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Treta da semana: decida-se…

Segundo discursou Joseph Ratzinger recentemente em Espanha, «sabemos bem que fomos criados livres, à imagem de Deus, precisamente para ser protagonistas da busca da verdade e do bem, responsáveis pelas nossas ações e não meros executores cegos, colaboradores criativos com a tarefa de cultivar e embelezar a obra da criação. Deus quer um interlocutor responsável, alguém que possa dialogar com Ele e amá-Lo.»(1) Tirando o problema de, na verdade, não saberem isto – apenas acreditam, mas não há justificação objectiva para considerá-lo conhecimento – o conselho implícito parece-me bom. Temos de ser responsáveis, buscar a verdade e ter capacidade para dialogar. Infelizmente, Ratzinger trata também de contradizer estes conselhos.

Dialogar exige procurar razões em comum de onde se possa encetar um raciocínio partilhado. Se um afirma que a Terra é plana e o outro defende que é esférica, não pode ser esse o ponto de partida para uma conclusão. Terão de concordar primeiro acerca do que conta como evidências e se essas evidências existem de forma a suportar alguma das hipóteses. Fotografias tiradas de órbita ou a sombra que a Terra projecta na Lua durante um eclipse lunar, por exemplo. Só assim se pode ter um diálogo racional que ajude a resolver a divergência. No entanto, os católicos fazem como Ratzinger e presumem que «fomos criados livres, à imagem de Deus» é o ponto de partida. Recusam-se a apresentar evidências que possam suportar essa alegação e ainda afirmam que estas coisas são verdades impossíveis de testar, excluindo logo à partida a possibilidade de partilhar razões com quem não acredite nisto, o que impossibilita o diálogo. Se os católicos são bons a dialogar com o seu deus é apenas por se tratar de um monólogo.

Ratzinger critica também os «muitos que, julgando-se deuses, pensam que não têm necessidade de outras raízes nem de outros alicerces para além de si mesmo. Desejariam decidir, por si sós, o que é verdade ou não». Suspeito que a crítica se dirija a ateus como eu, o que é irónico visto não sermos nós quem se arroga infalível, em certas matérias, por alegada orientação divina. E isto contradiz directamente a sua exortação à procura da verdade. Só quem deseja decidir por si se algo é verdade ou não é que pode procurar a verdade. Quem, pelo contrário, delegar essa tarefa a terceiros, limitar-se-á a enfiar barretes.

Quer também Ratzinger que os jovens, e todos nós, sejamos «responsáveis pelas nossas ações e não meros executores cegos», o que é de louvar. Mas depois aponta o dedo a quem quer «decidir, por si […] o que é bom ou mau, justo ou injusto», e que, ao contrário das palavras que «instruem, sob alguns aspectos, a mente; as palavras de Jesus, ao invés, têm de chegar ao coração, radicar-se nele e modelar a vida inteira». Considerando que as alegadas palavras de Jesus chegam por via de “testemunhado” e “interpretação” da parte de profissionais como o Ratzinger, o que ele está a recomendar é que sejamos eticamente responsáveis mas sem decidirmos o que é justo ou injusto e aceitando o que ele nos diz sem pensar muito no assunto. Isto é claramente contraditório.

Um artigo recente na Spiegel relata uma correlação significativa entre o secularismo e a ética, com os descrentes sendo mais tolerantes e tendo mais tendência a opor a discriminação, a guerra e a pena de morte do que os crentes no mesmo nível de educação e estrato social. O título do artigo pergunta se o secularismo torna as pessoas mais éticas (2), mas penso que, em grande parte, será o contrário. O que o Ratzinger propõe é uma contradição porque ninguém pode ser responsável nas suas decisões se delega a terceiros algo tão fundamental como distinguir o justo do injusto e o bom do mau. Bombistas suicidas e outros fanáticos fazem-no, convictos de cumprir a vontade do seu deus, mas quem se sente constrangido por considerações éticas não aceita facilmente a conversa dos alegados representantes divinos. E uma vez assumida a responsabilidade por estas decisões, a religião perde o seu papel fundamental, restando apenas o hábito e o medo de desiludir pais e avós. Para muitos isso não é suficiente para continuar adepto.

Segundo o Papa, e muitos bispos, o problema principal da Igreja é o ateísmo. Mas nas críticas ao ateísmo acaba por deixar a descoberto o verdadeiro problema do catolicismo. Dizem buscar a verdade mas abdicam da capacidade de determinar o que é verdadeiro e o que é falso. Dizem assumir responsabilidade ética mas delegam a responsabilidade de decidir o que é bom e o que é mau. E dizem querer dialogar mas não reconhecem a necessidade de justificar as suas premissas de forma que os outros as possam aceitar. O maior inimigo da Igreja católica não é o secularismo. É o catolicismo.

1- Canção Nova, Discurso do Papa na Festa de Acolhida dos jovens na JMJ 2011. Obrigado ao Ilídio Barros pelo link.
2- Spiegel Online, Does Secularism Make People More Ethical?. Já não me lembro onde vi isto primeiro, mas recentemente foi via o João Vasco no DA.

Em simultâneo no Que Treta!

17 thoughts on “Treta da semana: decida-se…”
  • JoaoC

    Não posso deixar de concordar em alguns pontos. O Santo Padre esteve MUITO BEM em todos os seus discursos em Madrid, mas faltou-lhe declarar sem medos que a Verdade e o Caminho a seguir (cada um tendo a opção de o seguir ou não seguir, livremente) a que aspiramos e que procuramos só se encontra na Igreja Católica.

    Portanto, é compreensível que o seu discurso, infelizmente ainda demasiado ambíguo, aparente ser algo contraditório para quem está “de fora”…

    • Anónimo

      Tem graça, que ainda ontem estive a falar com um tipo que me garantiu que o melhor caminho é seguir Maomé.
      Na dúvida, não sigo nem um nem outro. Até porque quem tem dado provas, em questões de salvação, é o INEM e os nadadores-salvadores, os bombeiros, etc. As religiões ainda não salvaram nada que se visse..

      • Anónimo

        Sim, em questões de salvação só vejo promessas, promessas, e SE acreditarmos neles, SE pagarmos o dízimo, SE não usarmos preservativo, SE fizermos o que os sacerdotes querem SE, SE, SE…

        Para uma suposta salvação desinteressada, supostamente por amor, são demasiados SE, e todos tendentes a perpetuar interesses muito terrenos, como o poder terreno dos chefes das igrejas.  

        Tudo isto para uma suposta salvação, num suposto outro mundo, onde supostamente tudo será muito feliz.

        A prova ?   É porque eles dizem que sim.

        Porque é que eles dizem que sim ?   Porque outros iguais a eles também diziam que sim.

        Tudo junto não me parece que valha a pena andar às ordens de um qualquer só porque diz que fala com deus.  

        Aliás, por certas amostras de tipos que dizem que falam com deus, como o Bin Laden ou o Antonio Fernando, o melhor é ter mesmo muito cuidadinho…

    • António Rodrigues

      “a Verdade e o Caminho a seguir (cada um tendo a opção de o seguir ou não seguir, livremente) a que aspiramos e que procuramos só se encontra na Igreja Católica.”
      Parece que a “Nossa Senhora do Calvêlo”, em Celorico de Bastos, não é católica.
      Ou, talvez tenha sido milagre, da Nossa Senhora, ter morrido só uma pessoa.
      E os evangélicos dirão que foi castigo, do Espírito Santo, por andarem a adorar imagens, que a “Palavra de Deus” classifica de idolatria, que “Senhor” condena.
      Outro milagre foi em Madrid: Deus Fez jorrar água do céu para apagar a sede e o calor do(a)s jovens, e das freiras que andavam afogueadas. Ou seria para não permitir que o papão acabasse o discurso a dizer mais “bacoradas”?

  • BBB

    Folclore moralista. És um reaccionário disfarçado de «relativo»… aproveita os pontos ambíguos na ordem discursiva, usa métodos jurássicos, só para concluir com a «verdade possível»: o que se exclui desse raciocínio enviesado é «fatal», ilegível. E, depois, lá vem a publicidade venéfica do mau ateísmo a trote, pois só um dia (talvez) nos debruçaremos com seriedade sobre o(s) assunto(s).

    • Anónimo

      Ah.

      O “bom ateísmo” é aquele que concorda sempre com o papa ?

      Não te disse já que, para seres minimamente credível para passar por ateu, não podes por as tuas falsas identidades “ateias” a concordar sempre, sempre, com o papa ?

      Além de mentiroso tu tens de ser idiota ?

      Vai-te tratar animal.  As tuas aldrabices até enojam os outros  crentes.

      • BBB

        Descubra as diferenças:

        Bolinho de arroz do Ritz
        Rendimento: de 30 a 40 unidades

        Ingredientes
        – 4 xícaras de arroz bem cozido- 4 ovos- 1/4 xícara de farinha de rosca- 1 xícara de queijo parmesão ralado- 1/2 colher (chá) de fermento em pó- 1/2 xícara de salsinha picada- 1/2 xícara de cebolinha picada- 1/2 colher (chá) de sal- 1/4 de colher (chá) de pimenta-do-reino- 1 l de óleo (ou mais, se necessário, para fritar)

        Modo de preparo
        Coloque numa tigela o arroz, os ovos, a farinha de rosca, o queijo, o fermento, a salsinha e a cebolinha. Tempere com sal e pimenta-do-reino. Misture bem. Numa frigideira funda, aqueça o óleo e doure os bolinhos, que devem ser moldados na mão, um a um. Retire com espumadeira, escorra bem e sirva em seguida.

        ________________________

        Bolinho de arroz do Filial
        Rendimento: 16 unidades

        Ingredientes
        – 2 xícaras de arroz cozido- 1 xícara de parmesão ralado- 2 colheres (sopa) de cebola- 1/2 colher (sopa) de cebolinha- 2 ovos- 1/2 colher (café) de raspas de limão- 2 colheres (sopa) de farinha de trigo- 1 batata média- sal a gosto- farinha de rosca para empanar

        Modo de preparo
        Cozinhe a batata, amasse e reserve. Junte o arroz cozido, o parmesão, a cebola, a cebolinha, os ovos, o sal, as raspas de limão e a farinha de trigo até dar o ponto. Amasse bem a mistura, modele os bolinhos e os empane com a farinha de rosca. Frite em óleo quente.

        • HAMONBAAL

          Sempre o mesmo demente.

          Olha, já agora publica o código da estrada, sempre dizes qualquer coisa, o principal é nunca ficares calado.  Nem que tenhas de mentir ou dizer idiotices e fazer figura de palhaço.  Tu devias estar internado.

    • Anónimo

      Jumento! 

      • HAMONBAAL

        Não digas isso que ele pensa que é o maior intelectual da História da humanidade.

        Aliás, esta ultima personagem aldrabosa, o BBB, mais um “único verdadeiro ateu” que naturalmente está sempre, sempre, de acordo com o papa, segundo ele, está a desenvolver um trabalho importantíssimo e ultra-secreto na “universidade”.

        Isto parece mesmo a conversa do doido da Noruega, a mesma mania das grandezas, as mesmas peneiras, a mesma mania que é bom, e ao mesmo tempo uma ignorância e estupidez descomunais, pensa que está envolvido em actividades “secretas” importantíssimas que só ele sabe, claro.e total palermice do discurso e absoluta ausência de ética.

        Estamos perante o mesmo tipo de maluco.

        Ainda assim, este discurso das receitas foi a única vez que ele disse alguma coisa sem mentir ou contradizer-se em cada palavra.  Foi, de longe, o melhor discurso que ele alguma vez aqui postou.  Vamos incentivá-lo a continuar a publicar receitas.  Figura de idiota faz sempre, mas isso é inevitável, está-lhe no sangue, mas pelo menos não está a mentir o que já é um enorme avanço.

  • António Rodrigues
  • Athan3

    Não fizemos uma Sociedade para sermos engolidos por “espertos”, “superiores”, “abençoados”, ou nocivos-parasitas de qualquer espécie. Vamos ver isso rápido. Isso vai ser decidido em definição sumária.
    Tudo que foi empurrado em cima de nós com misticismo roubador de ciência legítima, com crenças infectas destrutivas da saúde psicológica humana vai ser acabado. 
    É fatal.
    Não há essa palhaçada de “Deus”, nem essa desgraça estúpida de “espírito”. 
    Somos uma mentalidade consciente. pronta para encarar as responsabilidades de nossa competência civil.

  • Zeca-portuga

    O “sô dótor”!

    Um artigo recente na Spiegel relata uma correlação significativa entre o secularismo e a ética… 

    Então,  até vossemecê, um patrício do “Adolf do bigode”,   se deixa embalar pela ignorância do escritor de tal artigo!?
    Olhe que a verdade nesse artigo está mesmo vista pelo “espelho”. 
    Quantos católicos vossemecê conhece que não sejam seculares e defensores do secularismo? Porventura não serão todos? 
    Veja lá vossemecê que até a maioria dos clérigos defende o secularismo. Diz-se até que Jesus era defensor do secularismo, pois ele próprio afirma: A César o que é de César e a Deus o que é de Deus!   

    • Anónimo

      Zequinha, meu lindo: ou tu não sabes o que é secularismo, ou estás a deitar areia para os olhos das pessoas. Ora, como eu te tenho por excelente católico, só posso inclinar-me para a segunda hipótese. Porque também tu, certamente, tomaste conhecimento do “descontentamento” do Zé Policarpo face à anunciada agitação social. E o que é que o homem tem a ver com isso? Não estaremos perante a situação do “a César o que é de César”? Que ele ficasse descontente com a tempestade que desabou e matou uma pessoa durante uma festa religiosa, ainda se admite (mas o homem calou-se…); que ele resmungasse contra o aguaceiro que caiu quando o Ratz estava a perorar, ainda se compreende: eram fases do “a Deus o que é de Deus”.
      O homem que se preocupe se a procissão está mal organizada, ou se a missa deve ser em latim ou na língua autóctone; mas que deixe a política para os políticos.

      PS: Deixa-me lembrar-te de que o Zé Ratzinger TAMBÉM é patrício do homem do “Adolf do bigode”.

  • Athan3

    Pra quê deixamos surgir na Sociedade o parasita-funcional, como os padrerastas, pastutos, e escrotos desse naipe? E por quê são fissurados em grana já que o calhamaço de estupidez prega que dinheiro não seria para a suposta invenção inexistente maquiada com esse nome babaca de “Deus”. O esgôto desse excremento escorre pela Sociedade contaminando tudo que tem valor legítimo. Os covardes que se escoram nessa invenção putrefacta se prestam a vigiar a vida das pessoas que não caem nessa vigarice.  Fiés em crença borram de cagaço de encarar a vida; e ainda tentam arrastar à força seres humanos livres para seus conluios insanos cheios de todo tipo de covardia.

  • Zeca-portuga

    Estou varadinho da vida!

    ou tu não sabes o que é secularismo, ou estás a deitar areia para os olhos

    Então esclareça  V. Senhoria o que é o secularismo e explique-mos onde foi buscar tão refinado conceito. 
    Diga V. Senhoria se a quase totalidade dos jovens que romaram a Madrid era secular ou não.

    “descontentamento” do Zé Policarpo face à anunciada agitação social

    E com muita razão por dois motivos:
    1 – A Igreja tem uma responsabilidade social que, em alguns casos, iguala a do governo. Além disso a Igreja responde por aqueles que a seguem e o Cardeal representa a voz de todos esses.

    2 – Porque nesses tempo de agitação há “aproveitadores da situação” que não hesitarão em delinquir, aproveitando-se da situação para espalhar o terror, afrontando os crentes e roubando a Igreja, v.g. os membros da Tasca e seu séquito de simpatizantes. 

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