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Fine-tuning e verosimilhança, parte 2.

Os modelos da física moderna são muito sensíveis aos valores de certos parâmetros. Este é um problema de fine-tuning porque é necessário afinar cuidadosamente os parâmetros para obter previsões correctas. Tradicionalmente, estes problemas têm se sempre resolvido descobrindo princípios mais fundamentais que unificam ou restringem os parâmetros livres. Mas como há pouco a dizer acerca de princípios que ninguém ainda descobriu, é mais interessante especular sobre o que seria se estes parâmetros pudessem mesmo variar na realidade e não apenas nos modelos. Multiversos, megaversos, universos exóticos com leis estranhas e assim por diante. Infelizmente, isto baralha algumas pessoas que depois julgam que este problema de fine-tuning está na realidade e não no modelo. É como julgar que a Terra é plana porque o mapa também é. Esse foi o tema da primeira parte (1). Esta é sobre uma aplicação incorrecta do princípio da máxima verosimilhança (PMV) para resolver esse problema meramente hipotético.

O argumento apresentado pelo Bernardo Motta, mas originalmente do Robin Collins, alega que, por um lado, a probabilidade de observarmos um universo como este assumindo os modelos da física é muito baixa por causa desses parâmetros soltos que é preciso ajustar mas, por outro lado, a probabilidade de haver um universo como este é muito alta se assumirmos que existe um deus que quer criar um universo assim. Assim, alegadamente, o PMV leva-nos a crer num deus criador. Isto é persuasivo para quem souber o suficiente sobre o PMV para reconhecer a sua importância mas não o suficiente para perceber o embuste desta aplicação. Como só consigo explicar isto num post chato, peço desde já desculpa pelo que se segue.

Vamos imaginar que lançámos uma moeda dez vezes e queremos saber se a moeda é equilibrada. O resultado foi:

Cara, coroa, coroa, coroa, cara, coroa, coroa, coroa, coroa, coroa.

Se assumirmos que a moeda é equilibrada, com 50% de probabilidade de calhar cara ou coroa em cada lançamento, a probabilidade de ter só duas caras em dez lançamentos é de 4%*. Isto pode justificar rejeitarmos como inverosímil que a moeda seja equilibrada. É mais plausível que esteja torta.

Podemos também usar o PMV para determinar os melhores parâmetros para uma família de modelos. Vamos chamar p à probabilidade de calhar cara, sendo 1-p a probabilidade de coroa. Isto define uma família de modelos onde cada modelo tem o seu valor de p entre 0 e 1. O melhor modelo, pelo PMV, é aquele em que p=0,2 porque assim maximizamos a probabilidade de obtermos os nossos resultados, duas caras e oito coroas.

Para comparar famílias de modelos a coisa complica-se um pouco. Vamos imaginar uma família alternativa de modelos com os parâmetros p1 a p10 definindo a probabilidade da moeda calhar cara em cada lançamento. Se fizermos p1 e p5 ser 1 e os restantes 0, a probabilidade de obter aquela sequência acima será 100%, enquanto a outra família de modelos, mesmo com p=0,2, tem uma verosimilhança de apenas 0,5% para esta sequência de lançamentos. No entanto, é obviamente errado estar a usar os dados para maximizar a verosimilhança atribuindo, a posteriori, uma probabilidade específica a cada lançamento**.

Para compensar este efeito, quando se compara famílias de modelos integra-se as probabilidades por todos os valores dos parâmetros. Neste caso, temos de variar p entre 0 e 1 para a primeira família e todos os p1 … 10 independentemente para a segunda. Apesar daquele pico alto quando os parâmetros da segunda estão exactamente certos, o espaço onde falha é muito maior e a primeira será a mais verosímil. É isto que acontece se compararmos a hipótese dos grãos de areia do estuário do Tejo estarem naquela configuração por acaso ou porque um duende invisível de Caxias usou poderes mágicos para pôr a areia exactamente assim. Havendo tantas possibilidades diferentes, seria improvável calharem naquela posição por acaso. Mas a hipótese do duende tem muitos parâmetros indeterminados. Podia querer pôr a areia exactamente como está mas também podia ter preferido pôr os grãos de outra maneira, mandar a areia toda para Marte, transformar tudo em gelatina de morango ou qualquer outra coisa. Quando consideramos todas estas variantes a verosimilhança da hipótese do duende torna-se ainda mais baixa do que a da hipótese da areia estar assim por acaso. E ainda bem.

Quando o Robin Collins estima a verosimilhança dos modelos da física moderna não usa apenas os valores ajustados dos parâmetros, o que daria uma verosimilhança de 1 porque foram escolhidos para prever este universo. Correctamente, considera toda a variação hipotética desses parâmetros e estima uma verosimilhança muito baixa. Mas depois faz batota com a alternativa. É que isso de Deus ter criado o universo também é uma família de modelos e também tem parâmetros livres. Deus podia querer um universo como este, ou um universo onde aparecesse inteligência logo ao fim de mil milhões de anos ou só ao fim de cem mil milhões de anos. Podia querer um universo completamente diferente e inimaginável com seres de energia, almas desencarnadas ou animais com 15 dimensões. A verosimilhança dos modelos físicos é baixa porque integramos as probabilidades por todo o espaço de possibilidades dos parâmetros livres. Mas um deus omnipotente tem infinitos graus de liberdade. Sem fazer batota na aplicação do PMV a verosimilhança dessa família de modelos é nula, sempre menor do que qualquer alternativa.

* Assumindo que não me enganei nas contas. Mas se me enganei não faz mal porque o que importa aqui é perceber a ideia.
** Se alguém estiver interessado em pesquisar mais sobre este problema, chama-se overfitting.

1- Fine-tuning e verosimilhança, parte 1. Ver também o post do Bernardo

Em simultâneo no Que Treta!

13 thoughts on “Fine-tuning e verosimilhança, parte 2.”
  • Tolo_Mor

    O Krippahl ainda fica choné de tanto pensar nos parâmetros livres. Se Deus existisse certamente que saberia muito mais de física do que ele

  • Molochbaal

    Animais com 15 dimensões não sei.
    Mas está cientificamente comprovado que este blog tem um animal com dezenas de nicks falsos.

    • GriloFalante

      Deixa lá, Moloch. O Nandinho, a princípio, ainda tentava rebater o Ludwich, com engenhosos “copy/pastes”. Mas levou tanto no focinho que acabou por optar pela argumentação ao homem.
      Desgraças…

  • Evan

    Eu atirei dez vezes uma moeda ao ar. E dessas dez vezes, em vez de calhar cara ou coroa, calhou a moeda ficar em perfeito equilíbrio em cima da mesa. Agora pergunto ao Krippahl: terá sido milagre de Deus ?

    • Ludwig

      Não Evan,

      Como é geralmente o caso com alegados milagres, é apenas uma história inventada que pretende passar por verdadeira contando que não se consiga demonstrar que é falsa.

      • Evan

        Você não pode demonstrar que os acontecimentos, referenciados por milagres não existem. Para poder infirmar essa proposição, seria necessário que conhecesse todas as leis naturais. Como não conhece, nada pode contestar relativamente a esse tipo de acontecimentos, não pode afirmar que são histórias inventadas. E se eu lhe disser que atirei dez vezes uma moeda ao ar e que ela, ao cair, ficou em perfeito estado de equilíbrio, como é que você tem possibilidade de refutar a minha afirmação?

  • João Pedro Moura

    Que palavrório prolixo, Ludi!!! Este deve ser o artigo mais chato que até hoje vi
    aqui! Intragável!

    Para que são precisas tantas logomaquias e logorreias para demonstrar a inexistência de deus, ou infirmar as coleções de inépcias sofísticas dos teólogos de pacotilha (eles são todos…) da Igreja católica?!

    Esse Bernardo Motta, um teólogo de pacotilha, armado em filósofo rebuscado, já andou por aqui há uns 7 anos e eu “corri-o”, demolindo a sua argumentação tipicamente religiosa, portanto, intrinsecamente frouxa, que passo a transcrever, a partir dos meus registos, pois que não consigo localizar o artigo e os respetivos
    comentários.

    1- Bernardo Motta disse:

    “…e muito menos será correcto dizer que
    o Mal é a ausência de Deus, uma vez que o próprio mal nasce, teologicamente, de
    uma opção tomada ao nível angeológico – o Diabo é criatura feita por Deus,
    contudo feita boa, e tornada má por sua vontade.”

    E eu retorqui-lhe:

    Ora, veja bem o seu silogismo:

    a) Deus, omnipotente, omnipresente e omnisciente criou o “bem.”

    b) Do “bem” (“angeológico”…), nasceu o diabo, “criatura tornada má por sua vontade”.

    c) Conclusão: deus está ilibado de responsabilidades na criação do “mal”.

    Um silogismo é um raciocínio composto por 3 proposições: a premissa maior, a menor e a conclusão. Para o silogismo estar certo, as duas premissas têm de ser
    exactas e a conclusão terá que dimanar logicamente dessas premissas.

    Ora, então, admitamos, a título de postulado, que as duas premissas a) e b) estão
    exactas. Mas, então, a conclusão está intrinsecamente errada, pois que invalida
    a omnipotência divina.

    Um omnipotente não pode criar uma criatura, alheando-se do “facto” posterior de
    essa criatura ter descambado para o “mal”. Mal esse que ele, na medida em que é
    omnipotente, poderia ter evitado.

    Perante uma criação absoluta não há vontades relativas. Se o diabo se tornou um mal, “por sua vontade”, é porque essa vontade “maléfica” decorreu da “matéria” que o constituiu. Porque deus, omnipotente, assim permitiu…

    Senhor Bernardo, o que é que distingue deus do criador (construtor) duma máquina, por exemplo, um automóvel?

    A distinção essencial é que o construtor do carro não poderá garantir o seu
    funcionamento infalível, continuamente…
    … E não garante porque não tem domínio absoluto sobre todas as peças
    constitutivas da sua obra…

    Agora, deus!…
    Portanto, sr. Bernardo, esse seu silogismo carece de exactidão, logo está invalidado, concomitantemente.

    Mais, se deus é omnisciente, claro que previu que o diabo iria descambar, logo é
    sempre deus o responsável, porque podia (quem lho coibiria?!), não só impedir o
    desastre diabólico como determinar o bem eterno.

    Portanto, até a segunda premissa está essencialmente errada…

    Ainda mais: a primeira premissa também está errada, visto que, um omnipotente criou tudo: “bem”, “mal, “lugares”, “estados”…

    Ora, a não ser que o teólogo Bernardo se ande a disfarçar de parvo e a emitir
    jocosidades para gáudio do povo ateu, digo-lhe que essa sua visão do “mal” e do
    “bem” está, no mínimo… desfocada…

    (continua)

    • João Pedro Moura

      (continuação)

      Bernardo Motta disse:

      2- “A Criação católica é “ex nihilo”, ou seja, “do nada”, ou melhor, de nada que fosse pré-existente. Há uma separação nítida entre Criador e Criação.”

      E eu retorqui-lhe:

      a) Admitamos que até criou do nada.
      Mas, teoricamente, a matéria (que seja a primeira partícula…) teria de estar nalgum lado, mesmo que invisível…

      Ora, das duas, uma: ou a “matéria”, mesmo que infinitesimal, estava dentro de deus (era o próprio…) ou fora dele.

      Se estava dentro dele, não se tratou duma verdadeira criação, mas sim duma exteriorização, pois que a matéria já existia; e, se já existia dentro dele, deus não era “puro espírito”, pois que encerrava a matéria primordial…

      Se a matéria já existia fora de deus, este não teve necessidade de criá-la, pois esta já existia…

      Duma maneira ou doutra… não há deus criador, verdadeiramente…

      b) No Universo tudo é corpo, linha, proporção, extensão, dureza, sólido, líquido, gasoso, profundidade, cor, som, cheiro, densidade, etc.

      Como admitir que toda esta matéria possa ter sido criada por uma entidade que, dizem, é “puro espírito”???!!!

      Só mesmo com uma crença forte…

      c) Deus, por definição, também é imutável, pois que não faz sentido transformar-se nisto ou naquilo para obter algo. Deus, conceptualmente, foi, é e será, esteve, está e estará. Pronto!

      Mas, para criar, isto é, para dar essência àquilo que antes de o ser ainda não o era, deus teve de se modificar duas vezes: primeiro, “pensar” em mudar; segundo, executar a vontade.
      Ora, se ele se modificou duas vezes (e mesmo que fosse uma…) não é imutável. E se não é imutável, não pode ser deus.
      O ser imutável não cria.

      E ainda se poria estoutros devastadores quesitos:

      d) … E que esteve deus a fazer nos milhares de séculos que precederam a criação???!!!

      e) …E deus criou para quê???!!!

      (continua)

      • João Pedro Moura

        (continuação)

        Bernardo Motta disse:

        3- “Se Deus violasse constantemente as regras que ele mesmo concebeu, toda a Criação seria uma imensa tirania, onde não existiria qualquer espaço para a “liberdade” da Criação.”

        a) Pois não! Donde o admirável teólogo conclui, ingenuamente, que deus criou regras para dar “liberdade da Criação”, sem deus saber o que vai causar à “Criação” nem imaginar o que esta vai fazer com tais “leis”!!!…
        Um deus omnisciente!…

        Uma “Criação” a quem se “dá corda” e depois… “seja o que Deus quiser”. Nem se reparando, de permeio, que a frase “seja o que Deus quiser” contraria essencialmente a “Liberdade da Criação”…

        b) E para a “criação” ser “uma imensa tirania” seria preciso que “Deus violasse constantemente as regras que ele mesmo concebeu.”???!!!

        “God damned!” Eu bem sabia que os argumentos negadores de deus se recolhiam piedosamente das bocas e pancadas
        digitais dos teólogos!…

        (continua)

        • João Pedro Moura

          (conclusão)

          Bernardo Motta disse:

          4- “Esta liberdade manifesta-se tanto na livre consciência do Homem (que pode negar Deus) como na “liberdade”
          inerente aos próprios sistemas físicos, que funcionam por regras que lhes são intrínsecas, se bem que tenham “desenho” divino.”

          Imaginem-se “sistemas físicos, que funcionam por regras que lhes são intrínsecas”, com um “desenho divino” que
          criou tais regras, mas cuja entidade divina não sabe o que poderá acontecer de tais “sistemas”???!!!

          Que essencialmente ridículo!!! Que essencialmente grotesco!!!

          Senhor teólogo Bernardo, para o caso de ainda não ter reparado, o senhor está a laborar com uma crença, que é o contrário da ciência…
          De qualquer maneira, gratulo-o pela sua denodada tentativa de explicar a coisa divina…
          É sempre bom tentar…

          E assim terminei, há 7 anos, a minha demolição da coleção de inépcias sofísticas do teólogo Bernardo…

          Ele que apareça aqui outra vez… que eu é que lhe digo!…
          A não ser que ande por cá… sob forma disfarçada…

          • Costa

            Existe algum indício real ou palpável que possa servir para afirmar que tudo o que existe (incluindo, o tempo e a energia) não foi criado por Deus?

            Na melhor das hipóteses estaríamos em 50% das probabilidades para cada lado, mas alguns factores fazem descair a balança para um dos lados.

            Uma coisa é irrefutável: todas as provas, reais e objectivas recolhidas até hoje, sobretudo nas duas últimas décadas, usando meios cada vez mais sofisticados e envolvendo especialistas das mais diversas áreas de investigação, aponta mais para a existência do “sobrenatural” do “extra-sensorial” e até para a “uma existência depois da morte”, do que ao contrário.

            Hoje assiste-se, nesse campo, a uma luta entre “factos fielmente observados” e “teorias e opiniões pessoais para os combater”.

            As teorias pessoais que o Kripphal alimenta, como simples teorias, são engraçadas. Mas, de concretamente objectivas ou cientificas, nada têm.

            Isto lembra-me programa desenhado numa conceituada universidade. Trata-se de uma programa para gerar chaves do euromilhões, seguindo o mais sofisticado conhecimento matemático da dita universidade, baseando nos resultados dos sorteios anteriores, incluindo a ordem de saída das bolas numeradas.
            O programa que me foi oferecido por um laureado da dita academia, gera as dez combinações mais prováveis até aquele momento.
            Em quatro semanas que o usei, apenas numa das semanas acertei em dois números. Nas restantes não acertei nenhum.

            Teorias e teoremas que não têm aplicabilidade prática, é assim que defino essas tretas.

          • João Pedro Moura

            COSTA disse:

            1-“Existe algum indício real ou palpável que possa servir para afirmar que tudo o que existe (incluindo, o tempo e a energia) não foi criado por Deus?”

            Costa, quem afirmou deus, pela primeira vez, foram os religionários…
            Pelo que, o quesito é o seguinte:
            Existe algum indício real ou palpável que possa servir para afirmar que tudo o que existe (incluindo, o tempo e a energia) foi criado por Deus?
            Como os religionários não conseguem provar a existência de deus, logo, deus não existe…

            2- “Na melhor das hipóteses estaríamos em 50% das probabilidades para cada lado, mas alguns factores fazem descair a balança para um dos lados.”

            Não estamos nada a 50% para cada um dos lados. O ónus da prova de deus está do lado dos crédulos. Se não conseguem prová-lo, também não poderão afirmá-lo…
            …Logo, temos 100% de inexistência de deus, portanto, do lado dos ateus…

            3- “Uma coisa é irrefutável: todas as provas, reais e objectivas recolhidas até hoje(…) aponta mais para a existência do “sobrenatural” do “extra-sensorial” e até para a “uma existência depois da morte”, do que ao contrário.”

            E o Costa, se calhar, até é capaz de demonstrar isso que afirmou… do “sobrenatural”, do “extra-sensorial” e até duma “existência depois da morte”…

  • João Pedro Moura

    A melhor argumentação contra a existência de deus é a do antigo seminarista e anarquista francês Sébastien Faure (1858-1942), ateu, escritor, jornalista e pedagogo que, em 1908, escreveu a sua célebre “12 PROVAS DA INEXISTÊNCIA DE DEUS”, obra máxima de argumentação ateísta, sempre baseada na única maneira de negar deus: pegar na estúpida e crédula argumentação dos religionários e demonstrar a inanidade da mesma…

    Podereis ler tal obra aqui:

    http://ateus.net/artigos/critica/doze-provas-da-inexistencia-de-deus/

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