a Jesus. Alguns pescadores seguiram-no e os letrados antecipavam-se nas aldeias da Galileia, Judeia, Samaria e Idumeia, anunciando em pergaminhos a chegada em aramaico e hebraico, sendo Jesus falante do primeiro, idioma em que pregava.

Quando chegava a um povoado armava uma mesa, punha a mala em cima e começava a pregar. As pessoas estavam ávidos de milagres e havia sempre um coxo que tropeçava. Logo a multidão gritava, milagre! Os discípulos estendiam as túnicas, recolhiam alguns dinheiros e a fama dos milagres espalhava-se entre Tiberíades e Jerusalém.

As pessoas recebiam Jesus em suas casas e davam-lhe de comer e aos seus ajudantes, que passaram a designar-se por discípulos.

A fama das pregações aumentava quanto menos o compreendiam. Numa aldeia que só entendia hebraico tomaram como língua divina o aramaico e correu que um corcunda da tribo de Manassé foi curado e se transformou no homem mais esbelto entre selêucidas, asmoneus e romanos. Depois vieram as curas de leprosos, cegos e até a ressurreição de Lázaro cuja existência é duvidosa e indiscutível o milagre.

Certo dia, em Cafarnaum, Jesus, exausto, depois de três dias a pregar e obrar milagres, após ter atuado em Caná e Magdala, mandou Judas em busca de frangos para a ceia e o discípulo vendeu uma perna de cada um com o que aforrou alguns talentos. Tendo o Mestre estranhado a falta da perna em todos os frangos logo Judas, que tinha aprendido alguns truques com os milagres, jurou que eram assim os frangos de Cafarnaum. Depois da ceia, quis provar a mentira ao Mestre. Levou-o, com os outros discípulos, à capoeira donde os trouxera e os que ficaram dormiam sobre uma perna. E todos se assombraram.

Jesus disse: são insondáveis os desígnios do Senhor e, com o ruído, logo despertaram os frangos e a pata recolhida agarrou-se ao poleiro, enquanto esvoaçavam, ficando à vista as duas patas que a Lua cheia, que subia do Lago Tiberíades, iluminava.

O Mestre, com os outros discípulos maravilhados, olhou Judas com severidade, mas ele não se atrapalhou e disse.

– Mestre, com um milagrão destes!

20 thoughts on “O milagre de Cafarnaum (Crónica)”
  • Molochbaal

    Ao ler esta ternurenta história, que apresenta a seita cristã como um bocado trapaceira, lembrei-me de uma descoberta k fiz na net.

    Descobri que sou famoso nos meios cristãos.

    Sim. É verdade. Tal como Brad Pitt, também eu mereço manchetes e notícias sobre a minha vida pululam nos blogs cristãos.

    Agarrem-se ateus, sou descrito como “Um dos mais ferozes e grosseiros ateus portugueses, o insolente de serviço do “diário dos ateus”, cuja alcunha (ou pelo menos uma delas) é Molochbaal”.

    Sou um ateu feroz e grosseiro !

    Moura, tu não és de nada, estás completamente destronado.

    A ligação entre a história do esperança e a descoberta do meu estrelato é a aldrabice cristã.

    http://anti-ateismo.blogspot.pt/2014/07/ateismo-e-nazismo.html

    A “notícia” está completamente deturpada cheia de mentiras. Dizem que sou “feroz ateu”, quando sou agnóstico e aqui defendo muitas vezes a religião.

    Dizem que me confesso actualmente nazi, não que fui, nem que fui expulso de um blog nazi por denunciar os crimes do nazismo etc etc. Nem, obviamente, que uma das razões que me afastou do nazismo, foi a descoberta deste estar completamente infiltrado de influências cristãs, de que o próprio antisemitismo é uma prova.

    Nada disto me afecta, até acho graça à grande importância que me atribuem e apenas confirma a imagem que o esperança dá nesta singela história – que são uns grandes aldrabões.

    A igreja universal não é exemplo isolado. Parece mais ser a norma.

    • João Pedro Moura

      MOLOCHBAAL disse:

      “…uma das razões que me afastou do nazismo, foi a descoberta deste estar completamente infiltrado de influências cristãs…”

      Pergunto-me, apreensivamente, sobre quais as razões que te teriam aproximado do nazismo…

      • Molochbaal

        Sim ? Tenho a impressão que não és Moura nenhum.

        Mas eu respondo-te fifi.

        O antisemitismo propagado por vocês durante dois mil anos, pegou bastante na nossa sociedade. Até muita esquerda, como podemos constatar pelo fifi de esquerda, ainda hoje está infectada por ele.

        Por outro lado, a vossa propaganda dos “valores cristãos”, que apresenta a homosexualidade como uma degenerescência social, a liberdade social como decadência etc também se infiltraram na sociedade.

        O nazismo aproveitou este facto, para explorar os preconceitos incutidos por vocês, que existem, mesmo inconscientemente na nossa sociedade.

        Ligaram os vossos preconceitos ao conceito de sobrevivência da nossa civilização, como se ela dependesse desses preconceitos para sobreviver – criando um radicalismo semelhante ao vosso, baseado nos vossos preconceitos, embora laicizado.

        Este radicalismo fui até beber aos valores bíblicos de povo eleito, guerra “santa” por espaço vital-terra prometida, maldição “divina” sobre certas raças etc.

        Pensando estar a dfeender os valores da nossa civilização, em tempos fui influenciado por esse caldo de cultura.

        Com o tempo, a idade e atravès do estudo aprofundado dos próprios filósofos nazis, comecei a detectar as falhas e a ver a monstruosidade ética e lógica que se tinha criado e em que eu tinha caído. Que tudo aquilo não passava de um reflexo da vossa mesquinhez.

        Confesso que em tempos fui influencido pelos vossos valores fifi.

        Mas já não.

        Merdas como tu são a prova provada que não existe qualquer “raça superior”.

        • Molochbaal

          Até esses conceitos raça superior/povo eleito estão ligados.

          Realmente não sei como caí nas vossas esparrelas fifescas.

          É um pouco como quando acreditamos temporáriamente num dos nicks falsos fifescos.

        • João Pedro Moura

          MOLOCHBAAL disse:

          “Tenho a impressão que não és Moura nenhum.”

          Mas realmente sou.

          Respondeste ao meu quesito, mas não deixa de ser estranho que te tenhas deixado “encantar” por uma doutrina – o “socialismo nacional” – que, desde o nome até à prática política, passando pelos acordos internacionais que firmou, foi uma fraude e um totalitarismo dos mais exacerbados, tudo culminando na provocação duma guerra imperialista, com os resultados que se conhecem… há quase… 70 anos…

          Mas, enfim, pior que o nazismo é o cristianismo e os outros monoteísmos, quando defendem o genocídio mundial generalizado, dos “outros”… dos incréus, dos fieis doutras religiões e dos indiferentes… no Dia do Juízo Final…

          Ter que crer na doutrina religiosa “verdadeira”… para ser “salvo”… é o cúmulo do totalitarismo ignominioso…

          • Molochbaal

            Pois.
            Já reconheci que andava enganado.

          • Molochbaal

            Aliás, caro Moura. a minha aderência ao NS não andou muito longe das tuas ideias do vamo-nos a eles que são muçulmanos, só que aplicada aos judeus.
            Ao princío até pensei que tu andasses nisso…

    • Alfredo

      O multinicks no seu melhor.

  • Zeus

    O Molochbaal já vê o antoniofernando até no próprio João Pedro Moura. Enfim, tenho que reconhecer que ele tem toda a razão quando invoca que o Molochbaal vive completamente à sua sombra.

    • Molochbaal

      Sim fifi ?

      Volto a perguntar porque é que tu passas todo o teu tempo neste blog e não eu no teu.

  • Ateu Visitante e verdadeiro

    Milagre?

    Milagre eis um milagre, segundo a versão deste blogue.

    Seguem-se “os” deusas, Molochbaal e companheiros.

    • Molochbaal

      Xiii fifi.

      A tua argumentação está cada vez mais… Como direi… Original.

      São essas pichas todas que te fazem acreditar em deus ?

      É que, até agora, não apresentaste mais nenhum argumento que se veja…

      • Ateu Visitante e verdadeiro

        Tudo em ti é uma farsa.

        A tua foto é a primeira. És ariano, como convém a um bom nazi.

        És falso em tudo. A tua religião é uma falsidade, o teu ateísmo é uma falsidad e a tua identidade é uma falsidade

        A segunda foto, mais “pipi das meias altas”, é “a” João Pedro Moura. É uma personagem que só faz sentido num conto, tal como o João Pedro Moura.

        A terceira foto, num ambiente mas conventual, pertence “uma” tal Frei Bento.

        Neste blogue é tudo travesti.

        Querem o maestro Carlos Esperança?

        • Molochbaal

          A tua argumentação é tão inteligente.

          Depois disto ficamos todos convencidos que deus existe !

          Vou-me já converter !

  • Oscar

    A PSEUDO-LÓGICA DO IMBECIL …

    …uma das razões que me afastou do nazismo, foi a descoberta deste estar completamente infiltrado de influências cristãs…”

    molocho

    Sim ?

    http://www.history.ucsb.edu/faculty/marcuse/classes/133p/133p04papers/MKalishNietzNazi046.htm

    • Molochbaal

      Sim fifi.

      Também eu caí nessa esparrela.

      Com certeza que o nazismo teve multiplas influências, muitas delas contraditórias. Mas a matriz do nazismo não é nitszchiana, é cristã.

      Por exemplo, encontra-se mais da igreja católica do que Nitzsche na política de costumes conservadora do nazismo.

      Da mesma forma, o individualismo Nitzschiano é contra o espirito ditatorial cristão e nazi. Além disso Nitzsche declarou-se abertamente CONTRA o antisemitismo propagado pela tua igreja e pelo nazismo.

      • Molochbaal

        Ora, o antisemitismo, de base cristã, é a principal característica do nazismo.

        O tal antisemitsmo que Nitzsche condenou…

      • Oscar

        Tu tropeças é nos teus próprios neurónios, tótó.

        • Molochbaal

          Sim fifi ?
          Tu a publicar fotos de piços é que deves ser um grande intelectual.
          Entretanto, Nitzsche condenou o antisemitismo, mas a tua igreja andou a queimar judeus durante mil anos.
          Adivinha em quem o nazismo se inspirou, ó génio da piça.

          • Molochbaal

            Para o fifi, que de Nitzsche só conhece as capas dos livros.

            “Now it has gone so far that I have to defend myself hand and foot against people who confuse me with these anti-Semitic canaille; after my own sister, my former sister, and after Widemann more recently have given the impetus to this most dire of all confusions. After I read the name Zarathustra in the anti-Semitic Correspondence my forbearance came to an end. I am now in a position of emergency defense against your spouse’s Party. These accursed anti-Semite deformities shall not sully my ideal!!”

            Friedrich Nietzsche

            Draft for a letter

            “The whole problem of the Jews exists only in nation states, for here their energy and higher intelligence, their accumulated capital of spirit and will, gathered from generation to generation through a long schooling in suffering, must become so preponderant as to arouse mass envy and hatred. In almost all contemporary nations, therefore – in direct proportion to the degree to which they act up nationalistically – the literary obscenity of leading the Jews to slaughter as scapegoats of every conceivable public and internal misfortune is spreading.”— Friedrich Nietzsche, 1886, [MA 1 475][17

            De certeza que foi nisso que Hitler se inspirou ?

            Ou terá sido nisto ?

            How hateful to me are the enemies of your Scripture! How I wish that you would slay them (the Jews) with your two-edged sword, so that there should be none to oppose your word!

            St. Augustine (c. 354-430 A.D.), Confessions, 12.14

            First, that their synagogues be burned down, and that all who are able toss sulphur and pitch; it would be good if someone could also throw in some hellfire…

            -Martin Luther (On the Jews and Their Lies)

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