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  • 22 de Janeiro, 2014
  • Por Carlos Esperança
  • Literatura

A Lourinhã e o Carnaval trapalhão numa zona de tradições folionas (Crónica)

Quando cheguei à Lourinhã, no dia 1 de outubro de 1963, hospedei-me no Restaurante Moderno, uma pensão excelente onde a D. Elvira me acolheu com um desvelo que, a esta distância, ainda me enternece. Pagava 750$00 mensais pela pensão completa, dos 1753$00 líquidos que recebia, incluída a gratificação de 141$00, de delegado escolar.

Fui recebido com cordialidade e muitos queriam conhecer o jovem professor de 20 anos que acabava de chegar a um concelho onde, no ensino primário, só havia professoras.

O padre Escudeiro, diretor do Externato D. Lourenço, propriedade da diocese de Lisboa, rejubilou quando, a uma pergunta sua, lhe disse que era beirão, o que o levou a gabar os beirões, muito devotos. Tendo-lhe dito que eu não era, logo assumiu que, pelo menos, era boa pessoa. Tivemos uma boa relação que o azedume pelo meu anticlericalismo não quebrou.

A notária ofereceu logo a sua bicicleta para eu me deslocar à praia da Areia Branca, a três km de distância. A Manuela Leal que em miúda gozava férias na Guarda, com os tios e a prima, meus vizinhos, era minha amiga desde os dez anos. Apresentou-me à família e ao namorado, aluno do ISCEF, o Carlos Carvalhas, que viria a ser seu marido e pai dos dois filhos, governante e secretário-geral do PCP.

O barbeiro, o proprietário do café Belmar, os magistrados, conservadores, advogados e o dono da papelaria, além das colegas, passaram a fazer parte das minhas relações a que, em breve, não faltavam funcionários do tribunal, das finanças, do município e o próprio presidente da Câmara. O Café Belmar, único e asseado, era ponto de encontro de todos.

Para quem vinha da Guarda e da Covilhã era estranho ver mulheres a pedalar bicicletas, aventura que a orografia das faldas da serra da Estrela não permitia. Que jeito me deu a bicicleta da Dr.ª Filomena!

Os padres é que eram iguais aos da Guarda e Covilhã. Já não me recordo se exibiam a tonsura, aquele zero na cabeça, como lhe chamava Junqueiro, mas usavam ainda batina e o colar muito branco que parecia um cincho daqueles que extraíam o soro aos queijos artesanais. A pensar, eram iguais. O pe. Abílio, a quem eu elogiava João XXIII, porque o irritava, acabou a desabafar que era bom para os comunistas. Tinha um beiço rachado, atribuído a acidente. Eram todos reacionários para desgosto da Dr.ª Filomena, ex-dirigente da JUC, incomodada com o espírito troglodita dos párocos locais, incluindo o padre Escudeiro, o Sr. Vigário, responsável pela vigararia da Lourinhã e pelo Externato.

Não me parecia que fossem muitos os crentes ou muito crentes, antes da epidemia dos cursos de cristandade – cursilhos –, aposta do proselitismo extremista do Opus Dei, com lavagens rápidas e eficazes ao cérebro, feitas aos fins de semana na Foz do Arelho. Soube que a piedade exaltada com que soltavam os neófitos, se devia a confidências íntimas, feitas em descontrole emotivo estimulado, perante os “irmãos”, e que deixavam as vítimas dependentes dos padres e dos “irmãos” da fé e dos cursilhos.

O Dr. Pita, veterinário, apesar de salazarista fogoso e dirigente da União Nacional, era um anticlerical furioso que desabafava comigo, dizendo que a igreja paroquial dava uma bela garagem que pouparia os automóveis à corrosão e ao aquecimento do sol intenso.

O Carnaval era uma festa trapalhona em que máscaras e roupas velhas eram a diversão modesta entre os festejos delirantes de Peniche e Torres Vedras. Fiquei siderado quando vi, pela primeira vez, o Sr. Mariano Vicente, figura popular e honrado guarda-livros, o substituto do delegado do Ministério Público, porque a notária, sendo mulher, não podia assumir tão nobres funções, vestido de espanhola, com lábios pintados, cabeleira postiça e um vestido de balzaquiana decadente. Jovens e adultos espaireciam a atirar papelinhos e serpentinas por trás de máscaras que lhes ocultavam o rosto e com velhos fatos que os disfarçavam. Foliavam com desconhecidos e amigos que tentavam adivinhar quem eram o/as mascarado/as. Raramente se descobria quando a cara estava oculta.

Apenas uma pessoa desmascarava as embuçadas. E só “as” embuçadas. Era o sobrinho do Sr. Vigário, o jovem padre Manuel que chegara recentemente à paróquia para coadjuvar o tio no múnus e repartir os terços, missas e confissões, enquanto o tio se dedicava mais à administração do Externato D. Lourenço, propriedade do patriarcado.

O padre Manuel era excelente observador, caraterística que seria demonstrada no Carnaval. Conhecia todas as mascaradas que lhe virassem as costas. Numa altura em que a moda feminina era mais próxima dos desejos da Irmã Lúcia do que da criatividade sofisticada da estilista Mary Quant, as calças e saias não realçavam os glúteos, mas a anatomia não escapava ao escrutínio do jovem padre que, assim, descobria as mascaradas.

Havia de ter um acidente que o deixou tão politraumatizado que nem para dizer missa serviu, durante meses, fosse porque quaisquer glúteos o distraíram ou porque a curva da estrada não lhe mereceu tão desvelada atenção como as curvas dos corpos femininos.

8 thoughts on “A Lourinhã e o Carnaval trapalhão numa zona de tradições folionas (Crónica)”
  • Tolo_Mor

    A propósito de Carnaval,ainda não parei de rir.Li algures que, no Brasil, os ateus são só 0,33% da população total e que essa percentagem decorre do censo brasileiro de 2010. Deve ser um grande samba da clericalha tartufa, mas teve muita piada,lá isso teve.

    • Molochbaal

      Eu farto-me de rir é quando entro numa missa, em qualquer igreja, e vejo, sempre, uma audiência de uns 90% de velhotes.

      Onde é que estarão os jovens “católicos”? Quando esta geração de velhotes desaparecer, quem irá às igrejas ?

      Não sei, mas tem imensa graça pensar nisso.

      • Molochbaal

        “A Igreja Católica da Alemanha vai fechar 75 paróquias ao noroeste do país, reduzindo-as a 30, por falta de fiéis ”

        http://www.paulopes.com.br/2013/02/igreja-alema-vai-fechar-paroquias.html#.UuEDqByQHJg

        Que piadão que isto tem. Mas que grande graça.

        Ainda bem que o atrasado mental não é capaz de distinguir sondagens gerais, das de grupos específicos. Porque se fosse, ficava deprimido.

        Ia descobrir que, à medida que os povos vão subindo o seu nível de educação, a sua igeja tende a perder carneirões, perdão, adeptos do rebanho.

        Isto começa a observar-se, naturalmente, pela juventude, visto que é um movimento gradual, que atravessa as gerações e se vai acentuando de geração em geração.

        Uma grande piada.

        • Molochbaal

          “Por falta de fiéis, acelera-se na França venda de igrejas católicas”

          “estejam à venda na Franca 43 igrejas e capelas, só neste mês de fevereiro, além de outras propriedades católicas.”

          http://www.paulopes.com.br/2013/02/acelera-se-na-franca-venda-de-igrejas-catolicas.html#.UuEGMByQHJg

          Outro piadão. Ah. Ah. Ah. Mas que engraçado.

          • Vox Populi

            0,33% de ateus no Brasil em 2010 deram-te uma azia descomunal. Ficaste completamente furibundo. Agora vieste em socorro dos teus coleguinhas ateus,patarata ? Também não admira, tens jeito para submisso lambe-bota. E mais uma perguntinha, ó animal: Já conseguiste encontrar a fonte da sondagem, editada pelo Carlos Esperança, ou, como bom nacional-porreirista que és, marimbas-te para o rigor dos factos ? Onde é que está a referência a essa suposta sondagem, tótó ? Olha, por que não vais perguntar a esse literato damais fina água, chamado Paulo Lopes ou, à Samantha Fox, que são os teus símbolos da mais apurada literacia? Vá, procuira e vem aqui mostrar a tua sabedoria.A talhe de foice: já papaste a tua ração de palha hoje ?

          • Molochbaal

            Pelo ritmo a que os povos descartam o cristianismo, à medida que vão ganhando em educação, não te admires que dentro de um século tu tenhas trocado de lugar estatístico com os ateus.

            “Com 40% de ateus, a Holanda está a transformar igrejas em cafés, livrarias e casas de espectáculos.

            Desde a década de 70 que mais de mil igrejas fecharam as portas no país.”

            http://p3.publico.pt/vicios/em-transito/7900/holanda-adeus-missa-ola-cafes-e-livrarias

            Hi. Hi. Hi. Mas que grande chalaça…

          • Molochbaal

            Mas não te preocupes fifi.

            Os templos cristãos nunca vão desaparecer.

            Podem é mudar de ramo.

            Assim, se te sentires sequioso da palavra de deus, poderás ir a templos cristãos, como este de Glasgow, onde poderás afogar a tua sede de divino em santas bebidas de malte escocês.

            Como vês, a juventude dos países desenvolvidos, até se mantém fiel frequentadora da igreja.

            http://www.esvaziandoamochila.com/2013/11/glasgow-escocia-igreja-por-fora-whisky-bar-por-dentro.html

            Uh. Uh. Uh. Mas que grande piada eu agora tive.

  • Ana Reis

    Que prazer lê-lo. Nasci na Lourinha em 1952, encostadinha ao jardim da Sra. dos Anjos, idas à praia de bicicleta nem se contam, de manha, à tarde, para por o sol… Carnaval, que bom, com a traparia da familia (da mae, do pai e até de um tio que morrera com 95 anos (fato preto e chapéu de aba larga da mesma cor adornado o lenço de seda vindo das Indias cor de fogo, fato macaco cinzento, enfim nada escapava), Confidencia por confidencia, pertenço ao grupo dos que nao acreditam.

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