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Sermões impossíveis – O Censos censor

Por

Fernanda Câncio *

Escrevo este texto no dia em que preenchi o questionário do Censos. Confesso que o achei estapafúrdio em alguns aspectos – por exemplo, perguntar às pessoas se alguém que não faz parte do agregado passou a meia noite do dia 21 de Março naquela morada e, caso afirmativo, qual o seu nome (como é natural e talvez até desejável, muita gente não responderá com verdade a tal questão); se têm garagem mas não se têm carro, e quantos por agregado; sobre a existência de uniões de facto de sexo diferente e do mesmo mas, no caso do casamento, ignorando a alteração existente desde Maio de 2010; solicitar a quem trabalha com falsos recibos verdes — que foi contratado para trabalho dependente mas é tratado pelo empregador, para efeitos fiscais e de segurança social, como independente — que se assuma como trabalhador dependente.

Mas a questão que mais escândalo me suscitou – até por não ter dado conta de qualquer reacção institucional que se lhe referisse — é a última do questionário individual, facultativa (por imperativo constitucional) e sobre religião. Nada tenho contra a pergunta sobre crenças, mas tenho tudo contra a forma como é formulada. E o tudo começa no título: “Indique qual é a sua religião”. Pressupõe-se assim que todos temos religião – incluindo os que a não têm, já que entre as respostas possíveis, se encontra, em último lugar (!), “Sem religião”. Era muito fácil evitar esta estultícia: bastava que o título do bloco fosse “situação face à religião”, ou mesmo só “religião”. Mas a forma como o bloco está elaborado é mais que estulta: é capciosa e completamente contraditória com a natureza laica do Estado português. Não só por pressupor a existência de uma afectação religiosa como norma – independentemente de poder ser essa a verdade estatística o Estado não pode impor esse princípio – mas pelo elenco das oito hipóteses possíveis, a saber, “Católica”; “Ortodoxa”; “Protestante”; “Outra Cristã”; “Judaica”; “Muçulmana”; “Outra não cristã”; “Sem religião”. Não é preciso ser uma águia para apreender a total arbitrariedade quer da enumeração quer da ordem (que, como se sabe, nunca é despicienda – basta lembrar que no caso dos boletins de voto é sujeita a sorteio, et pour cause – e que não é a alfabética, a única aceitável, nem sequer a da representatividade numérica, já que coloca os protestantes depois dos ortodoxos e os  muçulmanos depois dos judeus).

Numa matéria tão reconhecidamente sensível como esta – daí, desde logo, o carácter facultativo da pergunta – exigir-se-ia que não subsistisse a menor suspeita de discriminação; que quer os termos da pergunta quer as respostas possíveis respeitassem a ideia da igualdade constitucional entre a crença e a não crença e entre os variados credos. Nada disso, porém. Ao ponto de podermos – devermos – questionar qual o objectivo desta questão. É que se fosse perceber quantos residentes em território nacional se afirmam religiosos e quantos não, nunca podia partir do pressuposto de que todos o são; se a ideia é saber quantas crenças existem no território e qual a sua natureza, jamais se efectuaria uma lista que assume a existência de uma religião “ortodoxa” (existem várias seitas cristãs ortodoxas), deixa de fora hindus e budistas (por exemplo) mas inclui os judeus, escassas centenas, não tem a opção evangélicos (que de um modo geral não se assumem como protestantes — por exemplo, no Censos de 2001, cujo questionário era nesta matéria igual, as respostas identificaram cerca de 47 mil cidadãos protestantes e quase o triplo como “outra cristã”, o que é esclarecedor) e – mais grave de tudo – não permite a possibilidade de as pessoas se inscreverem simplesmente como “cristãs”. Ao impedir essa inscrição, o que o Instituto Nacional de Estatística está a fazer é a distorcer, consciente ou inconscientemente – e a este nível não pode haver distorção inconsciente – a representatividade da religião católica no País, já que muitos dos que se assumiriam simplesmente como “cristãos” (numa definição sobretudo cultural) vão assinalar-se como “católicos”. Tal como está elaborada, a questão sobre religião censura – porque manipula e rasura — a realidade. Não deve ser preciso dizer que isso é inaceitável e deveria merecer, de volta, a censura de todos. E levar-nos a exigir uma explicação sobre os critérios utilizados e as entidades consultadas para a elaboração da pergunta, sendo certo que a Comissão da Liberdade Religiosa não o foi.

* Artigo hoje publicado em Notícias Magazine. (Reproduzido com autorização da insigne jornalista).

24 thoughts on “Sermões impossíveis – O Censos censor”
  • antoniofernando

    As respostas sobre matéria de religião são facultativas. Por mim, podem ficar descansados que assinalei resposta como cristão, embora nem católico nem protestante. Aceito que deveria existir uma rubrica que permitisse respostas enquanto ateus ou agnósticos, pois não ter religião não é exactamente o mesmo que ser ateu ou agnóstico. Eu poderia não ter religião, no sentido mais institucional do termo, e acreditar em Deus.

    Também concordo com a Fernanda Câncio quanto ao facto de não serem permitidas outras respostas, como, por exemplo, quanto ao Espiritismo, Budismo, Hinduísmo ou Fé Bahai, embora seja duvidoso que o Budismo, não sendo uma doutrina teísta, possa ser considerado religião, pelo menos na acepção teísta que normalmente se atribui ao conceito.

    Quanto ao primeiro parágrafo da objecção desse texto, estou totalmente de acordo.

    Relativamente ao terceiro parágrafo, a Fernando Câncio aí não tem razão. Eu, enquanto cristão não católico, pude assinalar o meu enquadramento específico e não vejo como, nesse ponto concreto, as respostas possam ser adulteradas. Quem não for católico e for cristão tem sempre a hipótese de se referenciar correctamente.

  • Shere W.

    Sim. Insigne jornalista; pois no Brasil já quase não os há. tamanha a sordidez dos subservientes ao mafioso conluio teo-pulhítico vigente. E quantas pessoas têm um discernimento simples para sequer notar tais “gentiliezas” berrantes como as que ela anota? Por que, os abomináveis porcos estão convictos que somos todos uma só cambada de imbecis, covardes. Mas logo terão uma baita surpresa.

    • antoniofernando

      Tempos houve em que, para se ser insigne, tinha-se que pedalar muito. Hoje não, basta que a jornalista seja ateia e citada no ” D.A.”. Sinais dos tempos…

      • Redbloc

        Milagre.
        É um verdadeiro milagre este que se produziu neste espaço.
        Estou de acordo com o Toinando e com a puta da F Câncio.

        Mais uma manifestação destas e quase dou em crente,

        Têm toda a razão. O Toinando e a puta.

        • antoniofernando

          Tomaste a Fernanda Câncio pela p…da tua m….

          Nota-se bem pelo teu focinho…

        • antoniofernando

          1)” * Artigo hoje publicado em Notícias Magazine. (Reproduzido com autorização da insigne jornalista) ” ( Carlos Esperança)

          2) ” a puta da F Câncio” ( Red Bloc)

          3) Só mesmo no “D.A.” é que através dos seus colaboradores, um assumido e o outro cobardemente disfarçado, é que seria possível uma ” insigne” jornalista passar, em dois tempos, de ” insigne” a ” puta”.

          Claro que o Carlos Esperança vai engolir o epíteto ” puta” à ” insigne” jornalista e a restante maralha ateísta silenciar a sua mais recente catalogação .

          É a rebanhada no seu pior…

  • Shere W.

    Caso a sorte venha trazê-la até aqui, vamos aproveitar também para realçar um achincalhe óbvio por parte dos inventores das crenças em relação aos seus infelizes crentes-fiíes: Escreveram na paçoca de mentiras divinas que: o ispíritu desceu como pomba sobre a cabeça do batizado. Todos sabemos que o pombo é um dos bichos mais porcos que existe, sem citar outras peculiaridades desse bicho que o assemelha muito em comportamento ao cachorro em referência a uma série de danos que nos causam. E é fato que o poleiro de pombo é uma repositório de sujeira. Não é piada. Quando escreveram, fizeram como um pingo de letra pra quem sabe ler, e o primeiro ensino pro vigarista que usaria esse entulho de imundície chamado ‘palavra divina’.

  • antoniofernando

    ”Pressupõe-se assim que todos temos religião – incluindo os que a não têm, já que entre as respostas possíveis, se encontra, em último lugar (!), “Sem religião”.

    Fernanda Câncio

    Carlos Esperança, vocês aí na AAP andam a dormir na forma ? Não acha que se justificaria fazerem um comunicado ao PR ou ao PM insurgindo-se contra o facto de o census não perguntar também se alguém é ateu ou agnóstico ? Vocês, que, às vezes perdem tempo com ninharias, não acham que era a altura oportuna de se insurgirem contra essa discriminação inconstitucional de tratamento ? É para isto que os sócios da AAP pagam quotas ? Para vocês andarem a dormir na forma ?…

    • Anónimo

      Mas ateu e agnóstico não poderia estar no item das religiões. O ateísmo não é uma religião nem uma alternativa às religiões.

      A Fernanda Câncio podia, com pouco esforço, informar-se sobre as religiões que são reconhecidas pelo Estado português. É que as seitas não são reconhecidas como religiões, pelo nosso Estado.
      Eu acho bem.

      Outra coisa que me deixa perplexo é o espanto com a sra. comenta que “sem religião” é uma opção que vem no final das opções.
      Poderia também procurar alguma informação sobre o assunto e ficaria a saber que isso é uma regra. Sempre que, num questionário, se circunscreve um conjunto de opções de uma questão, deve ser introduzida, no final, uma questão do tipo: “nenhuma das anteriores”. Neste caso, sem religião.
      Outra regra universal dos questionários, é que eles devem ser afirmativamente positivos positivos. Em vez de perguntar: Tem religião, sim/não, se tem passe para a questão X, se não tem para a Y; mandam as regras que se leve um questionado a responder: Qual das seguintes é a sua religião? Ele escolhe a que lhe cabe ou, no final, “nenhuma”. Aliás, devem ser inscritas as alternativas por probabilidade da sua ocorrência.
      Nesses aspectos o questionário está tecnicamente correcto.

      O que me deixa preocupado é o facto de serem os ateus que levantar as questões sobre as religiões, sendo um assunto que nem os devia preocupar, já que não lhes diz respeito.
      Deviam preocupar-se com outras questões que rondam a devassa da vida privada, às quais, também eu concordo, ninguém, no seu estado de juízo perfeito, reponderá com rigor.

      • antoniofernando

        “Mas ateu e agnóstico não poderia estar no item das religiões. O ateísmo não é uma religião nem uma alternativa às religiões”

        A questão fundamental não é essa. Se o inquérito census 2011 visa apurar, embora com resposta facultativa, como se referenciam os cidadãos em termos de religião, então,em desrespeito claro pelo princípio constitucional da igualdade, os ateus e os agnósticos não têm onde responder, pois a rubrica ” sem religião” também permite respostas de crentes em Deus, que não se revêem em qualquer religião institucionalizada. A título meramente exemplificativo, podem responder nessa referência os deístas que não se identifiquem qualquer tipo de religião.

        Ou seja: os ateus, os agnósticos e os crentes” sem religião” vão certamente assinalar esse quadrado.

        No final, quando forem revelados os resultados do census 2011,ninguém vai conseguir determinar a percentagem dos ateus.

        Que faz entretanto a AAP ? Nada, dorme a sono alto…

      • Jvgama

        « Aliás, devem ser inscritas as alternativas por probabilidade da sua ocorrência.

        Nesses aspectos o questionário está tecnicamente correcto. »

        Creio que isto não é verdade.
        Em primeiro lugar porque os muçulmanos surgem depois dos judeus, e havendo mais muçulmanos do que judeus em Portugal essas respostas não estão ordenadas por probabilidade de ocorrência.
        Pior ainda é tentar compreender o critério que presidiu à escolha das religiões que figuram no questionário. Como se explica que o Hinduísmo, uma religião incomparavelmente mais popular no mundo e no território nacional que o Judaísmo, uma religião reconhecida e mais antiga que qualquer das que figuram no questionário, não foi incluído?

        Por outro lado, este assunto diz tanto respeito a ateus como crentes, pois todos são cidadãos, e portanto todos são afectados pela forma adequada ou não como decorrem os censos.

        No que diz respeito às restantes questões, os ateus também se podem preocupar, mas possivelmente exprimirão essa preocupação noutros fóruns que não este.

  • jmc

    que exagero….

  • ajpb

    SERÁ QUE A JORNALISTA NÃO PODE DIZER O QUE PENSA_?…

  • veradictum

    Acho muito simplesmente que a autora do artigo escreveu um artigo excelente.

  • veradictum

    às vezes as coisas correm mesmo mal: quis dizer muito simplesmente que a autora escreveu um excelente artigo. PF não considerem “do artigo” no meu posto anterior.

  • Carlos Esperança

    Apaguei vários comentários, pela primeira vez. Não será a última. Não há um único colaborador permanente do DA que use a obscenidade como arma.

    • Zeca-portuga

      Então vossemecê já percebeu por que razão tenho hoje 28 comentários e não publiquei nenhum e amanhã apago-os!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    • Zeca-portuga

      Então vossemecê já percebeu por que razão tenho hoje 28 comentários e não publiquei nenhum e amanhã apago-os!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    • Zeca-portuga

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    • antoniofernando

      Hipócrita.Permitiste tempo demais que o Red Bloc andasse a insultar a Fernanda Câncio de ” puta”,,,

  • Redbloc

    Com tanta merda que já aqui se disse, é extraordinário que seja um comentário meu o primeiro a ser removido.
    Tanto insulto, tanto vil insinuação seguida de tanta e tão pojante afirmação da liberdade de expressão.
    Obviamente que quando me referi, nos termos em que o fiz à FCancio, fi-lo com o azimute virado à sua consciência, à sua integridade intelectual, naquilo em que se torna sua opinião. E nesse aspecto assumo. Aquela senhora é uma prostituta intelectual do mais ordinário que existe.
    Pratica no seu blog a mais vil censura. Censura as ideias que lhe são adversas, so o fazendo (o que ainda se torna mais grave) quando encetada por si uma discussão, acaba a perceber que perdeu o pé.
    É pois lamentável esta censura. E à semelhança do que fiz em diferentes ocasiões, daqui me retiro, com a certeza porém, que não será por isso que os insultos acabarão.
    Uns mais boçais, outros contendo refinado humor. Algo que continuo a acreditar não amedronte os espíritos livres.
    Quanto ao mais são amendoins… ou afinidades familiares (eventual família política?).
    Até sempre

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