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A política, a fome e o desespero

Já não é uma questão partidária, é um assunto angustiante que alastra como mancha de óleo na sociedade que julgávamos civilizada e onde subsistia um módico de dignidade.

Chegam-me ecos de pais desesperados que perderam o emprego e o subsídio mínimo de subsistência, com os filhos para sustentarem, e que vão aos lares buscar os progenitores para, com as parcas reformas, assegurarem a sobrevivência coletiva.

Há velhos que já não desejam regressar, maltratados pela idade e pelo abandono, sem esperança de uma convivência afetuosa que mitigue os dias tristes que lhes restam. E, se o entendimento ainda lhes assiste, juntam ao drama das feridas que os afligem a ânsia de não deixarem os netos e os filhos à míngua!

Que raio de sociedade é esta, donde a solidariedade emigrou, delidos os laços de família a que se apela, à falta de alternativa, em horas de desespero? Que gente somos nós, que vemos o povo com fraturas sociais expostas e a sangrar por dentro, à espera da caridade que alivia os pecados de ricos ociosos e pios, que a aproveitam para promover carreiras? Que exemplo damos aos que hoje precisam de nós para que alguém nos retribua quando formos nós os necessitados?

A raiva, as lágrimas e a violência, escondem-se entre as paredes de velhas casas que vão sucessivamente abdicando do gás, da eletricidade e da água. É nesses espaços de ódios e ressentimentos que fermenta a violência que se adivinha. A fatalidade que começa pelas necessidades básicas transforma-se em tragédia.

Há uma bomba social escondida à espera do rastilho para detonar. Nessa altura ninguém poderá sentir-se seguro. O egoísmo, a incúria e a insensibilidade só geram desgraças.

Começa a ser tarde para arrepiar caminho. É natural o retorno da fé através do desespero e o aumento do proselitismo dos funcionários de Deus, mas não há paz que caia do céu nem fome que seja saciada com orações.

8 thoughts on “A política, a fome e o desespero”
  • Rogério

    Essa sociedade onde os laços de família não existem, onde a solidariedade das gerações se esfumou, onde o individualismo devasta todas as relações humanas, onde o materialismo alterou e descaracterizou as relações e as correlações sociais, humanas e culturais é, sem sombra de duvida, aquela que o ateísmo defende, aquela que as sociedades criam ao afastar-se dos valores da cultura dominante na sua vertente religiosa.

    É nesse momento que as vitimas da cultura que tu defendes, que os destroçados e desvalidos da “tua mundividência”, quando têm capacidade e formação suficiente percebem que estavam errados e os pseudo-valores e a contra-cultura que vós apregoais é a maior desgraça das sociedades, e procuram um rumo socialmente sério, culturalmente honesto e assente em valores humanos e civilizados.

    Tu és um dos responsáveis pelo sofrimento destas pessoas.Mas, como todo o desonesto, lá tentas sacudir a água do capote.

    • Carlos Esperança

      Duvido que o Sr. Rogério me conheça e lembro-lhe a desumanidade com que a sua Igreja trata os adversários. Bem sei que uma confissão bem feita e uma eucaristia oportuna são a terebentina que limpa a alma dos crentes. Mas gostava de saber que virtudes tem um crente que um ateu não possa ter.

    • UmGajo

      Vivemos num pais que muitos religiosos gostam de apelidar de boca cheia como sendo um pais cristão. Por anos e anos a fio, este pais esteve ( e ainda está) na cauda da Europa. Por anos e anos a fio, pouco ou nada se ouviu falar de ateus.
      Agora temos uns foruns e blogues e uma associação ateista.
      Conclusão: os responsáveis são os ateus. Se calhar sempre foram.
      Brilhante caro Rogério, brilhante…

  • Rodrigo

    As instituições religiosas têm certamente inúmeras falhas, mas muitas delas organizam-se em prol dos mais socialmente desfavorecidos. Quanto aos ateus, ficam-se pela mera conversa de treta. Alguém conhece uma única organização não governamental de ateus a actuar no terreno da miséria humana ? Nem uma para amostra !

    • GriloFalante

      Os ateus não estão vocacionados para a caridadezinha hipócrita. Preferem a solidariedade anónima e sincera. Não temos deus a quem emprestar, quando damos aos pobres. Quando damos, damos sem intenção de retribuição.

      • Rodrigo

        Deixe-se dessa conversa de ” caridadezinha hipócrita”. Ajudar quem necessita de elementares apoios para a sua sobrevivência não é caridadezinha, mas solidariedade social voluntária, sejam os contributos realizados por crentes ou por ateus. A questão não é essa, mas outra: os crentes organizam-se em diversas instituições religiosas para ajudar quem precisa, seja ao nível do Banco Alimentar, dos missionários em África, ou da Caritas, a título meramente exemplificativo. Quanto aos ateus, só sabem desvalorizar como ” caridadezinha” o que é genuína solidariedade social voluntária e não têm sequer para amostra um único caso em que se organizaram para ajudar os mais carenciados !

        • GriloFalante

          “os crentes organizam-se em diversas instituições religiosas para ajudar quem precisa, (…)” desde, claro, que isso lhes traga retorno: aumento do número de fiéis, isenção de impostos, e outras contribuições do Estado. Porque essas “organizações religiosas” não dão ponto sem nó. Se tivéssemos um Estado devidamente estruturado, essas “organizações religiosas” não precisavam de existir. Porque é às estruturas do Estado que compete que não haja quem necessite de recorrer às “organizações religiosas”. Porque a riqueza é como as marés: se baixam num lado, sobem no outro. O grande problema é que sobem sempre para os mesmos. Mas disso os ateus não têm culpa. Não me consta haver ateus no aparelho de estado nem no “arco da governação”.

    • David Ferreira

      Ainda recentemente, nos EUA, uma organização ateísta angariou fundos que se propôs doar a um evento de caridade relevante. Essas doações não foram aceites pelos organizadores do evento, religiosos, porque não quiseram colocar na lista de doadores uma organização que desprezam. A hipocrisia é transversal ao ser humano. Só a cegueira da fé religiosa consegue ser hipócrita a este nível tão baixo.
      Isto é apenas um exemplo. O seu comentário poderá ser, inclusivé, considerado insultuoso, uma vez que muitos ateus, ou seja pessoas exatamente iguais às outras mas que apenas pensam de forma diferente, são cidadãos ativos e preocupados com os desenvolvimentos sociais negativos, nos quais eu, a exemplo, me incluo.

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