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Treta da semana: experiência pessoal.

A experiência pessoal é muitas vezes apontada como evidência da existência de um deus. Mais especificamente, do deus de quem o alega, com todas as suas idiossincrasias, nascimentos virginais, ressurreições, representantes terrenos e afins. Tanto se fiam nela que o Miguel Panão até me perguntou «como fazes tu a experiência da inexistência de Deus?» (1) Como se o fundamento do ateísmo fosse alguma “experiência da inexistência”.

Quando falamos em ter uma experiência de algo, referimos dois aspectos que importa distinguir. Por um lado os qualia, os elementos subjectivos da experiência. O que sentimos quando nos pisam um dedo ou quando vemos o verde de uma folha. E, por outro lado, a coisa que nos causa essa sensação. A folha verde ou a pisadela em si. Costumamos pensar nestes dois aspectos sempre juntos – daí a expressão “experiência de”, seguida da coisa que colamos à experiência – porque há uma forte correlação entre ambos. Se não houvesse, o nosso sistema nervoso não teria evoluído assim, pois é desta correlação que depende o sucesso dos nossos genes. Mas estes aspectos não são indissociáveis.

Se esfrego os olhos fechados vejo luzes. Ou melhor, sinto que vejo luzes. Não há lá luzes nenhumas. Há apenas a sensação de luze devido à estimulação dos neurónios da retina. As multidões que acorrem ao “Doutor” Mwasapile, na Tanzania, para beber a sua tisana milagrosa também “fazem experiência” da eficácia curativa do cházinho. «É tudo uma questão de fé. Se acreditar que isto resulta, resulta mesmo. Vi muitas pessoas lá que ficaram melhor»(2). O homem em Ipu que «incorpora espírito do San e recebe “Mensagem do Além”» também “fez experiência” do espírito de Francisco San Ribeiro de Oliveira, um activista assassinado no mês passado que, segundo o possuído, veio assim pedir justiça pela sua morte (3).

Não duvido que, em muitos casos, o relato da experiência do crente num deus é tão sincero como os relatos das experiências dos crentes no espiritismo, nas mezinhas do Doutor Mwasapile e outras que tal. Mas a fiabilidade das nossas experiências pessoais é muito variável. Depende muito das condições externas e do nosso estado emocional. Na verdade, o enorme progresso do conhecimento, que nos trouxe das cavernas à Internet, foi sempre empurrado pelo progresso nas técnicas para contornar esta limitação, desde a avaliação objectiva dos resultados – problema estranho aos teólogos mas inescapável para quem fabricava utensílios ou construía pirâmides – até aos instrumentos de medição e conceitos como estatísticas e barras de erro.

Além disso, os crentes religiosos abusam da experiência pessoal. Que sintam a presença de alguém quando rezam, aceito como plausível. Que sintam que é Alguém importante, muito superior aos humanos, até pode ser. É coisa que me parece possível sentir. Mas não é plausível que sintam a presença de um deus criador do universo, que é três pessoas numa só substância e que nasceu de uma virgem na Palestina há dois mil anos atrás. Isso é demasiado detalhe para uma mera sensação.

Quando falha a confirmação independente, o mais razoável é assumir que essa experiência de algo é apenas experiência sem o algo. Se oiço um zumbido que outros também ouvem pode ser uma abelha ou algo assim. Mas se só eu oiço então é tinido e o melhor é ir ao médico. O mais provável é que a relação pessoal que os crentes religiosos dizem ter com o seu deus, e que apontam como fundamento para a sua crença, tenha origem no sistema nervoso do crente e não num deus omnipotente. Sentir alguém é uma ilusão fácil, mais ainda quando se deseja intensamente essa experiência. E até pode ser uma coisa boa, para algumas pessoas, mesmo que seja ilusória. No entanto, para bem ou para mal, a experiência pessoal de um deus está mais próxima do que vemos quando esfregamos os olhos fechados do que está do que vemos quando os temos abertos.

1- Comentário em Críticas ao lado do ateísmo, parte 1
2- NY Times, Crowds Come Over Roads and by Helicopters for Tanzanian’s Cure-All Potion. Obrigado pelo email com a notícia. E não percam os vídeos na sua página do Facebook.
3- Blog de Espiritismo, Um caso de todos os dias

Em simultâneo no Que Treta!

11 thoughts on “Treta da semana: experiência pessoal.”
  • Anónimo

    1- É na exclusiva experiência pessoal que o Ludwig sente que ama. Se me disser que ama alguém eu nunca vou saber. Pode retorquir que o seu sentimento é aferível pela sua coerência comportamental. Mas como sei se o Ludwig é ou não íntegro ou um psicopata ? Se está a ser sincero nos seus actos ou a fingir ? Como é que sei então que a experiência pessoal do Ludwig ocorreu ? Não sei, por isso mesmo é subjectiva e individual.

    2- Há várias formas de se acreditar em Deus. E há várias concepções de Deus.Eu, se não fosse cristão, sempre seria crente em qualquer lugar do mundo onde houvesse estrelas para contemplar. O sentimento religioso não se explica nem se prova, sente-se. Tal e qual como o sentimento do Ludwig pelas pessoas que julga amar. Há diferenças entre Deus e pessoas concretas ? Por certo há. Mas significará isso que o sentimento religioso não é susceptível de aferição ? Não Significa apenas que a vivência da espiritualidade tem natureza especial. Como provo ao Ludwig a existência de Deus ? Não provo nem me preocupo em demonstrar. Também o Ludwig nunca me conseguirá demonstrar que nutre sentimento de Amor seja por quem for.

    3-Como é que homens deístas com o gabarito intelectual de Einstein reconheceram Deus como a hipótese mais plausível para a explicação congruente do Cosmos e da Vida ? Pois exactamente através do raciocínio lógico.É esse aliás o fundamento específico dos deístas.Como iria Einstein explicar ao Ludwig a sua crença deísta ? Sobre esse ponto, Einstein deixou-nos algumas significativas pistas de reflexão.Mas a verdade é que nem Einstein conseguiria demonstrar ao Ludwig a natureza íntima da sua convicção nem Ludwig consegue provar a inexistência de Deus. O empate técnico aqui é óbvio e não é todos os dias que o Ludwig se pode gabar de ter empatado tecnicamente com Einstein.

    4- Vamos à sua querida Evolução Ludwig ? Eu vou fazer de conta que afino pelo seu diapasão e ficcionar que sou um darwinista ortodoxo. Então como se processa o pensamento ? Vou metodologicamente descurar a hipótese do seu confrade Sam Harris, que postula a Consciência como um processo não fisicalista,de natureza imaterial, ao invés do que afirma Dennet e Damásio, e que antecederia,segundo o neurocientista Harris, não só o cérebro como os próprios seres vivos.
    Suponhamos então que os nossos pensamentos, as nossas categorias conceptuais são o mero produto fisiológico da complexidade das redes neuronais. E o produto, note-se, da sua amada Evolução.
    Porque carga de água então é que as figuras arquetípicas surgiram de forma humanamente generalizada, como descreveu profusamente Carl Jung ? Não conheço Arquétipo maior e mais dominante do que Deus. Ao longo da História da Humanidade, esse Arquétipo Maior tem estado constantemente presente nas mais variadas concepções monoteístas: nos Vedas, Upanishads, Bhagavad Ghita, nas tradições religiosas índias, nos Sufis, na Fé Bahai, para não estar sempre a evocar a minha referência cristã.

    O termo archetypusjá já se encontra em Filo Judeu como referência à imago dei no homem. Em Irineu também, onde se lê: “O criador do mundo não fez essas coisas directamente a partir de si mesmo, mas copiou-as de outros arquétipos”. No Corpus Hermeticum , Deus é denominado a Luz Arquetípica. Em Dionísio Aeropagita também encontramos esse termo diversas vezes referido como Arquétipo Imaterial.

    Donde veio esse Arquétipo Maior Ludwig senão da sua querida Evolução ? Escusa de me vir com aquela treta de que essa ideia arquetípica é mero sub-produto da pressão evolutiva. Isso é uma mera frase de retórica sem nenhuma fundamentação concreta subjacente.

    Se a Teoria Evolutiva, escogitada por Darwin estiver certa, sempre a Evolução teria originado o Arquétipo- Maior , não como resquício espúrio da sua dinâmica , mas como algo etologicamente relevante à sobrevivência do homem enquanto espécie animal. Desse modo, Deus teria sido sempre ” criado” pela sua tão amada Evolução. Assim sendo, os movimentos ateístas proselitistas estão condenados ao fracasso. Por mais que arenguem no sentido de que Deus é despiciendo, a verdade é que o Arquétipo-Maior está incrustado nos nossos genes.

    E contra a sua “tirânica” Evolução não há mesmo nada a fazer. Foi ela que assim quis Deus e assim Deus veio evolutivamente para ficar…

  • Anónimo

    1- É na exclusiva experiência pessoal que o Ludwig sente que ama. Se me disser que ama alguém eu nunca vou saber. Pode retorquir que o seu sentimento é aferível pela sua coerência comportamental. Mas como sei se o Ludwig é ou não íntegro ou um psicopata ? Se está a ser sincero nos seus actos ou a fingir ? Como é que sei então que a experiência pessoal do Ludwig ocorreu ? Não sei, por isso mesmo é subjectiva e individual.

    2- Há várias formas de se acreditar em Deus. E há várias concepções de Deus.Eu, se não fosse cristão, sempre seria crente em qualquer lugar do mundo onde houvesse estrelas para contemplar. O sentimento religioso não se explica nem se prova, sente-se. Tal e qual como o sentimento do Ludwig pelas pessoas que julga amar. Há diferenças entre Deus e pessoas concretas ? Por certo há. Mas significará isso que o sentimento religioso não é susceptível de aferição ? Não Significa apenas que a vivência da espiritualidade tem natureza especial. Como provo ao Ludwig a existência de Deus ? Não provo nem me preocupo em demonstrar. Também o Ludwig nunca me conseguirá demonstrar que nutre sentimento de Amor seja por quem for.

    3-Como é que homens deístas com o gabarito intelectual de Einstein reconheceram Deus como a hipótese mais plausível para a explicação congruente do Cosmos e da Vida ? Pois exactamente através do raciocínio lógico.É esse aliás o fundamento específico dos deístas.Como iria Einstein explicar ao Ludwig a sua crença deísta ? Sobre esse ponto, Einstein deixou-nos algumas significativas pistas de reflexão.Mas a verdade é que nem Einstein conseguiria demonstrar ao Ludwig a natureza íntima da sua convicção nem Ludwig consegue provar a inexistência de Deus. O empate técnico aqui é óbvio e não é todos os dias que o Ludwig se pode gabar de ter empatado tecnicamente com Einstein.

    4- Vamos à sua querida Evolução Ludwig ? Eu vou fazer de conta que afino pelo seu diapasão e ficcionar que sou um darwinista ortodoxo. Então como se processa o pensamento ? Vou metodologicamente descurar a hipótese do seu confrade Sam Harris, que postula a Consciência como um processo não fisicalista,de natureza imaterial, ao invés do que afirma Dennet e Damásio, e que antecederia,segundo o neurocientista Harris, não só o cérebro como os próprios seres vivos.
    Suponhamos então que os nossos pensamentos, as nossas categorias conceptuais são o mero produto fisiológico da complexidade das redes neuronais. E o produto, note-se, da sua amada Evolução.
    Porque carga de água então é que as figuras arquetípicas surgiram de forma humanamente generalizada, como descreveu profusamente Carl Jung ? Não conheço Arquétipo maior e mais dominante do que Deus. Ao longo da História da Humanidade, esse Arquétipo Maior tem estado constantemente presente nas mais variadas concepções monoteístas: nos Vedas, Upanishads, Bhagavad Ghita, nas tradições religiosas índias, nos Sufis, na Fé Bahai, para não estar sempre a evocar a minha referência cristã.

    O termo archetypusjá já se encontra em Filo Judeu como referência à imago dei no homem. Em Irineu também, onde se lê: “O criador do mundo não fez essas coisas directamente a partir de si mesmo, mas copiou-as de outros arquétipos”. No Corpus Hermeticum , Deus é denominado a Luz Arquetípica. Em Dionísio Aeropagita também encontramos esse termo diversas vezes referido como Arquétipo Imaterial.

    Donde veio esse Arquétipo Maior Ludwig senão da sua querida Evolução ? Escusa de me vir com aquela treta de que essa ideia arquetípica é mero sub-produto da pressão evolutiva. Isso é uma mera frase de retórica sem nenhuma fundamentação concreta subjacente.

    Se a Teoria Evolutiva, escogitada por Darwin estiver certa, sempre a Evolução teria originado o Arquétipo- Maior , não como resquício espúrio da sua dinâmica , mas como algo etologicamente relevante à sobrevivência do homem enquanto espécie animal. Desse modo, Deus teria sido sempre ” criado” pela sua tão amada Evolução. Assim sendo, os movimentos ateístas proselitistas estão condenados ao fracasso. Por mais que arenguem no sentido de que Deus é despiciendo, a verdade é que o Arquétipo-Maior está incrustado nos nossos genes.

    E contra a sua “tirânica” Evolução não há mesmo nada a fazer. Foi ela que assim quis Deus e assim Deus veio evolutivamente para ficar…

    • Nuno Almeida

      Bem assim está melhor pois passou de trol mal educado a trol bem educado, já é minimamente aceitável, apesar de pouco ético.

      • Anónimo

        Saído da toca,chegou o pide e hipócrita do Nuno Almeida armado em troll bem educado.O mesmo que calou todas as javardices dos seus confrades neste “D.A.”. Que cambada…

  • Anónimo

    “Quando falha a confirmação independente, o mais razoável é assumir que essa experiência de algo é apenas experiência sem o algo”

    LK

    Como sei, para além da minha própria experiência pessoal, que todas as pessoas do mundo, que afirmam sentir Amor, de facto sentem ?

    Em bom rigor, não sei. Falha a confirmação independente. Não consigo sentir por outra pessoa que não eu.

    Logo, ” o mais razoável é assumir que essa experiência de algo é apenas experiência sem o algo”

    Veja Ludwig o que dá o seu postulado quando nenhum de nós pode sentir pelo outro…

  • americano

    Caro Ludwig

    Certa feita ouvi de um pastor presbiteriano e teólogo de grande cultura , que os “designios de Deus são insondáveis” e “o homem é incapaz de compreender toda a grandeza de Deus -Criador”.
    Assim sendo, entendi que não adianta nada tentarmos explicar para outrem que “esta é a vontade de Deus” ou “se creio em Deus , então Ele existe.”
    A intenção do pastor era de arrebanhar mais almas para seu aprisco, mas no meu caso ocorreu o contrario. A idéia de Deus serve para muitos como algo benéfico , porém para outros serve como pretexto para suas torpezas.
    Cada um que fique com suas crenças ou no meu caso, descrença.
    Obrigado

  • Ajla

    De certo modo, é disso mesmo que se trata quando a “experiência pessoal” é evocada. Alguém que diga que “viu” um E.T. pode não estar a mentir, mas, ao mesmo tempo, seu relato pode não corresponder à verdade alguma. Basta que ele se engane, esteja com problemas de visão ou com alterações psiquiátricas! Por isso, de nada adiantam a aplicação de testes, como o polígrafo, para averiguar a verdade de fato do que é dito. Estes medem apenas as reações ou expressões fisiológicas que demonstram, através de variáveis comportamentais ou de sinais externos – tais como o batimento cardiáco ou a ativação de certas áreas do cérebro – frente à pressão exercida pelo cotejamento com os próprios testemunhos. Nesse sentido, pode-se muito bem estar a dizer a verdade, sem que o dito seja, somente por isso, verdadeiro!

  • Anónimo

    Vim aqui tentar debater ideias com LK, homem que intelectualmente admiro, pese embora normalmente discordar do sentido geral dos seus textos, aliás muito bem escritos.Pensava eu, erradamente, que aqui poderia divergir, emitindo a minha própria visão interpretativa sobre o tema abordado por LK.

    Teci as minhas considerações de forma escorreita, com a ironia própria do discurso dialéctico.

    Mas tinha que aparecer um dos mesquinhos do costume,incapazes de aceitar que alguém divirja dos seus próprios postulados.

    Desta vez, calhou na rifa o magano de um tal Nuno Almeida, cujo único e detectado exercício de ” inteligência” foi este:

    “Bem assim está melhor pois passou de trol mal educado a trol bem educado, já é minimamente aceitável, apesar de pouco ético”

    ” Pouco ético”, para este tipo de magano é tudo o que não coincida com a cor do seu equipamento desportivo.

    Deve ser o tipo de gajo que anda pelos estádios a cuspir nos adversários e depois ainda se põe a discursar sobre ética.

    Por esta e por outras iguais, é que o “D.A.” se vem tornando o escarro da blogosfera…

    • americano

      Caro antoniofernando2

      Gosto de ler seus comentários , apesar de alguns deles ultrapassarem as medidas com tantas citações. Ma va bene. A afirmação “pouco ético” me faz lembrar outra : “meia honestidade”, como se fosse possível ser 50% honesto. A Ética não permite gradações.
      Uma sugestão de sítio na internet : Frente Universitária Lepanto. O Catolicismo na sua forma mais tradicional.

      Obrigado

      • Anónimo

        Caro Americano

        Grato pela sua gentileza e pelo seu reparo.Irei ver com interesse a sugestão da Frente Universitária Lepanto, que igualmente agradeço.

  • Micael Silva Sousa

    Já para não falar de falsas memórias. Falando em experiências pessoais, já tive as minhas falsas memórias. Tenho a certeza! Ou será que os meus sentidos me falharam?

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