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Ética verdadeira.

No outro post sobre ética eu defendi que esta nunca pode ser objectiva no sentido forte de ser atributo de objectos, mas apenas no sentido fraco de ser independente da opinião individual de qualquer sujeito. O João Vasco propôs «um sentido intermédio», segundo o qual a ética «é uma coisa a ser descoberta, mais do que um mero produto de uma convenção social. […] Nesse sentido é como os factos da natureza, que são o que são mesmo que todos os seres conscientes sobre eles estejam equivocados [… e …] é objectiva na medida em que [continua] a ser verdadeira mesmo que ninguém o saiba.»(1) Discordo, pela diferença na direcção do ajuste entre estes conceitos e a realidade. Vou aproveitar um exemplo da Elizabeth Anscombe para explicar a minha objecção*.

O Manuel vai às compras com uma lista do que que deve comprar. A Maria, a espiá-lo, anota tudo o que ele compra. Quando o Manuel se engana e põe no carrinho massa em vez do arroz que a lista indica, não é alterando a lista que corrige o erro. Tira a massa do carrinho e põe lá um pacote de arroz. Isto porque a direcção do ajuste desejado é da realidade para a lista. O que o Manuel quer é que a realidade se ajuste à lista. Agora a Maria nota que tinha escrito “massa” na sua lista mas, em vez de massa, o Manuel tem arroz no carro das compras. Ao contrário do Manuel, a Maria não vai trocar o arroz por massa no carrinho. Como a direcção do ajuste que ela quer é da lista para a realidade, a Maria vai apagar “massa” e escrever “arroz”.

A verdade e a descoberta aplicam-se a descrições como a lista da Maria. A Maria está a descobrir o que o Manuel compra e é a lista da Maria que pode ser verdadeira ou falsa. Porque é esta que pretende ajustar-se à realidade. A lista do Manuel não é assim. É normativa, especifica o que deve ser em vez de descrever o que é, foi inventada em vez de descoberta e não pode ser nem verdadeira nem falsa. Se o Manuel devia comprar arroz e comprou massa, então foi o Manuel que se enganou. A lista dele não passa de verdadeira a falsa.

Eu rejeito a proposta do João Vasco porque a ética é normativa, tal como qualquer moral que dela se derive. O objectivo da ética não é conformar-se à realidade mas dizer a que padrões a realidade se deve conformar. Concordo que «mesmo que escravos e esclavagistas acreditassem na moralidade da escravatura, ela continuaria a ser imoral». Eu também quero que a ética seja mais sólida do que uma lista de compras. Não pode mudar com as modas nem faz sentido aquela desculpa do “contexto histórico” com a qual tentam justificar as barbaridades na Bíblia. Apedrejar crianças, escravizar pessoas, maltratar mulheres e matar inocentes é imoral em qualquer “contexto”. No entanto, a ética não algo que se possa descobrir, nem que possa ser verdadeiro ou falso, porque estes conceitos exigem a direcção de ajuste oposta. Só uma coisa que se quer ajustar à realidade é que pode ser verdadeira ou descoberta. Quando o que queremos é ajustar a realidade a algo esses conceitos não se aplicam.

A ideia da ética como verdade que se descobre tem mais dois grandes problemas. Um é implicar que haja uma, e só uma, ética válida. Pode não ser esse o caso. Talvez seja possível criar vários sistemas éticos, todos eles universais e todos eles um bom fundamento para a moral. Não estou a defender o relativismo; defendo que muitas coisas serão necessariamente imorais em qualquer ética. Mas pode haver várias soluções para este problema. Ou não haver nenhuma. Também pode ser que aquilo que exigimos da ética seja impossível. Talvez nunca se consiga criar algo que, ao mesmo tempo, seja fiel aos valores de cada sujeito mas transcenda os valores de qualquer individuo. Parece-me que a ideia da ética como uma verdade por descobrir esconde a complexidade do problema que é criar tal coisa. Comparado com a tarefa de criar um sistema ético, descobrir verdades é canja.

E ignora a barreira entre o que é e o que deve ser, o que deixa passar uma data de tretas. Revelação divina, livros sagrados, a falsa autoridade dos sacerdote, as “leis naturais” e coisas tais são apresentadas como fundamento moral na premissa da ética ser algo que “está lá” para ser descoberto. Ou revelado. Não contentes com isso, depois de “provarem” que a moral certa é aquela porque o seu deus diz que é, fecham o círculo “provando” que o seu deus existe porque só assim a moral certa será aquela. Evitava-se a tonteira destas voltas reconhecendo, à partida, que ética e deuses são ambas criações nossas. E que só uma delas tem utilidade.

* Se bem que foi Searle quem relacionou este exemplo com o problema da direcção do ajuste entre conceitos e realidade. Mais (demais?) detalhes na Wikipedia.

1- Comentário em Mais do mesmo.

Editado no dia 30 para corrigir várias gralhas. Obrigado a todos os que as apontaram.

Em simultâneo no Que Treta!

5 thoughts on “Ética verdadeira.”
  • antoniofernando

    Caro Ludwig

    Se você sustenta que não existe uma Ética Universal então está, do meu ponto de vista, a defender implicitamente o Relativismo. Não há nada de errado nisso, pois cada ser humano pensa de forma autónoma e aquilo que é ético para mim pode não ser para si. Haverá algumas matérias onde grande parte das pessoas concordam. Por exemplo, no caso da Tortura, um número largamente maioritário de seres humanos aceitará que ela traduz um comportamento antiético. Mas há muitas outras áreas, de relevante dimensão humana, onde não existe confluência de opiniões e muito menos unanimidade. Já aqui citei os casos do aborto, da eutanásia e da pena de morte.

    Quanto ao que refere, relativamente ao que cataloga de livros sagrados, quer maior prova desse relativismo ético o facto de crentes, como eu, não reconhecerem nenhum carácter sagrado a livros tão abjectos como o Deuterónimo e o Levítico ? Outros, porém, não porão em causa qualquer livro da chamada Bíblia Sagrada, ou porque aceitam a visão austera e inclemente do demiurgo do AT ou simplesmente porque preferem não a pôr em causa, sob pretexto de assim não abrirem brechas ideológicas numa visão teísta que reputam divinamente inspirada,absoluta e intocável.

    Aliás, sobre esta matéria, aqueles que mais criticam outros crentes e cristãos de posições ” relativistas” são exactamente os mesmos que aceitam ou não contestam a iniquidade de conhecidas passagens desses livros terríveis, que atrás citei. São exactamente os mesmos que, por um lado, criticam e bem a prática do aborto, como algo intrinsecamente mau, mas, que, por outro, sancionam ou nada dizem quanto à pena da morte.

    Note, aliás, o seguinte: se a história mítica do Genesis tivesse sido historicamente real, toda a Humanidade teria sido gerada a partir das relações incestuosas entre os filhos de Adão e Eva,

    Se Deus tivesse criado um casal monogenético, então porque deveria haver tão grande reprovação ética, moral e social do incesto ?

    A resposta, sobre esta questão, é de facto dada, não pelo tabu, mas pela etologia; porque as relações consanguíneas geram seres muito menos sãos do que relações exógenas ao habitual círculo de proximidade familiar.

    Eu, como cristão, reconheço superior validade ética à Doutrina de Cristo, pelo mesmo crivo de aferição, que,embora em sentido contrário, me levou a não reconhecer aos mencionados livros do AT.

    Tudo para voltar a referir que não reconheço a existência de nenhuma Ética Objectiva, com carácter universal e absoluto, que não seja , e por mim falo, a que reconheço certa e justa pelo critério decisivo e inultrapassável, da minha própria consciência subjectiva e individual…

  • ludik

    António,

    Eu gostava de ter pelo menos uma ética universal. Não sustento que haja alguma, mas não é por isso que vou desistir. E admito a possibilidade de haver mais do que uma. Isto porque não tenho evidências que me permitam descartar qualquer destas hipóteses: não haver nenhuma, haver uma ou haver mais do que uma.

    Se isto é relativismo é um problema complexo porque o relativismo quer dizer muitas coisas. Por exemplo, o relativismo meta-ético caracteriza-se pela rejeição de verdades morais objectivas. Ora, como eu entendo que a ética não é proposicional – é acerca do que decidimos e não é afirmações descritivas da realidade – então tenho de rejeitar a existência de verdades morais objectivas. Nesse sentido, sou relativista.

    Defendo também que todas as normas éticas devem ser relativas aos valores daqueles por elas afectados. Por exemplo, uma norma acerca do casamento deve ter em conta as preferências sexuais dos que se casam, e não ser uma coisa tipo tamanho único que ignore o que cada um sente. E isso é uma forma de relativismo também.

    Mas o relativismo que rejeito é aquilo que é mais comum chamar-se de relativismo. A ideia de que a ética varia conforme o contexto socio-cultural. Por exemplo, que em certas culturas é eticamente aceitável discriminar as mulheres, ou negar educação a algumas crianças, ou cortar as mãos às pessoas acusadas de furto, etc. O que eu rejeito é a ideia de que a ética deve ser relativa aos costumes culturais, e isto é que normalmente se chama relativismo. Rejeito esta em particular porque defendo precisamente o contrário: são os costumes morais que têm a obrigação de se conformar à ética.

    Mas o ponto principal que quero fazer aqui é que a ética não é acerca de verdades objectivas porque nem é acerca de objectos nem é proposicional. Quando dizemos que a maioria dos portugueses é contra a escravatura, estamos a falar de assuntos relacionados com a ética mas estamos apenas a descrever algo. Isso, em si, não é ética. É quando decidimos opor a escravatura que estamos a agir de forma ética. E isso é uma decisão, e não uma proposição. Não é algo que se possa classificar de verdadeiro ou falso, e não é algo que um mero objecto consiga fazer.

  • ludik

    António,

    Eu gostava de ter pelo menos uma ética universal. Não sustento que haja alguma, mas não é por isso que vou desistir. E admito a possibilidade de haver mais do que uma. Isto porque não tenho evidências que me permitam descartar qualquer destas hipóteses: não haver nenhuma, haver uma ou haver mais do que uma.

    Se isto é relativismo é um problema complexo porque o relativismo quer dizer muitas coisas. Por exemplo, o relativismo meta-ético caracteriza-se pela rejeição de verdades morais objectivas. Ora, como eu entendo que a ética não é proposicional – é acerca do que decidimos e não é afirmações descritivas da realidade – então tenho de rejeitar a existência de verdades morais objectivas. Nesse sentido, sou relativista.

    Defendo também que todas as normas éticas devem ser relativas aos valores daqueles por elas afectados. Por exemplo, uma norma acerca do casamento deve ter em conta as preferências sexuais dos que se casam, e não ser uma coisa tipo tamanho único que ignore o que cada um sente. E isso é uma forma de relativismo também.

    Mas o relativismo que rejeito é aquilo que é mais comum chamar-se de relativismo. A ideia de que a ética varia conforme o contexto socio-cultural. Por exemplo, que em certas culturas é eticamente aceitável discriminar as mulheres, ou negar educação a algumas crianças, ou cortar as mãos às pessoas acusadas de furto, etc. O que eu rejeito é a ideia de que a ética deve ser relativa aos costumes culturais, e isto é que normalmente se chama relativismo. Rejeito esta em particular porque defendo precisamente o contrário: são os costumes morais que têm a obrigação de se conformar à ética.

    Mas o ponto principal que quero fazer aqui é que a ética não é acerca de verdades objectivas porque nem é acerca de objectos nem é proposicional. Quando dizemos que a maioria dos portugueses é contra a escravatura, estamos a falar de assuntos relacionados com a ética mas estamos apenas a descrever algo. Isso, em si, não é ética. É quando decidimos opor a escravatura que estamos a agir de forma ética. E isso é uma decisão, e não uma proposição. Não é algo que se possa classificar de verdadeiro ou falso, e não é algo que um mero objecto consiga fazer.

  • ludik

    PS: sou o Ludwig, mas isto agora está um bocado diferente nos logins 🙂

  • ludik

    PS: sou o Ludwig, mas isto agora está um bocado diferente nos logins 🙂

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