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  • 25 de Dezembro, 2012
  • Por Carlos Esperança
  • AAP

Convite da Associação Ateísta Portuguesa ao Sr. Patriarca Policarpo

O cardeal-patriarca de Lisboa convidou, esta segunda-feira, os “descrentes” com “inquietações no seu coração” a celebrar o Natal católico na expectativa de poderem encontrar “luz e paz” que lhes alivie o sofrimento.

Ignorava a anatomia das inquietações e, depois do Natal católico, cujo convite aceitei, senti mais peso no estômago do que inquietações no coração. Depois do bacalhau, do polvo e dos respetivos acompanhamentos, regados com excelente vinho que guardo para a liturgia dos momentos canónicos, esqueci as inquietações que o patriarca domicilia no coração.

Por um momento, ainda, recordei os sem-abrigo e as vítimas das guerras de que o deus do Sr. Cardeal é responsável (tudo é da vontade de Deus) mas a alegria das companhias com quem partilhei as vitualhas, com uma garrafa de vinho só para mim, afastaram as inquietações. Ninguém precisou de agradecer ao deus do Sr. Cardeal os alimentos, de debitar ave-marias ou fazer sinais cabalísticos. Limitámo-nos ao convívio familiar e a cultivar os afetos que nunca nos abandonam.

Não levo a mal que o Sr. Patriarca convide os descrentes a celebrar uma festa dos seus devotos, apenas me causa surpresa em quem consentiu que no dia 13 de maio de 2008 se fizesse uma peregrinação a Fátima «contra o ateísmo» e que, no mesmo ano, tenha considerado o ateísmo «a maior tragédia do nosso tempo», pelos vistos maior do que as guerras, as pandemias, a fome e as catástrofes que o seu deus é incapaz de evitar ou capaz de ser o responsável.

Mas, dado o convite que o Sr. Policarpo fez aos descrentes, entre os quais me conto, e ao facto de ter celebrado o Natal católico, sem missa, incenso ou água benta, aproveito para convidar o Sr. Cardeal para o almoço ateísta que todos os anos a Associação Ateísta Portuguesa (AAP) leva a efeito.

Está desobrigado de levar a mitra, o báculo e o anelão. Basta levar os cigarros. O resto chegará à mesa sem rituais exotéricos e encontrará boa companhia. Há de ver que os ateus são mais divertidos do que as beatas que lhe confessam os pecados ou os padres que lhe ajeitam os paramentos.

14 thoughts on “Convite da Associação Ateísta Portuguesa ao Sr. Patriarca Policarpo”
  • provocador

    Nem eu teria conseguido ser tão provocador. Essa de José Policarpo ter, em noite natalícia, dirigindo-se aos descrentes, afirmado que ” talvez o Senhor vos visite, inundando o vosso coração de luz e de paz”, nem ao Diabo lembrava.

    Pior do que essa frase, tão infeliz e sobranceira, só mesmo esta, de Bento XVI, a poderia superar, em insolência:

    “as comunidades cristãs não católicas são ou deficientes ou não são verdadeiras igrejas”.

    Qual será a verdadeira igreja de Cristo ? Aquela que habita os palácios sumptuosos do Vaticano ? Cristo partilhava o que tinha com os mais desfavorecidos e sempre viveu pobremente. Bento XVI apresentou-se ” urbi et orbe” vestido de forma rica e pomposa e José Policarpo seguiu-lhe as pisadas, rodeado de ouro e sumptuosidade. São estes os seguidores de Jesus de Nazaré ?

    Faço a justiça de reconhecer que há ateus com o coração pleno de luz e de paz, não os confundo com uma certa marabunta ateísta que anda por aqui. E que essa grandeza humana não depende da crença em Deus.

    Por outro lado, não acredito numa concepção de Deus, em que, de forma discriminatória, ” talvez o Senhor visite” ao sabor de obscuros propósitos. Só me admira é que Carlos Esperança tenha sido tão brando na resposta a José Policarpo e que a habitual marabunta ateísta se tenha ficado nas covas.

    Mais personalidade não vos ficava nada mal. Esta teria sido a altura ideal para essa maralha se ter indignado com justa razão.

    • David Ferreira

      Há que dar um desconto à senilidade.

    • GriloFalante

      São vozes de burro.

    • David Ferreira

      Ainda como resposta a comentários seus anteriores, onde acusava Richard Dawkins de cobardia pelo facto de não ter aceite o confronto com William Lane Craig, e uma vez que é tão adepto do youtube, deixo-lhe aqui como presente de Natal um pequeno videozinho onde poderá perceber de uma forma muito simples o porquê da recusa de Dawkins. Se este é o maior, ou um dos maiores, defensores da fé cristã modernos, então essa fé, tal como eu “profetizei”, tem os dias contados e deve ter os dias contados. Que demonstração tão grande estupidez, de pedantice e de pura e simples loucura!

      http://www.youtube.com/watch?v=ILxJvgjzBj4&list=FLLhtZqdkjshgq8TqwIjMdCQ

      • provocador

        Você ficou desesperado. A verdade dói não é ? Pois é, você ficou este tempo todo a mastigar a cobardia do Dawkins por não ter aceitado o confronto com o William Lane Craig ? É natural. Agora vem, mais uma vez, de forma desleal, editar um vídeo, que nada tem com o Craig, o que mostra bem a forma atabalhoada como você tenta reagir, tarde e a más horas, à conduta do Dawkins. Você tem muito jeito para branqueador. Já pensou em fazer publicidade aos detergentes ? Tem muito jeito para esse tipo de actividade. Eu não aprecio o William Craig, mas reconheço que ele chegaria e sobrava para o Dawkins, o crente no Design Inteligente dos Extraterrestres. Quando você quiser ser intelectualmente honesto e deseje refutar o Craig invoque exactamente o que ele afirme e, a partir das suas concretas afirmações, conteste-o. Assim, com essa sua forma de actuar, tenho que lhe chamar batoteiro.

        • provocador

          Rectifico: “…que nada tem a ver com a recusa de enfrentar o Craig”

        • David Ferreira

          Você não gosta mesmo de perder… Reconheço que deve ser aborrecido ver alguém que vive a espalhar a fé e se faz passar por intelectual de topo ser apanhado a reduzir-se estupidamente, tentando justificar com um livro de histórias primitivas um acontecimento tão trágico.

          Você até pode achar que um tipo como aquele tem alguma espécie de intelectualidade, uma vez que defende a sua causa. Mas deixe-me que lhe diga uma coisa: tipos como ele não passam de fanáticos. E fanáticos cobardes que se escudam constantemente nas palavras absurdas contidas num livro que sabem ter um poder irracional e inconsciente na maioria dos crentes.

          Intelectuais desses podem ir para um sítio que eu cá sei.

          Qualquer adolescente se riria das palavras do senhor Craig. Qualquer crente com dois palmos de testa ficaria ofendido por ter alguém como este tipo a hastear a bandeira da cristandade. Mas você acha que não. Porque o seu problema é com o Dawkins. Apenas. E com a hipótese do design inteligente extraterrestre. Algo que, obviamente, ainda não conseguiu perceber. Mesmo após lhe terem aqui tentado explicar. O ódio a Dawkins cega-o, nada mais que isso.

          Eu não preciso de ser intelectualmente honesto consigo. Eu apenas preciso de ser honesto comigo para o poder ser com os outros.
          O excesso de intelectualidade por vezes retira-lhe a capacidade de raciocínio. Seja mais natural. Abandone por momentos os altos voos do intelecto e desça à terra. Quando estamos perto das coisas, elas apresentam-se como são. Não é lá do alto que conseguimos ter uma boa perspectiva das coisas simples.

          • provocador

            David

            No comentário mais abaixo, critiquei contundentemente o Craig, mas você, mais uma vez, fez de conta que não viu.

            Quanto à cobardia do Dawkins, ela é notória. Se ele não temesse confrontar-se com o Craig até teria prestado um bom serviço à humanidade em censurar a mesquinha visão do Craig, mormente em relação à balofa justificação do genocídio de Canaã.

            Quer prova, da minha parte, mais concludente de que não me inibo de criticar severamente o Craig ? Você algum dia censurou o Sam Harris ou o Christopher Hitchens por terem sustentando que os islâmicos deviam ser liquidados ?

            Há uma diferença substancial entre mim e você. Eu provo que critico tudo quanto no domínio religioso merece crítica. Você tenta sistematicamente branquear tudo o que se relaciona com o ateísmo.

            Eu não sou sectário. Você é. Eu sou coerente e você hipócrita.

            Pode acusar-me de pedante, se quiser.

            Mas contra factos não há argumentos.

          • David Ferreira

            Por acaso não tinha visto o seu comentário posterior quando fiz o meu.

            Quer dizer, você primeiro vem defender Craig e agora já diz que não concorda com a sua visão… Significa isto que você se precipitou um pouco, tal é a vontade de tentar desacreditar Dawkins.

            A realidade que Harris ou Hitchens combateram durante aquele período, não tem nada a ver com a realidadezinha amorfa e por vezes patética que nós temos aqui no nosso cantinho que vive constantemente alheado das grandes questões mundiais. A ameaça talibã, do islão mais radical, foi e é algo a ter em conta, até porque estes meninos não se ficam apenas pelas palavras. Eles agem de facto. E sempre com violência extrema. Isto tem que ser combatido. E com sangue, se tal for necessário. Esta é a minha visão das coisas. É triste que tenha que ser assim, mas contra grandes males, grandes remédios.

            Onde você erra é apenas numa questão: Você diz que eu tento sistematicamente branquear o ateismo, mas está redondamente enganado. O ateismo não é nenhuma filosofia carregada de dogmas que tenta impôr a qualquer custo a sua visão do mundo e da realidade aos outros. A grande maioria dos ateus nem sequer se manifesta publicamente acerca da sua posição, tal como eu fiz a maior parte da minha vida. O ateismo “militante” ou, mais interventivo, apenas se limita a expor a estupidez e o absurdo proveniente de muitas religiões e que, sem pedir licença, se introduzem à força no dia a dia do Homem. Isto não é ser sectário. É apenas constatar uma realidade que está à vista de todos, mas que muitos preferem sempre negar e desculpar.

            Por outro lado, a questão do islão radical foi, de facto, criticada por alguns ateus mais mainstream, mas não apenas por estes. E não esqueça que Bush anunciou, publicamente, a guerra ao terrorismo invocando o nome do seu Deus, algo que mereceu apoio da maioria dos crfentes mais fanáticos norte americanos.
            A questão do combate ao terrorismo religioso, ao fanatismo, não pode limitar-se a uma interpretação sectária que divida crentes e não crentes. É uma questão que diz respeito a todos os homens e é, sobretudo, uma questão humanitária.
            O fanatismo, sobretudo o religioso, é um retrocesso civilizacional que deve ser combatido. Por todos.

  • kavkaz

    É bom sinal dos tempos vir o Sr. Policarpo dirigir-se aos descrentes… É que ele são cada vez mais.

    O Sr. Policarpo tem falta de clientes e precisa de gente para lhe fazer companhia. Receia ficar cada vez mais isolado e ridicularizado.

    O discurso do venham todos fazer nenhum já é conhecido. Deve ser para vermos a fatiota nova que ele tem até aos pés. Os deuses dele é que NÃO estarão lá, pois NÃO existem.

  • António Miranda da Mota

    Todo o sistema (e a igreja católica é um sistema), tende para o equilíbrio e a eternização.

    É claro que os católicos não podem já dispor da espada para cortar tudo o que lhes não renda vassalagem (pois que, quanto a oposição até o pensamento é castigado – agora apenas com confissão), por isso mesmo, tentam (hipocritamente, é claro), incluir todos.

    Lembro com tristez a arrogância com que o meu pai diz que “sou ” católico (mesmo que eu diga, pense, sinta e aja que não)! Eles são “donos” de tudo e todos!!

    As religiões são sistemas repressivos e redutores do indivíduo, mas isso ainda é o menos, o mais grave é que se assumem como a única solução. Dado que presentemente não podem já eliminar pura e simplesmente os não crentes (que são naturalmente cada vez mais), procuram incluí-los, a títulos e fundamentos vários, mas sempre no quadro geral da hipocrisia e da mentira, da tolerância que não têm de verdade, apenas simulando uma bradura estratégica que lhes permite (pensam eles), uma aparência inócua e suave, porventura suscetível de apaziaguar os ímpetos mais firmes daqueles que se sentem agredidos com as convicções limitadoras que a ideia de religião necessáriamente tem.

    Fique tranquilo o religioso em causa, que os ateus serenos jamais cairão na ingenuidade tão comezinha de acreditar que alguma vez uma religião (sobretudo a católica), seria capaz de incluir os que lhe são desfavoráveis e, principalmente, vivos opositores.

    Entretanto, se alguma vez acontecer um almoço com um religioso relevante, como é o caso, muito estimarei que me seja disponibilizada a possibilidade de participar, pois sempre haveria a oportunidade de (direta e espontâneamente), poder expressar as minhas razões ati religiosas a um elemento significativo dessa mesma religião.

    Saudações a todos.

    António Miranda da Mota

    • Carlos Esperança

      Quanto ao almoço pode comparecer. Não lhe prometemos um cardeal mas garantimos ateus de bem. O Diário de uns Ateus anunciará a data do referido almoço. É o 5.º Aniversário da Associação Ateísta Portuguesa (AAP).

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