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É ideologia, mas não como a outra.

Num comentário ao meu post anterior, o Carlos Soares escreveu que «O ateísmo é uma ideologia, como outra qualquer» (1). Em parte tem razão. Parte do que referem quando me chamam ateu é a minha atitude de não venerar nada, de não ter fé e de não reconhecer coisa alguma como divina. Isso, admito, é tão ideológico como ter fé ou venerar uma divindade, pelo menos no sentido de ideologia como “visão do mundo”. Em ambos os casos, tanto o crente como o ateu têm uma noção normativa de qual a melhor atitude a ter. No entanto, o Carlos está enganado ao julgar que o ateísmo é uma ideologia «como outra qualquer». Em particular, é muito diferente das ideologias religiosas.

A outra parte do que referem quando me chamam ateu é a minha opinião de que o universo não foi criado por algum ser inteligente com poderes sobrenaturais. Essa parte é completamente independente da minha ideologia de não religioso. É apenas uma conclusão à qual chego da mesma forma que concluo que não tenho o poder de mover objectos com a mente nem consigo fazer feitiçarias. Gostava que a realidade fosse outra. Gostava de ter poderes especiais ou de ser amigo pessoal do criador do universo. Mas os factos indicam que não é esse o caso e, quando se trata de factos, sinto que devo pôr de lado os meus desejos e encarar a realidade como ela se apresenta. Portanto, as minhas conclusões acerca dos factos não derivam da minha atitude de não venerar divindades. Derivam apenas da informação na qual posso, objectivamente, fundamentar conclusões.

O mesmo se passa no outro sentido. A minha ideologia de irreligioso também não depende dos factos serem assim ou assado. Se o universo tivesse sido criado por Deus, se Jesus viesse a minha casa explicar como o tinha feito – a bíblia é notoriamente omissa nesses detalhes – e até mesmo se nos tornássemos grandes amigos, eu continuaria ateu na minha ideologia. Admitiria ser verdade que existia esse tal criador e que tinha feito tudo e um par de botas mas continuaria a não ter qualquer disposição para missas, rezas, veneração ou fé. Até podia simpatizar com ele. Se ele merecesse, até poderia amar Deus. Mas nunca “amar a Deus” como o crente religioso, com aquela preposição que nem sequer compreendo. A minha falta de disposição para me ajoelhar, rezar, ter fé ou participar em rituais é algo subjectivo que não tem nada que ver com a minha opinião acerca dos factos.

É nesta independência entre os aspectos ideológicos e as opiniões factuais que o ateísmo difere fundamentalmente das ideologias religiosas. Porque cada religião não só promove uma ideologia de veneração e submissão mas também entrosa esses aspectos subjectivos com alegações objectivas acerca dos factos que, por sua vez, impõe aos seguidores pelo dogma e pela fé. Isto é perigoso. Ter uma ideologia – uma “visão do mundo” – que assumimos puramente subjectiva e que se restringe apenas à forma como nos sentimos perante a realidade, sejam quais forem os factos, não levanta qualquer problema no convívio com outras ideologias igualmente subjectivas. Eu não gosto de rezar nem de ir à missa mas não me faz diferença que outros gostem. É uma mera questão de gosto, como uns gostarem de ervilhas e outros não. O que me preocupa nas religiões é que, para o religioso, a ideologia não se restringe ao subjectivo. Uma “visão do mundo” que distorce os factos e obriga à adesão intransigente a certos dogmas mistura perigosamente juízos de valor com questões objectivas. Por exemplo, um elemento central do cristianismo é que Jesus se sacrificou pelos nossos pecados e que apenas pela fé no poder redentor desse sacrifício merecemos evitar uma eternidade de sofrimento. Na Europa de hoje já são poucas as pessoas que levam isto a sério pelo que, felizmente, esta crença se torna cada vez mais inconsequente. Mas são muitos os exemplos históricos das consequências desta ideia de que quem discorda de uma alegação factual merece ser castigado e, infelizmente, em países menos esclarecidos ainda hoje muita gente sofre por esta misturada entre objectivo e subjectivo.

É verdade que, além do meu ateísmo objectivo de concluir que o universo não foi criado por um ser inteligente eu tenho também o ateísmo subjectivo e ideológico de não adorar nada como sagrado, nem mesmo que exista. Nem Jesus, nem o Sol, nem sequer o Joe Pesci. Mas esses meus ateísmos são independentes, o que me permite debater factos sem arriscar crises de fé e aceitar ideologias diferentes como meras diferenças de gosto. As ideologias religiosas, ao contrário do que o Carlos sugere, não são a mesma coisa. A confusão de factos com juízos subjectivos impede o religioso de discutir a verdade confortavelmente pelo perigo constante de ver refutada alguma tese a que dá valor, obriga-o a imiscuir-se na vida privada de terceiros condenando como “pecado” atitudes diferentes da sua, mesmo que inócuas, e leva-o a considerar ataque ou ofensa qualquer tentativa de mostrar que os dogmas que defende são infundados. Estas ideologias, muito diferentes do ateísmo, são socialmente prejudiciais e potencialmente perigosas.

No fundo, a grande luta daquilo a que muitos, por ignorância histórica, chamam “novo ateísmo”, é a luta por esta separação. Não é uma luta para acabar com a crença religiosa ou com a adoração de divindades. É a luta pela transformação dos religiosos em pessoas capazes de distinguir entre a realidade, objectiva, que todos partilhamos e os valores, subjectivos, com que cada um orienta a sua vida privada. Basta isso para que cada um possa aproveitar para si o que achar que a religião tem de bom sem prejudicar os outros com dogmas e disparates.

1- Treta da semana (passada): Agora tudo é religião…

Em simultâneo no Que Treta!

13 thoughts on “É ideologia, mas não como a outra.”
  • Eu Não Sou o Ludwig Krippahl

    “É a luta pela transformação dos religiosos em pessoas capazes de
    distinguir entre a realidade, objectiva, que todos partilhamos e os
    valores, subjectivos, com que cada um orienta a sua vida privada”

    Ludwig Krippahl

    Mas a “realidade objectiva” existe ? Niels Bohr, um dos chamados pais da Física Quântica diz que não.

    Por isso, para que a pretensão do Ludwig Krippal pudesse estar cientificamente fundamentada, seria necessário que, após o surgimento da Física Quântica, pudessemos continuar a dar por adquirida a dita ” realidade objectiva”.

    E aqui está um bom impasse para o Ludwig tentar ultrapassar antes de poder aventurar-se no seu proselitismo ateísta.

    • David Ferreira

      O que é que a mecânica quântica tem a ver com a crença em entidades transcendentais? É que a noção de realidade que experienciamos como seres conscientes não se manifesta no plano quântico, embora esta esteja sempre presente. A falta de objetividade e de sentido do mundo quântico não afeta a nossa objetividade existencial. A não ser que acreditemos em no Deepak Chopra.

  • Eu Não Sou o Ludwig Krippahl

    Eu não dou lições grátis de física quântica. Mas, para você poder
    perceber que o conceito de ” realidade objectiva” , evocado por
    Krippahl,já não faz sentido, sempre lhe recomendo graciosamente que
    leie e estude a experiência do Gato de Schrodinger e que veja a
    excelente série da BBC sobre mundos paralelos.

    Quanto a Deepak Chopra, é médico, não físico quântico

    • David Ferreira

      A experiência do gato é tão velha que por esta altura o pobre animal deverá estar irremediavelmente morto.
      A teoria das cordas ainda não pode ser realmente apelidada de teoria científica.
      Deepak Chopra não é apenas médico. É um charlatão. Mais um dos muitos que ganham fortunas à custa da pobreza de espírito.

      • Eu Não Sou o Ludwig Krippahl

        1 – Eu quero lá saber do Deepak Chopra.

        2 – A experiência do gato do Schrodinger não é velha. Em Ciência, não há experiências velhas. Há experiências válidas ou inválidas. E não há nenhum físico quântico que ponha em causa o princípio científico evocado por Schrodinger nessa experiência, segundo a qual a ” realidade objectiva” não existe.

        3 – A teoria das cordas é especulativa, sim.Mas absolutamente credível. Consegue explicar que o nosso universo possa ter sido provocado por um choque de universos paralelos, sem a ocorrência de qualquer singularidade cósmica.

        E é tão especulativa quanto a do clássico big bang, embora esta seja igualmente credível.

        Mas tem algo de novo. Os físicos quânticos já conseguiram explicar que o electrão pode ocupar mais do que uma dimensão ao mesmo tempo. Logo, a existência de mundos paralelos é cientificamente possível.

        No entanto, as objecçoes ao ultrapassado conceito de “realidade objectiva” não se ficam por aqui.

        Para complicar ainda mais a tese do Krippahl, o físico Alain Aspect já demonstrou a veracidade do princípio da não-localidade quântica, o que transforma a realidade física num quebra-cabeças bem mais complexo do que a ingénua e incipiente perspectiva do Ludwig.

        • Zeus

          Mas tu agora és pró ciência? Mudas de camisa a toda a hora. És um homem da moda é o que és.

          • Eu Não Sou o Ludwig Krippahl

            Eu sempre fui pró ciência. Só não sou adepto da perspectiva simplória do LK relativamente ao conceito de ” realidade objectiva”.

            O Ludwig ainda não deve ter percebido o que seja a “sobreposição quântica”, enquanto princípio fundamental da Mecânica Quântico.

            Segundo esse princípio, um eléctron pode existir em várias dimensões da mais ampla realidade.

            Portanto, a hipótese científica dos mundos paralelos é perfeitamente possível.

            Isso de se falar em ” realidade objectiva” é muito mais complexo do que parece, não é para ser debatido com a ligeireza panfletária do Ludwig, a menos que ele só queira convencer os papalvos iletrados deste país.

          • Zeus

            E não estará ele a referir-se à realidade que é objetiva para nós? É que o mundo quântico só se manifesta em escalas subatómicas e não interfere com a nossa experiencia e perceção do real.

          • Eu Não Sou o Ludwig Krippahl

            Não é verdade. A nossa percepção do real pode estar inquinada, a título meramente exemplificativo, pelo fenómeno da ” sobreposição quântica”. Ou seja, pelo facto de o electron poder ocupar mais do que uma dimensão espacial ao mesmo tempo. E é esse postulado científico que abaliza a hipótese dos mundos paralelos. Em teoria, cada um de nós pode estar a viver em dimensões paralelas. Podes morrer num universo fisico e uma duplicação de ti próprio pode continuar a viver noutra dimensão. Isto não é afirmado por místicos, mas por físicos conceituados, como aqueles que figuram em diversos vídeos da BBC. Não estou a falar de nenhum palpite do Chopra, mas de cientistas cultos e conceituados como Mag Tegmark. E experimento do Schrodinger, do gato simultâneamente vivo e morto, aponta nessa direcção. A verdade é esta: nós estamos muito longe de saber o que seja a ” realidade objectiva”. Com o advento da física quântica, chegamos a um tal ponto de evolução científica em que as surpresas, sobre o que seja essa ” realidade objectiva”, provavelmente não vão parar de aparecer. E quem sabe se muitos dos fenómenos que hoje são ridicularizados como ” místicos” ou ” religiosos” ou tomados como ” “alucinações” ou ” miraculosos” não fazem parte da tal ” realidade objectiva” de que o Ludwig fala. Essa realidade, em que o Krippahl, visa assentar a sua tese é estritamente a física newtoniana. E embora esta ainda se mantenha epistemoligicamente válida, para grande parte dos fenómenos físicos, não é suficiente para explicar a mais ampla realidade desses fenómenos.

  • Eu Não Sou o Ludwig Krippahl

    Elvis Presley ainda pode estar vivo?

    A pergunta parece ser absurda. Imagino que Krippahl iria dizer que Elvis Presley morreu, logo não poderia estar vivo. E que essa seria a ” realidade objectiva”.

    Mas, se um mundo paralelo ao nosso existir, então uma duplicação de Elvis Presley pode ainda estar vivo noutra dimensão espacial.

    É isto ficção ? É isto misticismo ?

    Não. Isso é uma possibilidade científica e não sou eu quem o afirmo, mas os cientistas que foram entrevistados pela BBC.

    Vocês acreditam na Ciência ?

    Então,sugiro que vejam este estupendo vídeo:

    P.S. No exemplo de Elvis Presley, podem substituí-lo, se quiserem, por Jesus de Nazaré.

    http://www.youtube.com/watch?v=bCRTLweSv3g

  • Eu Não Sou o Ludwig Krippahl

    1 -“Quando se trata de factos, sinto que devo pôr de lado os meus desejos e encarar a realidade como ela se apresenta”

    Ludwig Krippahl

    2 – “Realityis weird. And if we are so narrow-minded that we’re only going to studytheories that we think are not weird, we’re never going to find the true
    theory”

    Max Tegmark, Cosmólogo, Professor do ITM

    http://www.youtube.com/watch?v=25rLEBppbzI

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