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Treta da semana (passada): eucaristia pirata.

As bênçãos de Deus são infinitas. Tal como um ficheiro pode ser copiado sem gastar o original, também uns podem ser abençoados sem que se desabençoem terceiros. Nesta economia da abundância seria de esperar que não houvesse problemas em partilhar bênçãos e ficheiros. Mas há. Porque há direitos exclusivos de distribuição. Por violar o contrato de exclusividade que Deus terá celebrado com a Igreja Católica há dois mil anos, Martha Heizer foi excomungada pelo Jorge Bergoglio, o gestor de direitos e representante exclusivo do Criador do Universo.

Segundo relata o João Silveira, «O caso Heizer eclodiu em 2011, quando a professora de religião em Innsbruck (Áustria), decidiu desafiar o Vaticano sobre a questão da ordenação de mulheres, anunciando a sua intenção de celebrar a Eucaristia em sua casa, em Absam, uma pequena cidade perto de Innsbruck.»(1) A usurpação dos direitos de distribuição de bênçãos e comunhões «é considerada pela a Igreja como “delicta graviora”, tal como a pedofilia e os crimes contra a Penitência.» É de notar, no entanto, que aqui o João Silveira exagerou um pouco. Obviamente, o crime de uma mulher celebrar missa não está ao nível do crime de um padre violar crianças. São delitos graves, mas não são a mesma coisa. É por isso que nenhum padre foi ainda excomungado por abusar sexualmente de menores.

Heizer é «co-fundadora e presidente da “Wir sind Kirche” (Nós Somos Igreja)», um grupo de católicos que defende «o sacerdócio feminino, além de uma maior democracia, a abolição do celibato dos sacerdotes e a adequação da moralidade sexual aos costumes modernos» Estas ideias são tão estranhas – democracia, igualdade e uma atitude moral com menos de cem anos – que o grupo só conseguiu reunir quinhentas mil assinaturas na Áustria e um milhão e oitocentas mil na Alemanha. Claramente, Bergoglio devia seguir os conselhos de Lilian Ferreira da Silva, que comenta assim no post: «É importante que sejam excomungados todos os que assim procedem e todos os que se sentem atraídos por tais tendências.» (2) Eu diria que era bom excomungarem não só essa gente mas também todos os católicos que usam contraceptivos, todos os que não vão regularmente à missa e todos que não considerem dever obediência total ao Papa. Não só expurgavam os hereges como ficávamos com uma ideia mais correcta da verdadeira importância que o catolicismo tem na Europa. Infelizmente, a Igreja é muito parca na excomunhão. Nem a mim excomungam, que só sou oficialmente católico por me terem baptizado mal nasci. Mas também, verdade seja dita, eu só nego a existência de Deus, ridicularizo o Espírito Santo e critico a Igreja post sim, post não. Nunca cheguei ao delito extremo de ser mulher e celebrar missa.

O João Pedro BM explica assim a gravidade do crime desta senhora, e o porquê da Igreja Católica não poder ordenar mulheres: «Cristo nao ordenou mulheres, também nao o fará a Igreja que Cristo fundou.» É uma hipótese interessante mas tem algumas falhas. Por exemplo, Cristo também não ordenou sul-americanos nem pessoas que não fossem judeus de nascença. Talvez, à cautela, fosse melhor excomungar também o Jorge Bergoglio e quaisquer outros sacerdotes que não tenham nascido judeus na palestina ocupada pelo império romano. Afinal, foi só entre esses que Jesus escolheu os seus apóstolos.

Também achei interessante, e reveladora, a solução que vários católicos propuseram para as reivindicações do grupo “Nós somos Igreja”. A Teresa Chaves, por exemplo, escreveu que «Se “Nos somos Igreja” tem uma visão diferente da doutrina católica, criem uma nova religião e deixem os cristãos em paz!» Esta proposta demonstra um enorme progresso na mentalidade católica. Antigamente, a atitude seria a de que os hereges mereceriam a morte por estar em jogo almas imortais e a vontade divina. Agora já admitem, ainda que implicitamente, que as religiões são meras invenções humanas e que quem não estiver satisfeito com uma que invente outra.

É curioso descobrir uma analogia tão forte entre dois assuntos que me têm interessado tanto e que, até agora, me pareciam completamente diferentes. Mas, no fundo, a legitimidade da doutrina católica tem tanto que ver com a vontade de Deus como o copyright do Rato Mickey tem que ver com incentivar o Walt Disney a desenhar mais bonecos. O que se passa aqui é simplesmente o esforço por parte de um grupo influente em controlar a distribuição de bens que são trivialmente duplicáveis e transmissíveis. Seja ficheiros, seja missas, o problema nesta economia não é a escassez mas apenas a ganância dos intermediários.

1- Senza Pagare, Papa Francisco excomungou a fundadora do “Nós Somos Igreja”
2- Nos comentários ao post: Papa Francisco excomungou a fundadora do “Nós Somos Igreja”

Também no Que Treta!

16 thoughts on “Treta da semana (passada): eucaristia pirata.”
  • Molochbaal

    Mais uma vergonha para a igreja.

    Estou aver k o francisquinho é outra fraude.

  • Carlos

    “O que se passa aqui é simplesmente o esforço por parte de um grupo influente em controlar a distribuição de bens que são trivialmente duplicáveis e transmissíveis. Seja ficheiros, seja missas…”

    Se tivesses um microns de inteligência, coisa com que, julgando pelo que escreves aqui e no teu blogue, a natureza foi muito escassa em favorecer-te, verias que, em vez de “sejam ficheiros” ou de “Sejam missas”, o que está em causa é a autoridade legal e legislativa. Exactamente o mesmo principio que levou o Juiz Garzon a ser suspenso. Num e noutro caso, independentemente da simpatia que os factos possam gerar, o que está em causa é sempre a mesma coisa: a substituição da opinião pessoal e da vontade particular ao poder legal.

    Se tu e o teu séquito ateu decidirem criar um código legislativo próprio e desobedecer ao estado português, aplicando-o de forma autónoma, ou até declarar a interdependência do teu quintal em relação a Portugal, o que está em causa não é uma questão de exclusividade e direito de autor, é uma questão de desafio e afronta à soberania.

    Há regras definem princípios e há acções que podem incorrer em sanções.
    Onde está a

  • JDNS

    Se algum ateu, sócio da AAP, não observar os seus valores, princípios objectivos e normas,sabem o que é que acontece, de acordo com o artigo 15º, 4, do seu Regulamento ?

    É expulso. Confiram aqui:

    http://www.aateistaportuguesa.org/sobre/regulamento/

    Porque haveria então o Ludwig Krippahl que, na Igreja Católica,as coisas se passassem de forma diferente da AAP, para aqueles que infrinjem as suas regras ?

    O LK é vice-presidente da Direcção da AAP:

    http://www.aateistaportuguesa.org/sobre/corpos-sociais/

    Quando algum ateu for expulso da AAP, por não respeitar, os seus valores, princípios, objectivos e normas, eu quero ver se o LK e vice-presidente da Direcção da AAP, aqui virá insurgir-se contra o que consta no artigo 15º, 4, do referido Regulamento.

    Não há dúvidas,estes ateus são o cúmulo da hipocrisia

    • Luisa G

      Mudaste de nick outra vez? Adianta-te um grosso…

      • Carpinteiro

        Não cantes de galo, pois pode ser que a tua estratégia te saia furada…

        • JDNS

          Estavas a dizer o quê?

          • Carpinteiro

            Que só ainda agora começou, tenho todo o tempo do mundo, não fiques enervado, espera por mais…

          • JDNS

            Mas, ó Carpinteiro, ao menos distingues a diferença entre um prego e um hamburger? Roubaste o nick ao Carpinteiro, o verdadeiro, e não queres provar o teu próprio veneno?

          • Carpinteiro

            O verdadeiro Carpinteiro sou eu, deves estar alucinado e a confundir-me com a tua própria sombra.

            Demorou algum tempo a abandonar a tolice do ateísmo mas mais vale tarde do que nunca.

          • Molochbaal

            Portanto. A tua teoria do palno divino da evolução passa por roubar nicks e defender a repressão do aparelho da igreja sobre todos os que que a pretendam reformar.

            Isto por razões “legais” Mas ao mesmo tempo também defendes que a igreja viole a legalidade dos países, para encobrir a pedofilia.

            Espero que o plano divino para a evolução, não passe por também andares a roubar carteiras, porque, para escroque completo só te falta isso.

  • João Pedro Moura

    LUDWIG KRIPPAHL disse:

    1- “Heizer é «co-fundadora e presidente da “Wir sind Kirche” (Nós Somos Igreja)», um grupo de católicos que defende «o sacerdócio feminino, além de uma maior democracia, a abolição do celibato dos sacerdotes e a adequação da moralidade sexual aos costumes modernos»”

    Ou esse grupo, “Nós Somos Igreja”, defende coisas de tal modo radicais, que deveria enveredar pela fundação duma nova igreja; ou então quer manter-se na sua igreja, mas tentando modificar os cânones pelos quais se rege a mesma.
    Tarefa difícil e dilemática…

    No primeiro caso, enfim, pretenderiam uma revolução fundacional, espécie de MRIP, Movimento Reorganizativo da Igreja do Povo, a culminar, futuramente, na fundação do verdadeiro partido, digo, da verdadeira Igreja Cristã Universal,
    ICU, mais uma para a vasta coleção de igrejas, únicas, da “verdadeira palavra
    divina”…
    No segundo caso, enfim, pretenderiam… uma revolução interna, também, (re)fundacional… ainda por cima numa instituição paquidérmica, de marcha pesada e costumes centenários, para não dizer milenares…
    Enfim, os da “Nós Somos Igreja” lá sabem…

    2- “Eu diria que era bom excomungarem não só essa gente mas também
    todos os católicos que usam contraceptivos, todos os que não vão regularmente à
    missa e todos que não considerem dever obediência total ao Papa. Não só
    expurgavam os hereges como ficávamos com uma ideia mais correcta da verdadeira importância que o catolicismo tem na Europa.”

    Pois, isso é que era purismo doutrinário!…
    Mas, sabes Ludi, era demasiado para a Igreja e levaria à excomunhão de mais de 90% dos religionários e respetivos proventos fornecidos à Igreja, tornando-a residual e num mistifório de ideias e práticas, muito mais do que já é…

    Assim, apenas excomunga quem faz mais mossa ideológica e não
    quem… não faz nada de relevante, catolicamente praticando…
    Aí está o êxito da Igreja: não mexer muito no esterco que criou, para não pôr os adeptos a refletirem muito sobre matérias ideológicas e doutrinárias, de consequências imprevisíveis…
    Já basta o inquérito, o primeiro da sua História, que mandou fazer recentemente às suas tropas, para sondarem a opinião religionária e a que responderam 13 912 pessoas em Portugal…

    3- “Nem a mim excomungam, que só sou oficialmente católico por me
    terem baptizado mal nasci.”

    …E também és “oficialmente católico” por teres casado pela Igreja…
    … Sendo que o batismo é perdoável, porque ainda eras pequenino…

    • Molochbaal

      Concordo. Quando se trata do esterco, a igreja pia fininho.

      Tenta é encobrir e está-se nas tintas para castigar. Para ver se a coisa passa despercebida e não dá nas vistas.

      Vide as dezenas de escândalos do banco do vaticano ou o encobrimento generalizado da pedofilia.

      Mas alguém bem intencionado que procure moralizar a igreja, pelo contrário, é logo excomungado.

      Precisamente para servir de exemplo, para que ninguém se meta com os interesses instalados da igreja.

    • Carlos

      Espera para ver um documento que o “Nós Somos Igreja” tem para discutir sobre a “evangelização da Europa”, onde o ateísmo é considerado um sério problema de saúde da sociedade.

      Depois verás de quem falas.

  • Deusão

    Tem mais é que fundar outra seita mesmo; que deixem as tretas do chico I para ele e suas comparsas. Qual o custo de fundar mais uma fantasia ? basta ter suficiente cara de pau e escrever um livro idiota para pessoas ainda mais idiotas.
    Acho até que os ateus deveriam fundar uma igreja. A sagrada congregação do bom senso, quae tal ? e nossos livros sagrados seriam os livros de matemática, ” A Matemática Sagrada”, de Física Santa e de Biologia Molecular. Já temos muitos santos: Einstein, Dirichelet, Darwin, Oparin et all. Nossa igreja teria de imediato uma grande vantagem: livros de qualidade sem impostos.
    É ou não uma aberração ? livros de ciência com até 60 % de impostos e taxas enquanto o meu papel higiênico paga 0,00 % de impostos

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