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  • 22 de Novembro, 2010
  • Por João Vasco Gama
  • Catolicismo

Crédito a quem o crédito é devido

Se de facto o Papa alterou a sua posição em relação ao preservativo, mesmo que poucos milímetros, fazendo com que a posição institucional da Igreja Católica seja mais aberta a este respeito, está de parabéns.

É bem verdade que a posição da Igreja a este respeito continua a ser, a meu ver, absurda e anacrónica. Mas, a confirmarem-se estas notícias, menos absurda e anacrónica que antes, e por isso está de parabéns pela evolução no sentido positivo.

24 thoughts on “Crédito a quem o crédito é devido”
  • Athan3

    Que ‘evolução’ prezado? Isso é só uma artimanha deslavada pra ajudar a abafar os intermináveis e bizarros crimes que foram escrachados diante do mundo quando a Justiça, e vítimas intrépidas, resolveram se pronunciar, e dar um basta nessa corja de assassinos-parasitas.
    Crédito de Quê?

  • Bernardo

    João Vasco,

    A Igreja não mudou uma vírgula na sua posição oficial. Não mudou nem mudará. O que dizem os jornais é diferente daquilo que o Papa disse. Eis o trecho importante:

    Pergunta (de Peter Seewald): «[…] Em África, Vossa Santidade afirmou que a doutrina tradicional da Igreja tinha revelado ser o caminho mais seguro para conter a propagação da sida. Os críticos, provenientes também da Igreja, dizem, pelo contrário, que é uma loucura proibir a utilização de preservativos a uma população ameaçada pela sida.

    Resposta (de Bento XVI): Em termos jornalísticos, a viagem a África foi totalmente ofuscada por uma única frase. Perguntaram-me porque é que, no domínio da sida, a Igreja Católica assume uma posição irrealista e sem efeito – uma pergunta que considerei realmente provocatória, porque ela faz mais do que todos os outros. E mantenho o que disse. Faz mais porque é a única instituição que está muito próxima e muito concretamente junto das pessoas, agindo preventivamente, educando, ajudando, aconselhando, acompanhando. Faz mais porque trata como mais ninguém tantos doentes com sida e, em especial, crianças doentes com sida. Pude visitar uma dessas unidades hospitalares e falar com os doentes.
    Essa foi a verdadeira resposta: a Igreja faz mais do que os outros porque não se limita a falar da tribuna que é o jornal, mas ajuda as irmãs e os irmãos no terreno. Não tinha, nesse contexto, dado a minha opinião em geral quanto à questão dos preservativos, mas apenas dito – e foi isso que provocou um grande escândalo – que não se pode resolver o problema com a distribuição de preservativos. É preciso fazer muito mais. Temos de estar próximos das pessoas, orientá-las, ajudá-las; e isso quer antes, quer depois de uma doença.
    Efectivamente, acontece que, onde quer que alguém queira obter preservativos, eles existem. Só que isso, por si só, não resolve o assunto. Tem de se fazer mais. Desenvolveu-se entretanto, precisamente no domínio secular, a chamada teoria ABC, que defende “Abstinence – Be faithful – Condom” (“Abstinência – Fidelidade – Preservativo”), sendo que o preservativo só deve ser entendido como uma alternativa quando os outros dois não resultam. Ou seja, a mera fixação no preservativo significa uma banalização da sexualidade, e é precisamente esse o motivo perigoso pelo qual tantas pessoas já não encontram na sexualidade a expressão do seu amor, mas antes e apenas uma espécie de droga que administram a si próprias. É por isso que o combate contra a banalização da sexualidade também faz parte da luta para que ela seja valorizada positivamente e o seu efeito positivo se possa desenvolver no todo do ser pessoa.

    Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização, uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por HIV. Essa tem, realmente, de residir na humanização da sexualidade.

    Pergunta: Quer isso dizer que, em princípio, a Igreja Católica não é contra a utilização de preservativos?

    Resposta: É evidente que ela não a considera uma solução verdadeira e moral. Num ou noutro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco de contágio, o preservativo pode ser um primeiro passo na direcção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana.»

    In Bento XVI, Luz do Mundo – O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos – Uma conversa com Peter Seewald, Lucerna, 2010

  • antoniofernando

    Agora é que as taxas da sida à escala mundial vão baixar, não é, ó nacionais- porreiristas de serviço ?

  • Athan3

    Ateus, agnósticos, céticos, sem=crenças, atenção! Os assassinos-parasitas estão migrando para criar um comando de ‘ateus-mansos’, logo que essa instituição-cancro vê-se ser dissolvida, ela começa a tentar se mostrar ‘boazinha’; mas enquanto disfarça suas pútridas artimanhas, engendra violento e horroroso cobrimento social com poluição sufocante e massiva sobre tudo em cidades e países; “o refluxo”.

  • Athan3

    Ateus, agnósticos, céticos, sem=crenças, atenção! Os assassinos-parasitas estão migrando para criar um comando de ‘ateus-mansos’, logo que essa instituição-cancro vê-se ser dissolvida, ela começa a tentar se mostrar ‘boazinha’; mas enquanto disfarça suas pútridas artimanhas, engendra violento e horroroso cobrimento social com poluição sufocante e massiva sobre tudo em cidades e países; “o refluxo”.

    • Molochbaal

      Atenção, tens de actualizar o teu vocabulário. Agora, todos os que não cumpram as ordens do papa são “nacionais-porreiristas”.

      Não faço ideia do que isso seja, mas os crâneos iluminados pelo senhor devem saber. afinal eles sabem tudo. Mesmo tudo.

      Só não sabem que a igreja anglicana já desde 1930 aceitou o uso do preservativo, que em parte alguma o preservativo é proibido na bíblia, e mais alguns biliões de itens de cultura geral.

  • antoniofernando

    É ele, sim. Mas aqui no seu estilo cordato, educado, civilizado, polido,súbdito, ” very british”, totalmente alheio à problemática do uso do preservativo.Que o respeitinho pela Chefe da Igreja Anglicana é muito bonito.Arengar forte é só contra Bento XVI, quando se lhe estala o verniz e o polimento. Mas aqui, ele,o Dawkins, está tão manso a entrevistar o arcebispo primaz Rowan Willamson que até confrange:

    http://www.youtube.com/watch?v=2DcySbAt-l4

  • Jvgama

    Bernardo,

    O meu texto está no condicional, e não é por acaso. A notícia – até pelo facto de o ser(!) – dá a entender que existiu uma alteração na posição do Papa, no sentido de se aproximar de uma que me parece mais razoável e equilibrada. Mas é verdade que muitas vezes os jornalistas colocam o sensacionalismo à frente da informação adequada, e por isso é possível que tenhas razão e não tenha ocorrido nada digno de notícia. Nesse caso, não tenho nada que congratular o Papa nem a ICAR.

    António Fernando,
    É mesmo verdade que o uso generalizado do preservativo é uma forma eficaz de combater a SIDA.
    A ICAR contrapõe que um comportamento casto é ainda mais eficaz.
    O que acontece é que quem quer combater a SIDA não pode nem fazer as pessoas usarem preservativos, nem fazer as pessoas serem castas.
    Pode-se sim (1) encorajar a usar o preservativo, (2) encorajar a ter um comportamento casto, ou (3) ambas. A segunda é extremamente ineficaz, e as restantes (1)(3) são razoavelmente eficazes – que eu saiba é discutível se existe diferença significativa de eficácia entre ambas.

    • antoniofernando

      “António Fernando,
      É mesmo verdade que o uso generalizado do preservativo é uma forma eficaz de combater a SIDA.
      A ICAR contrapõe que um comportamento casto é ainda mais eficaz.
      O que acontece é que quem quer combater a SIDA não pode nem fazer as pessoas usarem preservativos, nem fazer as pessoas serem castas.
      Pode-se sim (1) encorajar a usar o preservativo, (2) encorajar a ter um comportamento casto, ou (3) ambas. A segunda é extremamente ineficaz, e as restantes (1)(3) são razoavelmente eficazes – que eu saiba é discutível se existe diferença significativa de eficácia entre ambas”

      João Vasco Gama:

      Retorno ao tema, antes de mais para enaltecer a sua postura independente na análise desta temática tão controversa. Você desalinha do tipo de discurso do seu companheiro Luís Grave Rodrigues e ainda bem. É sinal de quem nem todos alinham pela mesma baixa bitola.

      Quanto aos aspectos que enuncia, queria, no entanto, adiantar o seguinte:

      1- O preservativo é considerado bastante eficaz, mas não totalmente, na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, se correctamente colocado, com quebras de segurança entre 0,4 e 2,3%. ;

      2- Não conheço nenhum estudo sério, de instituição governamental, não governamental, ou científica, a asseverar que há pessoas que se recusam a usar o preservativo, em situações de risco, por causa da posição da Igreja Católica ou de Bento XVI. Você conhece ? Tem dados concretos e fiáveis para afirmar que ” o que acontece é que quem quer combater a SIDA não pode nem fazer as pessoas usarem preservativos nem fazer as pessoas serem castas” ? Se tem, agradeço que os cite aqui;

      3-Há muita gente instruída que se está a marimbar para o uso do preservativo, em situações de risco, ou porque aprecia a adrenalina da ” roleta russa” ou porque simplesmente acredita que o contágio só acontece aos outros.Quem tem culpa desses comportamentos ? Esses loucos ou Bento XVI ?

      4- Você certamente não ignora os relatos de prostitutas e prostitutos que dizem que há clientes que pagam mais por terem relações sem preservativo . Quem tem culpa desses comportamentos ? Os clientes e prostitutas e prostitutos que assim se conformam ou Bento XVI ?

      5-Há,sobretudo nas zonas menos culturalmente avançadas do planeta, alguma superstição ligada a sexo desprotegido, de que é exemplo paradigmático aqueles ignorantes que acham que terem relações sexuais com meninas os livra da Sida. Quem tem culpa dessa insanidade ? Bento XVI ?

      6- À escala mundial, há muitos países cujas religiões são predominantemente diversas da católica, como a muçulmana, hindu ou budista, onde a sida também se propaga. Nesses países, onde outras religiões preponderam, a culpa também é de Bento XVI ?

      7- No próprio Cristianismo, existem várias correntes, como a anglicana, protestantes ou ortodoxas. Nas zonas de influência dessas correntes, a culpa também é de Bento XVI ?

      8- Através da prática do sexo oral, a Sida também se propaga. Também está à espera que Bento XVI venha recomendar que as pessoas igualmente usem preservativos nessas situações para que a recomendação ocorra através daqueles que actuam mais directamente no terreno da concreta acção social ?

      9- Porque é que aqui no ” D.A.” vocês são tão benevolentes, complacentes, contemporizadores e omissos em relação à Igreja Anglicana, dirigida pela dama que também é monarca do país onde vive Richard Dawkins, pode-se saber ou é tabu ?…

      • Jvgama

        António Fernando:

        1- A questão do preservativo é análoga à questão das vacinas, na medida em que deve ser considerada a eficácia agregada e não a eficácia individual. A vacina é eficaz não na medida em que protege cada indivíduo em particular, mas na medida em que evita a propagação do vírus de tal forma que este deixa de se espalhar e acaba por desaparecer.
        A promoção do uso generalizado do preservativo teve este resultado, não apenas na Europa, e nos países ricos, mas também em países como o Brasil que investiram no encorajamento do seu uso – note-se que o sucesso no Brasil é tão notável que o número de infectados é hoje inferior a metade do número da generalidade das projecções.
        Já a promoção do comportamento casto tem muitas vezes resultados contraproducentes. Nos EUA, por exemplo, nas zonas em que aumentou o esforço relativo à promoção de comportamentos “castos” aumentou significativamente o número de gravidezes adolescentes, caso que me surpreendeu bastante pois imaginaria que tais esforços fossem inconsequentes e não contra-producentes.

        2- Eu soube pela comunicação social que um Bispo alegava que os preservativos estavam infectados com o vírus da sida e era uma conspiração ocidental contra os povos africanos.A Além das outras informações que mencionei, basta supor que alguém leva esse Bispo a sério – e sendo um Bispo, esta deve ser uma suposição razoável – para ter um exemplo daquilo que me pediu.

        3,4,5,6,7,8 – Se não foi claro antes, reitero: «É realmente errado atribuir à Igreja Católica quase toda a responsabilidade pelo flagelo da SIDA.»

        9- Tanto quanto sei a Igreja Anglicana não tem a este respeito a posição, a meu ver absurda e anacrónica, que a Igreja Católica tem. Haverão outras críticas a fazer a essa Igreja, mas não essa, se não estou em erro.

  • Anónimo

    MAS O QUE É QUE A ICAR E O PAPATUDO TÊM A VER COM O QUE CADA UM QUER USAR PARA PODER TER RELAÇÕES SEXUAIS?

    ESSES, TÊM É QUE ESTAR CALADOS…A NÃO SER QUE TENHAM MUITA EXPERIÊNCIA NA MATÉRIA…O QUE PODE SEMPRE ACONTECER…COMO BEM SABEMOS.

    SE QUEREM TER UMA OPINIÃO, QUE A TENHAM DE ACORDO COM OS INTERESSES E A SAÚDE DA VIDA HUMANA OU ENTÃO QUE NÃO FALEM, EM VEZ DE ANDAREM A CONFUNDIR A POPULAÇÃO MENOS ESCLARECIDA.

  • antoniofernando

    João Vasco Gama:

    Consigo é possível conversar a partir de posições divergentes. Mantenho a minha posição sobre esta temática. Considero intelectualmente desonesto que alguém, não o seu caso, atribua à Igreja Católica e a Bento XVI quase toda a responsabilidade pelo flagelo da sida, quando, qualquer pessoa medianamente reflexiva e séria,vê que esse tipo de catilinária não faz o menor sentido, pelas razões que já desenvolvidamente sustentei.Enquanto cristão não católico guio-me pela minha própria consciência. Se fosse católico faria o mesmo. E similarmente se fosse ateu. Quem faz depender a resolução ou a diminuição do flagelo da sida da posição de Bento XVI, apouca – se a si próprio e insulta todas as pessoas que têm dado o melhor de si próprias no combate à pandemia.Por mim, recuso-me a pactuar com essa mediocridade intelectual. Aquela que tem conduzido nosso país à falta de sentido crítico, à dependência dos pensamentos e mundividências alheias. A questão, JVG, é que alguns querem forçar a Igreja Católica a abdicar da ênfase que, legitimamente, coloca na fidelidade sexual no âmbito de uma relação monogâmica de Amor. E esse princípio é inteiramente respeitável. Quem nele não se revê, não segue. Faz o que muito entender. Se quiser enveredar por relações múltiplas promíscuas, orgias, ” swings” ou grandes bacanais à moda dos romanos que o faça. Não tem é o direito de querer impor à ICAR que siga os ditames de outra visão da vida na qual a Igreja Católica não se reconhece. Quanto ao que sobre esta temática pensa a Chefe da Igreja Anglicana, não sabemos nem alguém lhe terá perguntado.Porque o que importa, para alguns sectários, é sempre abater e só Bento XVI. Porém,na vida não há ninguém que esteja livre de confronto de posições. Nem sequer a dama que preside aos destinos da IA…

    • Jvgama

      António Fernando,

      É realmente errado atribuir à Igreja Católica quase toda a responsabilidade pelo flagelo da SIDA. Mas não é absurdo atribuir alguma responsabilidade.

      A primeira vez que tomei contacto com fundamentos para tal alegação foi num livro que relata uma conferência sobre a Globalização promovida pela fundação Calouste Gulbenkien. Um painel discutiu apenas sobre África, e notei que entre os vários conferencistas existiam diversas leituras diferentes sobre a realidade política económica e social. Mas apesar das suas diferenças vários falaram sobre como a Igreja Católica tinha um papel perverso ao desencorajar o uso do preservativo entre as populações, descredibilizando as campanhas de informação a esse respeito, por vezes promovendo até campanhas de queima de preservativos. Mais tarde acabei por encontrar informação que confirmou esta perspectiva, inclusivamente declarações de um bispo africano perfeitamente paranóicas alegando que, se a memória não me falha, a SIDA foi uma arma do ocidente para destruir os países africanos, e o preservativo uma ferramenta nesse golpe.

      Assim eu diria que, na sua luta contra as campanhas de consciencialização, em certa medida na sua luta contra o preservativo, a Igreja Católica em África (ou importante parte dela), terá sido – a meu ver – parcialmente responsável por algumas mortes. Note-se que não acuso qualquer omissão, apenas a acção.

      Posto isto, não tenho nada contra que a Igreja encoraje os seus fieis a terem uma vida conforme ao ideal de castidade que preconizam. Na verdade, nem sequer sou contra a intolerância cultural a escolhas de vida diversas (homossexualidade, divórcio, sexo antes do casamento, infidelidade conjugal, etc…) desde que não pretendam – como muitas vezes acontece – querer que tal intolerância fique plasmada nas leis (impedindo o divórcio, como há dezenas de anos em Portugal ou agora noutros pontos do mundo, ou casamento homossexual como agora em Portugal).

      • antoniofernando

        “Assim eu diria que, na sua luta contra as campanhas de consciencialização, em certa medida na sua luta contra o preservativo, a Igreja Católica em África (ou importante parte dela), terá sido – a meu ver – parcialmente responsável por algumas mortes. Note-se que não acuso qualquer omissão, apenas a acção.”

        Vejamos então até que ponto nos pode levar a retórica, assente em toda a geometria do pensamento, para não vermos apenas unifocalmente um dos ângulos da realidade:

        1-Os preservativos são ineficazes numa margem entre 0,4% e 2,3%, quando correctamente colocados, o que significa defeitos de fabrico ou eventuais rompimentos;

        2-Equacionemos que esses rompimentos também ocorrem ou já ocorreram em população infectada pela sida e que, desses defeitos, foram, previsivelmente, infectadas outras pessoas, por exemplo numa percentagem de 1,0% à escala mundial.

        3- É capaz de fazer contas para me dizer quais,usando a sua óptica, teriam sido mais responsáveis pela maior infecção de pessoas, decorrente de rompimento de preservativos em indivíduos portadores de HIV ? Bento XVI ou os apologistas de sexo com preservativo ?…

        • Jvgama

          António Fernando:

          Talvez porque o nosso debate não está organizado cronologicamente vejo-me na necessidade de me repetir:

          «A questão do preservativo é análoga à questão das vacinas, na medida em que deve ser considerada a eficácia agregada e não a eficácia individual. A vacina é eficaz não na medida em que protege cada indivíduo em particular, mas na medida em que evita a propagação do vírus de tal forma que este deixa de se espalhar e acaba por desaparecer.
          A promoção do uso generalizado do preservativo teve este resultado, não apenas na Europa, e nos países ricos, mas também em países como o Brasil que investiram no encorajamento do seu uso – note-se que o sucesso no Brasil é tão notável que o número de infectados é hoje inferior a metade do número da generalidade das projecções.
          Já a promoção do comportamento casto tem muitas vezes resultados contraproducentes. Nos EUA, por exemplo, nas zonas em que aumentou o esforço relativo à promoção de comportamentos “castos” aumentou significativamente o número de gravidezes adolescentes, caso que me surpreendeu bastante pois imaginaria que tais esforços fossem inconsequentes e não contra-producentes.»

          Dizer que o preservativo causou a morte de pessoas é como dizer que as vacinas causaram a morte de pessoas. De um ponto de vista agregado ao encorajar o uso de vacinas está a salvar vidas. Se for convincente ao desencorajar o seu uso está a matar vidas. E as vacinas têm de facto perigos subjacentes, se desencorajar o seu uso falando nos perigos destas de forma a instigar o medo, pode ser eficaz e assim parcialmente responsável por algumas mortes.

          Considerando duas alternativas do ponto de vista agregado – encorajar o uso do preservativo
          ou desencorajar o seu uso e encorajar uma vida sexual casta – a primeira alternativa corresponde a vidas salvas e a segunda ao oposto.

          Porque é que do ponto de vista agregado o uso do preservativo tem tanta eficácia? Para um vírus se espalhar existe um parâmetro que corresponde ao número esperado de pessoas que alguém infectado pelo vírus vai infectar entes de morrer. Existe um valor crítico para este parâmetro acima do qual o vírus se espalha aumentando o número de infectados, e abaixo do qual o número de infectados diminui sucessivamente até desaparecer. O uso generalizado do preservativo funciona como a vacina – baixa significativamente o valor deste parâmetro de forma a que onde antes ele estava acima do valor crítico depois fica abaixo. Esta é a teoria, e isto funciona na prática.

          Se as pessoas passassem num instante a ter um comportamento casto, o parâmetro poderia diminuir ainda mais, e o vírus desaparecer ainda mais depressa. Mas o problema é que aquilo que se pode fazer é encorajar as pessoas a ter esse comportamento. Ora ao contrário do encorajamento do uso do preservativo, que tem alguma eficácia, o encorajamento do comportamento casto por parte das instituições em questão tem um efeito nulo ou contraproducente como se pode ver pela evolução do número de gravidezes adolescentes nos casos em que foi dada força a essas políticas.

          Assim, em resposta à sua questão, os apologistas do sexo sem preservativo contribuíram com a sua acção para que o vírus da SIDA tivesse estabilizado e começado a minguar. Aqueles que tentaram diminuir a eficácia das suas acções são, a meu ver, parcialmente responsáveis pelo número de mortes que resultam dessa diminuição de eficácia.

      • antoniofernando

        “Note-se que não acuso qualquer omissão, apenas a acção.”

        Quer isto, portanto, dizer, presumo que nada aponta de censurável, por exemplo,à Chefe da Igreja Anglicana por ela nunca se ter pronunciado sobre o uso ou não de preservativo para combater a pandemia da Sida, é isso ?

        • Jvgama

          É precisamente isso.

          • Jvgama

            E, coerentemente, não censuraria a ICAR caso não se pronunciasse sobre esse tema.

            Se querem ajudar a OMS, óptimo. Mas não têm obrigação nenhuma de se pronunciar positivamente sobre quais os melhores tratamentos, terapias ou prescrições. Desde que não lhes sabotem o trabalho, não creio que existam razões de censura.

  • Anónimo

    «Não se resolve o problema da sida com a distribuição de preservativos. Pelo contrário, o seu uso agrava o problema.» – Declaração do Papa B16 – http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1174320&seccao=%C1frica

    Na transcrição fornecida no comentário do Bernardo:
    «Pergunta: Quer isso dizer que, em princípio, a Igreja Católica não é contra a utilização de preservativos?
    Resposta: É evidente que ela não a considera uma solução verdadeira e moral. Num ou noutro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco de contágio, o preservativo pode ser um primeiro passo na direcção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana.»

    Ora, se isto não é uma alteração de posição, o que é que será?
    É certo que as noticias podem conter algum sensacionalismo e nalguns casos, mesmo muito. Mas aqui parece-me que é adequado dizer que houve uma modificação, mesmo que ligeira, em relação ao discurso de Bento XVI.

  • JoaoC

    Que fique claro que a Igreja não mudou, nem revolucionou, nem “evoluiu” a sua posição oficial. Nem poderá mudar.

    Já devíamos todos saber que o que a imprensa diz nem semrpe (ou quase nunca, quando se trata do Papa) corresponde à verdade.

    E é engraçado aos que dividam da infalibilidade do Papa em matérias de Fé e Moral quando fala “ex cathedra” atribuam, curiosamente, essa mesma infalibilidade a qualquer frase que o Papa diga.

    Nesta entrevista foi exposta uma opinião pessoal do Papa e, com boa-fé e alguns conhecimentos doutrinários, vemos que ele NÃO ADMITIU e muito menos ACONSELHOU o uso do preservativo.

    – “Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por VIH/HIV. Essa tem, realmente, de residir na humanização da sexualidade.”

    “Quer isso dizer que, em princípio, a Igreja Católica não é contra a utilização de preservativos?”

    – “É evidente que ela não a considera uma solução verdadeira e moral.” (ou seja continua a ser contra!)

    – “Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um PRIMEIRO PASSO PARA A MORALIZAÇÃO (o que quer dizer que o preservativo em si NÃO É nem pode ser a solução moral definitiva, mantendo-se assim como prática moralmente reprovável).

    – “O preservativo pode ser um PRIMEIRO PASSO na direcção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana” (o que quer dizer que o uso do preservativo por si só NÃO É a orma mais aceitável ou mais humana de viver a sexualidade. Pode ser APENAS UM PASSO para isso numa situação extrema de pecado (o exemplo do prostituto).

    O uso do preservativo continua a ser MORALMENTE INACEITÁVEL porque artificializa o sexo, “coisa” que deve ser antes humanizada e até divinizada, porque é através dele que se transmite o grande dom que é a Vida e é através dele que o casal cria vínculos e se une humana e respeitosamente.

    Nenhum preservativo resolve o problema. No máximo, remedeia-o e eclipsa-o. Mas mesmo eclipsado…existe e continuará a existir até que se perceba DE UMA VEZ POR TODAS que a causa do mal das IST’s é de facto a FALTA DE CORRESPONDÊNCIA às propostas da Igreja que são, afinal, propostas humanas que dignificam um casal e vão de encontro à dignidade humana – a fidelidade e a abstinência.

    • JoaoC

      Correcção:

      E é engraçado que os que duvidam da infalibilidade do Papa em matérias de Fé e Moral quando fala “ex cathedra” atribuam, curiosamente, essa mesma infalibilidade a qualquer frase que o Papa diga.

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  • Athan3

    Crenças e igrejas MATAM o amor; sugam o vigor do romance do homem e da mulher; os reprime, e coloca um vírus de ‘adoração’ usurpando a beleza e o explendor do frenesi natural do romance. Crença e igrejas tiram a beleza da vida e nos entopem e viciam as pessoas com glacê estragado. A liberdade se vai, e aferrolham as pessoas com grades e poluição mórbida que rebate: “morte, morte, morte”, o tempo todo; e ainda insistem com descaramento que são a favor da vida. Igrejas são impregnadoras de doenças mentais, quase que incuráveis nos que são infectados por ‘dever’ a ‘deus’ algum ‘favor’ que ELE cobra por seu tão ‘bondoso’, e interesseiro com seu descaramento divino..

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