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Equívocos, parte 14. Filosoficamente nada.

O Alfredo Dinis continua a insistir que o «Equívoco fundamental» do ateísmo é o «maior drama [de] estar estruturalmente impedido de […] erradicar a religião»(1). Isto não só confunde equívoco com drama e impedimento como demonstra que o Alfredo ainda não percebeu aquilo que tenta criticar. O Alfredo tem a sua crença de cristão no centro da sua vida e na origem dos seus valores. Não admira que julgue dramático que outros rejeitem as hipóteses de haver vida eterna, criação inteligente ou um ser omnipotente que nos ama a todos. Mas o meu ateísmo não tem nada de fundamental. É apenas um efeito colateral de dois factores: a minha opção de formar opiniões que se conformem às evidências e a preponderância de evidências mostrando que não há um propósito inteligente para o universo nem vida depois da morte. Eu rejeito estas crenças do Alfredo tal como rejeito a crença em Osiris, no professor Karamba ou na astrologia. Sem drama, impedimento ou sequer grande preocupação com o que os outros acreditam. O que oponho nestas coisas das religiões, astrologias, homeopatias e tretas afins é apenas o seu impacto social negativo. Esse gostaria de ver desaparecer, admito, mas a minha incapacidade de atingir esse objectivo não constitui, por si, qualquer equívoco.

Neste episódio da sua série de equívocos, o Alfredo foca a resposta de Lawrence Krauss à questão «Porque existe algo em vez de nada?». Segundo o Alfredo, Krauss equivoca-se por querer substituir a definição filosófica de “nada” como “não-ser” por uma definição científica. Infelizmente, o Alfredo não explica porque é que isto é um equívoco, invocando apenas que «Os neopositivistas do Círculo de Viena já tinham transformado a filosofia numa ‘serva da ciência’», um salto particularmente confuso. Mas, para explicar a confusão, vou começar com exemplo mais fácil. O tempo.

Antes de Einstein a filosofia já tinha tentado definir este termo, dividindo-se em vários campos mas concordando que o tempo, fosse ideia ou real, fosse relacional ou absoluto, definia uma ordem única para os acontecimentos. Se A ocorresse antes de B, julgavam os filósofos, A ocorria antes de B em qualquer referencial e para qualquer observador. Mas Einstein notou que este conceito de tempo não correspondia à realidade e substituiu a definição filosófica por uma definição operacional. O tempo é aquilo que for medido por processos regulares que possam servir de relógio. Pela teoria da relatividade, é possível que A ocorra antes de B num referencial, B ocorra antes de A noutro referencial e ocorram em simultâneo noutro ainda. Hoje sabemos que até a ordem pela qual acontecimentos ocorrem depende do referencial.

Isto não é neopositivismo nem faz da filosofia uma serva da ciência. Ao contrário do que julgavam os positivistas, não se pode separar completamente os dados das teorias. Só se pode obter dados tendo teorias com que os interpretar, e é preciso filosofia para criar teorias antes de ter dados. Só que, sem dados, não se consegue convergir para as teorias certas. Isso faz-se com ciência, usando dados para testar especulações, rever conceitos e adaptar teorias às evidências. Ou seja, a filosofia e a ciência são apenas fases do mesmo processo contínuo de compreensão da realidade. É preciso que a filosofia especule, pois sem especular não se consegue sequer começar, mas é igualmente necessário que a ciência vá corrigindo e afinando essas especulações, pois sem isso não se sai da confusão inicial.

É isto que estão a fazer com a noção de “nada”. As definições filosóficas deram sentido ao termo recorrendo apenas a outros termos e conceitos. Por exemplo, o nada como não-ser. É o melhor que se consegue sem dados concretos que se possa usar. Mas, agora, a física pode dar uma definição operacional de “nada” que encaixa melhor com os dados que temos. É essa a definição que Krauss defende, e que parece ter escapado ao Alfredo: «o nada que normalmente chamamos espaço vazio. Ou seja, se tomar uma região de espaço e me livrar de tudo o que lá estiver – poeira, gás, pessoas e até radiação que passe por lá, absolutamente tudo de dentro dessa região…»(2). E o que sabemos agora mostra que desse nada pode, espontaneamente, surgir um universo. Já não precisamos de explicar porque há algo em vez de nada como faz a teologia, definindo “nada” como um não-ser vazio de tudo excepto um deus omnipotente desejoso de criar um universo. O mecanismo é bem mais simples. Basta o nada. Não o nada teológico ou filosófico, mas o nada real da física.

Queixa-se também o Alfredo de que Krauss «decidiu transformar as questões que começam por ‘Porquê?’ por questões que começam sempre por ‘Como?’ […] Como se um sociólogo pudesse proceder ao estudo sociológico do suicídio estudando simplesmente os diversos modos como as pessoas se suicidam.» Esta analogia é errada porque, por definição, o suicídio é um acto intencional. Obviamente, nesse caso não podemos excluir a motivação que levou o falecido a terminar a sua vida deliberadamente. Mas seria um erro do sociólogo estudar todas as mortes assumindo sempre haver motivação e intenção inteligente. Acidentes, doenças, velhice, tudo isso pode levar à morte por um “como” sem qualquer “porquê”, neste sentido de intenção e propósito. Enquanto que “Como?” é sempre uma pergunta válida, cuja resposta atenta e fundamentada pode, se for caso disso, suscitar um “Porquê?”, é um erro começar pelo “Porquê?” antes de perguntar “Como?”, porque essa pergunta assume logo à partida haver propósito e inteligência. No caso da origem do universo, essa premissa é mera especulação sem fundamento e é um equívoco começar por aí quando a melhor resposta ao “Como?” não indica qualquer “Porquê”.

1- Alfredo Dinis, Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo
2- Lawrence Krauss, A Universe from Nothing.

Em simultâneo no Que Treta!

10 thoughts on “Equívocos, parte 14. Filosoficamente nada.”
  • antoniofernando

    1. “Mas o meu ateísmo não tem nada de fundamental. É
    apenas um efeito colateral de dois factores: a minha opção de formar opiniões
    que se conformem às evidências e a preponderância de evidências mostrando que
    não há um propósito inteligente para o universo nem vida depois da morte”

    Estranha ” evidência” essa, a sua, Ludwig. Nem mesmo depois de toda a espantosa evolução, surgida após a evolução das espécies, você encontra propósito inteligente para o universo ? Então a enorme complexidade do universo e das diferentes formas de vida surgiram para quê ? Para a absurdidade da existência ? E na própria ” selecção natural”, você nada encontra de inteligente ? Foi tudo obra do mero acaso ?

    Hoje, já há vários ateus que admitem a não redução da vida a uma estrutura meramente material, como o Sam Harris, e o filósofo David Chalmers, em matéria da consciência.

    2.”E o que sabemos agora mostra que desse nada pode, espontaneamente, surgir um universo”

    O que sabemos, vírgula, Ludwig. Não há unanimidade, na comunidade científica, quanto ao hipotético facto de o universo ter surgido do nada. Não é essa, por exemplo, a perspectiva da Teoria das Supercordas ou do Multiverso.Por isso, a tese de que o universo surgiu do nada não está cientificamente demonstrada. Se o Big Bang for apenas um constante fluxo e refluxo de sucessivas expansões e contracções do Universo, no final de cada refluxo material pode voltar a surgir um novo fluxo, ou seja exactamente aquilo que se convencionou chamar por Big Bang.
    Mas registo, com a devida ironia, a circunstância de você manifestar a sua própria crença que o universo surgiu do nada, quando essa é apenas uma tese meramente hipotética.

    3. “No caso da origem do universo, essa premissa é mera especulação sem
    fundamento e é um equívoco começar por aí quando a melhor resposta ao
    “Como?” não indica qualquer “Porquê”.”

    Se você quer olhar o universo do ponto de vista estritamente material, pode evidentemente adoptar a perspectiva meramente descritiva do ” como”.

    Há, no entanto, muitos outros, como eu, que se interrogam sobre o ” porquê”. Para os quais, a simples problemática do ” como” não chega para explicar o sentido da vida.

    Por isso é que você é ateu e eu crente.

  • José Gonçalves

    Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote(88anos),digo que admito em minha consciência,que haja quem acredite em Deus,mas o que não admito em minha consciência é que haja quem se atreva a definir Deus e pior um pouco,a dizer que êle quer que façamos assim ou doutro modo.Não posso crer como verdade que Moisés falou com Deus e que dêle recebeu as Tábuas da Lei que são afinal os Dez Mandamentos dos biblico-jdaico-cristãos.Ora,se como ensina a Igreja,Deus é um Ser com todos os seus predicados num grau infinito,não pode ter necessidade seja do que fôr.
    Então porque é que criou o Mundo e depois dum bocado de barro fez Adão e duma costela dêste fez Eva?Depois colocou-os no Paraíso Terreal mas proibíu-os de comer o fruto da árvore da ciência do Bem e do Mal,o que êles não cumpriram e como tal foram expulsos do Paraíso Terreal.Ora se Deus é infinitamente sábio,sabia antecipadamente que êles não cumpririam sua ordem e daí eu só posso concluir que êste Deus é um Ser caprichoso,cruel e tirano,o que não se pode admitir num Deus que é infinitamente perfeito 
    Ensina a Igreja que mais tarde êste biblico Deus Javé/Jeová que é o Padre Eterno dos cristãos,exigiu que seu «filho»descesse ao Mundo para sofrer e morrer para remir o pecado original de Adão e Eva,pecado êste que se estendeu a toda a humanidade.Então eu pergunto:-Que Deus é êsse assim tão mau/tão cruel,tirano e sanguinário/que se porta  que um marau/ e mata o «filho»no Calvário??!! Em face de toda esta doutrina dos biblico-judaico-cristãos,só posso concluir que um tal Deus só pode ter sido criado pelo Homem à sua imagem e semelhança. 

  • Jbtorrado

    Ha ateus que também acreditam, mas sem aquela fé que move os crentes teistas.
    Como eu por ex,ateu empedernido, a minha crença saiu gorada. Ou melhor, parcialmente gorada: a Marine não foi à segunda volta, mas humilhou o basbaque do Melencon ( uma espécie de ave rara tipo Bloco de “Esquerda”) teve um resultado proximo do que eu acreditava ter, i é, à  volta dos 20% e suficiente para a segunda.Paciência, ce n’est que partie remise.
    Resta-me continuar a ter fé que a França acabara por ressuscitar do inferno a que foi levada pela racaille politiqueira e pelo tsunami invasor dos soldados de Alah nos ultimos 30 anos. E mais, acto continuo, reedite a vitoria de Poitiers do Carlos Martelo, e a batalha de Lepanto.
    Tenho uma fé inabalavel que a Marine (uma dupla incarnação de Carlos De Gaulle e da Joana do Arco)  consiga libertar a França (e a Eurabia)  do desastre economico e da ditadura do islamonazismo e aliados colabôs.
    Beijinhos e abraços da Eurabia. 

  • Jbtorrado

    O comentario anterior é da autoria do “sempapasnalingua”.
    Um erro  involuntario, e não uma tentativa de ludibriar os leitores e os redatores que  conhecem a minha verdadeira identidade hà mais de 8 anos e com muitos km de comentarios no DA.
    Enfim, outros tempos…
    szmpa

  • sempapasnalingua

    Mau…Que é que se passa?
    Porque aparece esse nome esquisito em vez da minha verdadeira identidade
    sempapasnalingua?

  • sempapasnalingua

    teste

  • sempapasnalingua

    okay

  • antoniofernando

    “Mas o meu ateísmo não tem nada de fundamental. É apenas um efeito colateral de dois factores: a minha opção de formar opiniões que se conformem às evidências e a preponderância de evidências mostrando que não há um propósito inteligente para o universo nem vida depois da morte”

    Em nota complementar ao meu anterior comentário, desejo acrescentar algo mais, relativamente a esta passagem do texto do Ludwig.

    Se LK se quer circunscrever àquilo que chama evidências, só pode, do meu ponto de vista, ater-se ao lado meramente descritivo da sua análise. Ou seja, que o universo tem esta ou aquela conformação material.

    A questão de saber se o universo tem ou não propósito inteligente já é de natureza metafísica.

    E, neste âmbito de análise,é tão metafísica a perspectiva que intui esse sentido para o universo como aquela que o nega.

    Ou seja: o Ludwig acredita que o universo não tem propósito inteligente, mas também não tem forma cientifica de demonstrar essa convicção ou essa crença.

    Ou seja ainda:

    O Ludwig incorre em clara contradição quando, por um lado, postula que apenas lhe interessa o ” como” avaliar o universo, mas, por outro, se pronuncia quanto ao ” porque” o universo surgiu e evoluiu.

    Como sabe o Ludwig, do ponto de vista estritamente científico, que o universo não tem sentido, o tal ” porque” que afinal nega ?

    Não sabe. É problemática sobre a qual não cabe à ciência resolver. Aqui estamos no domínio da Metafísica, não da ciência.

    Prova, afinal, que nem LK escapa à sua própria metafísica. Ou seja, ao seu próprio corpo de crenças.

  • antoniofernando

    Terceira e final reflexão sobre este interessante artigo do Ludwig:

    Segundo ele sustenta, o Universo poderia ter surgido do ” nada real da física” . Mas o que é isso do ” nada real da física” ? Antes do mais que se possa contrapor, esse ” nada” é uma total incongruência segundo o princípio da causalidade da Física, de que todo o evento físico provém de outra causa física. O ” nada ” em Física é algo totalmente absurdo e ilógico. No entanto, Ludwig resvala com a maior das facilidades para a enunciação de uma tese científica supostamente geral, que, contudo, não passa de mera especulação física. Repito: se o universo evoluir e involuir ciclicamente não há lugar para a tese do ” nada real da física” que Ludwig invoca.Após o termo da involução seguir-se-ia uma nova evolução de múltiplos e sucessivos big bangs, a partir de uma base sempre material. Pode Ludwig refutar esta alternativa hipótese científica ? Não pode.

    O que é o ” nada real da física” Ludwig ? Sabe explicar ? Consegue dizer ” como” é que, segundo as conhecidas leis deterministas da Física, a matéria inicial poderia surgir de um ” nada ” ?

    Vá, aceite este meu desafio, venha aqui explicar a sua asserção.

    Como se pode ver, o Ludwig acaba também por emitir algumas das suas proposições a partir de meras especulações metafísicas ou de meras crenças pessoais, como quando sustenta, metafisicamente, que o universo não tem nenhum propósito.

    Deus é perfeitamente compatível com a hipótese de o Universo ou os universos sempre terem existido, porque uma coisa é o mundo material estritamente avaliado, outra é a consideração intuitiva de que pode ter havido Origem Espiritual para o surgimento do mundo material.

    Mas foi o Ludwig quem postulou que o universo poderia ter surgido do Nada.

    Ora, como as leis físicas não conseguem explicar esse Nada, nem conseguem explicar como é que o universo possa ter surgido do Nada, então, de assim fosse, a hipótese metafísica e teológica seria ainda mais plausível.

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