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  • 25 de Dezembro, 2010
  • Por Carlos Esperança
  • Literatura

Boas – Festas_1 (Crónica)

Voltar às origens na noite de consoada é a viagem marcada no calendário, imposta pelo hábito e repetida pela inércia. À medida que as coisas e os lugares se encaixam cada vez menos na memória mais intensamente os procuramos. Parte-se em busca do passado e teme-se a desilusão de não achar sinais. Mas volta-se sempre, quiçá com vontade de exumar memórias, de recuperar sonhos e afectos que nos fazem falta, como se no eterno regresso surgisse a fonte da juventude.

Todos os anos, quando Dezembro chega, o frio vem lembrar-nos a festa que se aproxima ao ritmo da nossa ansiedade, enquanto os apelos ao consumo nos seduzem, insinuando uma felicidade duradoura. Fazem-se compras sem ponderação e arquivam-se prendas à espera de destinatário. Os livros têm nesta época o lugar que mereciam durante o ano, viajam com as pessoas à espera de leitor, quedam-se em mãos que os afagam ou, simplesmente, arquivam-se no abandono da estante.

Depois de árduas discussões no seio dos casais decide-se o local da consoada em unânime contrariedade. Nunca durante o ano a diferença entre irmãos e cunhados ou pais e sogros se tornou tão nítida e fracturante.

A viagem é o regresso magoado aos locais e memórias de um tempo que já foi, por entre chuva miudinha e frio de rachar. Doem os ossos em intermináveis filas de trânsito antes de se ver iluminada a torre do campanário onde outrora soavam as horas de dias muito mais calmos.

Chega-se de noite e de mau humor com o vento gélido a arrefecer sorrisos compostos para a chegada e os quartos húmidos indiferentes aos nossos ossos e ao reumático.

A lareira é o destino e centro de um semicírculo de profundos afectos e sólidos rancores que se reúnem alinhados por ordem etária na casa dos mais velhos e são alimentados a filhós e bolos que líquidos capitosos ajudam a empurrar. É aí que se desembrulham as prendas embaladas em papel reluzente com laços artisticamente colados. Agradece-se com um sorriso de desprezo aquele presente desinteressante do parente que nos detesta. Fica-se deslumbrado com a oferta generosa que redime uma ofensa antiga e enternece-nos a simples presença de quem não pede desculpa por gostar de nós.

Recordam-se em silêncio os ausentes pela falta que fazem e a saudade que produzem e os presentes pelo incómodo que provocam e o fastio que acarretam.

Quase todos se empanturram na esperança de matar de vez a fome ancestral de gerações que permanece viva na memória de quem a herdou durante séculos. Gabam-se os pastéis de bacalhau recheados de batata a tresandar a óleo, a excelência do peru mal assado, a qualidade do polvo que saiu duro, repetindo-se discretamente a dose de bacalhau cozido, batatas e couves, regados com azeite de boa qualidade, numas merecidas tréguas ao bitoque e à pizza, enquanto se aguarda a panóplia de doces e frutos secos. São momentos para acumular prazer e peso enquanto a azia e os espasmos não devolvem o remorso e o incómodo.

Por uma noite repousam os guerreiros das batalhas adiadas do quotidiano, levam para o seio familiar uma ou outra intriga para não perderem o treino, cumprimentando-se com uma profusão de ósculos ora fraternos, ora de circunstância. E, por entre os votos canónicos de Boas Festas, recordam-se pequenos agravos e ruminam-se vinganças por umas palavras que não caíram bem, algum insulto durante a disputa do relógio de ouro do avô ou aquela terrina da Vista Alegre que espalharam a cizânia nas últimas partilhas.

Sobrevive do paganismo o festejo do solstício de Inverno. Fez dele a tradição judaico-cristã a festa da família. E quando a família se comporta como deve, a festa acontece e é um suave pretexto de encontros ansiados em volta de sabores que a memória guarda e de aromas que nos transportam à infância numa viagem carregada de afectos e saudade.

Que no dia certo haja festa em vossas casas.

Boas-festas, caros leitores.

15 thoughts on “Boas – Festas_1 (Crónica)”

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  • Athan3

    É o que todos sabemos, o que todos sabemos. O fastio de um momento imposto. Todos sabemos o lastro que se torna o “riso feliz”, à medida que vemos distanciarem-se os procedimentos e comportamentos entre nós, entre nossos “queridos”, cuja forçosa aproximação torna ainda mais insuportável obrigações fingidas. Aprendi uma ‘lição de natal’ ontem, e outra no no natal passado:
    A de ontem foi essa: Era pleno dia de natal, o cara apanhou o filho para ser e ‘se mostrar’ como um ‘bom’ papai. Meteu uma parafernália ostentativa de proteção num garoto com seu skate novo, e tava “ensinando” o guri a se mover sobre o skate. Não se deu conta do como é andar de skate, nunca andou, e tava “ensinando” o moleque a estragar a cara no chão. Ao ver que o acidente era iminente, o estúpido “cidadão” que se deparava com o evento de frente a si, tomou-se de cordialidade e disse ao guri: Se continuar a pisar com o pé apontado reto com a ponta do skate você irá cair de cara; se quer progredir sem esborrachar no chão incline um pouco o pé e não fique tão esticado, faça como instintivamente fez sozinho ainda há pouco”. O “pai”, que não precisou pagar pela instrução (até porque não foi solicitada, e foi prestada num local com “forte espirro cristão”), repetiu para o garoto que devia pisar o pé reto imbicado pra frente no skate.
    Aí é que tá; o “pai” tava ali mais como um “presépio” para fazer a farofa natalina de “família” para mostrar-se aos outros como “paizão” (é o tal do “amor” que estraga tudo, como diria uma guria de uns 13 anos de idade); se tivesse um pouquinho de autêntica atenção com o filho e não com os outros e com ele próprio, poderia pelo menos perguntar a um moleque por ali, ou olhar um skatista ‘irado’ no Youtube.
    Posso dizer que não liguei? Não. Porque o cara de certa maneira induziu socialmente a que eu ficasse como um estúpido, tornando-me de prestativo ou camarada, a um “anti-família”. O formato de fiel em crença tava escrachado no sujeito, o estúpido mesmo eu que fui, o “prestador” de “boa ação”. Às vezes os sem-crenças, por serem ingênuos e humanos, têm essas vivências por pensar em querer uma Sociedade melhor.
    A do ano passado acho que postei no blog do Cardoso, na época do Natal, ou de um sujeito engraçado ( mas carne de pescoço), um tal André do Ceticismo Net; ou no extinto blog Sem Religião do Lordello e Ná Jung; que mudou para o Deusilusão (com um moço muto sagaz, o Sara&Cura). Eu acho que a Rayssa conhece essa turma (Boas Festas pra vc guria — pras feminas daqui tb, e pros homens, paulada na cabeça).

    • antoniofernando

      “Posso dizer que não liguei? Não. Porque o cara de certa maneira induziu socialmente a que eu ficasse como um estúpido, tornando-me de prestativo ou camarada, a um “anti-família”. O formato de fiel em crença tava escrachado no sujeito, o estúpido mesmo eu que fui, o “prestador” de “boa ação”. Às vezes os sem-crenças, por serem ingênuos e humanos, têm essas vivências por pensar em querer uma Sociedade melhor.”

      Foste mesmo estúpido ? Não, és um perfeito anormal. Só um imbecil chapado seria capaz de debitar os disparates que tu vomitas…

      • Molochbaal

        “Não, és um perfeito anormal. Só um imbecil chapado seria capaz de debitar os disparates que tu vomitas…

        És mesmo um perfeito demente.”

        Mas então E A SEDE PRÓPRIA ?

        E é esse o espirito cristão do natal ?

        Não basta seres co-responsável por milhões de mortos ao fazer propaganda contra o preservativo, ainda mostras um espirito tão pouco natalício ?

        Vai espalhar doenças. Vai.

        PS

        É de facto engraçado. O pessoal cristão está sempre a falar de amor mas são os mais cheios de ódio por toda a gente.

        • antoniofernando

          Tu julgas, ó javardo, que podes vir aqui constantemente insultar todos quantos te fazem frente e te descobrem a careca? Não tens feito outra coisa desde o início em que andas por aqui a vomitar impropérios. Agora vens com a conversinha do ” pessoal cristão sempre a falar de amor”, ao estilo de quem pensa que não levas a resposta merecida, ó porco.? Ouviste bem ó animal ? Julgas que não vais sempre de mim levar a única resposta que mereces, ó reles ? Tu és simplesmente nojento, mas há muito que descobri o mau carácter que és, ó amigalhaço dos talibans. Conta comigo para te dar sempre todas as coças de escrita que mereces e a que não vais jamais escapar. Tu e a “sumidade” do Athan e todos os demais da mesma estaleca…

          • Molochbaal

            OOOOOOOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHHH!!!!!

            Está zangadinho.

            Mas eu posso ser agressivo, visto que não me reclamo de uma religião do amor não estou em contradição.

            Acho esquizitíssimo é o pessoal que anda sempre a falar de amor ter vinte vezes mais ódio do que eu.

            Dá para ver que há aí uma falha qualquer…

  • Athan3

    Lançada no RJ a “idéia” de “tornar um quartel particular” (quem se interessaria? Logo, embutida na frase, vem a sugestão dos “donos”, IGREJAS). Agora, depois de explodir prédios, e minas, etc, qual o melhor oponente que vc poderia sonhar? Pessoas com cacuete de Ghandi, são ótimos oponentes; enquanto igrejas começam a traçar seus “planos” de compra de quartéis, pois firmas de segurança já tá pouco, os ateus podem esperar quietinhos ‘um sinal’ ser pregado neles, vamos dar chance ao trololó de dementes nos blogs e sites, e fazer um imenso mar de Ghandis encarnados; nada melhor que imitarmos a paz da Índia. Mas QUEM se interessaria em ser tão “bondoso” socialmente a ponto de QUERER COMPRAR UM QUARTEL? E que idéia “abençoada” é essa? Quem está precisando de um quartel para se proteger? Aceito sugestões e esclarecimentos …

  • antoniofernando

    Tu nem sequer sabes articular uma frase. És mesmo um perfeito demente…:)

    • Anónimo

      Verifico, com tristeza e preocupação, que o António Fernando já começou a falar para o espelho. É grave, meu caro. Compreendo que depois de ter levado o seu psiquiatra ao suicídio a cura seja mais difícil. Mas faça um esforço: levante-se e saia. Não esteja sempre agarrado ao computador, à espera de “posts” e/ou comentários, com a maníaca preocupação de ser o primeiro a comentar. Peça ao seu deus privativo que o ilumine – se ele, entretanto, também já não se tiver suicidado, que você é um chato! – dê uns passeios a pé, pule a cerca de vez em quando (mas use preservativo!), beba umas bejecas no Verão e uns “tubos” no Inverno, enfim, tente ser uma pessoa normal. Sei que, para si, é difícil, mas não é, de todo, impossível. Querer é poder. Mesmo quando “poder” se escreve com “f”.

  • Lindinha

    E é preciso fazer ainda uma pergunta: “Se uma corporação para-militar particular fica mais competente que a do Estado; a quem e a quais ordens estaríamos sujeitos?”. Parece que estamos vendo um banquete medieval armando mercenários à custa da desgraça do povo e protegidos pelo Estado, que passa a não ser mais Estado, mas uma máquina subalterna de aniquilação civil. Isso é grave demais, demais, demais.

  • Carlos, este texto só prova a sua amargura, mais nada. Não vale a pena generalizar: só porque vc não gosta da sua familia não vale a pena dizer que todos os outros são assim.

    Percebo que para um ateu o natal se reduza a esta descrição. Aliás, percebo que para um ateu militante como o Carlos, a amargura seja um modo de vida.

    Eu confesso que cada vez gosto mais do Natal!

    • Virgilio

      Exactamente!
      Acabou de caracterizar o bispo da seita ateia de uma forma incrivelmente correcta.

  • Anónimo

    Na “mouche”, Carlos Esperança.
    Como sempre, aliás.
    O que vai valendo é que nas famílias vai havendo gente educada, que cumpre o conselho da falecida avó: “Come e cala-te”. E a festa faz-se em paz.

    Boas Festas de Solstício.

    • Virgilio

      Fico a saber que os ateus ainda estão na fase de comemoração do solsticio,,, tão atrasados! A Isto chama-se regredir milhares de anos.
      Que se pode pedir aos ateus se ainda estão nesta fase dos primórdios da civilização,

      • jmc

        ao contrário de um suposto nascimento numa antiga civilização há milhares de anos, o solstício ocorre todos os anos

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