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Equívocos, parte 12. Grandes equívocos da neurologia?

Técnicas modernas de imagem têm revelado correlações entre experiências religiosas e a actividade de zonas específicas do cérebro, sugerindo hipóteses acerca do que causa algumas experiências religiosas mais profundas. No post mais recente da sua série «Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo», o Alfredo Dinis critica estas hipóteses por não abrangerem tudo aquilo que o Alfredo considera experiência religiosa. Fica por explicar porque é que isto há de ser um grande equívoco do ateísmo e, de qualquer forma, parece que os equívocos estão novamente do outro lado.

Escreve o Alfredo que «Sem negar o interesse dos estudos de Newberg e dos neuroteólogos em geral, deve dizer-se que há em todos eles um esquecimento da natureza relacional do ser humano, e da dimensão comunitária da experiência religiosa, entre outros elementos.»(1) Concordo que as religiões são muito mais do que aquelas experiências que a neurologia tenta compreender. Por exemplo, o Daniel Dennett entrevistou alguns sacerdotes cristãos que não acreditam na existência de um deus sobrenatural (2). Este é um exemplo extremo, mas demonstra bem que professar uma religião se pode dever a muitos factores. Quem dedicou a vida a uma carreira terá, compreensivelmente, relutância em admitir publicamente que o fez enganado, principalmente se tal admissão lhe custar o cargo, rendimento e estatuto social. Também haverá quem professe uma religião por pressões familiares, sociais ou até legais, em alguns sítios, e também quem esteja sinceramente convicto da sua religião por uma educação que precedeu a sua autonomia intelectual. Por exemplo, a Assunção Cristas diz não se lembrar da sua vida sem Deus, o que sugere que a sua religião não resulta de uma decisão ponderada, voluntária e consciente (2).

Mas parece-me um equívoco do Alfredo assumir que os neurologistas se esqueceram da complexidade social, psicológica e cognitiva da religião, ou da multiplicidade de factores que levam alguém a dizer ámen e comer a hóstia. A tecnologia, e o que se sabe do cérebro, é que não permitem tal detalhe. Não se pode ver pelos neurónios o que é que levou a Assunção Cristas a acreditar nestas coisas desde criança, ou que factores desencorajam um sacerdote descrente de dizer à sua congregação “lamento, mas isto é tudo mentira”. O que se pode observar é mais grosseiro. Por exemplo, a síndrome de Geschwind, devida a epilepsia no lobo temporal, é caracterizada por uma forte religiosidade, pedantismo, escrita muito extensa e desmaios (4). São sintomas salientes como estes – alguns até evidentes em comentários de blogs – que podem ser correlacionados com actividade nervosa detectável, como a epilepsia. Como um cientista, ao contrário dos religiosos, não se pode afirmar perito acerca daquilo que ninguém sabe, são estas coisas que os neurologistas têm de focar. O que me leva a concordar, em parte, com o Alfredo; “neuroteologia” é um termo infeliz, porque aquilo é só neurologia. Não há lá “teo” nenhum.

O Alfredo afirma também que «a actividade neuronal só poderia ser considerada condição suficiente se aquela experiência fosse fundamentalmente causada pelo cérebro. Ora, isso é o que se pretende provar.» Exactamente. E como fazê-lo? Um problema que os religiosos apontam é que a hipótese de Deus causar certas experiências religiosas não pode ser testada cientificamente, o que está parcialmente correcto. Por exemplo, a ciência não consegue testar, isoladamente, a hipótese de os ataques epilépticos serem causados por possessão demoníaca. O cientista pode examinar os neurónios mas não consegue detectar demónios. No entanto, é hoje consensual* que a epilepsia não tem nada que ver com o mafarrico. Ou seja, a ciência acabou por rejeitar, justificadamente, uma hipótese que não podia ser directamente testada.

A forma como se chegou a esta conclusão foi encontrando outra hipótese, essa testável, que explica melhor a epilepsia. Que dá mais detalhes, elucida o mecanismo e permite prever com mais rigor o que vai acontecer, por exemplo, se a pessoa for medicada. E isto aplica-se a muitas experiências. Não temos de postular um mundo dos sonhos para onde a nossa alma vai quando dormimos, nem um universo paralelo onde o bicho-papão e o Homem-aranha esperam pacientemente que alguém pense num deles. A ciência não pode provar a inexistência de tais coisas mas pode mostrar hipóteses alternativas melhores. Esse é, afinal, o melhor teste de qualquer hipótese: o confronto com as alternativas. E é o que a ciência tem feito, tantas vezes que alguns católicos até já defendem que Deus não intervém neste mundo – especialmente nos desastres naturais – à excepção do ocasional milagre necessário à contratação de novos santos.

A neurologia apenas continua este processo. O êxtase de Teresa de Ávila ou a visão de Saulo de Tarso são também fenómenos para os quais as relações sociais, a educação e a actividade dos neurónios são causas suficientes. Basta isso, que é também o que basta, como certamente o Alfredo concordará, para explicar a conversa entre Maomé e o arcanjo Gabriel, ou todas as experiências religiosas que outras religiões explicam invocando deuses diferentes do deus do Alfredo.

Um dos grandes equívocos do Alfredo é assumir que a sua hipótese de Deus ganha por omissão. Que deve ser aceite como verdadeira enquanto não se provar o contrário. É uma abordagem incorrecta. O correcto é ponderar as alternativas e favorecer aquela que explica mais dados com menos premissas por justificar. E, com o que sabemos hoje, isto deixa o ateísmo à frente de todas as religiões. Bem destacado.

*Excepto para o Bernado Motta.

1- Alfredo Dinis, Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo
2- Washington Post,Non-believing clergy: Now what shall we do?
3- SNPC, Assunção Cristas e a questão de Deus, via Companhia dos Filósofos.
4- Wikipedia, Geschwind syndrome
5- Wikipedia, Neurotheology

Em simultâneo no Que Treta!

19 thoughts on “Equívocos, parte 12. Grandes equívocos da neurologia?”
  • Anónimo

    Ludwig

    No seu anterior texto ”  INTERROGAR-SE” interpelei-o para um debate sobre a questão falaciosa que você, de forma tão intelectualmente medíocre, arquitectara nesse panfleto.

    Mas ficou-se nas covas. É muito bom a falar sozinho.mas será que a sua actividade neuronal só é produtiva quando você se exercita sem que lhe coloquem em causa as premissas e as falácias ?

    Pois bem, por mim volto a desafiá-lo para o tema desse seu escrito:

    “Ludwig

    Você obviamente pode dizer o que muito bem entender e fazer os processos de
    intenção que lhe aprouver. Porque insondável mistério o Ludwig deveria ser
    excepção à tentação da acrimónia,tão comum na natureza humana e não se afastar
    do princípio racionalmente intrínseco de argumentação ? A casa é sua e eu até
    dou um desconto ao seu compreensível azedume.A sua má disposição passa-me ao
    largo e está um maravilhoso tempo estival para navegar.

    Você aqui vem acusar-me de ” fingir que não percebia o que interessava”.

    Ai sim, Ludwig ? Porque então não dá mostras de um debate limpo e frontal e
    pega nas minhas palavras críticas, referentes ao seu anterior texto, para,
    concretizadamente, as refutar ?

    Quer ir a jogo Krippahl ? Jogo aberto e baseado na minha concreta fundamentação
    ? Força Ludwig, apareça ai a enunciar os pontos específicos da minha crítica
    que determinaram a sua apreciação. Tudo muito objectivo e racionalmente
    sustentado ?
    Que tal ? Não é uma boa oportunidade de mostrar a sua suposta razão ?

    Olhe, sabe que mais ? Pegue num exemplo qualquer, como o do rabi judaico ou
    daquele indivíduo que afirmava saber o dia em que o mundo iria terminar, e
    apareça aí a dizer que as religiões são perigosas, etc e tal.

    E eu contraponho-lhe de seguida vários exemplos de crentes com elevado gabarito
    intelectual e não menor estatura ética, e depois, seguindo a sua falaciosa
    conduta discursiva generalizante, virei então dizer que as religiões são
    maravilhosas.

    Ficaríamos empatados na falácia generalizante, não lhe parece ?

    Você seleccionaria os seus epifenómenos e eu os meus.

    O que é que você depois viria dizer sobre a falácia indutiva que eu extraísse
    dos meus epifenómenos, inferindo que as religiões são maravilhosas ?

    Nada, não é Ludwig ? Você calaria, não é ? Saberia que a sua falácia contrária
    “as religiões são um mal a evitar” seria imediatamente denunciada,
    por igual, se viesse denunciar a minha ” as religiões são
    maravilhosas”

    Uma porra, não é ? Está a ver a que nó cego o conduziu a sua falácia ?

    Pois é, Ludwig, mas há, pelo menos, uma enorme diferença entre mim e você: eu
    ando aqui há tempo suficiente para você saber que, no âmbito religioso, louvo
    tudo o que há, em minha consciência, para enaltecer, e critico tudo o que, no
    meu critério, merece censura.

    Você, no anterior texto, entreteve-se a tentar construir ”
    cirurgicamente” a ” verdade” enganadora da sua falácia, a partir
    de um epifenómeno extremo e certamente censurável, mas desconsiderando todo e
    qualquer bom exemplo associado a conduta religiosa.

    Gandhi ? Martin Luther King ?
    Oscar Romero ? Maximilian Kolbe ? Nelson Mandela ?

    Sabe quem são ? Já leu algo sobre os seus superiores exemplos de crentes
    ?

    A sua trapaça dialéctica é descarada, Ludwig, isso chama-se batota intelectual.

    Mas já não se usa Ludwig, é pouco, muito pouco, como discurso estruturalmente
    sério e consistente e só os mentalmente destituídos de alguns dos seus
    confrades ideológicos é que ainda tentam aparar-lhe, desesperada e
    desastrosamente, a trapaça.

    A verdade também é que, sempre que eu enalteci os seus textos, você não reagiu
    azedamente.

    Agora que entendi criticá-lo, você empertiga-se todo, mandas às malvas a sua
    racionalidade temperada, e sai a acusar-me de fingir não sei o quê.

    Está a ver Ludwig como mais valia ter ficado calado ?…

    Quanto às razões, devidamente explicitadas, porque sustentei que o seu anterior
    texto é absolutamente deplorável e de um primarismo intelectual confrangedor,
    já oportunamente as afirmei e, quanto a elas, nem uma vírgula retiro.

    Neste novo texto, você, pelo menos, mostrou ter aprendido a lição a que o
    conduziu o seu panfletarismo insuportável e veio pressurosamente emendar a mão.

    Só lhe fica bem”

  • Anónimo

    ” Deus, um delírio, é um livro tolo”

    Quem o afirma é Alex Rodrigues, colaborador de ” O Bule Voador”:

    http://bulevoador.haaan.com/2011/02/20466

  • Anónimo

    ” Deus, um delírio, é um livro tolo”

    Quem o afirma é Alex Rodrigues, colaborador de ” O Bule Voador”:

    http://bulevoador.haaan.com/2011/02/20466

  • Ludwig

    António,

    «Mas ficou-se nas covas. É muito bom a falar sozinho,mas será que a sua actividade neuronal só é produtiva quando você se exercita sem que lhe coloquem em causa as premissas, os silogismos e as falácias ?»

    Não. É uma questão mais pragmática. Como é confuso (e perde-se mais tempo) manter conversas isoladas em sítios diferentes sobre a mesma coisa, tendo a responder mais aos comentários no meu blog do que aqui.

    Quanto a este seu comentário, que me parece algo deambulante, pretensioso e extenso demais para o pouco tempo que tenho, lendo-o só por alto posso dizer que o meu problema não é tanto com a conduta religiosa daqueles religiosos que têm uma boa conduta (esses provavelmente a teriam mesmo que fossem ateus; não estou a ver o Gandhi a violar crianças só por deixar o hinduísmo, ou algo assim). Em vez disso, o problema que tenho apontado é o da desonestidade de se dizer que se sabe coisas como que a hóstia se transubstancia, que Maria era virgem, que Deus existe, que o Papa é infalível. etc.

    • Anónimo

      “Quanto a este seu comentário, que me parece algo deambulante, pretensioso e extenso demais para o pouco tempo que tenho”

      Ludwig Krippahl

      Claro, já calculava, sobre o essencial da questão que lhe coloquei, nada de nada. Mas também reconheço que seria tarefa impossível para si demonstrar a pertinência da sua falácia ” AS RELIGIÕES SÃO UM MAL A EVITAR”.

      Essa era a questão substancial que lhe coloquei. Você passou todo o tempo do seu anterior texto a arquitecturar essa conclusão falaciosa,a partir do caso, anda por cima inventado, do rabi judaico.

      Se o meu comentário lhe parece ” algo deambulante, pretensioso e extenso”, está no seu pleníssimo direito de assim entender. Você julga-me e eu também o julgo a si. Ficamos quites. Tudo na boa.

      Mas já agora, você não é deambulante, pretensioso e extenso ? É só um homem muito atarefado, Ludwig ?

      Ok, cada qual sabe de si.

      Porém, confesso, que não resisto a entrar no debate que você aqui provoca, apesar do escasso tempo que lhe resta para estas lúdicas deambulações:

      ” Por exemplo, a Assunção Cristas diz não se lembrar da sua vida sem Deus,
      o que sugere que a sua religião não resulta de uma decisão ponderada,
      voluntária e consciente”

      Dissecando este seu novo manco silogismo:

      Não conheço a Assunção Cristas de lado nenhum, a não ser o facto de ser ministra do novo governo.

      a) Ela disse que não se lembra da sua vida sem Deus;

      b) Logo, para si,” sugere que a sua religião não resulta de uma decisão ponderada, voluntária e consciente”

      Ó Ludwig, este raciocínio é tão fraco, como é que você se auto-rebaixa a este ponto ?

      Você conhece algo concreto, e não meramente preconceituoso, sobre o processo de formação religiosa da Assunção Cristas que lhe permita saber que a adesão dela à mundividência católica não resultou de uma decisão ponderada, voluntária e consciente ?

      Você agora é bruxo ?…

      • OY

        Ó grande génio dos blogs.  

        Ó grande intelectual.

        E se, em ve de debitares quilômetros de inanidades ocas e pretenciosas, ao menos tentasses responder ao essencial que o Ludwig está a dizer ?
        sA saber ;

         “o meu problema não é tanto com a conduta religiosa daqueles religiosos que têm uma boa conduta (esses provavelmente a teriam mesmo que fossem ateus; não estou a ver o Gandhi a violar crianças só por deixar o hinduísmo, ou algo assim). Em vez disso, o problema que tenho apontado é o da desonestidade de se dizer que se sabe coisas como que a hóstia se transubstancia, que Maria era virgem, que Deus existe, que o Papa é infalível. etc.”

        Estamos todos à espera, ó grande intelectual da conversa de encher pneus, ó grande moralista que anda a roubar nicks, como é que vocês sabem que :

        – A óstia é mesmo o corpo de deus.

        – Que o papa é infalível.

        – Que Maria era virgem.

        – Que o diabo existe.- Que existem anjos.
        – Que deus não gosta de preservativos.

        – Que deus não gosta de minisaias.

        – Que deus não gosta que os divorciados voltem a casar.

        – Que deus não gosta que os namorados possam fazer sexo.

        – Que deus não gosta do casamento homosexual.

        – Que deus não gosta de masturbação.

        – Que deus não gosta disto e mais daquilo, mas que já gosta de outra coisa qualquer que vos convenha no momento.

        E miuos milhares de inanidades como estas.  que as igrejas normalmente debitam ás toneladas usando e abusando do nome de um deus do qual, se existir, obviamente que não poderão saber mais nada além do que as outras pessoas também sabem, isto é – LITERALMENTE NADA.

        Então, como é que sabem ?

        Ou se calhar é melhor clonares-me o nick outra vez para fugires a mais esta…

      • Ludwig

        António,

        «Claro, já calculava, sobre o essencial da questão que lhe coloquei, nada de nada»

        No seu comentário contei 24 pontos de interrogação. Se alguma dessas questões era essencial, penso que compreende que facilmente me passará despercebida.

        Qual é a sua questão essencial?

  • Ludwig

    António,

    «Mas ficou-se nas covas. É muito bom a falar sozinho,mas será que a sua actividade neuronal só é produtiva quando você se exercita sem que lhe coloquem em causa as premissas, os silogismos e as falácias ?»

    Não. É uma questão mais pragmática. Como é confuso (e perde-se mais tempo) manter conversas isoladas em sítios diferentes sobre a mesma coisa, tendo a responder mais aos comentários no meu blog do que aqui.

    Quanto a este seu comentário, que me parece algo deambulante, pretensioso e extenso demais para o pouco tempo que tenho, lendo-o só por alto posso dizer que o meu problema não é tanto com a conduta religiosa daqueles religiosos que têm uma boa conduta (esses provavelmente a teriam mesmo que fossem ateus; não estou a ver o Gandhi a violar crianças só por deixar o hinduísmo, ou algo assim). Em vez disso, o problema que tenho apontado é o da desonestidade de se dizer que se sabe coisas como que a hóstia se transubstancia, que Maria era virgem, que Deus existe, que o Papa é infalível. etc.

  • Anónimo

    Ludwig

    Não teria sido necessário contabilizar os 24 pontos de interrogação, tanto mais que é um homem muito atarefado. Não lhe gabo a empreitada e até fico preocupado com a sua minuciosa devoção.

    Ponha-se a pau que essa obsessão contabilística ainda pode indiciar qualquer patologia de personalidade interictal.

    A questão fundamental, do meu ponto de vista, já a enunciei claramente no meu comentário anterior e chama-se falácia ” AS RELIGIÕES SÃO UM MAL A EVITAR”.

    Para a próxima, não se prenda tanto a contar minudências  obsessivas que lhe pode escapar o essencial…

    • Kavkaz

      Ó Impertinente, e se fosses lavar igrejas? Andas aqui a fazer o quê?

    • Kavkaz

      Ó Impertinente, e se fosses lavar igrejas? Andas aqui a fazer o quê?

    • Ludwig

      António,

      «Não teria sido necessário contabilizar os 24 pontos
      de interrogação, tanto mais que é um homem muito atarefado para se
      exercitar nesse tipo de acto menor.»

      O “find in page” do Opera exige-me muito menos tempo e
      paciência do que os seus longos sermões pejados de considerações
      sobre a minha personalidade, os meus defeitos pessoais, etc 🙂

      «A questão fundamental, do meu ponto de vista, já a
      enunciei claramente no meu comentário anterior e chama-se falácia ”
      AS RELIGIÕES SÃO UM MAL A EVITAR”.»

      Uma falácia é uma inferência inválida que engana por se
      aproveitar de alguns atalhos cognitivos ou emocionais. Uma afirmação,
      por si só, mesmo que escrita toda em maiúsculas, não pode ser uma
      falácia. No máximo será falsa. E se tem algum argumento acerca
      disto no seu comentário anterior, lamento mas ficou obscurecido pelo
      ad hominem com que encheu o texto. Sugiro que se cinja às ideias,
      torna a conversa mais clara e produtiva.

      A minha posição é esta. Uma condição necessária a qualquer
      religião, para que seja religião, é uma casta de profissionais da
      fé que se apresentam como peritos no divino, controlam o ritual e
      servem de mediadores entre os crentes e os seus deuses. Sem isto,
      pode haver fé pessoal mas não há religião como organização. E
      essa organização, nesses moldes, é um mal a evitar porque,
      primeiro, é intelectualmente desonesta. Não há fundamento
      objectivo que justifique aos sacerdotes afirmar que sabem aquilo que
      alegam saber. Não sabem. Especulam e dizem que acreditam. E, em
      segundo lugar, desta desonestidade tem brotado imensas vezes
      motivação e justificação para actos hediondos.

      Como é desnecessário ter um Papa infalível para gerir um lar de
      idosos, ou ter 100% certeza que a hóstia se transubstancia para
      poder cuidar dos pobres ou dos doentes, não vejo que este fundamento
      das religiões seja necessário para que os crentes pratiquem o bem.
      Na verdade, nem vejo necessidade da crença em si para isso – as
      pessoas boas são boas quer acreditem que há deuses ou não – mas
      a crença pessoal é com cada um, e o direito de a ter é um direito
      importante.

      É por isso que defendo que as religiões são um mal a evitar.
      Todas assentam no engano de um grande número de adeptos por parte de
      um pequeno grupo de alegados peritos que falsamente dizem saber
      aquilo que não sabem.

      Se tiver algum contra-argumento e o apresentar de forma inteligível
      e clara, estou interessado em continuar a conversa. Se preferir dizer
      que eu sou assim e assado, como se os meus defeitos tivessem alguma
      coisa que ver com o assunto, esteja à vontade, mas não conte com a
      minha paciência para aturar essas coisas.

  • Anon

    «Técnicas modernas de imagem têm revelado correlações entre experiências religiosas e a actividade de zonas específicas do cérebro, sugerindo hipóteses acerca do que causa algumas experiências religiosas mais profundas» – Ludwing Kripphal
    Isso apenas confirma aquilo que os religiosos,  e todos os crentes em geral, vêm dizem lá séculos, Afirmam eles que o ateísmo é problema “cerebral/neurológico” e que os crentes têm uma actividade cerebral mais completa do que os ateus. Já é velha a ideia de que o ateísmo resulta de uma disfunção. 
    Ora, se alguém já consegue provar que o cérebro dos crentes têm actividade que não se observa num ateu, fica actualmente provado que o ateísmo é uma deficiência. 
    Resulta difícil dizer o contrário: que o cérebro que tem mais actividade é o deficiente… penso eu de que…«E, com o que sabemos hoje, isto deixa o ateísmo à frente de todas as religiões» – Ludwing Krippahl

    Julgo que há aqui um equivoco.
    Quer pelas razões já expostas, quer porque se está a confundir as explicações e observações da ciência com o ateísmo. E, o ateísmo,  tal como as religiões, as ideologias políticas, os movimentos sociais e culturais,  não são correntes cientificas, nem têm bases científicas. 

    Em hippie, um vegetariano, um pacifista objector de consciência, um cristão, um hindu ou um ateu, agindo nessa qualidade, estão equidistantes do ciência. 
    Enquanto membros de uma posição ideológica, no que diz respeito à valorização e à confiança na ciência,  nenhum deles se pode assumir mais perto ou mais distante. Quem o faz, só por essa ousadia, já não pode ser considerado uma pessoa séria.  

    • XPTO

      Concordo a 100%, nem crentes nem ateus se podem reclamar da “ciência”, porque nenhuma das suas proposições podem ser provadas cientificamente.

    • Ludwig

      Anon,

      «Resulta difícil dizer o contrário: que o cérebro que tem mais actividade é o deficiente…»

      Nem por isso. Actividade a mais, por exemplo, dá epilepsia. O efeito de muitas drogas também inclui aumentar a actividade de certas partes do cérebro. Alucinações, por exemplo, correspondem a actividade neuronal em condições onde onde não devia haver.

      • Mr X

        “Actividade a mais, por exemplo, dá epilepsia. ” – não é correcto. Depende mais do tipo de actividade do que da sua intensidade. 

        Inclusive há actividade cerebral que parece demonstrar a ligação a poderes sobrenaturais.

  • Anónimo

    «O correcto é ponderar as alternativas e favorecer aquela que explica
    mais dados com menos premissas por justificar. E, com o que sabemos
    hoje, isto deixa o ateísmo à frente de todas as religiões. Bem
    destacado »

    Ludwig Krippahl

    O ateísmo fica à frente de todas as religiões, bem destacado ?
    Sim ? Vamos ver com calma:

    Robert Woodrow Wilson, físico americano, foi galardoado Prémio Nobel da Física em 1978, pela descoberta da radiação cósmica de fundo,confirmando a teoria do universo inflacionário, mais conhecida por Big Bang.

    Em ” Deus e a Ciência”, Robert Wilson escreveu que ” é possível « apreender o Universo como uma mensagem expressa num código secreto, uma espécie de hieróglifo cósmico que começamos apenas a decifrar »

    Em 2001, o físico Paul Davies também afirmou: « pertenço àqueles investigadores que não subscrevem nenhuma religião convencional, mas que se recusam a acreditar que o Universo é um acidente fortuito. O Universo físico encontra-se disposto com tanto engenho, que não posso aceitar esta criação como um facto bruto. Deve existir,a meu ver, um nível de explicação mais profundo. Que se queira chamar-lhe  « Deus» é uma questão de gosto e de definição » ( 1)

    Por seu turno, George Smoot, igualmente Prémio Nobel da Física em 2006, afirmou na última página de Rugas do Tempo: « o conceito religioso da criação decorre de um sentimento de encantamento perante a existência do Universo e o nosso lugar no seu seio » ( 2)

    E Smoot assevera: « nós não somos o resultado de um simples acidente cósmico, o resultado fortuito de um encantamento de processos físicos num Universo que nos esmaga completamente»

    Vejamos ainda, de modo mais pormenorizado:

    Os flocos de neve têm formas muito diferentes uns dos outros. Porém, todos,sem excepção,têm seis pontas. Não quatro ou cinco, nem sete. Então porquê sempre seis ? O acaso ?

    Se contarmos as pétalas das margaridas, poderemos encontrar dessas flores com cinco, ou oito ou treze pétalas. Mas nenhuma com sete ou 16 pétalas. Porquê ? O acaso ?

    Porque o número de pétalas de uma flor não se distribui ao acaso. Existe um código escondido nas profundezas da flor. De onde veio ? O acaso ?

    Como revelou, Robert Wilson, a radiação dos primórdios do Universo é de uma regularidade extraordinária precisa, não se desvia senão uma ínfima fracção de grau em 100 000. Como explicar uma regulação tão afinada ? O acaso ?

    Nas quatro forças do Universo, a força forte vale 1, a electromagnética é 137 vezes mais pequena ( mas não 138 ou 135) A gravidade afere-te por 10 elevado a 39 vezes mais pequena que a força nuclear. Como explicar esta quebra incrível,mas muito precisa, de 39 ( e não de 30) ordens de grandeza ? O acaso ?

    O ajuste causa uma vertigem tanto maior quanto se pode encontrar em cerca de 30 constantes sobre as quais toda a nossa realidade assente, do grão de pó aos milhares de milhões de estrelas na Via Láctea . O acaso ?

    Pois sem estas famosas constantes universais- sem os valores muito precisos que têm-, nem os flocos de neve, nem as flores, nem qualquer ser vivo, teria a menor possibilidade de existir.

    Tudo isso obra do acaso ?

     «O correcto é ponderar as alternativas e favorecer aquela que explica
    mais dados com menos premissas por justificar. E, com o que sabemos
    hoje, isto deixa o ateísmo à frente de todas as religiões. Bem
    destacado»-afirma Ludwig Krippahl.

    Sim, Ludwig ? Perante este show de bola, dado pelos mais eminentes cientistas e Prémios Nobel da Física, você perdeu mais uma oportunidade de não cair no ridículo…

    (1) Paul Davies, The Mind Of God, 1992

    (2) George Smoot, Keay Davidson, Rugas do Tempo

    • XPTO

      Blá blá blá.

      E continuas sem responder ao essencial do Ludwig :

      ” Em vez disso, o problema que tenho apontado é o da desonestidade de se dizer que se sabe coisas como que a hóstia se transubstancia, que Maria era virgem, que Deus existe, que o Papa é infalível. etc. ”

      A assistência continua à espera.

      Mas se calhar é melhor o fazeres o celebérrimo número da “cartilha da maralha” para fugires à questão.

  • Rodolpho Lima

    Enquanto boa parte dos ateus continuarem confundindo “observações” com “princípios de funcionamento” o debate será fraco e desestimulante.

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