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Treta da semana: “nephesh hayyah”

Segundo o Mats, «A língua do pica-pau pode-se esticar entre 3 a 4 vezes o seu tamanho normal como forma de capturar insectos dentro das árvores. […] Esta maravilha da criação está repleta de designs especiais que negam a possibilidade de serem o resultado de forças não-inteligentes (evolução). A língua do pica-pau está “plantada” na sua narina direita. Saindo na parte de trás da narina, a língua divide-se em duas, enrolando-se à volta da sua cabeça entre o crânio e a pele, passando pelo outro lado dos ossos do pescoço, e saindo de debaixo do seu maxilar inferior ou bico. Até parece que Quem fez o pica-pau sabia o que fazia.»(1)

Pela descrição, não parece que sabia o que fazia, porque plantar a língua na narina é pouco inteligente. Mas o que acontece é que, nos pássaros, o osso hioide faz parte da estrutura e suporte da língua e os dois cornos deste osso estendem-se até à parte posterior do crânio. O pica-pau apenas tem esta estrutura mais comprida, que chega até à narina mas nem entre aspas está plantada nela. Mas a língua do pica-pau fica para um post sobre coisas menos ridículas. Este é sobre a resposta do Mats à pergunta acerca do que o pica-pau comia e outras premissas de fé.

O Mats defende que Deus criou o pica-pau no paraíso, onde não havia morte nem insectos a parasitar árvores, e onde seria pouco inteligente ter uma língua especializada em comer insectos. A resposta do Mats foi que «O que tens que demonstrar é que o conceito de “vida” que tu usas é o mesmo que […] a Bíblia qualifica de “nephesh hayyah” (alma vivente). […] Em relação aos insectos, se eles têm “nephesh hayyah” então o pica-pau não os comia antes da Queda. Se ele comia insectos antes da Queda, então os insectos não tem “nephesh hayyah”.»(1) Este truque de fingir que a questão factual é um problema do conceito não é só dos criacionistas. O Miguel Panão, por exemplo, escreve que «ao aferir uma hipótese de existência de um determinado Deus, não chega procurar evidências, importa conhecer bem cada conceito de Deus sobre o qual se pronuncia a hipótese»(2). O problema é que se passa o tempo todo a remoer o conceito e nada de evidências. O “nephesh hayyah”, o “Deus-Trindade” e a “lei dos semelhantes” podem motivar discussões sisudas entre criacionistas, teólogos e homeopatas, mas o que queremos saber é em que medida correspondem à realidade.

Os conceitos são importantes, porque são potenciais peças do puzzle, mas o conhecimento só vem no entrelaçado consistente de hipóteses testáveis acerca da correspondência entre os conceitos e aquilo que eles referem. Por sua vez, testar hipóteses exige interpretar dados, o que exige outros conceitos, outras hipóteses e novos testes. Muitos assustam-se por não haver fim para isto e procuram um fundamento irrefutável e axiomático para o conhecimento. Mas não há. Sobram sempre questões em aberto e a confiança que se justifica ter nas descrições que vamos construindo da realidade depende da interligação consistente de dados, modelos, hipóteses e teorias. Esta confiança pode ser grande, se temos muita coisa bem encaixada e que cubra muitos dados, mas nunca se justifica certezas absolutas. Perceber esta limitação cognitiva é uma parte fundamental do cepticismo.

E negá-la é essencial para a fé. O Mats resolve o problema do pica-pau assim: «Se alguém conseguir mostrar como a Bíblia confere o estatuto de “alma vivente” aos insectos, então fico a saber que o pica-pau não comia insectos antes da Queda» porque o Mats acredita que a Bíblia é «a Palavra do Criador dos insectos e dos humanos»(1). O Miguel Panão diz que «O Deus Trindade em quem acredito criou o universo»(2). Os católicos assumem que o Papa é infalível, os muçulmanos assumem que Allah ditou o Corão, os astrólogos assumem que os astros afectam a nossa vida amorosa e todos agem como se tivessem magicamente adquirido o dom da infalibilidade e, por isso, já não precisarem de testar essas suas hipóteses.

Eu não acredito que o “nephesh hayyah” tenha qualquer coisa que ver com o que o pica-pau comia há dez mil anos, nem que o “Deus Trindade” tenha criado o universo, nem que Maomé tenha falado pessoalmente com o anjo Gabriel. Não rejeito estas hipóteses por fé nalgum dogma contrário mas pela mesma razão porque também rejeito que o Elvis esteja vivo ou que andem por aí ETs a raptar vacas. Estas hipóteses não encaixam naquela rede consistente que constitui o nosso conhecimento, e julgar que são verdade só porque sim é disparate.

1- Mats, O Pica-Pau, e comentários.
2- Comentários em Jornada Fé e Ciência (de 2008).

Em simultâneo no Que Treta!

9 thoughts on “Treta da semana: “nephesh hayyah””
  • Anónimo

    O Mats é um criacionista radical. Meta-se antes com este, Ludwig:

    “Certos autores eminentes parecem plenamente satisfeitos com a hipótese de
    cada espéc ie ter sido criada de uma maneira independente. A meu ver, parece –
    me que o que nós sabemos das leis impostas à matéria pelo Criador concorda
    melhor com a hipótese de que a produção e a extinção dos habitantes passados e
    presentes do Globo são o resultado de causas secundárias, tais como as que
    determinam o nascimento e a morte do indivíduo.

    Não há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus
    poderes diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de
    formas, ou mesmo a uma só? ”

    A Origem das Espécies, Charles Darwin, pág. 554

    “Posso afirmar-vos que a impossibilidade de considerar este magnífico universo, que contém o nosso ‘eu’ consciente, como obra do acaso, é para mim o principal argumento em favor da existência de Deus”.

    Carta de 2/4/1873

    “Devo dizer-vos que em vosso livro Pretensões da Ciência expressastes a minha profunda convicção, e mesmo mais eloquentemente do que eu saberia fazê-lo, isto é, que o universo não é e nem pode ser obra do acaso”.

    Carta de 3/7/1881

    M. Francis Darwin. La Vie et la Correspondence de Charles Darwin. Trad. de H.
    arigny. Reinwald, Paris, Vol. 1, p. 354, 365.

    • Yroku Saikaro

      Para quem adora ler e acreditar nas burrices bíblicas os teus comentários são magníficos.
      Mas lembra-te que Charles Darwin teve o seu tempo e devemos agradecer-lhe o trabalho que nos deixou.
      Mas… a vida continuou e outros cérebros nasceram.
      O tempo não estagnou na ciência, ela evoluiu e continua evoluindo a cada segundo a uma velocidade a que o teu pensar não tem acesso.

      Criticares pela negativa o Ludwig fica-te mal. É um sinal de burrice. Ele sabe fazer contas com números onde não existem siónimos bonitinhos como os da língua portuguesa.

      Boas férias

    • Yroku Saikaro

      Para quem adora ler e acreditar nas burrices bíblicas os teus comentários são magníficos.
      Mas lembra-te que Charles Darwin teve o seu tempo e devemos agradecer-lhe o trabalho que nos deixou.
      Mas… a vida continuou e outros cérebros nasceram.
      O tempo não estagnou na ciência, ela evoluiu e continua evoluindo a cada segundo a uma velocidade a que o teu pensar não tem acesso.

      Criticares pela negativa o Ludwig fica-te mal. É um sinal de burrice. Ele sabe fazer contas com números onde não existem siónimos bonitinhos como os da língua portuguesa.

      Boas férias

    • HAMONBAAL

      Estou espantado.

      A usares o teu nick próprio ?

      Então não te apetece fingir mais um bocado que és ateu, como BBB ou Ze2 ?  E o meu nick ?  Não te apetece usar ?

      De vez em quando cansas-te de fazer de palhaço ?

  • Athan Veron

    O descaratismo do “pica-pau” como desenho animado mostra a decadência dos que ficam cagados dos pés à cabeça pela bizarrice das crenças, qualquer uma (como já disse várias vezes: basta dois mentirosos e um covarde amancomunado por interesse em mentira, e se cria uma crença divina). A derrocada dos EUA como nação maravilhosa começou com o assassinato estúpido de John Kennedy, do mesmo modo, a corrupção desavergonhada na política no Brasil alastrou de vez quando Juscelino amargou em ver a “sombra” da pulhice “divina” cravar as garras em Brasília (e covardemente o banir de sua terra). Quando Osvaldo Cruz quis que a vacina anti-varíola defendesse as crianças da doença os canalhas o ridicularizavam; porque sem crianças à míngua e miseráveis e  doentes, como se “pregaria” a deslavada “salvação’? Forçar um cientista a aceitar dogmas ou curvar-se à imposição de ditames com “ar de caridade” (com intenções insanas de fomentar a criação de favelas com explosão demográfica incabida para lucrar com violência, desespero, miséria e massacramento psicológico civil), isso não amedronta a alguns cientistas com hombridade de portarem o brio civil de seres humanos autênticos, cõnscios das diretivas, responsabilidades, e satisfações do saber. 
    É honra para o ser humano ser um ser estudante, que olha o horizonte sem receio do término da vida; e por isso mesmo repleta-se do valor que tem por ela e de dedicá-la a possíveis descendentes que tenham também essa alegria.
    A consciência não é feita com covardia, nem amedrontamento e nem com o rastejar à mentiras.
    Aqui está uma foto; quanto acham que é o valor dela?
    Os fiéis em crença, irresponsáveis, daninhos como são, roubam a expressão de uma coisa para manipular suas invencionices mentirosas, e não deveriam apanhar essa foto para deitar suas opinões estúpidas, grotescas, afim de amparar suas sandices. Mas a fotografia está aqui, mesmo correndo o risco de estar à mercê do pérfido uso que podem fazer dela para a manipularem em avidez inescrupulosa de manipulação e lucro.
    Os rotulados de “ateus”, não os “superiores” infurnados entre os céticos, não precisam fazer uso desta imagem, pois ela acaba mesmo a ridícula mentira de qualquer deus, como também com a medíocre lenga de big-bangs, e criacionismos no ESPAÇO.
    A vida é inerente às conformações espaciais; as trocas e interações das condições espaciais propõem-na e modificam-na, e a consciência pode conseguir sustê-la se alçar competências para tanto.
    Temos de tomar atitudes agora sobre nossa Civilização.
    Não nascemos para ser babás-de-cachorro, nem para nos tornarmos seres enfeiadamente bizonhos, destoados da conformidade da beleza que a Natureza expõe no evoluir dos ambientes.
    Somos seres estudantes.
    Seres estudantes passeiam, aventuram, são intrépidos, não são temerosos, e aprazem-se no viver, porque gozam a vida.

  • Athan3

    Athan Veron é Athan3, ou Haddammann Veron, ou Sinn-Klyss. O Pensador é simples, mas por colocar os pés singelamente na grama, e correr contente, sozinho, em praias, pensam que é um bobo fácil de se enganar …   Como diz a música de Cecília Meirelles cantada por Fagner “só queria ter do mato, o gosto de framboesa”, e tocar a vida apesar de algumas tristezas … mas já de vez farto de ser usurpado … http://www.youtube.com/watch?v=GWbSMHi-cos&feature=related

  • João Pedro Moura

    O que eu acho piada, mas piada patética e grotesca, entre os criacionistas, é andarem minuciosamente, com capa “científica”, a “descobrir” coisas que, supostamente, contrariam o evolucionismo, desde a complexidade do olho até às vilosidades intestinais, passando por pormenores do pica-pau, mas não aplicarem esse mesmo raciocínio à justificação do seu deus…
    Acham, os criacionistas, que a complexidade, por exemplo, do olho e das vilosidades, não é suscetível de evolução, porque, supostamente, tais dispositivos biológicos só funcionam quando estão devidamente formados, sendo, portanto, segundo tais “cientistas”, impassíveis de evolução. Logo, concluem os mesmos pândegos, só podia ter havido um colosso – “deus” – capaz de tal facécia…
    Esquecem-se, os da “Criação”, de que, em primeiro lugar, teriam que justificar a existência de deus, inequivocamente, para poderem estabelecer tal ligação, e, em segundo lugar, teriam que conhecer todos os pormenores da evolução… para poderem negá-la, fundamentadamente…
    Mas a conclusão desses fanáticos, mais devotos do que cientistas, é logo a de que, não havendo uma explicação conhecida, é porque a coisa foi criada por deus.
    E depois? Para que serve dizer que uma coisa, todas, foi criada por deus? Que esclarecimentos, que orientações, que finalidades decorrem daí???!!!
    Um deus omnisciente, omnipresente e omnipotente, criador, governador e justiceiro, como é que é possível???!!! Os criacionistas dizem que tal existe, sem se porem a fazer investigações sobre isso. É uma coisa muito evidente, para eles…
    … Já para investigarem a causa material das coisas da natureza, daquilo que realmente existe, quando não se sabe… é deus que fez! Está resolvido o problema!…

    • Anónimo

      É de facto essa a falácia com que a igreja católica “prova” os seus “milagres”.  

      Se a ciência não pode provar partem do princípio que a tese deles está “provada” embora a não prova da ciência nada tenha a ver com a óbvia necessidade de provarem as suas teses para que sejam válidas.   

      Antes do Séc XIX também não se sabia porque é que as pestes reduziam a sua taxa de mortalidade depois de exterminar populações inteiras.  Hoje sabemos que os sobreviventes tinham resistências naturais que eram ainda mais reforçadas pelo contacto com os micróbios, que o seu organismo aprendia a combater.   Na altura era a “vontade de deus” simplesmente porque não se sabia como funcionava.  

      O mesmo se passa hoje.  Tudo o que a ciência não consegue explicar é apropriado abusivamente como “milagre”, sem mais, sem qualquer prova que seja um verdadeiro milagre, apenas com a prova que a ciência ainda não consegue explicar tudo.   Como “prova” de milagre, este simples reconhecer que a ciência ainda dá os primeiros passos, é simplesmente uma BURLA monumental.

  • Anónimo

    O meu aplauso!

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