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Bright

O termo bright, para referir uma pessoa com «uma visão naturalista do mundo […] livre de elementos sobrenaturais e místicos»(1), foi proposto em 2003 como um designador mais positivo para aqueles que costumavam ser apelidados de ateus, descrentes, incréus, agnósticos, desalmados, desdeusados ou o que calhasse. Infelizmente, há muita gente, como o Bernardo Motta, que percebe mal o termo. Ou faz por isso. «Alguns ateus, mais atrevidos, dão um salto em frente, e auto-intitulam-se “brights”. A ideia aqui é simples: o ateu é o tipo inteligente. O crente é burro.»(2)

O termo bright foi pensado para substituir “ateu” mas não coincide com este, porque a categoria que “ateu” refere é confusa e faz pouco sentido. “Ateu” é uma invenção dos crentes, para quem o seu deus preferido é o mais-que-tudo e, por isso, quem não tenha um é uma espécie de estropiado espiritual. Mas olhando, de forma imparcial, para as diferenças entre alguém como eu e um muçulmano, evangélico, católico ou judeu, vemos que o padrão é sempre o mesmo. Quaisquer dois concordam que quase todas as crenças acerca dos deuses são falsas, e discordam apenas da verdade de uma fracção pequena do total. Por isso, distinguir crentes e ateus com base na opinião acerca dos deuses faz pouco sentido.

E engana, porque faz pensar que o ateu é alguém que parte do princípio de que não há deuses, tal como cada crente parte do princípio de que o seu deus existe e, com base nessa premissa, procura amá-lo, louvá-lo e ter relações sexuais apenas como e quando ele aprova. É outro erro. A minha convicção de que não há deuses é como a minha convicção de que não há fadas e de que a força da gravidade decai com o quadrado da distância. Não são premissas fundamentais. São conclusões às quais cheguei depois de ter ponderado, imparcialmente, as alternativas e os dados de que disponho.

É essa atitude que bright tenta capturar. A atitude de averiguar os factos às claras, à luz da razão e do conhecimento, em vez de baralhar tudo à sombra de esoterismos de bolso ou superstições bolorentas.

É verdade que há aqui uma conotação com inteligência. Mas não como o Bernardo julga. O crente vê a sua crença como parte da sua identidade, e o seu abandono como uma traição imperdoável. Para muitas religiões, a apostasia é pior que violar criancinhas. Literalmente. Mas para alguém como eu, crer, não crer, descrer, pensar duas vezes e afins são opiniões. Há umas mais ajuizadas do que outras, mas qualquer pessoa pode ter uma num dia e mudá-la no dia seguinte.

Por isso, a conotação de bright com inteligência não se refere ao que a pessoa é mas sim às suas atitudes em casos particulares. Por exemplo, se me dizem que o criador de todo o universo encarnou como homem na Palestina, há dois mil anos, para se deixar matar pelos romanos, perdoar-me pecados que eu nem cometi, e que agora se pode transformar bolachas no seu corpo sem que as bolachas deixem de ser bolachas, parece-me claro que a atitude mais sensata é duvidar. No mínimo.

Mas isto não quer dizer que quem enfie este barrete seja burro. Mesmo a pessoa mais inteligente já foi uma criança ingénua, e todos sentimos pressões sociais, emocionais e familiares. Além disso, a inteligência não é como a cor dos olhos ou os dedos dos pés. Tem dias. Às vezes não percebemos bem no que nos metemos, outras vezes vemos as coisas com mais clareza. Mais brightly, por assim dizer.

Dito isto, e apesar de achar que bright é um termo melhor que “ateu”, este último tem a vantagem de uma longa tradição e, seja como for, prefiro esclarecer as minhas ideias em vez de pavonear o rótulo. O que me importa é o que penso, e não a categoria onde me enfiam. E este é outro ponto importante que me separa de crentes como o Bernardo, cujo catolicismo determina as suas opiniões em vez destas determinarem o ismo em que se põe: «não há católicos progressistas. Nem há católicos conservadores. Há católicos. Ponto final. E depois há católicos com problemas de identidade (ah, se os há!).» É como mandar os bois seguir a carroça…

1- www.the-brights.net
2- Bernardo Motta, 22-2-2011, O ocaso do ateísmo filosófico
3- Bernadro Motta, 9-8-2009, Progressistas e Conservadores

Em simultâneo no Que Treta!

11 thoughts on “Bright”
  • Grunho

    Sou ateu.
    Não quero ser bright coisa nenhuma.
    Vão inventar nomes ingleses para o raio que os parta.

  • Grunho

    Sou ateu.
    Não quero ser bright coisa nenhuma.
    Vão inventar nomes ingleses para o raio que os parta.

  • Athan3

    Tá aí; ô rapaz, é isso que tenho afirmado. Contestei o rótulo de “a-teu”, cunhado pelos fiéis em crenças divinas (ou os mandantes deles). E contestei também o termo “lúcido”, também meio enjambrado para lembrar o tal do ‘contra-que-caiu do céu’. Se há que haver um termo para englobar a míriade de personalidades que não tão nem aí pra divinices e misticismos, ou aventam uma especulação vez ou outra; então que esses cunhem o termo que mais lhes aprouve. Bright, não importa a língua, mas o conteúdo e conotação nele é legal; simplesmente porque significa também “claro”. É até menor que “imune-à-crenças”, locução nominal bastante agressiva que cunhei para não dar chance a fiés-em-crenças tripudiarem ou fazerem gracinhas com o mínimo tantinho do que penso (que também não interessa a ninguém) — pois cada pensamento meu é fôro íntimo; cá ou lá passo o que quero passar; porque afinal, é a atitude e são as ações que podem dizer de nós o que importa aos outros; e o fazer isto ou aquilo, e em que condições e motivos quando tem implicações com outros, é que nos tornam sujeitos a juízo.
    Epistemologicaamente considero o termo adequado. Vou usá-lo também toda vez que precisar. Obrigado. Vou olhar de novo os meus posts e ver o que já escrevi sobre isso. Essa proposição não me é estranha.

  • Elmano1948

    Brilhante contestação ao “Motta”. Com 2 tês para evidenciar a origem nobre ou clerical do dito. Porque plebeu vai de Mota. Mas, mesmo assim prefiro continuar ATEU, sem deus! Se fosse possível até preferia ser ATEUS, isto é Sem deuses. Porque os homens criaram tantos e eu não quero nenhum deles. Mas ficava plural e logo sem sentido quando aplicado a uma só pessoa.

  • antoniofernando

    “É essa atitude que bright tenta capturar. A atitude de averiguar os factos às claras, à luz da razão e do conhecimento, em vez de baralhar tudo à sombra de esoterismos de bolso ou superstições bolorentas”

    LK

    Pois.Tudo muito lindo. A treta do costume.Baralhar e dar de novo.

    .Mas eu pergunto:em face da ” racionalidade positivista-objectiva” dos ” bright” e quejandos, uma fêmea pode procriar, sendo virgem e não tendo tido relações sexuais com nenhum macho e não tendo também recorrido a nenhum banco de esperma. Sim ou não ?…

  • antoniofernando

    “Dito isto, e apesar de achar que bright é um termo melhor que “ateu”, este último tem a vantagem de uma longa tradição”

    LK

    Claro. Viva a ateísta Tradição…

  • Athan3

    Ateu tá virando crença, com elementos que só querem ser contra, e não fazer PORRA nenhuma por si nem pela Sociedade, que quando não ficam a se esmurrar com os crentes caem pro lado do esparro que quebra uma garrafa na rua pra dizer que é “rebelde”, ou ficam a postar imagens de cornudos para dizer que são “os caras”; ou ficam a discutir asneiras com imbecis cheios de manhas que lotam os blogs céticos,e afins.
    Pessoas livres e conscientes percebem a premência de mudança e procedem-na(s). AGEM.
    Alerto que o Dennet não é bright, nem ateu, nem cacete algum. é um dissinuladorzinho do caralho. Patrocinado com pompa pela BMW, o infeliz entrou numa de “tirar” com a cara do Dawkins, dizendo que “se preocupar com crença não é coisa para cientista”; devia estar falando dele mesmo, deve ser um ‘intelectual’ de merda, com esses títulos “esquentados”, prontinho pra aparecer como ‘autoridade’ na mídia, e fazer tudo ficar no mesmo; desses que gostam de cartar dizendo disso ou daquilo que tudo vai morrer na praia. Nem sempre um filho da puta tem máscara que se nota, é como o caso do Movimento Zeitgeist invertido, que usa o estrondo da série de vídeos e arrebanha gente à procura de solução para deixá-las tão dóceis quanto os seguidores de Ghandi e TJs e budistas e espíritas (praticamente todos esses ‘mansinhos’ são capazes de querer a morte dum filho a vê-lo sair da merda da crença que os enfiaram e sacrificaram à força, desde crianças – isso não é uma constatação).

  • antoniofernando

    «não há católicos progressistas. Nem há católicos conservadores. Há católicos. Ponto final. E depois há católicos com problemas de identidade (ah, se os há!).»

    Bernardo Motta

    Deve ser cego, ou então só vê para um lado. Mas vamos a contas:

    1) A FREIRA ” PROGRESSISTA”

    «Salazar é a pessoa por Ele (Deus) escolhida para continuar a governar a nossa Pátria, … a ele é que será concedida a luz e graça para conduzir o nosso povo pelos caminhos da paz e da prosperidade. É preciso fazer compreender ao povo que as privações e sofrimentos dos últimos anos não foram efeito de falta alguma de Salazar, mas sim provas que Deus nos enviou pelos nossos pecados. Já o bom Deus ao prometer a graça da paz à nossa nação nos anunciou vários sofrimentos, pela razão de que nós éramos também culpados». ( Irmã Lúcia)

    2) O PADRE ” REACCIONÁRIO”:

    “Não gostei da procissão! (…) A Procissão dos Passos é de todos os dias mas não tem andores, nem música, nem anjinhos. Tem dores, angústias, desesperos, lágrimas, lamentos, e chagas. São os ódios de raças, as lutas fratricidas, os colonialismos, os campos de concentração, a opressão das consciências, as limitações da personalidade e da liberdade humanas, a fome, o desemprego, os bairros de lata, os acidentes de trabalho e de estrada, as prepotências e desmandos do capital, a exploração de menores, a escravatura da mulher, os compadrios, as injustiças, os egoísmos (…) Tudo isto flagela, dilacera, crucifica o Corpo de Cristo, como nunca talvez na História da Humanidade”. In Abel Varzim, Procissão dos Passos – Editora Multinova- colecção Palavra e Testemunho.

    3 ) OU SERÁ AO CONTRÁRIO ?

    4) OU SERÃO AMBOS IDEOLOGICAMENTE IGUAIS ?

    Venha o Bernardo e escolha…

  • Anon

    «O termo bright, para referir uma pessoa com «uma visão naturalista do mundo […] livre de elementos sobrenaturais e místicos»…» – Ludwing Kripphal

    Isto é substancialmente mentira. O termo tinha por objectivo classificar de brilhante, lúcida e clara a visão de um grupo de amigos ateus, com alguns problemas de personalidade e com visão racista/xenófoba/destrutiva/narcisista do conhecimento.
    Este termo, segundo acabaram por confessar os autores, teve como inspiração o Iluminismo.
    Da boca dos elementos do grupo têm saído afirmações públicas inequívocas de que eles entendem (incrivelmente) que são o “supra sumo” da inteligência mundial. Mas, curiosamente, ninguém, no mundo inteiro, lhes reconhece mais do que uma inteligência mediana-baixa.
    Qualquer pessoa percebe que alguém que se imagina superior aos demais, sem provas ou as mais superficiais manifestações de genialidade é, desde logo, um limitado confesso. Depois, é evidente que um ateu fundamentalista, deste tipo, não tem capacidade para perceber o alcance pessoal/social/cultural da religião, mas, mesmo assim, tem uma fixação mórbida nas religiões, ocupando com elas uma parte substancial da sua vida.

    O Ludwing Kripphal faz de alguns conceitos aquilo que ele gostaria que fossem, e não aquilo que são.
    Também ele se acha um bright. Está perdoado porque o seu amigo e confrade Hitler tinha uma fixação na superioridade de um dado grupo.
    Alguém , medianamente inteligente, acredita nesta gente ou vê-a simplesmente como artistas?

  • Anónimo

    NÃO SEI PORQUÊ… MAS OS AUTOENTITULADOS BRITHGS FAZEM-ME LEMBRAR OS DEFENSORES DA ESQUERDA ALEGRE…

  • Athan3

    No comentário; diga-se: “Isso não é apenas uma constatação, é uma vivência do fato”.

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