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  • 17 de Agosto, 2014
  • Por Carlos Esperança
  • Ateísmo

Excerto de «O FIM DA FÉ»

“Se o teu irmão, filho da tua mãe, o teu filho ou a tua filha, a tua companheira ou o amigo a quem estimas vier secretamente seduzir-te, dizendo: «Vamos servir os Deuses estrangeiros» – Deuses que nem tu nem os teus pais conheceram, os Deuses dos povos que estão à tua volta, na tua vizinhança ou ao longe, de um extremo ao outro da terra – não o aceitarás nem ouvirás; não levantarás para ele olhos de compaixão, nem o ajudarás a esconder-se. Pelo contrário, tens o dever de o matar. A tua mão será a primeira a levantar-se contra ele para lhe dar a morte e, a seguir, a mão de todo o povo. Apedrejá-lo-ás até morrer, porque ele tentou desviar-te do Senhor, teu Deus”.
(Deuteronómio 13:7-11)

Apesar de o apedrejamento de crianças por heresia ter caído em desuso, > não é frequente ouvirmos um cristão ou um judeu moderado clamar por uma leitura «simbólica» deste tipo de passagens. (Na verdade, tal parece ser explicitamente proibido pelo próprio Deus, em Deuteronómio
13:1: «Cumprireis todas as ordens que eu prescrevo, sem nada lhes acrescentar ou suprimir.») Esta passagem é tão canónica como qualquer outra na Bíblia, e só ignorando tais barbaridades é que o Livro de Deus pode ser reconciliado com a vida do mundo moderno. É este o problema da «moderação» religiosa: nada a justifica a não ser a negligência despudorada da palavra divina.

Hoje em dia, a única razão para que sejamos «moderados» em questões de fé prende-se simplesmente com o facto de termos assimilado alguns frutos do pensamento humano dos últimos 2 000 anos (democracia política, avanços científicos em todas as frentes, preocupação com os direitos humanos e também com os direitos dos animais, o fim do isolamento cultural e geográfico, etc.)

As portas que permitem abandonar a leitura textual das escrituras não se abrem pelo lado de dentro. A moderação que observamos nos não fundamentalistas, longe de ser um sinal de evolução da fé, é o produto das diferentes mazelas que a modernidade lhe infligiu, questionando alguns dos seus princípios doutrinários.

Não menos importante entre tais desenvolvimentos foi o facto de termos começado a privilegiar a verificação empírica e a só nos deixarmos convencer por uma proposição na medida em que existam factos que a comprovem.

Até os fundamentalistas mais radicais vivem à luz da razão neste aspeto em particular; simplesmente os seus espíritos parecem ter sido formatados para acomodar as “verdades” extravagantes defendidas pela sua fé. Se dissermos a um cristão devoto que a sua mulher o anda a enganar, ou que um iogurte congelado pode tornar uma pessoa invisível, ele não deixará de nos exigir tantas provas como outra pessoa qualquer, só se deixando convencer na medida em que lhas apresentarmos. No entanto, se lhe dissermos que o livro que conserva à cabeceira – seja a Bíblia, o Alcorão ou a Tora – foi escrito por uma divindade invisível que o castigará com o fogo eterno caso ele não aceite todas as suas incríveis afirmações acerca do universo, o individuo de fé parece não exigir qualquer tipo de comprovação.

A moderação religiosa resulta do facto de mesmo os mais incultos de entre nós saberem hoje mais sobre determinados assuntos do que qualquer outra pessoa há dois mil anos – e de muito deste conhecimento ser incompatível com as escrituras. Depois de termos ouvido falar das descobertas da medicina nas últimas centenas de anos, quase ninguém equaciona hoje a possibilidade de contrair uma doença por ter pecado ou por estar possuído pelo demónio. Depois de ter aprendido as distancias conhecidas entre os corpos do universo, a maioria de nós considera que a ideia de o universo ter sido criado há seis mil anos não é para levar a sério.

Tais concessões à modernidade não sugerem minimamente que a fé seja compatível com a razão, ou que as nossas tradições religiosas estejam, em princípio, abertas a novos conhecimentos: apenas que a utilidade de ignorar (ou «reinterpretar») certos artigos da fé é hoje iniludível.

Este texto foi retirado do livro “O fim da fé” de Sam Harris.

“Lê a Bíblia e torna-te descrente” – José Saramago.

a) Paulo Franco.

7 thoughts on “Excerto de «O FIM DA FÉ»”
  • Molochbaal

    Ora.

    Estes são os tais princípios morais superiores da religião de que os fifis se gabam.

  • Deusão, o bom.

    A sorte das religiões é que os crentes são muito burros e tem muita preguiça intelectual; se lessem e pensassem sobre o que realmente é uma crendice as patetices religiosas há muito estariam mortas e bem sepultadas.

    • Molochbaal

      Preguiça ?

      Já vais ver a trabalheira que o fifi vai ter a fazer de parvalhão, a dizer que as ordens de deus para apedrejar os filhos ou os pais são, na verdade, metafóricamente falando, ordens para lhes dar muitos abraços e beijinhos.

  • Oscar

    Coitado do José Saramago. Esse também perfilha o mesmo entendimento daquele pateta ateu, que aqui já sustentou que Deus só o da bíblia e mais nenhum.

    • Padre Inácio

      Porquê, conheces outro? Ou antes: inventaste outro? Talvez o teu conceito de deus, aquele que age conforme tu entendes que deve agir. Para idiota, não estás nada mal.

      • Molochbaal

        Senhor padre, o fifi tem um deus que, apesar de ser completamente incognoscível, ele sabe que é muito bom.

        Sendo incognoscível, como é que ele sabe que é muito bom ?

        É muito bom porque o fifi quer.

        Essencialmente porque sim.

    • Molochbaal

      A sério ?

      A bíblia é falsa ?

      Sendo assim todas as igrejas cristãs são falsas.

      Mas então porque é que estás sempre do lado deles ?

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