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Treta da semana: o Director.

Esta semana tenho lido umas coisas sobre a Prelatura da Santa Cruz e das Obras de Deus, também conhecida pela Opus Dei ou, para os amigos, “o Opus Dei”, o que apesar de gramaticalmente errado (1) é capaz de ser ideologicamente mais correcto (2). Entre as críticas à organização, dois aspectos parecem sobressair acima dos outros: o património e a mortificação. Oficialmente, a Opus Dei não parece ter grandes pertences mas, na prática, a estimativa é de que controla um valor patrimonial acima dos oitenta milhões de euros em Portugal (3). A organização justifica que «Essas instalações não são propriedade do Opus Dei; são propriedade de instituições de direito civil comum constituídas por pessoas, a maioria do Opus Dei, que se associam para colaborar com aquela acção formativa.» Se bem que em organizações normais essa diferença seja relevante, neste caso parece-me que vai dar no mesmo mas, seja como for, oitenta milhões não é nada de especial. A SAD do FCP ultrapassa isso em dois anos e pouco só em prejuízos (4).

A mortificação pelos cilícios, uma «pequena cadeia de metal leve, com pontas, que se usa à volta da coxa», e pelas disciplinas, flagelos que «são de algodão entrançado e pesam menos de cinquenta gramas», juntamente com a penitência são, segundo o site da Opus Dei, «uma pequena parte mas essencial da vida cristã». Admito que, se tiver de lidar em pessoa com alguém que me diga flagelar-se e andar com picos na coxa por motivos religiosos terei, inevitavelmente, alguns cuidados especiais que não tenho com outras pessoas. Será como lidar com alguém que diz ouvir marcianos ou que se apresenta como Napoleão Bonaparte, Imperador da França. Mas, conforme o entusiasmo com que se mortifique, será um assunto ou do foro pessoal ou do foro psiquiátrico. Também não me preocupa muito. A menos que a Opus Dei recrute menores, como alegam algumas queixas (5).

O que me pareceu mais preocupante nesta organização é o Director. Mais explicitamente, a prática de cada membro ser orientado por um director espiritual «que saiba o que Deus quer». Nas palavras do fundador desta organização:

«o espírito próprio é mau conselheiro, mau piloto, para dirigir a alma nas borrascas e tempestades, por entre os escolhos da vida interior. Por isso, é vontade de Deus que a direcção da nau esteja entregue a um Mestre, para que, com a sua luz e conhecimento, nos conduza a porto seguro. […] Quando um leigo se erige em mestre de moral, engana-se frequentemente. Os leigos só podem ser discípulos. Director. – Precisas dele. – Para te entregares, para te dares…, obedecendo. […] Não ocultes ao teu Director essas insinuações do inimigo. […] Porquê esse receio de te veres a ti mesmo e de te deixares ver pelo teu Director tal como na realidade és?»(6)

Pelo que percebi, este “Director” é um membro da organização, nem sempre um sacerdote, que orienta a conduta daqueles a seu cargo, conhecendo os detalhes da sua vida íntima e substituindo-lhes a consciência. Algo como os auditores da cientologia. Além de ser uma característica preocupante por si, cria um conflito de interesses difícil de controlar. Em qualquer profissão ou cargo que um membro da Opus Dei se encontre terá sempre, além dos deveres ocupacionais, o dever de confissão e obediência a alguém estranho a esse meio.

A adesão a qualquer religião já acarreta, parcialmente, este problema. No entanto, em muitos casos podemos dar à pessoa o benefício da dúvida. Não é por ser católico que temos de assumir o médico incapaz de aconselhar adequadamente os seus pacientes acerca da contracepção ou da sexualidade. É perfeitamente possível, e até saudável, que um membro de uma religião seleccione criteriosamente os ensinamentos mais adequados e separe a sua fé pessoal das suas obrigações sociais e profissionais. No entanto, quem pertence a uma organização que exige explicitamente obediência e partilha de detalhes confidenciais a um “Director” não merece este benefício da dúvida. Se eu for a um médico ou advogado da Opus Dei não posso confiar que guardará reserva daquilo que eu lhe disser. Se um membro do júri de um concurso público for da Opus Dei não se pode assumir que zele pelo interesse público em vez de pelo interesse da sua organização. Qualquer acto de um membro da Opus Dei é justificadamente suspeito por se ter comprometido a revelar tudo e a obedecer a terceiros.

Todos têm o direito de associação mas todas as organizações devem respeitar a Lei e a Constituição. As religiões são, já de si, uma excepção preocupante, violando com impunidade preceitos constitucionais como a proibição de discriminar pessoas pelo sexo, orientação sexual, crença ou opinião pessoal. Enquanto a Associação Ateísta Portuguesa não discrimina, nem pode discriminar, os seus associados com base no sexo ou na religião, a Igreja Católica expulsa os apóstatas e proíbe o sacerdócio às mulheres. E se bem que um católico possa discordar desta atitude da sua Igreja e agir mais em conformidade com os valores da nossa sociedade, um membro da Opus Dei terá muito mais dificuldade em agir contra os interesses da sua organização e as ordens do seu “Director”. A Opus Dei é um caso extremo da violação institucional de liberdades e deveres pessoais, especialmente preocupante em cargos influentes (7). Nem sequer é preciso que essas pessoas ajam de forma imprópria. Basta estarem sob as ordens ocultas de uma organização com os seus próprios interesses para não se poder depositar neles a confiança que tais cargos exigem.

1- Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, A organização católica Opus Dei em português é feminina (link original) e cache do Google. Obrigado ao Pedro Amaral Couto pelo link que, curiosamente, foi apagado pouco depois do Pedro aqui o publicar. Hmmm…
2- Wikipedia, Women in Opus Dei
3- Sábado, 2012, A riqueza oculta do Opus Dei.
4- Relvado, FC Porto SAD apresenta prejuízo de quase 36 milhões
5- Ex-membros pedem à Santa Sé uma investigação sobre o Opus Dei. Este título, não resisto apontar, traz-me à mente uma imagem de galinhas a queixarem-se ao lobo de que a raposa as quer comer…
6- O Caminho, Capítulo 2. Obrigado ao Ricardo Alves pelo link.
7- Por exemplo, Opus Dei nas finanças do Governo e com força na banca

Em simultâno no Que Treta!

14 thoughts on “Treta da semana: o Director.”
  • supranumerário

    O ” Opus Dei” é que está gramaticalmente correcto, pois a palavra ” Opus”, em latim, é masculina:

    http://letratura.blogspot.pt/2011/03/grosso-modo.html

  • Daniel

    “Enquanto a Associação Ateísta Portuguesa não discrimina, nem pode discriminar, os seus associados com base no sexo ou na religião, a Igreja Católica expulsa os apóstatas e proíbe o sacerdócio às mulheres”

    LK

    Imagine o LK que um ateu, inscrito na AAP, passou a ser crente e aderiu, por exemplo,à Igreja Católica ou ao Opus Dei. Agora veja o que consta no artigo 15º, nº 4, do Regulamento Interno e depois, se não quiser furtar-se ao debate, venha aqui dizer se concordaria ou não com a expulsão desse associado.

    http://www.aateistaportuguesa.org/sobre/regulamento/

    • David Ferreira

      Você quer que se debata uma não questão? Ou é mais uma observação despropositada com o intuito de confundir os simplórios dos ateus, como você os gosta de classificar?

      Penso que se alguém sentisse esse tal chamamento divino e resolvesse converter-se, não faria muito sentido continuar a pertencer à Associação. Por uma questão de bom senso, essa pessoa seria a primeira a abandonar Associação pois não faria sentido pertencer a dois pólos que se opõem, a não ser que sofresse de dupla personalidade, algo que penso não afligir a maioria dos ateus, ou a não ser que pretendesse, num assomo de loucura muito próprio de alguns novos crentes, ainda excitados pelo calor apaixonado da cegueira aceite e abraçada com o auxílio da metafísica da irracionalidade, envenenar a instituição por dentro.

      • Daniel

        Eu coloquei a questão, dirigida ao LK, mas que a você veio pressurosamente responder, suponho que não propriamente no simplório papel de moço de recados.Porém, como sou perseverante e paciente, vou ficar à espera que o LK prefira o debate de ideias aos seus solilóquios e que venha responder à questão que ,a ele, não a si, dirigi.

        • David Ferreira

          Pressinto que o LK tem mais que fazer neste momento, enquanto se prepara conveniente para enfrentar os fanáticos masoquisto-fetichistas que acreditam que o seu Deus só lhes concederá a salvação por intermédio da utilização de requintados instrumentos de auto-flagelação. É uma tarefa árdua enfrentar loucos em liberdade condicional e condicionada…
          Retiro-me de mansinho e simplicissimamente…

  • Ricardo Alves

    Ludi,

    acho que te deves concentrar nesses aspectos que já identificaste:

    1) A abdicação da liberdade individual;

    2) A obediência ao «director espiritual»;

    3) O recrutamento de menores de idade.

    Toma atenção aos testemunhos de ex-membros:

    http://www.odan.org/

    E medita nestas «profundas» palavras do fundador da seita:

    «Director. Precisas dele. Para te entregares, para te dares…, obedecendo. E Director que conheça o teu apostolado, que saiba o que Deus quer; assim secundará, com eficácia, a acção do Espírito Santo na tua alma, sem te tirar do lugar em que estás…, enchendo-te de paz, e ensinando-te a tornar fecundo o teu trabalho» (Caminho, 62); «(…) e nunca o contradigas diante dos que lhe estão sujeitos, mesmo que não tenha razão» (Caminho, 954).

    «- Nega-te a ti mesmo. – É tão belo ser vítima.» (Caminho, 175); «Quando te vires como és, há-de parecer-te natural que te desprezem.» (Caminho, 593); «Não te esqueças de que és… o depósito do lixo. (…) Humilha-te; não sabes que és o caixote do lixo?» (Caminho, 592); «Não és humilde quando te humilhas, mas quando te humilham e o aceitas por Cristo.» (Caminho, 594); «Mortificação interior. – Não acredito na tua mortificação interior, se vejo que desprezas, que não praticas a mortificação dos sentidos.» (Caminho, 181); «Onde não há mortificação, não há virtude.» (Caminho, 180).

    «Onde não há mortificação, não há virtude» (Caminho, 180); «Bendita seja a dor. Amada seja a dor. Santificada seja a dor…Glorificada seja a dor!» (Caminho, 208).

    «Obedecer… – caminho seguro. Obedecer cegamente ao superior… – caminho de santidade. (…)» (Caminho, 941); «Obedecei, como nas mãos do artista obedece um instrumento – que não pára a considerar porque faz isto ou aquilo, certos de que nunca vos mandarão fazer nada que não seja bom e para toda a glória de Deus.» (Caminho, 617); «Livros. Não os compres sem te aconselhares com pessoas cristãs, doutas e discretas. Poderias comprar uma coisa inútil ou prejudicial (…)» (Caminho, 339); «É má disposição ouvir as palavras de Deus com espírito crítico» (Caminho, 945).

  • Ludwig

    Daniel,

    Qualquer pessoa que, independentemente da sua confissão ou convicção religiosa, pertença à AAP mas queira contrariar os objectivos da associação deverá sair. No entanto, ninguém deve ser expulso só por convicção religiosa. Por exemplo, se eu me tornar budista mas achar que o budismo terá vantagens se Portugal se tornar mais ateu, posso bem continuar na AAP enquanto me quiser dedicar a propagar o ateísmo. A conversão religiosa, por si só, não é um factor determinante, nem pode, legalmente, ser base para expulsar alguém (tal como a cor da pele, o sexo, a orientação sexual, etc).

    Supranumerário,

    O opus de Deus é, realmente, masculino. Mas por Opus Dei não me refiro a qualquer obra comprovadamente divina mas sim à prelatura católica que adoptou esse nome. E prelatura é um substantivo feminino.

    • Daniel

      Ludwig

      1- A expulsão ,prevista no regulamento da AAP, estabelece a pena de expulsão de um associado, mas não se encontram previstas as específicas caracterizações dos factos que legitimariam essas expulsões, podendo potenciar todo o tipo de decisões arbitrárias, o que não me parece compatível com regras absolutamente democráticas, de organização interna de qualquer organização de um estado de Direito. Na melhor pano cai a nódoa, é Ludwig ?

      2- Acho muito bem que a Igreja Católica declare apóstatas aqueles que se encontram registados nessa instituição e que dela divirjam de forma contrária ao essencial dos seus princípios ideológicos. Por mim, se a ICAR me declarasse apóstata, estar-me-ia a borrifar, mas compreenderia e respeitaria a sua decisão, não vejo que isso fosse motivo de censura.

      3- E o mesmo diria da AAP, se esta expulsasse qualquer associado que passasse a estar marcadamente distanciado das suas posições ideológicas. Veria isso como algo absolutamente lógico e normal.O que já considero inaceitável é que a AAP não defina os critérios da expulsão, a que se refere genericamente o artigo 15º, nº4, do seu Regulamento Interno.

      4- Você censurou a Igreja Católica, também por declarar apóstatas aqueles que se afastem do seu ideário, mas não abriu a boca para censurar a AAP, de que você faz parte, por também poder expulsar discricionariamente quem muito bem entender, com base na mencionada norma genérica. Costuma-se dizer que quem telhados de vidro não deve atirar pedras aos telhados dos vizinhos.

      • Ludwig

        Segundo o regulamento:
        «A qualidade de associado da Associação Ateísta Portuguesa perde-se:[…]

        4. Pela expulsão por proposta da Direcção ou de um grupo mínimo de 20 sócios, deliberada pela Assembleia Geral e fundamentada em qualquer atitude ou desrespeito grave dos valores, princípios, objectivos e normas que regem a Associação;»

        A expulsão é deliberada em Assembleia Geral. Parece-me perfeitamente democrático. Ninguém pode ser expulso só por não ser ateu ou só porque este ou aquele decide. Só pode ser expulso se a maioria dos associados assim o decidir.

        É assim que se faz na Igreja Católica com a excomunhão?

        • Daniel

          Ludwig

          Esse artigo 15º, 4, do Regulamento da AAP não especifica o que seja ” desrespeito grave dos valores, princípios, objectivos e normas que regem a Associação”.

          O facto de a expulsão ser decretada em Assembleia Geral apenas pressupõe que seja por maioria, não que esteja em conformidade com princípios legais democráticos.

          Seja como for, a AAP poderá expulsar os associados que muito bem entender, desde que a sua Assembleia Geral entenda que as suas condutas constituem desrespeito dos sues valores e princípios.

          No caso da Igreja Católica, as razões da expulsão são as da apostasia ou da excomunhão.

          Portanto, seja no caso da AAP ou da ICAR não há substanciais diferenças. Estão previstas expulsões para aqueles que não se comportem em conformidade com os respectivos princípios.

          E, consequentemente, qual é o espanto do LK pelo facto de a Igreja Católica declarar apóstatas ou excomungados aqueles que infrinjam as suas normas ?

          Não é isso que exactamente pode acontecer, em termos análogos, com os associados da AAP que igualmente infrinjam as suas normas e princípios ?

          Dois pesos e duas medidas, Ludwig ?

    • supranumerário

      Opus é palavra do género masculino em latim. Logo, diz-se oOpus Dei, quem quiser escrever correctamente essa expressão, de acordo com as regras lexicais da língua portuguesa. A prelatura é um substantivo feminino, mas não vale a pena você tentar confundir alhos com bugalhos:

      O Opus Dei é uma prelatura da Igreja Católica, mas escreve-se como ” o Opus Dei” e não como ” a Opus Dei”. Errar é humano, persistir no erro é já cabotinice.

      • Ludwig

        Jerónimo é nome masculino. Por isso, se me quiser referir ao homem Jerónimo Martins digo o Jerónimo Martins. Mas se me quiser referir à empresa Jerónimo Martins digo a Jerónimo Martins.

        Analogamente, se me quero referir ao opus de Deus digo o opus dei. Mas se me quiser referir à prelatura da Santa Cruz e do Opus Dei digo a Opus Dei, porque não me estou a referir ao opus de Deus mas sim à prelatura que tem esse nome.

        • supranumerário

          Errado.Não vale a pena inventar. Se você se quiser referir à prelatura do Opus Dei, em consonância com a boa regra lexical, terá que dizer:” a prelatura do Opus Dei”, não ” a prelatura da Opus Dei”.

          E para aferir desta boa regra, a empresa Jerónimo Martins não é para aqui chamada. Além do mais, a “Jerónimo Martins” não é propriamente expressão latina. O Opus Dei sim.

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