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  • 22 de Outubro, 2012
  • Por Carlos Esperança
  • Laicidade

A blasfémia, a catarse e o Código Penal

A blasfémia está para os incréus como a confissão para os beatos. A primeira é pública e atinge primores de imaginação em Espanha e, particularmente, no sul de Itália. Quem melhor blasfema, na cultura judaico-cristã, são os povos que mais oprimidos foram pelo clero e pelos constrangimentos sociais.

A confissão é uma arma ao serviço da Igreja, a blasfémia é um desabafo individual. Na primeira, as pessoas põem-se de joelhos e falam baixo para uma só pessoa – o padre; na segunda, fala-se alto, para quem quiser ouvir, através de vocabulário indecoroso nos salões mas frequente nas feiras, nas tabernas e no Porto.

Blasfemar é um ato catártico que alivia as tensões e conduz ao bem-estar enquanto a confissão é uma forma de humilhação que obriga à penitência e mantém o hábito de andar de rastos ou de joelhos.

Dizer, como Mark Twain, que «o Antigo Testamento mostra Deus como sendo injusto, mesquinho, cruel e vingativo, punindo crianças inocentes pelos erros de seus pais e pessoas pelos pecados de governantes, vingando-se em ovelhas e bezerros inofensivos, como punição por ofensas insignificantes cometidas pelos proprietários», é a blasfémia erudita. Prefiro a forma popular dos espanhóis a dirigirem-se à hóstia ou a nomearem a Virgem mas nada é tão estimulante como ouvir um calabrês, com a bela sonoridade da língua italiana, a classificar Deus.

Para o espírito obtuso dos clérigos é uma blasfémia duvidar do pobre Moisés que subiu a pé o Monte Sinai, para receber de Deus as tábuas com os Mandamentos, ou do arcanjo Gabriel que voou até à Palestina para dizer a uma pobre judia que estava grávida. Esta gente deve fumar erva suspeita ou tem azar na escolha dos cogumelos.

O que surpreende é o facto de os códigos penais de países civilizados acolherem como crimes atos tão estimulantes como a blasfémia e de os punirem com penas de multa ou de prisão. Eu admito que Deus não goste do que eu penso dele, já que me é indiferente o que ele pensa de mim. Irracional é poder ser-se punido por insultar quem não existe. E pior, sem o ofendido, se queixar!

O crime de blasfémia é uma sobrevivência medieval que ainda contamina os códigos penais de alguns países republicanos, laicos e democráticos.

15 thoughts on “A blasfémia, a catarse e o Código Penal”
  • Tomé

    ” O crime de blasfémia …ainda contamina os códigos penais de alguns países republicanos, laicos e democráticos ”

    Que códigos penais e quais as respectivas normas , desses países, que ainda contêm o suposto ” crime de blasfémia”, importa-se de enunciar ?

    • Carlos Esperança

      Em Portugal, o crime de blasfémia pode ser punido com prisão até 1 ano.

      • stefano666

        e na Italia?

      • Tomé

        Ai sim ? E qual a norma que o previne e pune ?

      • Tomé

        Você já percebeu que não existe nenhum ” crime de blasfémia” em Portugal ou ainda anda à nora com o nosso Código Penal ?

      • Luis

        Mentira!
        Não existe crime de blasfémia.

        Poderia o Carlos queixar-se da protecção dada pela lei às religiões em comparação como ateísmo.
        Mas o Carlos não o faz, pois sabe que o ateísmo (e não o cepticismo) é considerado, social e culturalmente, um comportamento desviante, impróprio de sociedades evoluídas, imputado a pessoas com problemas variados e sempre conectado com a insegurança e a preculosidade dos seus seguidores.

        Evidentemente que aí vem uma nuvem de desmentidos a isto e uma série de insultos. Mas isto é a verdade.

        A menos que a sociedade é que esteja errada, claro!

    • Carlos Esperança

      Leis de blasfêmia
      Em tempos mais recentes, no Ocidente, surgiu uma tendência para a revogação ou reforma das leis de blasfêmia, e onde ainda existem estas leis só são invocadas raramente. Leis de blasfêmia – hoje freqüentemente alteradas para eliminar o caráter religioso – ainda existem em vários países:
      Áustria (Artigos 188, 189 do código penal)Finlândia (Seção 10 do capítulo 17 do código penal)Tentou-se, sem sucesso, revogar a lei em 1914, 1917, 1965, 1970 e 1998.Alemanha (Artigo 166 do código penal, veja também o caso Manfred Van H.)Irã Blasphemy laws of the Islamic Republic of IranIrlanda (Veja: Constituição da Irlanda)Países Baixos (Artigo 147 do código penal)Nova Zelândia (Seção 123 dos Crimes Ato 1961)Espanha (Artigo 525 do código penal)Suíça (Artigo 261 do código penal)Reino UnidoDinamarca (Parágrafo 140 do código penal). Foi proposta revisão em 2004, mas não obteve maioria. Foi discutida desde então, e especialmente depois da crise sobre as Caricaturas de Maomé. (ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Blasf%C3%A9mia

      • stefano666

        Asutria e Alemanha ?? mas estes paises nao sao progressistas ?

      • Luis

        O Carlos está errado e está a mentir.

        Baseou o seu Post num artigo da Wikipédia, dos muitos que, infelizmente, foram criados ou adulterados para prosseguir um fim determinado. Neste caso servem de suporte a mentiras como esta que o Carlos acaba de Postar. É incrível como o ateísmo está ligado à falsa informação na Internet e, em particular na Wiki.

        Exceptuando os países islâmicos e o “avançados” USA, não existe crime de blasfémia em nenhum pais dos que aqui foram citados. Tal como não existe em Portugal.
        Existe uma coisa muito diferente que é a “ofensa ao sentimento religioso” ou “ofensa por motivos religioso”. Além disso está salvaguardado, felizmente, o direito ao respeito e segurança das pessoas e bens durante os actos religiosos.

        A ofensa por motivos religiosos não tem a ver com a blasfémia, mas sim com a discriminação das pessoas em razão da sua religião. Ninguém pode insultar outra pessoa em razão da sua confissão ou das suas práticas religiosas. Além de se tratar de um direito constitucionalmente reconhecido, está em causa a cultura e o direito por via do costume.

        Trata-se de uma ofensa pessoal, tal como um homossexual pode ficar ofendido e eu desandar, na sua presença e com a intenção de o enxovalhar, desatar a insultar a homossexualidade os que a praticam.
        A Blasfémia seria um crime colectivo. Enquanto tal não existe em num país da Europa Ocidental, ou contrário do que o Carlos diz.
        É bom lembrar que todos os países que citou reconhecem, constitucionalmente, as religiões (algumas, claro).

        Quase todos os países, o nosso incluído, protege a prática religiosa, punindo quem tentar impedir ou perturbar essa prática.

        Não entendo o que há de mal nisto.

        Evidentemente que o Carlos pode dizer que a religião é uma “forma de fraude porque Deus não existe”. Mas, essa afirmação é pessoal e não tem qualquer valor vinculativo, pois a voz do Carlos (e dos ateus) não pode ser atendida como mais fidedigna ou mais correcta que a dos crentes. Atendendo à razão da maioria (estima-se que mais de 80% das pessoas acreditam em Deus) e dos restantes, o número de ateus (que negam indelével e irreversivelmente a existência de divindades) é menos de metade; atendendo ainda a universalidade temporal e espacial, perduração das religiões e a sua indestrutibilidade ao longo dos séculos (ou contrário das doutrinas ateias), não considerar a “personalidade instituída” das religiões seria um serio acto de loucura, a rondar a demência profunda, ou a imbecilidade ou o terrorismo das minorias.

  • deus, um ateu.

    Qual é o crime de pedir dinheiro para um deus inexistente ? ou o de propagar “milagres” ? ou o de se intrometer na vida alheia ?
    Por que os asnos crentóides, ou melhor, cretinóides = crentóide + cretino = asno, podem falar as maiores asneiras, as mais absurdas patetices e nada ocorre com eles ?
    Deveriam ser processados por crimes contra a lógica, a ciência, o bom senso e a inteligência.

    • Hunig

      Ei, agorinha, cientistas são “condenados” por não terem ALERTADO com suficiente exatidão sobre terremoto. Ôpa! Então agora podem ALERTAR com total exatidão de crime classificado o que os cultos fazem como vigarice daninha ao bem-estar das pessoas. Estava na hora. Se os cientistas são condenados por não nos alertarem sobre a raivinha do deus descarregando terremotos então também têm de orientar a Polícia para trancafiar os pastorezinhos “capacitados” que vendem um “deus amoroso” e arrancam dinheiro das gentes com mentiras criminosas.

  • kavkaz

    Os deuses não se queixam das blasfémias, ficam mudos e quietos, pois não existem!

    Se existissem e fossem tão “Todo-poderosos”, como a propaganda religiosa falsa afirma, não precisariam nunca de criados para os substituírem.

  • Hunig

    Putões botam banca contra submissos interesseiros. Na hora em que botarmos esses pilantras estirados na bigorna aí a coisa conserta. Vamos ver se não vamos fazer isso …
    Bloguinho porrêta: http://riquezaevangelica.blogspot.com.br/2012/10/como-conseguir-ser-um-grande-filho.html

  • blasfemador

    “Blasfemar é um ato catártico que alivia as tensões e conduz ao bem-estar”

    Concordo. É por isso que , cá para mim, o ateísmo transforma um homem num monte de merda. E agora que já aliviei a tripa neste blogue,num aliviador acto catártico, vou escutar Bach para dormir um soninho muito retemperador.

    • Pecador

      É a ética do “Jesus de Nazaré” em toda a sua pujança, não é verdade, antolo?

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