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SODOMA_1 (Conto)

Naquele tempo, andava Deus na divina ociosidade a que se remeteu depois de ter criado o Mundo, quiçá arrependido do estratagema que engendrou para que os animais se multiplicassem, a ruminar uma desculpa por ter incluído a macieira quando fez as plantas, sabendo que sem Eva e sem maçã estaríamos todos, ainda hoje, condenados ao Paraíso e ao tédio.

Tinha acontecido o dilúvio e a engenharia ousado construir a torre de Babel. O primeiro foi um susto bem pregado e uma experiência radical e a segunda um extraordinário fracasso e uma enorme confusão.

Pela planície do Mar Morto espreguiçavam-se cinco cidades que tinham níveis diferentes de desenvolvimento, costumes variados e interesses diversificados. Distinguiam-se Sodoma e Gomorra pela enorme riqueza, com um nível de vida de causar inveja graças ao sector terciário que então ainda não tinha designação adequada por não haver economistas encartados. As outras eram menos importantes, a acreditar no primeiro livro do Pentateuco.

Vinha do Norte o ar quente que, depois de percorrer e acariciar as águas do mar, entrava suavemente em Sodoma para animar os corpos e dar energia à alma, soltar toda a imaginação de que o mundo era capaz na sua difícil infância e produzir um indizível arrebatamento.

Homens e mulheres contavam os minutos das poucas horas que o expediente dos escritórios lhes tomava para cultivarem a seguir todos os prazeres febrilmente sonhados. Mesmo nas horas de trabalho não se coibiam de ser felizes e soltarem a imaginação. Os afazeres que o desenvolvimento tecnológico se tinha encarregado de aligeirar eram cada vez mais um mero resquício para justificar a maldição bíblica que viria a ser criada com efeitos retroactivos. Sendo o trabalho um bem muito escasso ninguém se quisera apropriar dele.

Como os livros ainda não tinham sido inventados todos liam o livro da vida através dos sentidos. Tinham-se habituado a usar o corpo e a dar-lhe alma. Eram imensamente felizes a ponto de esquecerem Deus e os seus ensinamentos, as suas ameaças e maldições, o sofrimento e a cultura que o criara. E, porque eram felizes, não os atingia a doença, a fome, o medo ou a guerra.

Imagina-se o seu grau de felicidade pela intensidade da cólera divina, que enviou o fogo que destruiu Sodoma e, com ela, as outras cidades, e, com os que se divertiam, as crianças, que ainda o não sabiam fazer, e também os velhos que tinham esquecido já os divertimentos, se algum dia os souberam, e provavelmente algum anjo que tivesse tentado pôr termo ao pecado e acabou violado, chamuscadas as penas no desejo e esturricado, também ele, nas labaredas.

Ao longe Abraão assistia ao espectáculo que o seu Deus pirómano lhe servia à hora da sesta, tirando moncos do nariz, enquanto Loth, seu sobrinho, por bambúrrio da sorte ou por morar nos subúrbios, se esgueirava com as filhas e a mulher, tendo esta olhado para trás, apesar da recomendação divina em contrário, e sido transformada em estátua de sal, por ser nela maior a curiosidade que a obediência.
Para dizer alguma coisa ou por ter-se arrependido do fogo que ateara, ou para simplesmente criar factos que dessem conteúdo ao Êxodo, ao Levítico e a outros escritos, fez Deus umas promessas a Abraão que acabariam por dar origem a Israel, muito tempo depois, e dar a Jacob e aos seus 12 filhos o Egipto para se instalarem e cumprirem a profecia.

Sabe-se que Sodoma ficou na memória oral dos povos pelos hábitos sexuais de uma escassa minoria. Conhecendo-se hoje melhor Deus e os seus humores, a fé e os seus preconceitos, a devoção e a sua intolerância, somos levados a crer que seriam deliciosas as vitualhas, capitosos os líquidos, requintados os hábitos, agradáveis as relações, enfim, felizes os seus habitantes, a ponto de Deus perder a paciência e ser tomado daquela cólera que o celebrizou.

Terá sido Loth quem pôs a correr aquele boato que havia de criar o verbo a partir do nome da cidade desaparecida. Ou um qualquer viandante acabado de sair antes do fogo e ansioso de se atrelar ao vencedor.

20 thoughts on “SODOMA_1 (Conto)”
  • Shere W.

    SHUASHSUASH … gÊnio …

  • antoniofernando

    Depois de mais algumas incursões pelos caminhos ínvios do panfletarismo e do sectarismo, eis agora o alter ego do Carlos Esperança a manifestar-se num registo melódico mais suave e temperado. Cordato, quase afável,cadenciando a narrativa metafórica ao som de notas sedosas humanizadas.Ah, como deve ser bom estar no remanso de uma ilha tropical, contemplando as estrelas do firmamento ou as cores acrisoladas dos corais, enquanto se entrega a exercícios florais da mais fina retórica. Deus estava ausente dos corpos febris dos habitantes de Sodoma e Gomorra e toda a vida era regida pelos ditames dos impulsos luxuriosos. Era o tempo em que os genes hedónicos falavam mais alto e Dawkins ainda não tinha aparecido a arengar com a força impositiva desse malvado gene egoísta.É certo que, nessa época,tal como perpassa da narrativa do escriba, a força preponderante dos genes sensuais não dava lugar a qualquer tipo de reflexão filosófica ou de doutrina social.A imposição dos genes hormonais sobrepunha-se a todo o tipo de axiologia comportamental, que não fosse a que derivasse das incandescências dos desejos.Por vezes, uns tipos mais brutos excediam-se nos delírios corporais e impunham a sua força genética a todos os demais indivíduos de Sodoma e Gomorra. Mas era ainda o tempo em que os homens não tinham conceptualizado a caracterização reprovadora do vício e edificado a consagração de normas axiológicas de respeitosa convivência social.O tempo histórico dos brutos imperava,pois, nessas lúbricas e ateístas mundoesferas.Mas para quê a Ética se o que era fisicamente prazenteiro se erigiu a valor supremo de conduta e dava deliciosos resultados ? Porque não regressarmos então ao tempo em que a força do mais corpulento se impunha à fraqueza do menos capacitado ? Para quê a posterior deriva civilizacional dos códigos de conduta, que tanto dano provocou nos mais ardorosos protagonistas do prazer ? Afinal não é olhando para a vida selvagem que nós concluímos que somos também, os hominídios, descendentes da raça bruta das restantes espécies ? Não é essa reflexão atenta sobre a realidade objectiva da vida que nos ensina a não respeitar o mais fraco e a impor a vontade do mais forte e mais apto aos desfavorecidos da Natureza ? Porquê então clamar contra os vícios que, segundo alguns execráveis moralistas,destronariam o Homem da sua própria etapa evolutiva ? Darwin nunca foi darwinista social, mas os darwinistas sociais devem ser certamente os mais próximos descendentes dos brutamontes, lúbricos e inclementes, de Sodoma e Gomorra.E Carlos Esperança onde fica ? Perdido nas imposições tirânicas do genes luxuriosos ou convertido às virtualidades dos códigos de conduta humana, moral e social ?…

    • Molochbaal

      “Porque não regressarmos então ao tempo em que a força do mais corpulento se impunha à fraqueza do menos capacitado ?”

      Qual ?

      O tempo em que um deus queimava vivos milhares dos seus “filhos” apenas por não seguirem o padrão de sexualidade recomendado ? Isso é que é a grande “reflexão ética” ? Com kilos de prosa e não és capaz de melhor do que isso ?

      É curioso, as tuas contradições são tão verdadeiramente confrangedoras que até já tenho vergonha de te chamar a atenção. São tantas e tão brutas.

      Assim, já aqui renegaste o antigo testamento umas dezenas de vezes, dizendo que nada tem a ver com a moral cristã etc.

      Mas agora vens defender a “moralidade” de uma hsitória que dá a entender ser legítimo queimar vivos milhares de pessoas se não se conformarem com a moral sexual pretendida pelos deuses.

      Bem, sempre está mais de acordo com a vossa atitude de tratar de animalescos todos os modos de vida que não sigam as ordens da vossa igreja, de chamar “nacuional-porreirista” a pessoa apenas por não terem o teu modelo de vida – como se a tua vida fosse modelo para alguém…

      • antoniofernando

        Sempre tive de ti a convicção de que és um indivíduo de mau carácter. Mas,conquanto Chefe dos Nacionais Porreiristas, ainda pensei que não fosses tão estúpido quanto és. Quanto às tuas enormes falhas de carácter,não tens desculpa.És responsável pela tua formação ou deformação ética.Quando à falta de tino, aí não tens culpa. Na altura em que os teus átomos se organizaram,a Natureza não foi nada benévola contigo.Qualquer tipo percebe qual o sentido metafórico da minha resposta ao texto do CE.Tu não.Não só és javardo como peco de raciocínio…

        • Molochbaal

          Mais verborreia, mas sempre sem responder a nada.

          Então condenavas o velho testamento por imoral e contra os princípios cristãos, mas agora já és a favor do massacre de milhares que não cumprirem as regras sexuais de um deus ?

          Outra coisa, quanto ao mau carácter, eu nunca te menti nem me contradigo dez vezes em cada frase, como tu fazes constantemente. Por isso compra um espelho. Ou ao menos deixa de mentir e de te contradizeres a ti próprio.

          Vá lá, apesar de não seres homem para admitir que te enganaste, pelo menos já deixaste de fazer propaganda criminosa contra o preservativo.

          • Molochbaal

            É que um sentido metafórico tem de ter um sentido. E a tua metáfora é uma defesa do texto bíblico que gaba o genocídio da população de duas cidades porque supostamente davam quecas a mais.

            Se por metáfora queres dizer que não serás a favor de queimar vivas centenas de milhar de pessoas apenas por terem um modo de vida diferente do teu, mas apenas insultá-las, tratando o seu modo de vida de animalesco ou nacional-porreirista, podes enfiar a tua metáfora no traseiro.

            Porque estás a ofender todos os que por acaso não tenham a tua ideia acerca da suas vidas pessoais, pelo que estás a ser arrogante, mal criado e ainda a armar ao pincareiro e a fazer pose de intelectual, quando a tua atitude é o mais boçal que há.

            O facto de os outros não seguirem as tuas ideias acerca das suas vidas pessoais ou sexuais não os torna animais nem te torna a ti mais reflexivo acerca da realidade objectiva de coisissíma nenhuma, porque a única coisa que sabes fazer é insultar quem não dê as quecas que aches bem, com quem aches bem, na posição que aches bem, és um verdadeiro boçal.

            E a tua boçalidade prova-se ao caires no ridículo de pretender fazer uma metáfora de moralidade de um dos contos mais vingativos e sanguinários da bíblia, uma metáfora de reflexão num texto que apela à obdiência cega baseada no terror puro e represálias sangrentas. Realmente só um génio como tu conseguia uma bacoridade destas.

          • Molochbaal

            Um exemplo da metáfora mais boçal possível.

            “Não é essa reflexão atenta sobre a realidade objectiva da vida que nos ensina a não respeitar o mais fraco e a impor a vontade do mais forte e mais apto aos desfavorecidos da Natureza ?”

            Como é possível que um conto que faz a apologia de um deus sanguinário que queima vivos os habitantes de duas cidades por causa dos seus costumes sexuais pode inspirar a “defesa dos mais farcos ” ?

            De notar que este deus raivoso queimou também vivos todos os não envolvidos na tentativa de violação dos anjinhos.

            Os velhos também tinham culpa ? As crianças ? Os bébés de colo ?

            Deste conto de uma imoralidade sangrenta mais do deus do que dos habitantes da cidade, conseguiste fazer uma parábola da defesa dos mais fracos. Embora dos bébés que supostamente terão morrido queimados não seja de certeza.

            E perante esta selvajaria divina desenfreada e sedenta de sangue consegues extrair uma reflexão ética da defesa dos mais fracos, o que é verdadeiramente olímpico como distorção de pensamento.

            Só falta dizeres que o Mein Kampf é uma obra pacifista – metafóricamente falando, claro.

          • Molochbaal

            As vezes tenho estes ataques de estupidez.

            Claro que a única forma de destruir os focos de infecção é destruir tudo o que pode estar contaminado, por ter tido contacto com a podridão contagiante.

            Quem quiser libertar a internet de gente sem escrúpulos e sem educação vai ter que bandir os ateus todos e todos os que com eles contactaram.

            A única forma de limpar a net era queimar todos os ateus e suas familias.

          • Molochbaal

            As vezes tenho estes ataques de estupidez.

            Claro que a única forma de destruir os focos de infecção é destruir tudo o que pode estar contaminado, por ter tido contacto com a podridão contagiante.

            Quem quiser libertar a internet de gente sem escrúpulos e sem educação vai ter que bandir os ateus todos e todos os que com eles contactaram.

            A única forma de limpar a net era queimar todos os ateus e suas familias.

          • Molochbaal

            E a única forma de me contradizeres é roubando a minha identidade ?

            Ainda não percebeste que estás a fazer figura de idiota que nem consegue contradizer os argumentos alheios mas apenas tentar sabotar o blogue ?

            Tu és a melhor prova de que os cristãos conservadores não passam de aldrabões.

            Continua a prová-lo.

          • Molochbaal

            “A única forma de limpar a net era queimar todos os ateus e suas familias.”

            O cristão mentiroso que rouba a minha identidade demonstra bem o que é a religião do “amor”.

            Mentiras, mentiras, mentiras.

            A avaliar pela amostra dos seus seguidores actuais, ladõres de identidades e que ameaçam de assassinato não só os outros participantes mas também as suas famílias, independentemente dessas famílias poderem até ser cristãs, os evangelhos devem ser mesmo um monte de aldrabices.

            Os cristãos conservadores têm mentalidade de assassinos imorais e mentirosos sem escrupúlos.

            Eles próprios o provam.

            Entretanto, vou mostrar esta ameaça aos membros cristãos da minha família.

            Só para eles verem a merda em que andam metidos.

  • Ruicabral Telo

    Boa Carlos Esperança! Tenho andado afastado do DA, mas vejo que continua a escrever “divinalmente” alheio aos comentários “alguns bem escritos” mas eivados daquela irritação de crentes “talvez preocupados” com a salvação da sua alma. Continue.
    Com os cumprimentos do Rui Cabral Telo

  • Molochbaal

    Então é essa a história dos gays?

  • Carlos Esperança

    O comentário removido deve-se ao facto de o autor se apropriar de identidade alheia.

  • Carlos Esperança

    Um comentário removido deve-se à apropriação de identidade alheia por um comentador.

  • Athan3

    O MB escurraça o doente-demente e o aparvalhdo não se dá conta de que é um salafrário fajuto redundando desesperado à cata de um desvario mentiroso pra defender a “moral” das Saras Pálicas e dos pastutos incendiários. É a tristeza e o estado deplorável de um maníaco chafurdado até o bico no esgoto dos embustes divinos.
    Aqui o bichin-ruizin-das-ideía-escroto vê que tem existe ‘homem”, “cidadão”, “macho”, ser humano livre, audaz, autêntico, na Sociedade; pela intrepidez legítima de nossa espécie na Natureza.
    Toca pra frente …

  • Athan3

    O MB escurraça o doente-demente e o aparvalhdo não se dá conta de que é um salafrário fajuto redundando desesperado à cata de um desvario mentiroso pra defender a “moral” das Saras Pálicas e dos pastutos incendiários. É a tristeza e o estado deplorável de um maníaco chafurdado até o bico no esgoto dos embustes divinos.
    Aqui o bichin-ruizin-das-ideía-escroto vê que tem existe ‘homem”, “cidadão”, “macho”, ser humano livre, audaz, autêntico, na Sociedade; pela intrepidez legítima de nossa espécie na Natureza.
    Toca pra frente …

    • Molochbaal

      Quando resolves escrever português e fazer frases coerentes e que tenham sentido?
      Escrever tanto e não dizer nada é uma doença.
      Escrever disparates de forma compulsiva e insistente é uma forma de atestar a ignorância e a estupidez.

      • Molochbaal

        Já fodeste a tua mãe hoje ? É que, pelo grau de aldrabice, deve ser isso que vocês querem dizer com “castidade”.

    • Molochbaal

      O “moloch” que está a mandar bocas à tua escrita é, evidentemente, o cristão lambe cona da mãe que nem tem a capacidade intelectual de aguentar uma discussão sem se esconder atrás da identidade alheia.

      São todos uma cambada de aldrabões.

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