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Uma nova Irlanda

O papa vai ser oficialmente notificado de que a sua igreja tem cerca de cinco a dez anos para evitar que esta se reduza à insignificância, na República da Irlanda.

Quem diria que a toda-poderosa Igreja estaria em perigo no país verde. A sucursal romana de Armagh, que manipulou vergonhosamente o Estado (enfraquecido após o processo de independência), para se apoderar do ensino e da saúde, que pregou a moral bacoca, que apoiou a censura até bem dentro do século XX, que congregou os exércitos beatos para pugnar contra leis dignificadoras do bem-estar humano (proibição constitucional do aborto em 1983, p.ex.) e pela a lei, bastante recente, de criminalização da blasfémia, levou a machadada final com os escândalos de ocultação de pedofilia que viram a luz do dia nos últimos anos.

Com tudo isto, conseguiu que os irlandeses sentissem no âmago que a sua consciência nacional, supostamente católica, tinha sido brutalmente traída. Descobriram que, se as bases que a sustentavam eram assim tão anacrónicas, ignaras e frágeis e isso não os tornava menos irlandeses, então é porque, na realidade, não precisavam delas para nada.

Pedindo emprestada uma expressão ao meu colega Ludwig, as últimas décadas, que aproximaram a Irlanda da Europa laica e levaram o desenvolvimento e o progresso ao país, mostraram também aos irlandeses que tinham sido dominados tempo demais por uma série de «tretas». Felizmente, agora dizem «basta» ou, simplesmente, ignoram o que é perdigotado da catedral de St. Patrick.

«Se a Irlanda se quiser tornar numa nova Irlanda, ela tem primeiro que se tornar europeia», escreveu James Joyce. Se o escritor a pudesse ver agora…

Outra religião abandonada
Fotografia de nznomad, sob licença CC
15 thoughts on “Uma nova Irlanda”
  • antoniofernando

    ” Oficialmente notificado” por quem ? …

  • antoniofernando

    “…congregou os exércitos beatos para pugnar contra leis dignificadoras do bem-estar humano (proibição constitucional do aborto em 1983, p.ex.) ”

    Em Portugal, 85% da população afirma-se católica, segundo os resultados do último census.

    E, no mais recente referendo sobre a liberalização do aborto, até às 10 semanas, 60% votaram SIM.

    Quer isso dizer o quê ? Que a maioria dos católicos também votaram SIM.

    Portanto, cai pela base o pseudo-argumento do Raul Pereira, quanto a este ponto concreto.

    A Constituição da República Portuguesa consagra a inviolabilidade da vida humana, no seu artigo 24.

    E a este propósito, estou 100% de acordo com o que foi escrito, a este propósito por João Miranda, investigador em Biotecnologia:

    A Constituição da República Portuguesa no seu artigo 24 diz expressamente que “a vida humana é inviolável”. Trata-se de uma ideia sensata se pensarmos em questões como a pena de morte ou o infanticídio. No entanto, o artigo 24 poderá revelar-se um empecilho ao avanço da civilização no caso do aborto a pedido da mulher até às dez semanas. É que quando se diz que a vida humana é inviolável pretende-se com isso dizer precisamente que a vida humana é inviolável. Não se pretende dizer que é violável até às dez semanas.

    Um feto com menos de dez semanas encontra-se inegavelmente vivo. Aliás, creio que o problema é precisamente esse. É por estar vivo que se coloca a hipótese de aborto por vontade da mulher até às dez semanas. E um feto é humano. Por incrível que possa parecer, tem um genoma idêntico ao de um ser humano adulto. É inegavelmente um Homo sapiens sapiens. Não adianta desconversar, alegando que um feto não tem as características necessárias para que possa ser considerado uma pessoa, porque a Constituição não protege apenas a vida das pessoas, protege a vida humana, mesmo as vidas humanas que não têm consciência ou não sentem dor.

    Felizmente, o sr. Presidente da República teve a sensatez de não enviar a nova Lei do Aborto para o Tribunal Constitucional. Tal seria extremamente cruel para os juízes do Tribunal, os quais, para não colocar em causa a vontade popular expressa em referendo, teriam que se contorcer para mostrar que, apesar das aparências em contrário, o feto não está vivo nem é humano.

    Mas se calhar não precisariam de chegar a tanto. Como se sabe, o constitucionalismo é bem mais do que uma ciência exacta. É duas ciências exactas, uma de esquerda e outra de direita. É possível encontrar pareceres, escritos por doutos constitucionalistas, irrepreensivelmente sustentados, a defender qualquer ideia, desde que vá de encontro às preferências políticas do seu autor.

    Esta tarefa encontra-se facilitada, porque a nossa Constituição é a mais avançada do mundo. Nela está consagrado tudo e o seu contrário. Por isso não devemos subestimar as nuances da ciência constitucional. Um constitucionalista mais astuto pode sempre contornar a questão da vida humana do feto, alegando que a lei do aborto é a melhor forma de manter a vida humana inviolável. Contraditório? Só para mentes pouco sofisticadas. Um constitucionalista astuto argumentaria que, dado que vivemos num mundo imperfeito em que se praticam abortos todos os dias, a melhor forma de preservar a vida humana é através da institucionalização da eliminação do feto, de preferência se a prática não tiver custos para quem aborta, isto é, se for realizada em hospitais públicos e se for subsidiada pelo dinheiro dos contribuintes.”

    http://comunidade.sol.pt/blogs/luar/archive/2007/04/14/A-inviolabilidade-da-vida-humana.aspx

  • antoniofernando

    “…congregou os exércitos beatos para pugnar contra leis dignificadoras do bem-estar humano (proibição constitucional do aborto em 1983, p.ex.) ”

    Em Portugal, 85% da população afirma-se católica, segundo os resultados do último census.

    E, no mais recente referendo sobre a liberalização do aborto, até às 10 semanas, 60% votaram SIM.

    Quer isso dizer o quê ? Que a maioria dos católicos também votaram SIM.

    Portanto, cai pela base o pseudo-argumento do Raul Pereira, quanto a este ponto concreto.

    A Constituição da República Portuguesa consagra a inviolabilidade da vida humana, no seu artigo 24.

    E a este propósito, estou 100% de acordo com o que foi escrito, a este propósito por João Miranda, investigador em Biotecnologia:

    A Constituição da República Portuguesa no seu artigo 24 diz expressamente que “a vida humana é inviolável”. Trata-se de uma ideia sensata se pensarmos em questões como a pena de morte ou o infanticídio. No entanto, o artigo 24 poderá revelar-se um empecilho ao avanço da civilização no caso do aborto a pedido da mulher até às dez semanas. É que quando se diz que a vida humana é inviolável pretende-se com isso dizer precisamente que a vida humana é inviolável. Não se pretende dizer que é violável até às dez semanas.

    Um feto com menos de dez semanas encontra-se inegavelmente vivo. Aliás, creio que o problema é precisamente esse. É por estar vivo que se coloca a hipótese de aborto por vontade da mulher até às dez semanas. E um feto é humano. Por incrível que possa parecer, tem um genoma idêntico ao de um ser humano adulto. É inegavelmente um Homo sapiens sapiens. Não adianta desconversar, alegando que um feto não tem as características necessárias para que possa ser considerado uma pessoa, porque a Constituição não protege apenas a vida das pessoas, protege a vida humana, mesmo as vidas humanas que não têm consciência ou não sentem dor.

    Felizmente, o sr. Presidente da República teve a sensatez de não enviar a nova Lei do Aborto para o Tribunal Constitucional. Tal seria extremamente cruel para os juízes do Tribunal, os quais, para não colocar em causa a vontade popular expressa em referendo, teriam que se contorcer para mostrar que, apesar das aparências em contrário, o feto não está vivo nem é humano.

    Mas se calhar não precisariam de chegar a tanto. Como se sabe, o constitucionalismo é bem mais do que uma ciência exacta. É duas ciências exactas, uma de esquerda e outra de direita. É possível encontrar pareceres, escritos por doutos constitucionalistas, irrepreensivelmente sustentados, a defender qualquer ideia, desde que vá de encontro às preferências políticas do seu autor.

    Esta tarefa encontra-se facilitada, porque a nossa Constituição é a mais avançada do mundo. Nela está consagrado tudo e o seu contrário. Por isso não devemos subestimar as nuances da ciência constitucional. Um constitucionalista mais astuto pode sempre contornar a questão da vida humana do feto, alegando que a lei do aborto é a melhor forma de manter a vida humana inviolável. Contraditório? Só para mentes pouco sofisticadas. Um constitucionalista astuto argumentaria que, dado que vivemos num mundo imperfeito em que se praticam abortos todos os dias, a melhor forma de preservar a vida humana é através da institucionalização da eliminação do feto, de preferência se a prática não tiver custos para quem aborta, isto é, se for realizada em hospitais públicos e se for subsidiada pelo dinheiro dos contribuintes.”

    http://comunidade.sol.pt/blogs/luar/archive/2007/04/14/A-inviolabilidade-da-vida-humana.aspx

  • Ccfranco

    A igreja catolica tem vinda a perder poder de século para século.
    Basta fazer uma comparação das práticas e influencias da igreja do seculo 15 com as do seculo 21.

    Cruzadas, dizimos, inquisições, limbos, tudo em nome do deus que julgam ser o verdadeiro.

    BASTA !!!

    A extinção da igreja católica é inevitável.
    É uma questão de séculos.

    • JoaoC

      LOOOOOOOOOOOOOOOOL…

      Esta gente noção aos Séculos que se profetiza isso?…

      É mesmo cómico….

    • jmc

      Tenho de concordar com o JoaoC apenas porque as religiões não se extinguem facilmente. Ainda hoje há pessoas que se identificam com religiões antigas de que já não se ouve falar. Têm a sua crença e praticam-na, embora não se note porque não afecta os outros.

      Penso que o futuro mais provável para o cristianismo, ou para qualquer outra religião, no muito longo prazo, não é extinguir-se por completo, mas tornar-se irrelevante. Basta isso.

      • antoniofernando

        ” Basta isso”.

        Pois bastaria, para si claro. Mas é melhor continuar a sonhar com a sua fé ateísta, tal como a Naval 1º de Maio também pode sonhar em ganhar o campeonato nacional de futebol.

        Sonhar é muito fácil. Bom sonhos jmc… : )

      • antoniofernando

        “Penso que o futuro mais provável para o cristianismo, ou para qualquer outra religião, no muito longo prazo, não é extinguir-se por completo, mas tornar-se irrelevante”

        O pensamento é livre. Você pode pensar no que lhe apetecer. Até pode pensar que provavelmente lhe vai sair o Euromilhões.

        O seu prognóstico deve ser aquilo que o LK gosta de chamar ” abordagem científica e objectiva da realidade”.

        Vocês são uns pontos… : )

      • Anon

        «Ainda hoje há pessoas …» – jmc

        Basta ver que ainda há ateus, em pleno século XXI. Incrivel, mas existem!

  • antoniofernando

    Claro que, para um nacional-populista, estilo Raul Pereira, que não aprofunda os temas e debita as mais inanes generalidades que lhe dá na real gana, uma lei sobre o aborto é uma ” lei dignificadora do bem- estar humano”. Ponto final, parágrafo.

    Do que vi sobre a legislação do aborto na Irlanda, firmei a convicção de que o aborto é permitido em caso de risco da vida na mãe. Mas,se estiver equivocado, agradeço que me rectifiquem.

    Não conheço nenhum país civilizado que não considere o aborto um crime.

    Mas, como acontece em múltiplos e diversificados crimes, há certas situações que podem ser despenalizadas.

    Exactamente o que sucede em Portugal. O aborto é considerado crime e o nosso legislador não o cataloga eufemisticamente como ” Interrupção Voluntária da Gravidez”. Existe o crime de aborto,não o de IVG Ponto final, parágrafo.

    Entretanto, pelo último referendo, os portugueses entenderam que o aborto devia ser, não apenas despenalizado até às 10 semanas, mas ainda como podendo ser livremente decidido por opção exclusiva e não fundamentada da mulher.

    Eu não concordo que a vida de um feto humano possa ser terminada por livre opção da mulher e nem seria preciso invocar o artigo 24º da Constituição da República Portuguesa.

    Que a prática do aborto seja despenalizada e autorizada em situações extremas, que a nossa lei já anteriormente previa, concordo.

    Que se considere legalmente admissível que possa ser livremente decidido até às 10 semanas, claramente NÃO.

    Sobre o que é Ético e sobre o que é Socialmente Progressista, as opiniões podem dividir-se.

    Eu não acompanho os movimentos ditos pró-vida porque sou contra a pena de morte e eles omitem completamente qualquer censura à pena de morte.

    Mas, na questão do aborto, não considero que seja um acto ético nem de progresso civilizacional admitir-se que uma mulher decida livremente pela morte de um feto humano, fora das situações excepcionais que a anterior legislação já contemplava.

    Aqui, nesta matéria, acompanho o psiquiatra Eurico de Figueiredo e membro da ala esquerda do PS:

    É eticamente indefensável admitir-se que o aborto possa ser livremente decidido pela mulher, sem nenhuma fundamentação excepcionalmente relevante que não seja a sua soberana e inapelável vontade.

    Quando há conflito de valores, a prevalência deve ser feita pelo valor ético mais elevado.

    E, em caso de violação ou de perigo de vida da mulher, por exemplo, entende-se que o legislador autorize o aborto.

    O feto também é vida humana. E, no contexto da problemática do aborto, é a parte mais indefesa. Aquela que devia merecer uma especial atenção do legislador.

    Mas como Portugal é um país de muitos trafulhas, está na Constituição consagrado que a vida humana é inviolável, no nosso Código Penal mantém-se criminalizado o aborto a partir das 10 semanas, mas os ” contorcionistas” panfletários e legais arranjam sempre maneira de tentar conciliar o inconciliável.

    A Constituição Portuguesa foi simplesmente rasgada no caso da ampla liberalização do aborto. Os nacionais-porreiristas aplaudem. Mas são eles que dominam este medíocre país. Ao pior estilo do panfletário Raul Pereira.

    Claro que as boquinhas destes panfletários calam-se quanto à problemática do aborto a partir das 10 semanas, quanto à temática do aborto clandestino a partir das 10 semanas.

    Gostam do número10 .É redondo e alivia-lhes as hipócritas consciências…

  • Anónimo

    oficialmente notificado de que a sua igreja tem cerca de cinco a dez anos para evitar que esta se reduza à insignificância, na República da Irlanda

    OXALÁ ESTES 5 OU 10 ANOS PASSEM DEPRESSA, LÁ NA IRLANDA…

    • Anon

      «oficialmente notificado de que a sua igreja tem cerca de cinco a dez anos…» – ajpb

      Em Portugal existiu, em tempos, um doentinho da mioleira que prometeu “cabar com a religião em duas ou três gerações”. Há um século e dele já ninguém se lembra, mas religião continua de perfeita saúde

      “Cinco a dez anos” é mais ambicioso!

      • Anónimo

        MEU CARO

        POR MIM, AS RELIGIÕES E AS IGREJAS PODEM FICAR AÍ A EMPESTAR OS CRENTES O TEMPO QUE QUISEREM, DESDE QUE NÃO ME ABORREÇAM…O QUE NÃO É DE TODO CERTO.

        QUANTO AO TEXTO ACIMA… QUEM VAI SER NOTIFICADO OFICIALMENTE É O PAPATUDO E QUEM O NOTIFICA NÃO É UM QUALQUER MALÉFICO E TENDENCIOSO ATEU.
        PORTANTO, VÁ LÁ LER A NOTÍCIA COMO DEVE SER, OU SOLICITE A UMA ALMA CARIDOSA E CRENTE QUE LHA TRADUZA…

      • Anónimo

        MEU CARO

        ACHA MESMO QUE A religião continua de perfeita saúde?
        SÓ PODE ESTAR A BRINCAR…SÓ PODE!…
        PENSE BEM.

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