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  • 23 de Dezembro, 2012
  • Por Carlos Esperança
  • Literatura

O S. Roque (Crónica)

Ficou-me de criança a impressão de que a ermida do S. Roque, na margem esquerda do Côa, estava alcandorada num monte enorme e que ao sacrifício da subida se deveria a recompensa dos milagres.

Hoje, ao passar na A25, sobre a ponte rodoviária, surpreende-me lá em baixo uma capela exígua abandonada num pequeno cabeço, com a vegetação a apropriar-se da área da devoção e dos negócios. Onde está um chaparro negociava burros um cigano, onde a Lurdes começava às dez a aviar copos de meio quartilho, para terminar às 3 da tarde com o pipo e a paciência devastados, medram giestas e tojos e o abandono tomou conta do espaço onde estava sediada a feira e se realizava a festa.

Onde os solípedes e as pessoas alcançavam não sobem ainda hoje os automóveis.

Eu gostei, ainda gosto, de romarias. Mesmo com milagres cada vez mais raros, a acontecerem na razão inversa dos louvores, encontramos sempre caras que atraem afectos e nos devolvem memórias. Às vezes não são quem pensámos, os anos passam, são filhos, mas vale a pena, falam-nos do que nós sabíamos, são da terra que julgámos.

Há quase sessenta anos, o Rasga foi ao S. Roque com a mulher, ela cheia de fé, ele com muita sede, como sempre, até a cirrose o consumir. A feira e a romaria partilhavam a data e o espaço. Não sei das promessas dela, as mulheres lá tinham contratos com os santos, não era costume explicitá-los, ele tinha as mãos cheias de cravos, coisa de rapaz, julgava que era feitio. A mulher dissera-lhe que havia de ir ao S. Roque, o Maravilhas curou-se, o Ti Velho também, pelas outras aldeias ia a mesma devoção, os resultados eram de monta.

O Rasga até tinha pensado no ferrador, não para ferrar o macho, ele queimava os cravos, mas eram grandes as dores, ficavam as mãos com marcas piores que a cara do Medo com as bexigas, e a febre, às vezes, levava a gente. Já se acostumara, não valia a pena ralar-se, o pior era a mulher a azucrinar-lhe os ouvidos, tens de ir ao S. Roque, se trabalhasses em vez de beberes havias de ver o incómodo, eu faço-te companhia, és um herege, uma oração, uma pequena esmola, dois cruzados, um quartinho no máximo, o S. Roque não é interesseiro, vens de lá bom, levas a burra que já mal pega em erva, enjeita os nabos, não temos feno, há-de morrer-nos em casa, além do prejuízo vais ser tu a enterrá-la, podias vendê-la.

E lá foram os três, que a burra também contava, partiram quando a Lurdes e a Purificação já levavam uma légua de avanço, tinham bestas lestas e levantavam-se cedo, era mister que se antecipassem aos homens que quando chegavam logo queriam matar o bicho e os negócios não podiam fazer-se sem haver onde pagar o alboroque.

O Rasga, mal chegou, pediu três notas pela burra a um da Parada que lhe ofereceu duas, a mulher do da Parada ainda o puxou, homem para que queres a burra, o rachador do Monte meteu-se logo, isto não é assunto de mulheres, tinham que fazer negócio, tem que tirar alguma coisa, não tiro, dou-lhe mais uma nota de vinte, tiro-lhe essa nota, nem mais um tostão, e o do Monte a dizer racha-se, vários a apoiar, fica por duas notas e meia, o rachador a agarrar-lhes as mãos, estranha união, e a fazer com a sua um corte simbólico, deram as mãos estava feito o negócio, um tirou cinquenta o outro deu mais cinquenta, consumada a liturgia logo assomou meia nota de sinal, faltavam duas que apareceriam quando lhe entregasse o rabeiro, vai uma rodada, paga o vendedor que recebeu o dinheiro, primeiro um copo para o comprador, o rachador a seguir, depois para todas as testemunhas, outra rodada paga o comprador, outra ainda, esta pago eu, diz um da Cerdeira, não quero mais diz o de Pailobo, morra quem se negue, praguejou um da Mesquitela, olha vem ali o Proença da Malta, grande negociante, como está, disseram todos, uma rodada, pago eu, diz o Proença, mas a minha primeiro, exigiu o da Cerdeira com agrado geral, e ali ficaram a seguir os negócios, os foguetes e a festa, e a tirar o chapéu e a agradecer ao Proença quando este foi dar a volta pelo sítio do gado onde já se encontrava o Serafim dos Gagos a disputar-lhe o vivo e a pôr a fasquia aos preços.

Findas a feira e a festa, esta terminou primeiro, um dos padres ainda tinha de levar o viático a um moribundo de Pínzio, o Rasga e a mulher vinham consolados, ela com a missa e a procissão, ele com duas notas e meia no bolso e o buxo cheio de vinho, ela a pensar na vida e ele a cambalear.

Algum tempo depois perguntei ao Rasga o que era feito dos cravos. Ficaram no S. Roque, menino, ficaram no S. Roque.

In Pedras Soltas (Esgotado)

13 thoughts on “O S. Roque (Crónica)”
  • David Ferreira

    Belo texto. Se o livro está esgotado, é porque era bom e vendeu. Pelo andar da carruagem, até a A 25 se arrisca um dia a ser engolida pela vegetação. Por falta de uso.

    • Carlos Esperança

      Os direitos de autor foram integralmente para a A25A. E, em Almeida, está hoje um monumento ao 25 de Abril a cuja construção os direitos eram destinados. Obrigado, David Ferreira.

  • Mateus

    Deixo hoje o Dawkins em paz, às voltas com a sua tese sobre o DESÍGNIO INTELIGENTE EXTRATERRESTRE e venho dizer algo de um senhor chamado Charles Darwin. Isto:

    “Certos autores eminentes parecem plenamente satisfeitos com a hipótese
    de cada espécie ter sido criada de uma maneira independente. A meu ver, parece – me que o que nós sabemos das leis impostas à matéria pelo Criador concorda melhor com a hipótese de que a produção e a extinção dos habitantes passados e presentes do Globo são o resultado de causas secundárias, tais como as que determinam o nascimento e a morte do indivíduo.

    Não há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus
    poderes diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de
    formas, ou mesmo a uma só? ”

    A Origem das Espécies, Charles Darwin, pág. 554 (cuja primeira publicação
    ocorreu em 1859)

    Em carta datada de 2 de Abril de 1873:

    “Posso afirmar-vos que a impossibilidade de considerar este magnífico universo, que contém o nosso ‘eu’ consciente, como obra do acaso, é para mim o principal argumento em favor da existência de Deus”.

    Em carta datada de 3 de Julho de 1881:

    “Devo dizer-vos que em vosso livro Pretensões da Ciência expressastes a
    minha profunda convicção, e mesmo mais eloquentemente do que eu saberia fazê-lo, isto é, que o universo não é e nem pode ser obra do acaso”.

    M. Francis Darwin. La Vie et la Correspondence de Charles Darwin. Trad. de Henry
    Crosnier de Varigny. Reinwald, Paris, Vol. 1, p. 354 a 365.

    .

    • Mateus

      Para aqueles que ainda são cépticos em relação ao pensamento de Charles Darwin, que atrás citei, com factos precisos, conhecimento concreto e provas irrefutáveis, tomem mais esta nota complementar:

      “Another source of conviction in the existence of God, connected with the reason, and not with the feelings, impresses me as having much more weight. This follows from the extreme difficulty or rather impossibility of conceiving this immense and wonderful universe, including man with his capacity of looking far
      backwards and far into futurity, as the result of blind chance or necessity. When
      thus reflecting I feel compelled to look to a First Cause having an intelligent
      mind in”

      Charles Darwin, pág. 313 do livro The life and letters of Charles Darwin, including an autobiographical chapter. London, John Murray. Volume 1, da
      autoria do seu filho Francis Darwin

      http://darwin-online.org.uk/converted/published/1887_Letters_F1452/1887_Letters_F1452.1

      • kavkaz

        Darwin faleceu como agnóstico. Deixou de acreditar no cristianismo e na Igreja Anglicana depois da sua filha ter morrido. O teu oportunismo é descarado e vergonhoso! Serves-te das pessoas que te convêm, mas não respeitas as suas ideias e sentimentos. Apresentas uma ideia totalmente errada delas! Vigarista!

        • Mateus

          Falso. Tu mandas postas de pescada enquanto eu provo o que afirmo. É a enorme diferença entre mim e parolos como tu. As cartas de Darwin, editadas pelo seu filho Francis Darwin mostram à saciedade que Darwin sempre foi crente. Aliás, ele faleceu em 1882 e em 1881 afirmou o que consta transcrito na sua carta de 3/7/188., Contra factos não há argumentos. Tu insultas e mentes porque és fraco e complexado. Não consegues rebater-me em termos de lógica e racional contra-argumentação. E isso põe-te furibundo, o que, aliás, me diverte bastante, confesso.. Aproveito para te desejar um Feliz Natal de 2012 d.C.

          P.S. Tu e outros da tua igualha só sabem viver na minha sombra. Que falta de personalidade…

          • kavkaz

            Detesto vigaristas! Já diversas vezes aqui apresentei a informação de que Charles Darwin quando morreu era agnóstico e respectivos links. Não tenho a obrigação de alimentar asnos convencidos sempre que ele lhe apetecer! Que vá chular a família dele!

            Qualquer pessoa poderá fazer a mesma pesquisa que já apresentei diversas vezes. Basta escrever no Google “Charles Darwin religião” e qualquer pessoa tirará facilmente as mesmas conclusões que eu acima afirmei.

            Charles Darwin NÃO era cristão quando faleceu. Só um aldrabão profissional que aqui acampa o continua a negar. Além disso, o cientista Charles Darwin deu um valente pontapé na religião no seu período quando apresentou as ideias da evolução das espécies. Eram ideias com que os cristãos nem sonhavam, de tão “iluminados” que andavam pelo “espírito santo”…

            antoniofernando / Mateus / multiniks, a tua tentativa de vigarizar e sabotar neste blogue é clara. Mas fica bem claro que um cristão não passa de um reles aldrabão!

          • Mateus

            Eu também detesto vigaristas e histéricos. A diferença, entre mim e tu é muito fácil de ver. Tu lanças constantes insultos quando não tens argumentos para contrapor. É a estratégia dos fracos. Eu comento e provo aquilo que afirmo. As citações do Darwin mostram que ele sempre foi crente em Deus. A sua obra A Origem dos Espécies contém claramente a alusão ao Criador, na sua parte final, e essa parte nunca foi retirada pelo Darwin da sua versão original de 1859. Por outro lado, as cartas do seu filho Francis Darwin também mostram, de forma inquestionável e irrebatível, que até 1881, um ano antes de falecer, Darwin manteve-se a sustentar que o universo não pode ser fruto do acaso, mas sim de uma Primeira Causa chamada Deus. Eu nunca afirmei que Darwin era cristão, escusas de berrar histericamente a contestar o que eu não disse. O que afirmei e repito é que Darwin, ao estruturar a sua tese evolucionista, não a vê incompatível com a existência de Deus, tanto que fala no Criador nessa parte final, admitindo que as diversas espécies possam provir de uma espécie inicial, criada por Deus. Esse é que é o Darwinismo de Charles Darwin. O Richard Dawkins anda sempre com a palavra ” darwinista” na boca, mas mostra até ignorar que o Darwin nunca elaborou uma Teoria Evolucionista ateísta, muito pelo contrário. E agora o que é que vocês, ateus, vão dizer, sabendo-se que Darwin admitia a hipótese do Criador como a mais plausível para explicar a origem do universo e da vida ? Vão dizer que ele era adepto do Design Inteligente ou que também foi um Criacionista moderado, por acreditar que a vida surgiu do Criador, mas não propriamente há seis mil anos ? Vão insultá-lo de imbecil, besta e burro ? Ou vão virar-se mais para a hipótese do Design Inteligente Extraterrestre do Dawkins ? Os teus insultos definem a pessoa medíocre que és. Perante factos objectivos e concludentes, espumas de raiva. É a estratatégia dos fracos. Feliz Natal de 2012 d.C., Kavkaz.

          • kavkaz

            CHULO !!!

          • Mateus

            Ainda tão furibundo ? …lol…

          • David Ferreira

            Pergunto eu, que sou um leigo na matéria: fosse crente, agnóstico, ou ateu, fosse o que fosse Darwin, de que forma é que isso valida, corrobora ou prova a existência de Deus?
            Georges-Henri Édouard Lemaître foi um padre católico e o primeiro a teorizar sobre o Big Bang. So what?
            Quantas pessoas de fé não foram ou são cientistas? E o que significa isso para a proposição da existência de Deus e para a sua validação científica? Absolutamente nada.
            A importância de Darwin é apenas uma: as suas teorias deram início ao estudo e desenvolvimento do evolucionismo, que hoje não é tão somente uma “teoria”, é um facto comprovado. Os seus estudos foram um abrir de olhos para tudo o que se veio a descobrir após a sua morte. E o que se veio a descobrir pura e simplesmente arrasou com as noções primitivas contidas no VT.
            Nada mais que isso.

    • kavkaz

      Consegues sempre citar nomes conhecidos que não têm ou não tiveram a tua religião. Ainda está para apresentares o primeiro! Darwin foi crente da Igreja Anglicana e renunciou à religião cristã no final da sua vida, facto que tu escondes aqui, propositadamente. Quando faleceu era agnóstico.

      – Mais oportunista do que tu não conheço!

      Quando é que nos dizes onde estará o teu deus “antoniofernando”, o que faz, o que disse ultimamente e quando nos apresentas o teu Jesus engolido. A ausência de respostas a perguntas simples é a prova de seres um vigarista!|

      • Mateus

        Falso.Darwin e a sua mulher tiveram dez filhos e três morreram de doença. Essa filha morreu em 1851. A primeira edição de A Origem das Espécies ocorreu em 1859, onde claramente consta a crença de Darwin em Deus como Criador da vida e do universo. Por cartas de 1873 e 1881 Darwin continua a reafirmar que o universo não pode ser obra do acaso e que a existência do Criador é a hipótese mais plausível. Darwin faleceu em 1882. Comparando estas datas, as conclusões são muito fáceis de retirar. A morte da sua filha, em 1851, não abalou a crença de Darwin em Deus. Estás a ver como é fácil elaborar um raciocínio logicamente sustentado ?

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