Loading

Testes e explicações.

O Miguel Panão, entre outros, tem defendido que «O conhecimento científico e saber teológico [são] métodos distintos e que respondem a questões de natureza diferente sobre a realidade»(1). Eu tenho discordado desta posição porque a ciência responde a qualquer questão factual que admita respostas testáveis. O que sobra, no contexto das afirmações de facto, são apenas proposições que não podem ser testadas e que, por isso, também não se pode saber se são verdadeiras ou falsas. Se o domínio da teologia é esse conjunto de proposições então a teologia não pode gerar conhecimento. No máximo, produz crenças ou especulações. Contrapondo isto, o Miguel Panão tem insistido que as afirmações da teologia são testáveis, mas não cientificamente, o que não se percebe porque ou é possível testar ou não é. A ciência não exige nenhuma forma particular de testar. Mas agora o Miguel tentou uma nova abordagem.

Começa por apresentar uma versão da minha posição que não corresponde à minha posição: «hipóteses impossíveis de testar no âmbito de um método, como o teológico, são razão necessária e suficiente para descartar o método»(2). Pelo contrário, já defendi várias vezes que a ciência consegue lidar com hipóteses impossíveis de testar. O que faz é despejá-las no caixote das especulações infundadas porque, se são impossíveis de testar, então é impossível distingui-las da infinidade de alternativas na mesma situação. O Miguel Panão diz que a teologia resolve isto decidindo com base nas «evidências providenciadas pela revelação e pela doutrina» (1), mas avaliar o dogma considerando o dogma como prova de si mesmo é raciocinar aos círculos.

A novidade no argumento do Miguel é alegar, agora, que a ciência também acha «worth trying»(2) considerar hipóteses não testáveis. Não parece que isto o ajude a justificar a ideia da ciência e a teologia como abordagens complementares para problemas independentes. Mas, seja como for, o exemplo que o Miguel Panão escolheu não serve para demonstrar o que o Miguel pretende.

O artigo “A Universe without expansion”(3), que ainda nem foi publicado nem sujeito a revisão pelos pares, oferece uma explicação alternativa para a observação de que a luz que nos chega de galáxias distantes está tão mais desviada para comprimentos de onda maiores (para o “vermelho”) quanto maior for a distância entre nós e cada galáxia. Em vez de explicar este desvio pela expansão do universo, com galáxias mais distantes afastando-se de nós a velocidades maiores, explica o desvio pelo aumento da massa. Segundo este modelo, as galáxias mais distantes emitiram a luz que agora vemos há mais tempo, quando todas as partículas tinham menos massa e, por isso, a luz era menos energética. Guiando-se pela notícia, o Miguel Panão afirma que «A ideia é plausível, mas não pode ser testada» porque só podemos medir massas em relação umas às outras, e se todas mudam não notamos a diferença. Directamente. Mas isto não quer dizer que não se possa testar a hipótese de forma indirecta.

Este modelo do aumento da massa não difere do modelo do universo em expansão apenas na massa. Difere também na expansão. Qualquer medição que nos dê uma estimativa independente da expansão do universo pode servir para distinguir entre os dois modelos. Se bem que na prática isso não seja fácil, em teoria pode-se testar. Mas, mais importante do que isto, o modelo proposto por Christof Wetterich é uma explicação para o desvio da luz de galáxias distantes para maiores comprimentos de onda. Não é a única explicação; hoje em dia a explicação consensualmente aceite é a de que a luz sofre este desvio devido à expansão do universo. Mas é uma explicação porque esse modelo segundo o qual a massa de todas as partículas vai aumentando implica necessariamente que se observe esse desvio para comprimentos de onda maiores. Se a observação fosse outra, o modelo teria de ser falso. O que demonstra cabalmente que é testável.

Isto faz parte de ser explicação. Uma explicação só o é se implicar necessariamente as observações que pretende explicar. Caso contrário, não explica. Mas se implica necessariamente algo que se observa, então é testável. O exemplo que o Miguel Panão escolheu não é um exemplo da ciência levar a sério hipóteses impossíveis de testar. Pelo contrário, ilustra bem a futilidade de perder tempo com hipóteses dessas. Os cientistas formulam hipóteses para explicar algo que os intriga. Christof Wetterich propôs a hipótese da massa das partículas aumentar porque, se isso for verdade, então é inevitável que a luz das galáxias mais distantes esteja deslocada para comprimentos de onda maiores. É uma explicação possível, mesmo que ainda não se justifique preferí-la à hipótese da expansão. Christof Wetterich não propôs explicar o aumento do comprimento de onda invocando um deus, milagres, bruxaria ou seres invisíveis de outras dimensões porque isso não serve de nada. Postular um deus omnipotente, ao contrário de postular um aumento de massa de todas as partículas, não permite inferir um aumento no comprimento de onda. Com um deus omnipotente o comprimento de onda podia aumentar, diminuir, ficar na mesma, desaparecer ou até transformar-se num duende com calças azuis e barrete encarnado. É por isso que a hipótese de haver um deus omnipotente por trás de cada mistério não pode ser testada, é por isso que não serve para explicar coisa nenhuma e é por isso que hipóteses assim não podem ser conhecimento.

1- Comentários em Treta da semana: iNdulgência.
2- Miguel Panão, Hipóteses impossíveis de testar … worth trying …
3- Christof Wetterich, A universe without expansion.

Em simultâneo no Que Treta!

5 thoughts on “Testes e explicações.”
  • orenascido

    Será que o Ludwig já conseguiu meter um sentimento num tubo de ensaio para ver se ele existe e é verdadeiro ?

    • David Ferreira

      Os sentimentos são fruto da mecanica do corpo e existem para nos permitir a sobrevivência. Existem, são verdadeiros e podem explicar-se perfeitamente. Os sentimentos estão mais que testados, não são fruto de especulação. A comparação não faz sentido nenhum.

      • orenascido

        Os sentimentos, como os pensamentos, não são testáveis, pertencem ao domínio intimo de cada indivíduo. Eu posso acreditar que determinadada pessoa me ama ou é minha amiga, mas, em bom rigor, não consigo entrar na mente de outro ser humano.Logo, os sentimentos alheios não são intrinsecamente testáveis. Por isso, encaixariam na proposição materialista do Ludwig se esta tivesse pernas para andar.

  • Moloch Baal

    De facto, é uma completa treta do Panão dizer que a teologia pode ser testada pela doutrina ou revelação, visto que é apresentar o dogma, por essência não provado, a provar-se a si mesmo.

    Mas o Ludwig também é um bocadinho circular.

    Se lhe dizem que o método teológico é distinto do científico e que a teologia tem objectivos diferentes da ciência, porque raio insiste em comprovar a validade da mesma com o método científico?

    Nisto o fifi tem razão, estamos a falar de coisas diferentes, não comprováveis, mas que podem existir na mesma.

    O exemplo do sentimento é bem metido. Não se pode comprovar, mas existe.

    Claro que, para construir uma teoria científica, isso será insuficiente.

    Mas foi precisamente isso o que Panão lhe disse em primeiro lugar – método e objectivos diferentes da ciência. Logo não tem nada que se ajustar ao método científico.

    E o que o Ludwig se esquece é que a vida do dia a dia é mais baseada em intuições do que em certezas cientificamente comprovadas.

    O facto de isso permitir todo o género de especulações, cientificamente pode ser mau, humanamente pode ser bom, porque permite uma mente aberta e o uso da imaginação.

    E muittas descobertas cientificas tiveram origem em pura especulação.

    A imaginação do homem precedeu a ciência em milhares de anos e foi a pura especulação imaginativa que indicou caminhos que a ciência milhares de anos mais tarde trilhou.

    Entre centenas de exemplos, daquilo que nas suas épocas seriam fábulas irreais de uma imaginação mirabolante ou artigos de fé, estou a lembrar-me dos autómatos de Hefestos – máquinas cujo conceito hoje consideramos quase trivial.

    É a imaginação, especulação pura, que inicialmente abre caminho para a evolução da ciência, permite a colocação de hipóteses inicialmente incomprováveis mas que podem mais tarde vir a dar origem a descobertas científicas.

    Imaginem que até permite outra hipótese completamente impossível de comprovar, cientificamente ou não – a de que deus NÃO exite.

    Que espanto!

    Se o caro Ludwig deitar para o caixote tudo aquilo que não puder cientificamente provar, terá de deitar para o lixo 90% da vivência da humanidade.

  • anti-ateu

    Ainda não percebi o que querem os ateus testar cientificamente no campo religioso, e teológico em particular.

    A ciência é, hoje ainda, algo de muito primário e experimental. Nada do que a ciência hoje postula é definitivo nem sequer tem uma validade de largo prazo. O Homem tem a ciência como algo que apenas explica o que está criado. A ciência não sai daí para fora, nem explica o porque das coisas, quem criou e como. Para a ciência tudo é puzzle que existe sem conseguir dizer porquê existe esse puzzle e quem o criou.

    Na ciência nada é definitivo e definitivamente objectivo. Está sujeito a outra explicação, a outro modelo, a outra equação. Ou seja, a maior parte da ciência é “ilusão de saber” que só permanece válida num espaço de tempo muito curto, tem por base o tempo como a quarta da mecânica universal.

    Mas isso, pouco interessa para o caso. O engenho e arte do Homem é, mesmo assim, notável. Embora, logicamente, o Homem não saiba quase nada.

    Nem tudo o que pode ser testável é cientifico e nem tudo o que não pode ser testado é não cientifico.

    Além disso, uma imensa parte daquilo que tem importância vital para o Homem cai fora do campo cientifico. A amizade, o amor, a lealdade, a honra, a justiça, a bondade… e muitas outras coisas, não podem ser testadas cientificamente, pois a sua natureza é pessoal, incomparável, e não mensurável objectivamente. Mas existem e são cruciais à existência humana.

    A ciência tem, na vida humana, uma esfera de acção e importância que pouco mais de metade da existência humana abrange. E, em muito daquilo em que é solicitada, limita-se a tentar.

    A explicação da ciência é física e banal, mas esbarra no concreto.

    Uma pessoa é acometida de uma doença grave. Na melhor das hipóteses a ciência conhece um meio, provisoriamente eficaz de combater essa doença, quase sempre eficaz. Mas, se perguntamos à ciência, porque razão essa pessoa foi acometida dessa doença, se foi um questão sorte/azar, se foi vontade de um Deus, de um demónio ou algo semelhante, HONESTAMENTE nenhuma resposta pode ser dada pela ciência.

    Seja qual for o ramo da ciência, nunca se opõe à religião.

    A ciência usa técnicas humanas, as religiões tratam de aspectos que saem fora da espectro das coisas humanas. Notemos que, cada vez mais, o sobrenatural ensombra os gabinetes e laboratórios de cientistas. Hoje nenhum cientista responsável e honesto pode dizer: o sobrenatural não existe.

You must be logged in to post a comment.