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A importância de ser falsificável.

Muita gente sabe que a ciência exige modelos falsificáveis. Infelizmente, muitos julgam que é uma regra arbitrária, como a do bispo andar na diagonal, e pensam que basta mudar de jogo para já se poder ter deuses invisíveis e milagres. Como não se pode falsificar essas hipóteses, defendem, então a ciência não se pode pronunciar acerca do mistério da fé. Do vale tudo, por outras palavras. Mas isto não é bem assim.

Exigir hipóteses falsificáveis não é mera mania da ciência. Em primeiro lugar, é uma condição necessária para descobrir quando nos enganamos. Não poder testar uma alegação não garante que esta esteja correcta, e uma opinião acerca de um deus invisível tem tanta possibilidade de estar errada como qualquer especulação infundada. Ser infalsificável implica apenas que o erro não pode ser detectado. Serve para enfiar barretes mas falha como conhecimento.

Além disso, só se justifica confiar num modelo se a concordância com os dados não for trivial nem houver alternativas melhores. Por exemplo, que a maioria dos criminosos come pão não justifica considerar o pão um factor de criminalidade; quase toda a gente come pão, pelo que esta observação é trivial. Em contraste, quando um modelo relativista da órbita de dois pulsares prevê que se vão aproximar a sete milímetros por dia, e a previsão concorda com medições cuja margem de erro é de apenas 0.05%, é pouco plausível que o modelo esteja a acertar por mero acaso. Uma hipótese impossível de falsificar merece tanta confiança como a pontaria de quem dispara contra a parede e pinta o alvo no sítio que atingiu.

Apesar das hipóteses não falsificáveis não poderem ser incompatíveis com os dados, podem ser incompatíveis com as alternativas. Por exemplo, a hipótese da Torre Eiffel ter sido criada a semana passada por uma magia que criou a torre, todos os registos da sua construção e memórias falsas em toda a gente, não pode ser rejeitada recorrendo aos dados. Mas pode, e deve, ser rejeitada em favor da explicação alternativa que os historiadores nos dão. Esta merece muito mais confiança e é incompatível com a hipótese da criação por feitiçaria.

Finalmente, a diferença entre falsificável e não falsificável está muitas vezes na atitude dos proponentes e não na hipótese em si. Se eu propuser que peso apenas 20Kg, quando a balança indicar 100Kg posso alegar que está avariada. E que o valor da outra balança, que deu o mesmo resultado, foi mal interpretado. E que a terceira balança foi enfeitiçada pelo mágico do parágrafo anterior. Com desculpas destas posso insistir que peso só 20Kg sejam quais forem os dados. Isto é obviamente desonesto, mas não é menos desonesto do que antecipar a marosca e formular, logo à partida, a hipótese de forma impossível de falsificar. Hipóteses dessas, na ciência ou fora dela, são sempre aldrabice.

As especulações religiosas acerca dos vários deuses sofrem destes problemas. Os seus aspectos não falsificáveis não merecem qualquer confiança porque não se lhes pode corrigir os erros e porque a sua concordância com os dados é trivial. Também não explicam nada. Dizer que Jahve criou o universo ou que Zeus cria as trovoadas deixa-nos na mesma. A mecânica quântica e a meteorologia dão descrições muito mais concretas e úteis. E esse acrescentos sobrenaturais são incompatíveis com os modelos que a ciência nos dá. Quando a física diz que pulsares a orbitar-se mutuamente dissipam energia na forma de ondas gravíticas não acrescenta “se Deus quiser”. Isso seria um modelo fundamentalmente diferente e incapaz de previsões rigorosas, deixando sempre em aberto a possibilidade de, afinal, Deus não querer.

Pior ainda, as especulações religiosas têm muitos aspectos que seriam falsificáveis a menos da atitude dos seus proponentes. A existência de um ser omnipotente e bondoso, por exemplo, é incompatível com os dados que temos. Mas continuam a insistir que tal coisa existe só porque não se pode provar o contrário. Ora também não se pode provar que eu não pese 20Kg. É possível, ainda que improvável, que todas as balanças em que me pese dêem o valor errado. Ninguém pode provar o contrário. Mas não é sensato confiar numa hipótese dessas, e não é honesto defendê-la como sendo conhecimento.

1- Science Daily, 14-9-2006, General Relativity Survives Gruelling Pulsar Test: Einstein At Least 99.95 Percent Right

Em simultâneo no Que Treta!

18 thoughts on “A importância de ser falsificável.”
  • antoniofernando

    Anda a ler bastante Karl Popper, Ludwig Krippahl …:)

  • antoniofernando

    “A existência de um ser omnipotente e bondoso, por exemplo, é incompatível com os dados que temos”

    LK

    Tem que ler mais Thomas Huxley. Não se fique só por Charles Darwin e Karl Popper…

    • jmc

      acho que para isto nem é preciso dados, apenas a lógica de epicuro.
      se no mundo existe maldade, a existência de um ser omnipotente e omnibenevolente é logicamente impossível, pois se este ser não impede o mal por vontade não é omnibenevolente e se não o impede por capacidade não é omnipotente.

      • antoniofernando

        Pois por mim,acho que essa lógica epicurista seria a última a funcionar filosoficamente contra a existência de Deus.O facto de Deus, a existir, para seguir a sua linha de raciocínio, permitir a existência do Mal e do Sofrimento não significa que não seja Omnipotente e Bondoso.Embora eu reconheça que o Mal é o maior argumento contra a existência de Deus. Mas, pessoalmente, enquanto deísta e cristão, a questão que se me coloca, sobre essa argumentação, é saber onde está Deus. Um dia, um desgraçado indiano perguntou a Madre Teresa de Calcutá: ” Quem é o seu Deus ? E qual é a sua Religião ?” Ela respondeu assim: ” O meu Deus és tu e a minha Religião é a do Amor”.Madre Teresa não estava a referir-se, nessa resposta, a nenhum credo de natureza católica ou cristã. Não estava a querer dizer que o Cristianismo é a Religião do Amor nem que Deus estava colocado nalguma inalcançável esfera celestial.Cristo também disse aos Seus apóstolos que Deus estava em todo aquele que tivesse fome ou sede, que estivesse nu ou preso. E que aqueles que tivessem efectiva compaixão por esses irmãos com fome ou sede, nus ou presos, e lhes dessem comida ou bebida, os vestissem ou visitassem na prisão, estariam na presença do próprio Deus.Onde está Deus, portanto ? Nas etéreas alturas, ou bem próximo da realidade humana ? A questão da problemática do Mal resolve-se, a meu ver, com uma só palavra: evolução. Toda a evolução e não apenas material. Também e essencialmente espiritual. Para responder à questão ” onde está Deus ?” Podemos perguntar quem verdadeiramente somos:meros amontoado de átomos ? Ou seres essencialmente imateriais , embora dotados de instrumentos corpóreos? Qual é o sentido da Vida ? Para mim, enquanto crente, é o progresso espiritual. Até onde ? Até ao Infinito. Há tempos vi um documentário sobre esta questão que me impressionou fortemente. Um monge contemplativo disse algo que me chamou a atenção.E que foi, cito de memória,mais ou menos nestes termos: ” no fim da minha demanda espiritual, quando julgar que vou contemplar a face de Deus talvez me veja a mim próprio”. Que quereria ele dizer com isso ? Penso que pretenderia dizer que, no final da sua longa caminhada, veria Deus nele próprio. Do meu ponto de vista, julgo que foi exactamente isso que aconteceu com Jesus de Nazaré. Mostrou-se ao mundo como homem especialmente evoluído que trazia com ele a própria Divindade. Por isso fez tanto Bem a tanta gente. Alguns cristãos vêem Jesus de Nazaré como a Encarnação de Deus.Outros não, mas vêem-nO sempre como um homem de altíssimo nível espiritual. Onde estava Deus há dois mil anos ? Estava a fazer humanamente Bem a tantos que nunca mais O esqueceram. Perante o Mal e o Sofrimento, o que é que cada um de nós normalmente faz, para além do seu cómodo egocentrismo ? Ou clama contra Deus ou põe-se a rezar à espera que Deus desça novamente à Terra.Mas será que Deus não estará em cada um de nós ? E, independentemente da crença ou não em Deus, não compete a cada ser humano praticar o Bem e tentar erradicar o Mal ? Não temos todos sentido de justiça ? A omnipotência e a bondade de Deus talvez esteja em cada um de nós. Mas se Jesus de Nazaré conseguiu sobrepor-se à aparente barreira das conhecidas Leis da Natureza, que impedirá cada um de nós de fazer o mesmo ? A mesma Grandeza Humana e o mesmo Amor ao Próximo.Por isso, respondendo à sua questão: a Omnipotência e a Bondade de Deus estão reflectidas naquela superior dimensão humana, genuína e da mais profunda e consequente Santidade, que, contudo não carece de nenhuma canonização institucional, para como tal se manifestar e revelar…

  • antoniofernando

    “A existência de um ser omnipotente e bondoso, por exemplo, é incompatível com os dados que temos”

    LK

    Tem que ler mais Thomas Huxley. Não se fique só por Charles Darwin e Karl Popper…

  • antoniofernando

    O método científico é incapaz, sempre foi, de dar uma solução definitiva sobre a questão metafísica de Deus.Aqueles que, como LK, pensam contrariamente, estão a empurrar o método para além das suas fronteiras epistemologicamente balizadas e circunscritas.Mas pode continuar a tentar. Por mais palavras que debite, nunca conseguirá incluir Deus no âmbito do método científico experimental. Seria mais fácil LK conseguir contar todos os grãos de areia das praias do Planeta Azul…

    • T.Almeida

      É verdade. Também nunca conseguiremos incluir a fada dos dentinhos e as ameixas poderosas de plutão no âmbito do método científico. Estamos cheios de pena.

    • Ludwig

      António Fernando,

      «O método científico é incapaz, sempre foi, de dar uma solução definitiva sobre a questão metafísica de Deus.»

      O método científico é incapaz de dar uma solução definitiva para a questão de quanto é que eu peso. Há sempre possibilidade de erro. Mas disso também qualquer outro método sofre. Quem julga ter um método alternativo que dê soluções definitivas só se ilude.

      A diferença é que o método científico é o que minimiza as probabilidades de erro e maximiza a probabilidade de ir detectando e corrigindo os erros que se comete.

    • Anónimo

      O método científico é incapaz

      O INCAPAZ ÉS TU… QUE NÃO CONSEGUES VER UM PALMO À FRENTE DO NARIZ DESSE TEU DEUS IMAGINÁRIO CRISTÃO

  • Pedro

    -|- -|-
    M MA

    Genesis[1,1-1] “No princípio, Deus criou os céus e a terra.”
    A ciencia não justifica o ateismo.
    Admirar a ciencia é admirar a criação do criador e o próprio criador.

  • jmc

    bravo! bom texto, são precisos mais destes

  • Antonio Porto

    Depois das declarações do ateu stephen hawking de que o universo
    criou-se e irá criar-se a si mesmo do nada, podemos ter uma idéia de
    onde a “ciência” pode ir.
    O que os homens não fazem para se livrar de deus.

  • Andreia_i_s

    Ludwig Krippah:

    Parabéns pelo texto, continue :).

  • Andreia_i_s

    Ludwig Krippah:

    Parabéns pelo texto, continue :).

  • Andreia_i_s

    Ludwig Krippah:

    Parabéns pelo texto, continue :).

  • Andreia_i_s

    Ludwig Krippah:

    Parabéns pelo texto, continue :).

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