Loading

A incongruência faz mal.

O Alfredo Dinis escreveu vários posts intitulados «O desconhecimento faz mal»(1) com o intuito de refutar a ideia de que a religião é má. Para isso, apresenta «coisas boas que se fazem em nome da religião» e que, pelo título, deve presumir serem desconhecidas dos críticos da religião. São exemplos de trabalho voluntário como o do “Serviço Jesuíta aos Refugiados”, acompanhamento de crianças, apoio a toxicodependentes e assim por diante. São realmente coisas boas e são praticadas por alguns religiosos, mas parece-me que o esforço do Alfredo tem o efeito contrário ao pretendido.

A cardiologia é uma coisa boa. Se alguém me pedir para justificar porquê direi que é boa por ser bom compreender, prevenir e tratar problemas cardíacos. Ou seja, a cardiologia é boa porque é bom aquilo que é essencial na cardiologia. Mas se, em vez desta justificação, eu dissesse que a cardiologia é boa porque há cardiologistas que fazem voluntariado em programas de acção social, cuidam de crianças nas férias e dão apoio a refugiados seria justo perguntar como é que isso faz da cardiologia uma coisa boa. É que nem é preciso ser cardiologista para fazer isso nem é preciso fazer disso para ser cardiologista. São coisas independentes.

Os próprios apologistas da religião invocam esta independência sempre que os religiosos fazem algo reprovável. Por exemplo, a propósito da violência dos muçulmanos por causa do filme e das caricaturas, o Miguel Panão escreveu que isto não indica que a religião seja má porque «Não foi a religião que praticou o ato terrorista, nem sequer se tratou de ato religioso»(2). Apesar desta violência dos muçulmanos cumprir o critério do Alfredo Dinis, de coisas «que se fazem em nome da religião – institucionalmente, e não apenas com base nos sentimentos religiosos subjectivos», concordo com o Miguel Panão. Não é por isto que se pode concluir que a religião é má porque nem é preciso ser religioso para praticar estes actos violentos nem é preciso praticar destes actos violentos para ser religioso. Mesmo que a religião seja usada para levar pessoas a cometer actos violentos, esta violência é apenas um aspecto mau da forma como alguns usam a religião e não algo essencial na religião.

Mas o mesmo se aplica a todos os exemplos do Alfredo. Ajudar as crianças, os pobres, os enfermos e os refugiados são aspectos bons da forma como alguns usam a religião. Mas não são aspectos essenciais da religião. É possível ser-se religioso sem fazer nada disto e é possível fazer estas coisas sem se ser religioso. Na verdade, em sociedades como a nossa o principal agente deste tipo de acções é o Estado. Os serviços de saúde, as escolas públicas, os planos nacionais de pensões e os fundos de desenvolvimento regional fazem muito mais por muito mais gente do que as caridades religiosas. E sem ser preciso religião.

Para avaliar se a religião é uma coisa boa ou má temos de ver se são boas ou más as suas características intrínsecas. E essas o Alfredo evita sequer mencionar, razão pela qual me parece que os exemplos dele indicam o contrário do que ele gostaria que indicassem. Uma destas características é a crença firme em alegações factuais acerca de entidades sobrenaturais, alegações para as quais não há quaisquer evidências. A reencarnação, a origem divina do corão, a alma, a vida eterna e assim por diante. Outra característica das religiões é que estas crenças são justificadas pela autoridade de fontes que, em rigor, não sabem mais acerca disto do que qualquer outra pessoa. Os sacerdotes que interpretam os livros sagrados, os gurus infalíveis, os representantes dos deuses e essa malta toda sabem exactamente zero acerca das entidades sobrenaturais de que se dizem peritos. Finalmente, é parte essencial da religião associar este tipo de crença um forte valor moral. Não se crê em Deus apenas por julgar que ele existe, tal como se crê que a Lua tem uma parte que não vemos daqui da Terra. Crê-se em Deus, principalmente, porque é imoral duvidar da sua existência.

Estar convencido de coisas sem fundamento pela falsa autoridade de quem não sabe nada do assunto e, ainda por cima, julgar que é virtude ter tais crenças e imoral livrar-se delas é uma coisa má por si. É um erro, uma confusão entre factos e valores e uma oportunidade perdida para pensar nas coisas de forma adequada. É verdade que estes erros podem ter consequências graves para todos quando estas pessoas são levadas a fazer coisas como queimar embaixadas. No entanto, isso é um factor extrínseco à religião. Não é por isso que eu digo que a religião é uma coisa má. Também é verdade que se pode usar estas convicções para levar as pessoas a fazer coisas boas mas, tal como com as coisas más, isso também não é parte essencial da religião. Não é por isso que se pode dizer que a religião é uma coisa boa.

A cardiologia é boa pelo mérito das suas características essenciais. Continuaria a ser boa mesmo que alguns cardiologistas queimassem embaixadas e não seria melhor do que é só por alguns cardiologistas ajudarem a cuidar de crianças pobres durante as férias. Da mesma forma, a religião é má pelo demérito das suas características essenciais. Não é intrinsecamente pior só porque alguns religiosos matam em nome da sua religião, mas continua a ser má mesmo que alguns religiosos ajudem os pobrezinhos em nome da sua religião. Os exemplos do Alfredo Dinis não contribuem nada para determinar se a religião é intrinsecamente boa ou má. Esta incongruência mais parece uma admissão de que aquilo que faz uma religião ser religião não tem nada de bom.

1- Alfredo Dinis, o desconhecimento faz mal (5), o desconhecimento faz mal (4), , 3, 2 e 1.
2- Miguel Panão, Pessoas mal formadas, não que a religião seja má.

Em simultâneo no Que Treta!

3 thoughts on “A incongruência faz mal.”
  • José

    A incongruência faz mal, concordo. O Ludwig, com este tipo de discurso panfletário e bacoco, só consegue ter aplausos na meia dúzia da pataratas ateus que por aqui andam:

    “1- Ajudar as crianças, os pobres, os enfermos e os refugiados são aspectos
    bons da forma como alguns usam a religião. Mas não são aspectos
    essenciais da religião”

    Ai não, então quais são os aspectos essenciais da religião, senhor Ludwig ? Atirar dois aviões contra as torres gémeas de NY ?

    2-” É possível ser-se religioso sem fazer nada disto e é possível fazer
    estas coisas sem se ser religioso. Na verdade, em sociedades como a
    nossa o principal agente deste tipo de acções é o Estado. Os serviços de
    saúde, as escolas públicas, os planos nacionais de pensões e os fundos
    de desenvolvimento regional fazem muito mais por muito mais gente do que
    as caridades religiosas. E sem ser preciso religião.”

    É possível ser-se religioso sem tratar dos mais pobres e indefesos, é verdade. Como também é possível ser-se ateu e preconizar o genocídio dos muçulmanos, como aventaram Hitchens e Harris. Mas há, contudo, uma enorme diferença entre as organizações beneméritas dos crentes e os ateus. Existem, em todo o mundo, múltiplas organizações de religiosos, que fazem em África, pelas populações pobres, designadamente os missionários católicos,muitíssimo mais do que quaisquer ateus seriam capazes. A verdade é que não se conhecem, no terreno do sofrimento humano, nenhumas associações filantrópicas de ateus. Estes, pelos vistos, gostam muito mais de alapar o rabo no comodismo dos seus sofás do que fazerem algo de concreto pela atenuação do sofrimento humano.

    Ludwig Krippahl é só mais um desses ateus, que não faz rigorosamente nada por esse combate à fome e às doenças, contrariamente a todos os missionários que arriscam a vida em prol dos seus semelhantes.

    Esta é a enorme diferença entre esses crentes e os ateus. Estes ficam-se sempre nas covas quando se trata de se organizarem em prol dos mais desfavorecidos.

    O resto é mera conversa de treta.

  • José

    A incongruência faz mal, concordo. O Ludwig, com este tipo de discurso panfletário e bacoco, só consegue ter aplausos na meia dúzia da pataratas ateus que por aqui andam:

    “1- Ajudar as crianças, os pobres, os enfermos e os refugiados são aspectos
    bons da forma como alguns usam a religião. Mas não são aspectos
    essenciais da religião”

    Ai não, então quais são os aspectos essenciais da religião, senhor Ludwig ? Atirar dois aviões contra as torres gémeas de NY ?

    2-” É possível ser-se religioso sem fazer nada disto e é possível fazer
    estas coisas sem se ser religioso. Na verdade, em sociedades como a
    nossa o principal agente deste tipo de acções é o Estado. Os serviços de
    saúde, as escolas públicas, os planos nacionais de pensões e os fundos
    de desenvolvimento regional fazem muito mais por muito mais gente do que
    as caridades religiosas. E sem ser preciso religião.”

    É possível ser-se religioso sem tratar dos mais pobres e indefesos, é verdade. Como também é possível ser-se ateu e preconizar o genocídio dos muçulmanos, como aventaram Hitchens e Harris. Mas há, contudo, uma enorme diferença entre as organizações beneméritas dos crentes e os ateus. Existem, em todo o mundo, múltiplas organizações de religiosos, que fazem em África, pelas populações pobres, designadamente os missionários católicos,muitíssimo mais do que quaisquer ateus seriam capazes. A verdade é que não se conhecem, no terreno do sofrimento humano, nenhumas associações filantrópicas de ateus. Estes, pelos vistos, gostam muito mais de alapar o rabo no comodismo dos seus sofás do que fazerem algo de concreto pela atenuação do sofrimento humano.

    Ludwig Krippahl é só mais um desses ateus, que não faz rigorosamente nada por esse combate à fome e às doenças, contrariamente a todos os missionários que arriscam a vida em prol dos seus semelhantes.

    Esta é a enorme diferença entre esses crentes e os ateus. Estes ficam-se sempre nas covas quando se trata de se organizarem em prol dos mais desfavorecidos.

    O resto é mera conversa de treta.

  • José Gonçalves Cravinho

    Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote (88anos),
    direi que admito em meu pensamento que haja quem creia em Deus,mas não posso admitir que haja quem se atreva a definir Deus e pior um pouco,a dizer que êle quer que façamos assim ou assado.Deus foi criado pelo Homem à sua imagem e semelhança e a respectiva Religião segundo os seus interêsses.As Religiões são o ópio dos Povos para que se mantenham submissos e ajoelhados perante os Poderosos.Ao Povo crente,supersticioso,ignorante perdoa-se-lhe a sua ignorãncia mas aos intelectuais,aos académicos,não se pode perdoar porque então trata-se de uma Vigarice e a Vigarice é um Crime.

You must be logged in to post a comment.