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Mais do mesmo…

O Bernardo Motta tem-me criticado pela superficialidade com que trato o que ele chama “os melhores argumentos teístas”. Argumentos como, por exemplo, esta versão do argumento moral que o Bernardo propõe para refutar um tal de “naturalismo darwinista”.

«(1) Se o naturalismo darwinista é verdadeiro, então a moralidade humana é um produto do neodarwinismo (mutação, cruzamento, selecção natural)
(2) Se a moralidade humana é um produto do neodarwinismo, então não existem factos morais objectivos (verdades morais objectivas)
(3) Existem factos morais objectivos
(4) Logo, o naturalismo darwinista é falso»
(1)

Se o Bernardo se refere à teoria da evolução, muito diferente hoje do que era quando Darwin deu o pontapé de saída, a primeira premissa é falsa. Há factores biológicos hereditários que fundamentam a nossa moralidade, como a empatia, a noção intuitiva de justiça e a compreensão das intenções dos outros. Este atributos são evidentes também nos nossos parentes primatas mais próximos, claramente herdados de um antepassado comum. Mas a maioria dos elementos da moral, nas várias culturas, não surgiu por herança e modificação de genes. O respeito cristão pela hóstia consagrada, as formas de vestir, de se dirigir aos pais ou a poligamia dos Mórmones são preceitos morais que, em detalhe, devem muito mais a interacções sociais do que à evolução biológica.

Mesmo ignorando a falsidade da premissa, a inferência no ponto 2 é absurda. A evolução da moral humana não permite concluir nada acerca da “existência de factos morais objectivos”. Pode haver factos morais, a nossa moral ter evoluído e coincidir com esse factos; pode ter evoluído e não coincidir; pode nem existir qualquer facto moral; podemos ter sido criados por um deus mas não existirem factos morais; ou existirem mas não serem os que julgamos ser, e assim por diante. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. O Bernardo parece também assumir, implicitamente, que a moral humana é a “Moral Verdadeira, Única e Certa®”, uma premissa difícil de aceitar com a evidência que temos.

Inaceitável também é a alegação do ponto 3, de que “existem factos morais objectivos”. Se “objectivo” quer dizer ser atributo de um objecto, então é evidente que não há factos morais objectivos. Não faz sentido falar de deveres ou direitos de algo que não seja sujeito. A gravidade é um atributo objectivo, mas o dever de respeitar os mais velhos não é aplicável a objectos. E se “objectivo” tiver aqui o sentido mais fraco de independente da opinião de qualquer sujeito, isso não levanta problemas para o naturalismo. É perfeitamente possível que essa moral seja um produto natural da interacção de sujeitos que criam normas consensuais e resistentes a caprichos individuais. Isso existe, sim, mas no sentido em que existem as regras de trânsito, a adopção e os contratos de arrendamento. Existe porque o criamos.

É verdade que, subjacente a estes preceitos morais, gostaríamos que houvesse um fundamento ético universal, algo que permitisse avaliar qualquer norma de forma idónea e independente, e que separasse as morais boas das más (e há muitas que são más). Mas, após milhares de anos de tentativas de sucesso modesto, não se justifica assumir que tal coisa existe e, ainda por cima, que tem origem sobrenatural e nos é dada de bandeja num livro qualquer. Pelo contrário. Ao que tudo indica, se alguma vez conseguirmos um fundamento destes para a moral, será à custa de o criarmos, entre todos, usando as capacidades que herdámos pelo sacrifício de todos os que a evolução condenou a não serem antepassados de ninguém.

O Bernardo até pode ter razão em queixar-se de que eu não perco muito tempo com os “argumentos” teístas. É uma opinião subjectiva. Eu até acho que perco mais tempo com isto do que devia ser necessário. Mas, seja como for, a minha análise não é breve por ignorância ou receio. O problema é simplesmente que os “argumentos” teístas não passam de umbigologia. Inventam umas premissas sem fundamento, não apresentam evidências, martelam inferências sem sentido e tudo isso só para chegar à conclusão que já escolheram à partida. Como um argumento só pode persuadir pela razão se partir de premissas aceites por ambas as partes e seguir uma linha de inferência válida e clara, facilmente se vê que “argumentos” como este que o Bernardo apresenta não servem para nada. Não é preciso uma análise muito elaborada.

PS: Na próxima sexta-feira o Bernardo Motta vai debater com o Ricardo Silvestre no bar do Helder Sanches. Para quem estiver interessado, há mais detalhes aqui e aqui.

1- Bernardo Motta, Ateísmo – homeopatia para o intelecto

Em simultâneo no Que Treta!

10 thoughts on “Mais do mesmo…”
  • antoniofernando

    Ludwig Krippahl faz a enorme diferença para a medíocre maralha ateia que anda por aqui , ao pio estilo do J Pidesco, do Lé Lé Pinteiro e do Luizeco Brutamontes.

    Seja bem reaparecido LK, já cá faltava um pouco do seu equilíbrio de raciocinio neste pântano dos seus confrades mesquinhos e ressabiados…

  • antoniofernando

    No essencial concordo com a perspectiva de LK quanto ao facto de não existirem ” factos morais objectivos”, no sentido de que esta ou aquela é a “Moral Verdadeira, Única e Certa®”
    Também é verdade que os valores axiológicos não dependem da crença teísta. Eu posso partilhar de valores éticos e políticos de um ateu, nos mesmos termos em que ele pode comungar dos meus. Sou contra a pena da morte. E há crentes e ateus que, nesta matéria, se dividem: uns favoráveis, outros contra. Mas, por mim nem sequer concebo que qualquer igreja, que se reivindique cristã, admita ou tolere a sua aplicação, em qualquer circunstância. Donde vêm os valores éticos, que são hoje humanamente assimilados ? Não creio que seja relevante saber como surgiram, pois isso em nada contribui para a convicção ou descrença na existência de Deus.Factos são factos e , na Humanidade, existem valores éticos ou morai. O Budismo enfatiza os valores da generosidade e do respeito por todas as criaturas, de uma forma eticamente superior, e,no entanto,não abordam sequer a existência de Deus.Não seria preciso ir mais longe para se ver que, neste aspecto concreto, LK tem razão, na sua lógica discursiva racionalmente bem sustentada.
    Para mim, enquanto crente e cristão, só afiro a justeza de qualquer princípio eticamente assertivo em função da minha própria consciência, como,aliás, julgo que sucederá com qualquer outro ser humano que não se demita da sua função de soberania decisória, em matéria de questões de consciência.
    Por isso mesmo é que renego uma parte significativa de livros bíblicos do AT, como o Deuterónimo e o Levítico,resultantes do processo de antropomorfização humana, veiculadores do lado mais mesquinho da sua condição.
    Sou cristão, mas se Jesus de Nazaré não tivesse historicamente existido, ainda assim o seria , no preciso sentido de que consideraria eticamente superior os ensinamentos que constam do Evangelho, caso estes tivessem sido elaborados num outro diferenciado processo de construção antropomórfica.
    Se o Homem já construiu Deus à imagem da sua própria mediocridade, também seria possível imaginar o homem à medida de um Ser eticamente sublime.
    Se o Homem conseguiu esta epopeia intelectual através da elaboração do Evangelho, bendita epopeia.
    Sempre será sinal ou de que Deus é uma altíssima probabilidade intelectual ou existe mesmo para além da nossa relativizada condição…

  • antoniofernando

    “Pelo contrário. Ao que tudo indica, se alguma vez conseguirmos um fundamento destes para a moral, será à custa de o criarmos, entre todos, usando as capacidades que herdámos pelo sacrifício de todos os que a evolução condenou a não serem antepassados de ninguém.”

    LK

    Porém, aqui LK parece contradizer-se. Das duas uma: ou existe um princípio ético universal ou não existe.

    Se não existe, e,sobre o que é ou não ético, as opiniões divergem, então a problemática de ” o criarmos” nem sequer se coloca,pois nunca haveria uma universalização de um mandamento ético por todos aceite.

    Por outro lado, se nós somos fruto do processo evolutivo, que, contudo, não circunscrevo à visão estritamente materialista de Darwin, nada de mais razoável admitir que cada um de nós é,a seu modo singular, sugestionado ou impressionado pelos mais diversos contributos axiológicos, a que adere.

    Nesta matéria,os seres humanos não têm que estar de acordo. O aborto é ou não eticamente sustentável ? A pena de morte é ou não admissível ? A eutanásia é ou não moralmente defensável ? Uns dirão que sim, outros que não.

    Aqui, nesta abordagem, você pode mandar a sua ” evolução” às malvas, que ela, como quer que você a entenda ou interprete, nunca será apta a fundamentar qualquer ética universal.

    Se algo a Evolução nos mostrou foi a diferenciação das espécies e das distintas mundividências humanas.

    Finalmente, isso de “evolução” tem muito que se lhe diga. Felizmente que também aqui não há visões totalitárias, nem mesmo no plano científico, como, prudentemente, Karl Popper nos avisou…

    • Ludwig

      António,

      «Porém, aqui LK parece contradizer-se. Das duas uma: ou existe um princípio ético universal ou não existe.»

      Não existe no sentido que existe, por exemplo, Neptuno ou sardinhas. Mas pode vir a existir da forma como existe o IVA ou os contractos de arrendamento. Ou seja, se criarmos e convencionarmos tal coisa.

      «Se não existe, e,sobre o que é ou não ético, as opiniões divergem, então a problemática de ” o criarmos” nem sequer se coloca,pois nunca haveria uma universalização de um mandamento ético por todos aceite.»

      Isso é como defender que o dinheiro ou sempre existiu ou nunca poderá existir…

      «Aqui, nesta abordagem, você pode mandar a sua ” evolução” às malvas, que ela, como quer que você a entenda ou interprete, nunca será apta a fundamentar qualquer ética universal.»

      De acordo. Nenhum facto, por si só, pode fundamentar um valor. No entanto, sem certas características que temos graças à evolução (como a capacidade de perceber as intenções dos outros, preferências, capacidade de comunicar, etc) nunca poderíamos criar um sistema ético. Não presumo que, mesmo com estas capacidades, sejamos capazes de o fazer. Talvez sim, talvez não. Mas parece-me claro que se, por exemplo, tivéssemos apenas a capacidade cognitiva de uma lesma ou girassol, então é que nem valia a pena tentar.

      «Finalmente, isso de “evolução” tem muito que se lhe diga. Felizmente que também aqui não há visões totalitárias, nem mesmo no plano científico, como, prudentemente, Karl Popper nos avisou…»

      No plano científico não há “visões totalitárias”. Porque aí o que interessa é o encaixe das hipóteses entre si e, especialmente, com os dados. Mas fora do plano científico abundam as infalibilidades, as revelações divinas, os mandamentos e tretas afins.

      • antoniofernando

        Ludwig

        No plano científico não há visões totalitárias, também concordo. A liberdade humana não é domesticável e haverá sempre aqueles ” patinhos feios” que explorarão cientificamente para além das barreiras dogmaticamente estabelecidas.

        Quanto ao essencial do seu texto, basicamente subscrevo o entendimento de que não há éticas absolutas. O Homem, independentemente da existência ou não de Deus, será sempre o juiz avaliador do que considera eticamente válido ou não…

  • Zeca-portuga

    Por mim, este desfiar de palavras sem nexo e estas ideias/conversas infantis do LK não merecem comentário de gente crescida.

    • antoniofernando

      Perdeste então uma boa oportunidade de estares calado…

    • Anónimo

      Não deixas de ter razão.
      O Ludwing pretende tratar os temas numa visão filosófica mas, por falta de conhecimentos de filosofia ou de capacidade de raciocínio, torna a discussão infantil.

      • Ludwig

        Jmc,

        Eu tenho dois filhos com 9 anos. Muitas vezes eles colocam questões ou descrevem as coisas de uma forma infantil. Não é de estranhar. No entanto, a experiência de ser pai ensinou-me que o facto de algo ser infantil não quer dizer que esteja errado, nem que desmereça consideração, nem que se possa descartar apenas por ser infantil.

        Por isso simplesmente dizer que a minha abordagem infantil é fazer como o Zeca: usar da palavra para não dizer nada.

    • Anónimo

      Não deixas de ter razão.
      O Ludwing pretende tratar os temas numa visão filosófica mas, por falta de conhecimentos de filosofia ou de capacidade de raciocínio, torna a discussão infantil.

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