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Fine-tuning e verosimilhança, parte 1.

«… imagine uma poça a despertar de manhã e a pensar “Este é um mundo interessante em que me encontro – e um buraco interessante em que me encontro – acomoda-me perfeitamente, não é? De facto, espantosamente bem, deve ter sido feito de propósito para me conter aqui dentro!” Esta é uma ideia tão poderosa que, conforme o Sol se ergue no céu, o ar aquece e a poça vai ficando mais pequena, mantém-se freneticamente agarrada à noção de que vai tudo correr bem porque o mundo foi feito de propósito para si; por isso, o momento em que se evapora apanha-a de surpresa. Penso que é algo que todos temos de ter em conta.»
Douglas Adams, The Salmon of Doubt

No passado dia 21 o Bernardo Motta e o Ricardo Silvestre debateram a (in)existência de Deus na Universidade Católica. Enquanto espero pela gravação do debate queria dar já uma achega ao argumento do fine-tuning que o Bernardo apresentou nos slides e resumiu no blog (1). Este argumento diz que Deus deve existir porque os modelos da física moderna contém parâmetros cujos valores não são determinados pela teoria e, se fossem diferentes, o universo não comportaria vida como a conhecemos. Por exemplo, se a energia libertada na fusão de hidrogénio em hélio fosse maior as estrelas não durariam o suficiente para que vida como a nossa evoluísse e se fosse menor as estrelas não dariam energia suficiente (2). Assim, defende o Bernardo, tem de haver um deus que assegure os valores certos para estes parâmetros de modo a que nós possamos existir. Ou seja, que faça o buraco à medida da água da poça.

A primeira confusão deste argumento é logo a definição do problema. O problema do fine tuning é um problema do modelo. O modelo tem demasiados parâmetros soltos que têm de ser ajustados para prever correctamente o que observamos. Isto não é desejável. É sempre melhor minimizar as pontas soltas. Mas este problema do modelo só é um problema do universo se o modelo estiver completo. O problema de fine-tuning que o Bernardo invoca não é o problema real do modelo ser muito sensível a parâmetros soltos mas sim o problema meramente hipotético do modelo estar correcto nesse aspecto e o universo sofrer do mesmo excesso de parâmetros. Tanto os dados que temos como a experiência contradizem esta premissa.

O modelo standard das partículas subatómicas tem 25 parâmetros que não são determinados pela teoria subjacente. Além disso, o modelo do universo a grande escala tem mais um parâmetro solto, a constante cosmológica (4). Mas uma razão forte para não concluir logo que o universo tem estes parâmetros soltos é estes modelos serem incompatíveis. Como a descrição relativística da gravidade não encaixa nos modelos da mecânica quântica para as restantes forças não se justifica assumir que estes modelos estão completos e que o que falta neles falta no universo.

Além disso, o problema do fine-tuning é frequente na história da ciência. Antes da teoria atómica dos elementos a química era um pantanal de parâmetros aparentemente arbitrários e leis que não se sabia de onde vinham. Quando se percebeu que todas as moléculas eram compostas por átomos de umas dezenas* de elementos diferentes o número de parâmetros soltos diminuiu drasticamente. Quando se descobriu que as propriedades químicas e físicas de cada elemento são determinadas pela combinação de apenas três partículas diferentes – protões, neutrões e electrões – o número de parâmetros soltos caiu novamente. Este ciclo ocorre em todas as áreas da ciência pela forma como a ciência progride. Inovações teóricas e tecnológicas permitem novas experiências, estas revelam dados novos que os modelos precisam de explicar o que, por sua vez, obriga a formular novas relações e parâmetros conforme os dados vão surgindo. Só quando alguém finalmente percebe como as coisas encaixam é que há tal “mudança de paradigma” que leva a novas teorias que atam as pontas soltas. É disso que estamos à espera agora.

Há também explicações propostas para o eventual problema do universo ter parâmetros soltos. Uma bastante intuitiva é a desta bolha de espaço-tempo ser apenas uma de infinitas, cobrindo, no conjunto, todas as combinações de valores para esses parâmetros. Naturalmente, aquela onde nós existimos tem de ser uma das que permitem a nossa existência, pela mesma razão que o planeta em que nascemos foi o único do sistema solar, aparentemente, que comporta vida. O Bernardo alega que isto não resolve o problema da afinação mas está enganado porque se há infinitos universos não é preciso afinar nada. Por muito improvável que seja a combinação de valores que permite a vida, entre infinitas bolhas de espaço-tempo será inevitável haver universos que comportem vida sem qualquer afinação prévia. Tem mais razão ao apontar que esta explicação «é ainda especulação sem suporte experimental» (1) mas isso não é uma objecção relevante. A hipótese deste universo ser único é igualmente especulativa e até menos plausível porque se é possível haver uma bolha de espaço-tempo então também deve ser possível haver outras. Não se justifica assumir que esta é a única. Além disso, a proposta do Bernardo, de que um deus criou este universo com os parâmetros certos, é igualmente especulativa. Finalmente, o próprio problema do universo exigir fine-tuning é especulativo. Apenas sabemos que os modelos que temos agora precisam de afinamento. Não se justifica para já concluir que todo o universo sofre do mesmo.

Resumindo, este argumento do Bernardo é um apelo à ignorância. Invoca Deus apenas porque não sabemos o que determina os parâmetros que deixamos soltos nos modelos. Com isto o Bernardo tenta demonstrar que “Deus existe” é a hipótese que maximiza a verosimilhança porque assim é mais provável o universo ser como é. Mas desmontar essa confusão exige explicar um pouco desse método de selecção de modelos e tem de ficar para a segunda parte.

*São mais de cem mas, na altura, só conheciam uns 60.

1- Bernardo Motta, Debate “Deus (não) existe?”
2- Para outros exemplos: Wikipedia, Martin Rees’s Six Numbers
3- Wikipedia, Fine-tuned universe

Em simultâneo no Que Treta!

16 thoughts on “Fine-tuning e verosimilhança, parte 1.”
  • Tolo_Mor

    O Darwin, que não era propriamente peco a pensar, e que conseguiu ascender a um gabarito intelectual bem superior ao Ludwig, já dizia,no seu tempo, que o universo não podia ser obra do acaso,mas antes de uma causa inteligente. Nada que repudie ao meu agnosticismo militante.

    • David Ferreira

      E por onde anda essa causa inteligente? E porquê
      inteligente?

      Quando as placas tectónicas se movem provocam
      reações em cadeia devastadoras. Haverá alguma causa inteligente a movê-las?
      Não, apenas uma forma primitiva de inteligência à procura de um sentido para o movimento que observa.

      • Molochbaal

        Só se for uma causa inteligente com muito mau feitio.

      • Armindo

        À procura de uma causa inteligente!… Sempre foi assim. Ai de nós, se as placas tectónicas não se movessem !…É bom que o campo magnético da Terra se mantenha. Quando essas pressões deixarem de existir, é porque tudo se tornou sólido e tb. nós deixaremos de existir.
        “Quem toma a decisão final, não somos nós ou qualquer divindade, é natureza”.

  • Deusão

    Há algo de podre no ar…
    Alguém tomou conhecimento das últimas pérolas do chiquinho 1 ? Para os desavisados: chico volta a combater o “ateísmo prático”, assim como o antecessor, o pastor alemão, ele critica os ateus que estão se lixando para a icar. A icar gosta que falem dela, bem ou mal, não importa. Fale do diabo e ele passa a existir, esta é a guia dos padréfilos e padrerastas.
    Em relação ao tema: o debate é vazio, todos sabemos que não existe nenhum deus. Pode existir uma força ainda desconhecida no universo, mas com certaza absoluta, ela não será antropomórfica.
    É o tipo de debate da crença na crença. Vejo isto por aqui: alguém afirmou que os jesuítas são muito inteligentes e estudiosos ( afirmativa sem provas !) e o chico 1 pertence à ordem, logo, chico 1 é inteligente. E tem doutorado. Doutorado ? em teologia ? hahaha. Os políticos brasileiros tem PhD em pilantrologia. São todos roubarlógos. A icar tem também os curos de mágicos profissionais ? enganação e oratória ? embromação ? tem doutorado nisso ?
    kkkk. A famosa crença na crença !!!

  • Ateu Intelectualmente Sério

    Ludwig Krippahl e Bernardo Motta fazem-me suspeitar que possa existir uma causa inteligente, dada a forma superior como esgrimem os seus argumentos. Mas depois quando os comparo com o primarismo intelectual e a boçalidade arruaceira do Kavkaz, começo a duvidar que essa causa exista e a admitir que tudo não passe de uma distribução meramente genética, acidental e não equitativa de neurónios.

    • Zeus

      Ainda por cima és lambe botas, nandinho.

    • Molochbaal

      Sim?
      A mim, as aldrabices constantes de um certo crente que aqui aparece fazem-me é duvidar dos testemunhos dos outros crentes.
      À luz do k vemos do aldrabão mor do blog, os evangelhos, as aparições, etc, só podem treta.

      • Deusão

        Não acha curioso o fato do capeta só atacar crentes ?
        Passa pela zona dos prostíbulos e não entra, passa pelas boates, pelos inferninhos mais mal frequentados , e não entra. Entra só na cabeça oca dos crentes. para fazer o quê? visitar um espaço vazio ? É preferível visitar uma exposição de arte pós-moderna (que nome !) . Não tem movimento nenhum , mas é até possível conseguir uma sirigaita para passar o tempo.
        Outra coisa: já perguntei isso aqui e não obtive resposta, para que serve xeçuis e/ou maomé , além de pretexto para patifarias ?

  • José Mendonça

    Uma poça a despertar de manhã e a pensar deve ser muito giro. Mas como elemento da comparação com o princípio antrópico é um argumento um bocado pifio. Se ainda fosse uma pequena sereia a cogitar, vá que não vá. Agora uma poça de água a pensar nem ao mais primário dos criacionistas lembrava.

    • Molochbaal

      Yap, tens razão.
      Embora saibamos que os ateus apenas usaram isso como exercício retórico.
      Mau mesmo é ACREDITAR REALMENTE que uma pessoa podem ser três, que existem anjos, arcanjos, legiões de demónios, que se fala com mortos, etc etc.
      Existem pessoas que acreditam coisas delirantes.

      • GriloFalante

        Não estás a falar do Nandinho, pois não? Ele agora até vitou agnóstico existencial, seja isso lá o que for. Mas é só quando está vestido à homem; quando está de saias (deve ter aprendido com a padralhada, é o que dá andar em más companhias) gosta mais de dar uma de feminista anti-aborto. Afinal, sempre é verdade, o habito faz o monge.

        • Molochbaal

          É verdade.

          Estou muito orgulhoso de ter conseguido converter o fifi ao agnosticismo. Assim vocês me ouvissem.

          Mais uns dias a arengar-lhe e ainda consigo que deixe de usar saias.

      • GriloFalante

        Sabes que para o Nandinho as metáforas só existem na Bíblia. Fora disso, é tudo muito pragmático.

  • José Gonçalves Cravinho

    Eu,filho de pobres trabalhadores do campo e um simples operário emigrante na Holanda onde resido desde 1964 e já velhote (89 anos),não tenho capacidade para entender os segredos da Física e da Química e muito menos de entender os Teólogos.Mas atrevo-me a dizer que admito a ideia de que haja quem creia em Deus,mas não posso conceber a ideia de que haja alguém que se atreva a definir Deus e pior um pouco,a afirmar que êle quer que façamos assim ou assado,a crer que êle entregou a Moisés as Tábuas da Lei ou seja os Dez Mandamentos da bíblico-judaico.cristã Religião e que enviou seu «filho» ao Mundo para sofrer e morrer imolado como o cordeiro de Deus (Agnus Dei) para remir os pecados da humanidade.É nesta Vigarice dos Vigários de Cristo que se baseia a ICAR e a Universidade Católica.

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