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Açores 8/23_02_2013 – Religiosidade no meio do Atlântico

Cheguei numa tarde de sol a Ponta Delgada. Durante 15 dias, a chuva, que é frequente, poupou-me nos passeios pela ilha. O basalto é o material de construção que sobressai nas casas e denuncia a origem vulcânica de S. Miguel e restantes ilhas do arquipélago dos Açores. S. Miguel é uma sucessão de prados verdejantes, povoados de vacas e rodeados de uma vegetação paradisíaca que acompanha a orografia até ao mar.

Saltaram à vista do viandante os azulejos que decoram as frontarias das casas modestas, reproduzindo o Senhor Santo Cristo dos Milagres ou, apenas, perdido o último apelido, o Senhor Santo Cristo, numa iconografia profusamente repetida sem grandes alterações. Há outras imagens pias, em menor abundância, e apenas deparei com uma dedicada a Santa Catarina (mártir) com um apelo que revela a falta de devoção: «dai juízo a todos os que vos louvem».

Entre casas de habitação, exíguas capelas, imaculadamente limpas e com alvas toalhas, prestam culto ao «Divino Espírito Santo», o elemento da Trindade que foi abandonado no Continente e que ainda persiste por essas paragens, em todas as povoações da ilha.

A devoção é um arcaísmo que permanece no meio do oceano quando o Espírito Santo, até em Roma, onde rumava aos consistórios para iluminar os cardeais na eleição de cada novo papa, já foi comutado pela influência da Prelazia da Santa Cruz e Opus Dei, mais expedita na atribuição das tiaras e com dois pontífices de experiência.

Algumas Senhoras de Fátima, sobre azulejos, na frontaria das casas, ainda advertem os transeuntes que percorrem os passeios estreitos, com o pedido: «Não ofendam mais a Deus». Sem elas, dir-se-ia que da Trindade, que a Igreja católica substituiu pela virgem Maria, só faltava o deus-pai cujo culto nunca foi promovido e de quem restam queixas residuais de ter criado o mundo e feito, do barro, o primeiro casal.

A fé e a pobreza caminham a par. Há pessoas que saem de casa em pijama e com ar de se terem furtado ao banho. A ilha é lindíssima e o aeroporto, apesar de não registar já os fluxos turísticos de há anos, foi crismado com o nome o de João Paulo II. Deve ter sido mau olhado pois o número de visitantes, ao que sei, não parou de diminuir desde então.

Gostava de assistir à procissão do Senhor Santo Cristo, não porque me impressionem as manifestações pias, para tentar descobrir o que levava a atual PGR a frequentar o evento com a beca vestida e em representação do Ministério Público, num flagrante atentado ao Estado laico que a Constituição preceitua.

Quem sabe se não foi o desígnio divino que a investiu nesse cargo, graças às ave-marias rezadas com a beca encharcada!

Nesta quaresma, mantendo a tradição, mais de dois mil homens saíram para a estrada no primeiro sábado, dia 16. Os romeiros, partindo das suas aldeias, dão a volta à ilha com mantos garridos, dormem em igrejas, cantam, rezam e, não raro, são atropelados nas curvas dos caminhos. Nas povoações aumentam o tom das preces e dos cantos pios.

Apesar das rezas, o culto é profano e desobedece à vontade da diocese que lhe pretende impor regras. Não sei se deus os ouve mas eu acordei sempre com a algazarra.

3 thoughts on “Açores 8/23_02_2013 – Religiosidade no meio do Atlântico”
  • Shannon

    Entenda Esperança, o que está sendo dito nos dois comentários do Sinn-Klyss aqui http://www.diariodeunsateus.net/2013/02/21/a-historia-secreta-da-renuncia-de-bento-xvi/
    A algazarra dos católicos é o que demonstra que nunca foram nem são totalmente “ferrados” por seus credos. Daí é que, seja como for o modo com que tiram até o papa, procuram agir, quase sempre como gente, e não como bichos nocivos tele-guiados como são hoje os fiéis-crentes-evangélicos e espíritas. Nesse particular, os católicos são os mais humanos dos fiéis-em-crenças, mesmo quando seus líderes danam a abusar de sua Fé.
    Vários comentários da equipe desse Pensador aí foram postados aqui, e no momento crítico que nós todos estamos vivenciando, vale considerá-los para refletir.
    E que tenhamos sorte e coragem para ver e viver.
    Saudações.

  • Shannon

    MONSTRO COVARDE esquartejador de mulher vai virar estrela de futebol-evangélico no Brasil e dar “exemplo” pros guris das escolinhas arranjadas por pastutos para aliciar crianças e encher os cultos extorsão de pobres e desesperados.
    Talvez como “prêmio” por ter empanado a mídia durante todo do decurso da investigação do Mensalão; pode ser que até já esteja reservada uma “congregação” para o pústula deitar choramingações de crocodilo e ganhar rios de dinheiro como “reisgáistádu” ‘pregadô da parlávra”.
    NOJO :: NOOOOOJJJJJOOO …

    • Shannon

      Ao invés de APODRECER NA CADEIA o “varão-esquartejador-de-mulher”, “sárlvu” di bibra-na-mão vai ganhar o “prêmio” de ‘irvangélicu-reisgáistádu”; com direito a carro com alto-falante berrando pelos bairros o “grande amor-do-pai-DELE”.

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