Loading

Treta da semana: hepatoscopia.

A imagem abaixo mostra dois diagramas de fígado de carneiro. Os babilónios desenvolveram a prática de prever o futuro pelo fígado dos animais. Os etruscos chamaram haruspices a estes rituais, o que ficou auspices em Latim. Os babilónios catalogaram detalhadamente que pedacitos de fígado correspondiam a que divindades ou acontecimentos e ensinavam-no como parte da formação dos seus sacerdotes. Era uma tecnologia usada ao mais alto nível, até vedada ao povo comum, de tão poderosa que a julgavam ser.


Fígado

Diagramas de fígado de carneiro. À esquerda, da Babilónia, em barro (Archeolog) e à direita, uma variante etrusca, em bronze (Wikipedia).

No entanto, apesar do detalhe que nos chegou por diagramas como estes e relatos desta prática, ninguém se preocupou em explicar como é que descobriram isto. Nem babilónios, nem etruscos, nem romanos. O que é pena, porque o fundamental deste suposto conhecimento é precisamente a forma como os primeiros praticantes da arte teriam encontrado o pedaço de fígado correcto para cada deus. Como qualquer livro, história ou relato, estes diagramas só seriam conhecimento se houvesse uma relação evidente entre o seu conteúdo e os aspectos da realidade que pretendem descrever. Sem isto, não passam de uma curiosidade histórica.

Este problema não afecta apenas o fígado. Passa-se o mesmo com a astrologia, com o tarot, com as medicinas alternativas e toda a superstição em geral. Escreve-se resmas de papel descrevendo as energias positivas, os efeitos das constelações e o que cada carta prevê, mas ler isto é como ler o futuro no fígado do carneiro.

E é o que se passa com as religiões e as teologias. Alguns religiosos dirão que não, que a religião é acerca do sentido, do transcendente e coisas que não têm nada que ver com isto. Mas há dois problemas com este argumento.

O primeiro é que, historicamente, estas artes divinatórias eram religião. Eram os sacerdotes que praticavam astrologia, que previam o futuro nas entranhas dos animais e que sacrificavam animais e prisioneiros para apaziguar os deuses. A praticamente tudo o que chamamos superstição já houve quem chamasse religião. Em muitos casos, ainda há. E não há forma objectiva de distinguir entre as práticas que se reconhece religiosas e as que consideramos superstição. Como ouvi uma vez um antropólogo dizer a superstição é a religião dos outros.

Mas o segundo problema é o mais fundamental. Todas as religiões têm o equivalente aos diagramas dos fígados. Os livros sagrados, os dogmas, as alegações acerca do que é que cada deus quer, de quem era virgem, quem ressuscitou, quem recebeu ordens de um anjo, e assim por diante. E têm o equivalente aos videntes que interpretavam os fígados. Os sacerdotes, os teólogos, os peritos naquilo que, no fundo, não pode ser conhecimento por ser apenas alegações às quais falta evidências de corresponderem ao que pretendem representar.

É por isso que é tão importante perguntar como é que sabem o que dizem saber. Se perguntarem a um físico como sabe a idade das estrelas, ou a um bioquímico como sabe a estrutura do ADN, eles explicam com o detalhe que quiserem. Mais detalhe do que quiserem, provavelmente. O conhecimento é essa ligação entre as descrições e aquilo que estas descrevem, um encadeado de dados e inferências que se pode apreender e compreender. Sem mistérios insondáveis, sem saltos de fé, sem fontes autoritárias, poderes especiais ou revelações divinas.

Para conhecimento não basta apenas uma lista de alegações acerca da realidade. Para se saber é preciso também conseguir fundamentar essas alegações. Não pela fé mas, tal como a realidade, com algo que resista à dúvida. O resto é inventar deuses no fígado do carneiro.

Em simultâneo no Que Treta!

5 thoughts on “Treta da semana: hepatoscopia.”
  • Anónimo

    “Se perguntarem a um físico como sabe a idade das estrelas, ou a um bioquímico como sabe a estrutura do ADN, eles explicam com o detalhe que quiserem. Mais detalhe do que quiserem, provavelmente. O conhecimento é essa ligação entre as descrições e aquilo que estas descrevem, um encadeado de dados e inferências que se pode apreender e compreender. Sem mistérios insondáveis, sem saltos de fé, sem fontes autoritárias,
    poderes especiais ou revelações divinas.”

    Ludwig Krippahl

    A) A constante cosmológica  foi proposta por Albert Einstein como uma modificação da teoria original da relatividade geral ao concluir um universo estacionário. Após a descoberta do deslocamento para o vermelho de Hubble e introdução do paradigma do universo em expansão, Einstein abandonou esse conceito. Entretanto, a descoberta da aceleração cósmica na década de 1990 renovou o interesse na constante cosmológica.

    A constante cosmológica Λ aparece nas equações de campo modificadas de Einstein na forma por ele ” imaginada”

    A constante cosmológica foi introduzida por Einstein nas equações relativísticas para que estas conduzissem a um universo estático (eterno e imutável). Entretanto, com a descoberta da expansão do universo através de uma hipótese teórica do astrónomo neerlandês Willem de Sitter utilizando das equações da Relatividade Geral em 1917, ideia esta que fora depois reforçada em 1929 pelo astrónomo americano Edwin Hubble com a observação do afastamento de galáxias através do Desvio para o Vermelho “redshift” (que obedece à Lei de Hubble-Homason), ela acabou sendo descartada. A constante cosmológica é um termo que equilibra a força de atração da gravidade. Toma a forma de uma força gravitacional repulsiva e foi adicionada quase como uma ‘constante de integração’ às equações de Einstein. Ao contrário do resto da relatividade geral,
    esta nova constante não se justificava para nada no modelo atual da gravidade, e foi introduzida exclusivamente para obter o resultado que na época se pensava fosse apropriado.

    B) O paradoxo da informação em buracos negros resulta do somatório de efeitos previsíveis em algumas teorias envolvendo as leis de um universo imaginário com as leis da relatividade geral e a mecânica quântica igualmente deduzidas.

    A informação originada dos buracos negros é um desses efeitos que tem sido um assunto controverso entre os cientistas, visto que a informação a qual os sentidos humanos são adaptados, dependem da energia eletromagnética ou seja da luz e como, os buracos negros atraem tanto a matéria como a energia da luz, não há como confirma-los ou saber da existência deles tanto no macro como no microcosmo.

    C) Se tivessem perguntado a Einstein como justificaria um universo supostamente não estacionário, ele teria explicado ” tudo muito direitinho” através da sua ” famosa” equação da ” constante cosmológica”.

    E se alguém tivesse questionado Stephen Hawking àcerca do seu ” parodoxo dos buracos negros, segundo o qual toda a informação material desapareceria dentro desses buracos, ele teria rapado da sua também ” famosa” equação.

    Mas afinal, por muito ” direitinho” que tivessem explicado as suas teses, elas simplesmente estavam completamente erradas.

    A questão é: quando pode a Ciência asseverar com toda a absoluta certeza a veracidade dos seus postulados ?

    E a resposta é: não pode.

    Há sempre a hipótese de alguém vir demonstrar que qualquer postulado está errado, tal como, por exemplo, também sucede com a eficácia ou ineficácia das chamadas artes divinatórias.

    O problema é que alguns pseudo-objectivistas se recusam a reconhecer a recorrente relatividade das apregoadas ” evidências cientificas” e também se acham no direito de contestar todas as restantes formas de Conhecimento que não passem pelo crivo da sua própria falibilidade.

  • joao matos

    @antoniofernando2:disqus 
    a ciencia não é um dogma, apenas o conhecimento ou certeza que se tem em determinado período. Até aquela data, pelos dados presentes e reprodução pelo método obtem-se determinada teoria que não sendo refutada torna-se o paradigma. só porque conheces alguma coisa não significa que seja a verdade mas apenas a tua percepção limitada. O conhecimento pode ser adquirido de várias formas e a simples observação da causa/consequência por si só não explica nada. grande exemplo na deslocação do sol em torno da terra.

    Não te posso apontar o dedo porque baseado no conhecimento que obtiveste tiraste a tua conclusão, mas tens de aceitar que a falta de dados e ou novos dados possam alterar conhecimentos anteriormente adquiridos.

    • Anónimo

      O Conhecimento pode ser adquirido de várias formas é certo, mas, como sabemos,a falibilidade dos pressupostos científicos tem sido uma constante verificável, ao longo das diversas etapas do processo histórico.

      Algo tão aparentemente ” evidente” como ” a distância mais curta entre dois pontos é uma linha recta”, afinal é uma asserção errada. Todo o espaço universal é curvo. Por isso, em bom rigor cinetífico, não pode haver linhas rectas num espaço curvo. Logo, ” a distância mais curta entre dois pontos é uma linha curva”, não recta.

      Há várias formas de saber que foram sujeitas a uma metodologia diferente de validação, usando critérios de aferição  fora do ortodoxo ” método experimental”.

      Significa isso que essas formas de Conhecimento não são merecedoras de aceitação ?

      Depende. Charlatanismo e mistificação existem em toda a realidade humana.É necessário discernir prudentemente o trigo do joio.

      É possível a adivinhação do futuro por métodos intuitivos ? Não sei, não tenho bases para admitir que sim nem que não.

      Nós conhecemos já todas as leis físicas sobre o espaço-tempo ? Essa dimensão espacial- temporal é cindível ou compacta ? Não sei, mas o Einstein apontava para a possibilidade de o espaço-tempo ser compactável e tudo estar a acontecer ao mesmo tempo: o tempo da pré-história, os tempos medievos, a modernidade e o que seja o futuro.

      Qual o papel da Intuição no processo do Conhecimento ? Descartável ou fonte de aquisição de saberes que se foram consolidando pela verificação de certas constantes repetitivas ?

      Como é que é intelectualmente possível estigmatizar, por exemplo, como faz LK, as chamadas ” medicinas alternativas” em detrimento das ditas ” convencionais” ?

      Milhares de anos de busca de Conhecimento na linha das medicinas alternativas, como a acupunctura, a quiropatia, a fitoterapia, a osteopatia, são para deitar fora só por causa da constante atitude preconceituosa de LK, de só admitir  parâmetros tão restritos de aferição ?

  • joao matos

    se não podes prova-lo…. não tens bases então é não!!!! não sabemos até termos bases, até la ficamos com a humildade da limitação humana, ou da sociedade em que vivemos que continua a competir em vez de cooperar…. não é uma questão de estigmatizar (isto é o meu ponto de vista) mas sim de não aceitar porque sim. após a sua validação terão todo o valor que é o que acontece actualmente aos poucos. BTW aquilo que tu chamas preconceito talvez seja mais uma industria gigantesca de milhões que não te quer curar porque ganha dinheiro se permaneceres doente 😉

    • Anónimo

      Humildade da limitação humana ? Qual, aquela que quer à viva força impor como único critério de validação o positivista de aferição ? O da medicina convencional em detrimento de qualquer hipótese da chamada medicina alternativa ? Qual ? A da medicina convencional que,até há pouco tempo, se insurgia contra a acupunctura e hoje já é reconhecida pela nossa Ordem dos Médicos ? Qual ? Medicinas alternativas, sim, mas desde que os profissionais bem instalados nos seus postos ortodoxos passem a controlar economicamente os benefícios de outras formas de Conhecimento, como a acupunctura, a osteopatia, a fitorepia, a quiropatia?
      Humildade, qual ? A que recusa liminarmente milenares formas de Conhecimento, validades pelo critério da experiência adquirida ?
      Humildade, qual ? Aquela que afasta imediatamente qualquer tipo de reflexão sobre as experiências de quase morte, a fenomenologia mediúnica, a hipotética regressão a vidas passadas ?
      Querem provas ? Não querem, não. Querem é manter as suas posturas intelectualmente fechadas a qualquer abordagem empírica que saia fora dos seus próprios preconceitos ideológicos ” científicos”…

You must be logged in to post a comment.