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A crueldade da profissão

Por

Abraão Loureiro

Lembro-me quando ainda criança de me debruçar sobre o muro do seminário.
Lá em baixo, no campo da bola algumas vezes via rapazes de saiote jogando futebol. Pareciam alegres naqueles momentos. Felizes? Não sei. Apenas os via a uma certa distância.
Aos domingos eles saíam em filas de 2 acompanhados dos prefeitos para o passeio semanal. O percurso era sempre o mesmo mas sempre dava para que os olhos vissem o lado da liberdade. É bom saber que não eram jovens nascidos e criados em cidades mas sim em aldeias onde nem escolas havia e o modo de vida era duro começando o trabalho árduo desde muito cedo. Daí que esse passeio representava acima de tudo um dia de festa. Quantos terão ficado retidos de castigo por mau comportamento privados desse dia tão esperado?!

Época de miséria que fazia dos pobres a maior massa de alunos para a profissão religiosa. Sempre ouvi dizer que muitas famílias sem condições de sustento metiam as chamadas cunhas aos párocos para que os filhos pudessem entrar no seminário. Isso representava duas garantias. A alimentação e a instrução.

Para os mais abastados existiam outras regras. Pela ordem de nascença, um dos filhos era cruelmente encaminhado para o seminário com o fim de subir na vida com a garantia de um posto elevado. Elevado representa DINHEIRO e PODER e daí prá frente a continuidade do bem-estar do rebanho familiar. Manutenção dos estatutos feudais mesmo em regime republicano.

É certo que alguns dizem e até acredito, que ingressaram na carreira por sentido de vocação. Ámen. Acredito também que muitos outros foram seduzidos por catequistas, madrinhas, avós, mães, cérebro esvaziado pelo mundo que os rodeava, etc.. Garantidamente por namoradas não foram.

Também é certo que outros, influenciados pelos pais, frequentaram o curso com a finalidade única de fazerem o ensino com cama, mesa e roupa lavada gratuito para seguirem viagem até à Universidade.

Se os directores seminaristas adivinhassem as intenções, eles jamais comeriam de borla.

Dadas as regras para aceitação, outros, que por gosto ou desgosto só tiveram oportunidade de bater à porta de um mosteiro. Para estes não sei o que teria sido melhor, se o sanatório ou o convento. As depressões não são sentidas pelo doente. Não quero dizer com isto que os considero pessoas de má fé. Antes pelo contrário, acredito que vão imbuídos de bons sentimentos e dispostos a sofrer pelos outros.

Regras fundamentais da casa (mosteiro):
1º – Aqui quem manda sou eu. Democracia.
2º – Quem não cumprir as regras vai pró olho da rua. Compaixão.
3º – Quem tem dote tem direitos. Negócio.

Terminado o seminário o que fazer? Sair? Serviço militar obrigatório? Procurar emprego sem habilitações técnicas ou superiores? Com tantos anos de clausura como será o mundo lá fora? Enfim, um ror de questões para a sobrevivência porque daqui pra frente a única garantia é seguir a carreira profissional ao serviço do Estado Vaticano. É hora do acerto de contas. Gastamos e está na hora de começares a pagar em prestações. Ficas com um franchising modesto para início e se adquirires boas técnicas de marketing poderás mudar de estabelecimento para uma rua mais afreguesada.

Se o agora homem feito já sentindo o chão que pisa tiver olhos para os dinheiros que gere e um pouco de prosápia, poderá subir os degraus da vida tal e qual se sobe na política. É apenas uma questão de jeito e de jeitos.

Sofri mas aprendi. Reprimiram os meus pensamentos e desejos, que mais me resta nesta vida?

Tenho empregada doméstica para todo o serviço. Tenho beatas que não me saem da sacristia. Tenho tempo para ver o Sol e a Lua e ainda sobram uns trocados para ajudar algum familiar que ande à rasca para sustentar a família.

Ora que se lixe! O mundo que me perdoe mas eu vou continuar fingindo que acredito.

23 thoughts on “A crueldade da profissão”
  • Anónimo

    “(…) carreira profissional ao serviço do Estado Vaticano.”
    Será que os padres podem ser considerados funcionários públicos? 🙂
    P.S.: Parabéns pelo artigo.

    • ajpb

      NÃO. NÃO PODEM…

      PORQUE APESAR DE LHES PERMITIREM TRABALHAR NO SECTOR PÚBLICO E NO PRIVADO AO MESMO TEMPO…CONSIDERAM QUE NÃO HÁ INCOMPATIBILIDADES.

      …E PORQUE PARA ALÉM DE RECEBEREM DOS PRIVADOS E DO CONTRIBUINTE EM GERAL AO MESMO TEMPO… APENAS PRESTAM SERVIÇO A ENGANAR OS CRENTES…

  • antoniofernando

    “Quem tem dote tem direitos. Negócio.”

    Sim ? E pode concretizar ?…

  • antoniofernando

    “carreira profissional ao serviço do Estado Vaticano”

    Sim ? E o salário é jeitoso ? …

  • antoniofernando

    “Sofri mas aprendi. Reprimiram os meus pensamentos e desejos, que mais me resta nesta vida?”

    Deixares de ser lamúrias…

  • antoniofernando

    “Sofri mas aprendi. Reprimiram os meus pensamentos e desejos, que mais me resta nesta vida?”

    Deixares de ser lamúrias…

  • Haddammann Veron Sinn-Klyss

    Pouquíssimos textos têm essa valia de reflexão. E com esse ‘toque’ de consciência também tentei posicionar a lástima dos pederastas falidos, subservientes, presos-aprisionadores, e também o séquito e conluio esdrúxulo dos pastutos. Usei um tom como esse para abrandar nossa responsabilidade e a deles pela desgraça que estávamos afundando a Sociedade. Isso foi suavemente colocado no livro O ESPAÇO e a Procedência do Movimento; mas correram atrás de mim feito assassinos loucos, quando pensei neles, quando pensei em nós, só o que ganhei foi a tarja de interno desconhecido (assim foi o último recado, para dizerem que podariam-me também na internet). Mas, agora, são 05:53 da manhã no Brasil, estou ainda pensando em nós, mesmo assim; porque por causa dos pastutos e padrerastas, e toda a laia de canalhas divinos, vamos ser destruídos. Não evoluímos psicologicamente como Sociedade, e nossos cacuetes educacionais ao molde das espertices dos pajés arruinadores de tribos, é o que temos para lidar com situações que não nos preparamos civilizacionalmente para encarar.
    Fomos nocivos também com os que não têm nada a ver com nossas presunções de donos disso e daquilo (quando nem nossa propriedades têm de nós o conceito adequado para com elas – a ponto de nos considerarmos donos de filhos e donos de vidas, como se tivéssemos comprado um carro ou casa, ou sapato, ou pão). Sobre nossos lastimáveis representantes não temos a mínima tomadaa de contas; ao invés de nos representar, somos socados a nos fazermos de escravos dos que pagamos — a doidice da estupidez desvairada. E esses, com sua pompa e arrogância e ignorância caíram na besteira de alvejar os que nem armas de ataque têm pela ciência constituída em suas tecnologias. Contudo, a ciência e a consciência em si mesmas têm até num cisco de poeira um artefacto; e como uma pastilha de gelo que lançamos longe com a bôca, a mesma ciência e consciência pode varar uma porta dentro de uma pedra, ou deslizar no ar como se fosse dentro da água; porque os ambientes são apenas contextos da rasa e rudimentar noção que temos de temperatura, volume e pressão. Então, como os que fizeram objetos com fuzelagem de lata podem ter o acinte de destruir? Como a mentalidade que se sujeita a escravizadores pode disparar um feixe destrutor usando a Natureza para matar a Natureza? Seu deus ou deuses os levaram só até aí. Porque as conformações estelares não estão sob domínio da insanidade da invencionice de deuses Se queremos nos destroçar e matar nossos filhos e a nós, as consciências não estão nem aí; mas se queremos destroçar nosso Planeta e os passantes, aí nossas presunções desvairaram. Se o lixo vem nos cobrindo e o mar jogando e devolvendo a escuma de nossa sujeira mental, enfiando pra dentro de nossas casas e cidades o que estamos fazendo; e mesmo assim não vemos; então já nos tornamos mais que imprestáveis como seres vivos, nos tornamos uma Civilização de intento criminoso; e nossos estúpidos manipuladores fizeram a tremenda ‘obra’ de matarmos a nós mesmos.
    Umas perguntas: Por que nenhum garoto ou garota entra neste sítio? Ele não é aconselhável para seus filhos? Os garotos e as garotas podem ser infectados de tudo que é lado, a mentira rola solta escancarada na cara deles o tempo todo; e por que as ‘coisas’ como as que se postam neste âmbito os seus garotos e garotas não podem ou são ‘protegidos’ de ver?

  • ajpb

    Ora que se lixe! O mundo que me perdoe mas eu vou continuar fingindo que acredito.

    FINAL PERFEITO PARA UM BELO TEXTO.

  • antoniofernando

    “Tenho empregada doméstica para todo o serviço. Tenho beatas que não me saem da sacristia. Tenho tempo para ver o Sol e a Lua e ainda sobram uns trocados para ajudar algum familiar que ande à rasca para sustentar a família.

    Ora que se lixe! O mundo que me perdoe mas eu vou continuar fingindo que acredito.”

    Abraão Loureiro

    No passado domingo, fui visitar uma igreja antiga, de traça medieval,de que muito gosto. Era final de tarde mas, à hora da visita, ainda decorria a homilia dominical. Entrei e vi essa igreja repleta de pessoas de todas as idades.O ambiente era pacífico, sereno e o padre falava de forma igualmente tranquila.Tudo ali emanava paz e respeito. Entretanto, saí porque o meu propósito não era o de participar nessa missa. Quando esta terminou e as pessoas serenamente se ausentaram, reentrei e fiquei a apreciar aquele belo silêncio.

    Por lá não encontrei nenhum dos amargurados da vida que por aqui andam, no “D.A.” a destilar o seu azedume e as suas frustrações existenciais. Ali, naquela pequena cidade de província, todo o ambiente envolvente emanava Paz….

  • antoniofernando

    “Tenho empregada doméstica para todo o serviço. Tenho beatas que não me saem da sacristia. Tenho tempo para ver o Sol e a Lua e ainda sobram uns trocados para ajudar algum familiar que ande à rasca para sustentar a família.

    Ora que se lixe! O mundo que me perdoe mas eu vou continuar fingindo que acredito.”

    Abraão Loureiro

    No passado domingo, fui visitar uma igreja antiga, de traça medieval,de que muito gosto. Era final de tarde mas, à hora da visita, ainda decorria a homilia dominical. Entrei e vi essa igreja repleta de pessoas de todas as idades.O ambiente era pacífico, sereno e o padre falava de forma igualmente tranquila.Tudo ali emanava paz e respeito. Entretanto, saí porque o meu propósito não era o de participar nessa missa. Quando esta terminou e as pessoas serenamente se ausentaram, reentrei e fiquei a apreciar aquele belo silêncio.

    Por lá não encontrei nenhum dos amargurados da vida que por aqui andam, no “D.A.” a destilar o seu azedume e as suas frustrações existenciais. Ali, naquela pequena cidade de província, todo o ambiente envolvente emanava Paz….

    • Anónimo

      Não. Desta vez, concordo, em género e número, com o Tony.
      “Por lá não encontrei nenhum dos amargurados da vida que por aqui andam, no “D.A.” a destilar o seu azedume e as suas frustrações existenciais.”
      Exactamente, Tony. Porque em vez de irem para a igreja, local apropriado para digerirem as suas frustrações, as suas amarguras e as suas doses de óleo de rícino, decidem vir pastar para o D.A.
      O Tony, o seu clone e os seus asseclas.

      • carpinteiro

        Não digas isso Moreira que este lugar é dos Toninhos. Nós é que estamos a mais.

      • carpinteiro

        Não digas isso Moreira que este lugar é dos Toninhos. Nós é que estamos a mais.

    • Anónimo

      Não. Desta vez, concordo, em género e número, com o Tony.
      “Por lá não encontrei nenhum dos amargurados da vida que por aqui andam, no “D.A.” a destilar o seu azedume e as suas frustrações existenciais.”
      Exactamente, Tony. Porque em vez de irem para a igreja, local apropriado para digerirem as suas frustrações, as suas amarguras e as suas doses de óleo de rícino, decidem vir pastar para o D.A.
      O Tony, o seu clone e os seus asseclas.

  • Soniabenite

    Gostava de saber porque é que as pessoas que não se revêm nas convicções que este blogue assumidamente defende, se dão ao trabalho de o ler e, até, comentar.
    Quero, desde já, informar que a criação de um blogue é grátis e cada um pode fazer o seu! Há-os de todas as espécies: exibicionistas, egocêntricos, populistas, demagógicos, promocionais, filosóficos, poéticos, etc. Com certeza que alguma categoria vos há-de servir. Este,
    fundamentalmente, impele à reflexão séria e ao debate intelectualmente honesto sobre religião e ateísmo. Assim, os comentários que não se integrem neste propósito, devem procurar outras publicações online mais adequadas à frivolidade do discurso.

    • ajpb

      O PROBLEMA SÃO OS CRENTES DE SERVIÇO AO D. A. …

    • Anónimo

      Sim, mas é preciso ver que alguns crentes têm necessidade imperiosa não só de mostrarem como seguem a doutrina do dito “cristo”, espalhando tolerância, compreensão e amor ao próximo, como também precisam de evangelizar. Não sei quantos ateus já se converteram graças à acção evangelizadora dos crentes de plantão ao D.A., mas terão sido muitos, a julgar pela sanha com que conspurcam este local.

  • Soniabenite

    Gostava de saber porque é que as pessoas que não se revêm nas convicções que este blogue assumidamente defende, se dão ao trabalho de o ler e, até, comentar.
    Quero, desde já, informar que a criação de um blogue é grátis e cada um pode fazer o seu! Há-os de todas as espécies: exibicionistas, egocêntricos, populistas, demagógicos, promocionais, filosóficos, poéticos, etc. Com certeza que alguma categoria vos há-de servir. Este,
    fundamentalmente, impele à reflexão séria e ao debate intelectualmente honesto sobre religião e ateísmo. Assim, os comentários que não se integrem neste propósito, devem procurar outras publicações online mais adequadas à frivolidade do discurso.

  • ajpb

    O PROBLEMA SÃO OS CRENTES DE SERVIÇO AO D. A. …

  • Soniabenite

    Será que recebem à comissão por cada comentário? Pagar-lhes-ão? Porque é que não vão à missa? Melhor: porque é que não se vão amar uns aos outros?

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