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Christopher Hitchens (1949-2011)

A doença que o matou ontem atingiu-o no pico da fama. E portanto será provavelmente mais recordado pelos pronunciamentos anti-teístas dos últimos anos do que pelos ataques anteriores à «Madre Teresa de Calcutá» e a Jerry Falwell, a Henry Kissinger e a Bill Clinton, à princesa Diana e à família real britânica.

Do grupo anglo-saxónico conhecido como os «Novos Ateus», Dawkins é o mais informado cientificamente, Dennett o filósofo, Sam Harris o radical e Hitchens é (era) o melhor escritor. Juntava uma vasta cultura erudita (e política) com um estilo de escrita fluente, preciso e humorístico, combinação só possível para um genuíno produto da região demarcada de Oxford. Após as décadas em que pensadores ateus se dedicavam a refutar a existência de «Deus», e quando o esforço já é mais provar que existe ética e moral fora da religião, devemos-lhe, enquanto ateus, a eficaz difusão da noção «anti-teísta» de que «Deus» não apenas não existe como seria péssimo que existisse (noção muito útil para contrapor aos religionários que aceitam as dúvidas sobre a existência d´«Ele» mas argumentam que a ideia de «Deus» é benfazeja e útil).

Hitchens era também, dos ateus hoje mais mediatizados, o que melhor entendia o papel histórico e político do anticlericalismo no combate a todas as formas de autoritarismo. Numa conferência em Lisboa, começou mesmo por citar Marx, no tal bitaite do «ópio do povo», que realmente significa que o homem (ou a mulher) se deve libertar da «alienação» religiosa para depois encetar o combate pela melhoria das suas condições materiais. Para Hitchens, derrubar ditadores ou derrubar santos dos altares era quase o mesmo. Como disse na última entrevista com Dawkins, «(…) para mim, o totalitário é o inimigo – aquele que é o absoluto, que quer controlar o interior da tua cabeça, não apenas as tuas acções e os teus impostos. E as origens disso são teocráticas, obviamente. O início disso é a ideia de que há um líder supremo, um Papa infalível, ou um rabino chefe, ou seja o que for, que serve de ventríloquo para o divino e nos diz o que fazer». O seu paralelo entre o Natal e a Coreia do Norte compreende-se.

O afastamento de Hitchens do trotsquismo terá começado em Portugal, onde observou em 1975 o nosso período revolucionário, numa das suas muitas reportagens da linha da frente dos conflitos mundiais. Afastar-se-ia ainda mais de alguma esquerda europeia em 1989, quando o aiatolá de Teerão emitiu um apelo ao homicídio de Salman Rushdie e muito poucos reagiram. Mais tarde, muitos se chocaram com o seu apoio à guerra do Iraque (embora esquecendo as suas críticas à tortura e à espionagem interna que a acompanharam), mas a coerência de Hitchens era o combate a todas as ditaduras (espirituais e materiais) e a defesa do pensamento livre e da liberdade do indivíduo. Os seus modelos eram Thomas Paine, Thomas Jefferson e George Orwell, todos eles heterodoxos e cosmopolitas.

Nos últimos meses, sabendo que o fim estava próximo, garantiu que não se converteria. Mais: afirmou que na hora final gostaria de estar «activo» e «olhando-a de frente e estar a fazer algo quando chegasse». Que tenha sido assim.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

14 thoughts on “Christopher Hitchens (1949-2011)”
  • Hunig

    Aí, péga esse hitchens e o tal do dennet, e enfia eles onde quiser, mas não baba o ôvo desses troço não, tô te falando …

  • Joaquim Silva

    “Eu não quero alienar os muçulmanos, quero eliminá-los”

    Christopher Hitchens

     

    http://advivo.com.br/blog/antonio-ateu/christopher-hitchens-deus-nao-e-grande-e-nao-existe

  • Joaquim Silva

    “Sam Harris quer matar os muçulmanos todos”

    Filipe Castro, ” Esquerda Republicana”, 22/10/2011

    http://esquerda-republicana.blogspot.com/2011/10/four-horsemen.html

     

  • Esquerdista e Republicano

    “O Führer (Sam Harris) deseja a Solução Final dos
    islamicos…
    ele merecia o prêmio Milosevic dos direitos humanos”

     

    22/10/2011

     

    Esquerda Republicana

     

    http://esquerda-republicana.blogspot.com/2011/10/four-horsemen.html

     

    • Rjgalves2001

      A frase que reproduziu é dum comentário do Stefano, que não escreve no «Esquerda Republicana». É apenas um comentador. Como aqui.

  • antoniofernando

    “Os seus modelos eram Thomas Paine, Thomas Jefferson e George Orwell, todos eles heterodoxos e cosmopolitas”

    Ricardo Alves

    Sim ? Thomas Paine foi modelo de Christopher Hitchens ? Tem a certeza ? Leia aqui:

    “Creio em um Deus, e nada mais; e espero alegria após esta vida.Creio na igualdade do homem; e creio que os deveres religiosos
    consistem em fazer a justiça, amar a misericórdia e esforçar-se por
    fazer feliz o nosso próximo.No entanto, a fim de que não se suponha que eu creia em muitas
    outras coisas além destas, eu devo, no correr desta obra, declarar as
    coisas nas quais eu não creio e minhas razões para não fazê-lo.Eu não creio no credo professado pela Igreja Judaica, pela Igreja
    Romana, pela Igreja Grega, pela Igreja Turca, pela Igreja Protestante,
    nem por qualquer outra igreja que eu conheça. Minha própria mente é
    minha própria igreja.Todas as instituições eclesiásticas nacionais, sejam judaicas,
    cristãs ou turcas, aparentam-me ser nada mais que invenções humanas,
    estabelecidas para aterrorizar e escravizar toda humanidade, além de
    monopolizar o poder e o lucro.Não pretendo condenar, por meio desta declaração, aqueles que crêem
    de outra forma. Eles têm o mesmo direito às suas crenças assim como eu
    tenho às minhas. Mas é necessário à felicidade do homem que ele seja
    mentalmente fiel a si mesmo. Infidelidade não consiste em crer ou deixar
    de crer. Ela consiste em professar crer algo em que não se crê”

    Thomas Paine, ” The Age Of Reason” , 1974, pág. 50

    • Rjgalves2001

      Obrigado por ter ilustrado o que eu escrevi. 😉

    • HAMONBAAL

      Mas fifi, fazer feliz o nosso próximo não implica que entres em contradição quando vens para aqui provocar, falsificar nicks, insultar etc etc ?

      Ah !  Já percebi, desculpa.

      Tu tornas-nos felizes porque nos fazes rir com as tuas figuras de anormal que são muito  tristes, sim, mas também cómicas à brava.

  • Anónimo

    Hitchens fazia vista grossa pra Arabia Saudita

    • Rjgalves2001

      Isso é falso. Criticou a Arábia Saudita e o Irão em várias ocasiões. E Israel também.

      • Anónimo

        Tem certeza?? Olha.. atualmente a imprensa corporativa tem sido indulgente com os sauditas e israelis.

  • Brant

    Um palco e bucéfalos defendendo seus manipuladores: isso com apelido de dennet e o outro esquisito com apelido de hitchens são “pastores” forjados pra ludibriar ateus, porque sem-crenças com o pensamento não-condicionado, vêem logo os farsantes no modo de encantar da ladainha.

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