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A primeira comunhão_1 (Crónica)

Seis décadas depois vêm-me à memória as doces catequistas da minha infância. A menina Aurora e a sua Tia Ricardina ambas solteiras de muitos anos e beatas de quase tantos outros. Lembro-me do fervor com que me ensinaram a odiar os judeus porque mataram Cristo, os maçons porque perseguiam a igreja e os comunistas porque eram ateus. Recordo o entusiasmo que punham nas orações para que Deus iluminasse os nossos governantes e lhes desse longa vida, apelos ouvidos apenas no que diz respeito à segunda parte.

Nas aulas de doutrina explicavam-me a cor do firmamento, ao pôr do sol, como sendo o sinal de que os comunistas iam matar os cristãos, conforme a Irmã Lúcia tinha revelado, e eu, tão estúpido, que não deixava de ser cristão, com maior medo do Inferno e das suas labaredas, onde apenas se ouviam gritos e ranger de dentes, do que da morte que os ditos comunistas me preparavam.

Penso que era o medo da revelação do 3.º segredo de Fátima que me toldava a razão e me deixava manietado para outras reflexões. Sabia que Deus estava muito zangado, do mesmo modo que toda a gente o sabia, por ouvirmos dizer, bem entendido, e que devíamos rezar o terço para lhe aplacar a ira contra os que não eram crentes mas, não sei porquê, quem pagava éramos nós, talvez por Ele não ter jurisdição nos que não acreditavam, mas isso não podia ser porque Deus era omnipotente, eu só não percebia a obsessão da nossa parte em assumirmos culpas alheias e fazer pagamentos por conta, o motivo de termos de expiar os pecados alheios, isso na época não me admirava, havia muita solidariedade, eram grandes os sentimentos que nos animavam e nobres as devoções a que nos dedicávamos. Assim salvássemos a nossa própria alma de ser frigida no azeite das profundezas, combustível de sabor mediterrânico que alimentava os meios de produção da eterna justiça a cujo suplício estavam destinados os condenados.

Valia-me a certeza de fazer parte dos poucos, poucos é a gente a falar pois na aldeia eram todos, que podiam aspirar à bem-aventurança eterna. A nossa religião era a única que conduzia à salvação, todos os outros estavam errados e faziam muito mal em não se converter. A Santa Madre Igreja, Católica, Apostólica, Romana, estava aberta, nunca compreendi como é que podia haver quem se negasse à conversão e ao caminho da santidade que lhe eram oferecidos, como é que alguém podia duvidar de que o papa fosse o sucessor de Pedro e o representante de Cristo na Terra bem como serem os Senhores Bispos os sucessores dos Apóstolos! Como era possível que os judeus se não arrependessem de ter assassinado Jesus Cristo e persistissem no erro, que os moiros teimassem em permanecer infiéis, vá-se lá perceber a razão de ser mais fácil persistir no erro do que aceitar a salvação. Era tão difícil o entendimento, sobretudo a quem não conhecia a outra parte, e ainda bem, pois era dever de um cristão converter os outros ou, se eles o não quisessem, usar meios adequados para livrá-los do erro.

Por sua vez o Sr. Padre, depois da me ter examinado e aprovado no exame da catequese, declarou-me em condições de iniciar os preparativos para a primeira comunhão. De novo as catequistas se encarregaram de me preparar para a desobriga que a precedia. Foi durante a confissão que, genuflectido, depois de uma oração preliminar, me convidou a contar-lhe os pecados. Esforcei-me por me recordar das vezes que tinha posto o dedo na malga da marmelada sem saber se de um só pecado, repetido, se tratava ou de tantos quantas as incursões no vaso onde se guardava uma guloseima castanha e muito doce à espera de tentar uma criança. Dava voltas à memória para saber se tinha alguma vez mentido, se tinha maus pensamentos – e isso tinha – pensava em partir o pião dum colega acertando-lhe com o ferrão do meu, se tinha pecado por palavras ou obras, indiscutível matéria de reflexão e arrependimento, pois eu conhecia palavras feias que não cabia a um cristão pensar e muito menos pronunciar. Mas não era disso que cuidava o Sr. Prior na longa confissão, que eu entendi como proporcional à dimensão dos pecados ou, na melhor das hipóteses, como deferência para com o filho da Sr.ª Professora, mas eu não pensava nesta possibilidade, pois as crianças não são sensíveis à deferência nem à divisão em castas. O reverendo cuidava saber se eu praticava o pecado solitário, maldade de cujo ensinamento o medo que as outras crianças tinham da professora me havia até então livrado, e, perante a minha ignorância, preveniu-me piedosamente por antecipação, antes é que vale a pena não é depois do mal feito, preveniu-me – dizia – dos riscos da cegueira a que podia conduzir-me esse pecado, risco que me afligia bastante, bem como da tuberculose que, apesar da gravidade à época, eu não estava em condições de avaliar.

Perguntou-me ainda se eu fazia marranices, palavra com que acabava de me enriquecer o léxico, o que me deixou perturbado por ser um pecado que eventualmente eu cometesse sem saber, possibilidade de elevado grau de probabilidade pois aos pecados confessados não fora dada importância e aos pecados desconhecidos era dada uma particular e desvelada atenção, aumentando-me a ansiedade e sentimento de culpa, tanto maior quanto  mais profunda era a minha ignorância. Explicou-me que o dito pecado era pôr-me em cima das raparigas e fazer zumba, zumba, zumba… e ficou ali a repetir a palavra algum tempo, como se tivesse esquecido o que estava a dizer, até ter recuperado a tranquilidade e ter-me mandado rezar  o acto de contrição, que eu tinha na ponta da língua, completamente desinteressado já dos pecados de que eu carecesse de aliviar-me para salvação da alma.

Levei ainda de penitência uns tantos pai-nossos e ave-marias, coisa de pouca monta que me levou a acreditar que os pecados não eram tão pesados nem difíceis de expiar como eu tinha imaginado. A penitência foi cumprida nessa noite antes de adormecer, ansioso pela chegada da meia-noite, hora canónica a partir da qual não podia tomar qualquer alimento sólido ou líquido antes da comunhão onde ia receber pela primeira vez o corpo de Nosso Senhor que, não sei como, cabia numa rodela finíssima de pão ázimo sem fermento nem sal, ainda por cima partida em pedacinhos de que só me coube uma insignificância, de paladar péssimo, que não podia tocar com os dentes, não fosse morder o Senhor, e aquilo colou-se-me ao palato e eu tinha medo de levar lá a língua que podia incomodar Nosso Senhor, que devia ser muito susceptível, e eu a debater-me com aquele pedacinho de farinha que teimava em não se desfazer, mais parecia borracha com cola, mas que eu bem sabia que tinha um alto valor nutritivo como alimento da alma, embora me não desse conta, mas disso estava prevenido pela menina Aurora e pela sua Tia Ricardina, bem como pelo Sr. Prior que na véspera veio pela segunda vez examinar-nos e confirmar a nossa preparação para recebermos Nosso Senhor. Quem não estivesse preparado não era digno, eu era, por ser o melhor aluno da catequese, mas pareceu-me que os menos preparados se deram melhor com a sagrada partícula de que se aliviaram mais cedo do que eu e, de qualquer modo, não tinha havido reprovações.

Não sei se a comunhão me purificou a alma, mas sei que me estimulou o apetite. Foi com uma fome imensa que assisti ao fim da cerimónia da santa missa sem me dar conta que a gula, que começava a devorar-me, era obra do demo que aguardava, para tentar-me, provavelmente possesso, se é que o demónio pode estar possuído dele próprio, ou talvez desesperado na luta quotidiana entre o bem e o mal, qual lutador que não se resigna a atirar a toalha ao ringue, mesmo quando o combate é desigual, quando a alma se tonifica pela oração, penitência e comunhão que são poderosos demonífugos que obrigam o mafarrico a redobrados trabalhos para não perder a quota de mercado a que se julga com direito.

Antes de correr para casa em busca de vitualhas com que pudesse saciar a fome de dezasseis horas de jejum não me esqueci de me persignar, depois de ter molhado de água benta os dedos, mergulhados na pia de pedra que saía da parede ao lado da porta da igreja, água que, apesar do aspecto, pelas propriedades intrínsecas, havia de ser um poderoso desinfectante para as moléstias da alma e um profiláctico precioso para as tentações que o demo, na sua permanente vigilância e incansável dedicação ao trabalho, não deixaria de fazer.

E eu conhecia o segredo da água benta por tê-la visto preparar pelo Sr. Padre que se paramentou de propósito e transformou um cântaro de água vulgar na dita água benta através das modificações induzidas pelas rezas que acompanharam os sinais cabalísticos, cruzes imaginárias desenhadas no ar, por cima do dito cântaro, enquanto alguns garotos seguíamos com o olhar os tais sinais para ver quando se dava o salto dialéctico, isto é, a mudança da quantidade em qualidade, ou seja a mudança da água vulgar em benta, sem sabermos ao tempo o que era isso de salto dialéctico, mas sabendo reconhecer a diferença entre uma e outra, o que era muito mais importante para a eternidade a que não podemos fugir, e bem mais decisivo para a salvação da alma, que estas sociedades modernas querem fazer crer tratar-se de anacronismo, mas que não é, que o diga a Irmã Lúcia que na opinião do Prof. João César das Neves é uma intelectual que os outros intelectuais, que o não são, não aceitam, por arrogância ou despeito, por não terem sido chamados à santidade, vá-se lá saber o motivo, o Professor também não explica lá muito bem, mas sabemos que tem razão, pois até já escreveu vários livros e foi consultor do Prof. Cavaco e não se cansa em meios bastante hostis de alertar para a salvação que hoje, tal como no meu tempo de criança, devia ser um objectivo primordial, mas as pessoas estão menos interessadas no que diz o Papa que nos livrou do comunismo do que na Televisão, que só diz mentiras, e no que afirmam os políticos que são todos uns corruptos e mentirosos que dizem coisas diferentes do que vem na santa Bíblia e, por isso, não podem dizer verdades, e só falam no bem estar material, como se o bem estar material interessasse alguma coisa, como se a alma não fosse o bem mais precioso que as pessoas têm, mas, enfim, estamos a chegar ao fim do mundo e as pessoas não acreditam, a mensagem de Fátima é bem explícita, mas as pessoas não a compreendem, nem sequer compreenderam Sua Santidade quando anunciou o terceiro segredo, mesmo os peregrinos estavam desatentos e não compreenderam, vá-se lá pedir aos outros que compreendam, para isso é preciso ter sido tocado pelo dom da fé que cada vez falta mais, bem pode esforçar-se Nosso Senhor, se os homens não quiserem, depois não digam que não foram avisados.

46 thoughts on “A primeira comunhão_1 (Crónica)”

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  • antoniofernando

    Um texto que toca todos os pontos essenciais do tema a que o Carlos Esperança se propôs. E do qual mais uma vez gostei muito. Estou tão à vontade para o dizer quanto é certo que, quando não apreciei alguns dos seus anteriores textos, o afirmei sem rebuço.Nenhuma rendição existe quando nos curvamos à excelência dos méritos de quem os possui.Não se trata sequer de rendição porque não há nenhuma luta ou derrota para dirimir ou digerir. Quando alguém se consegue elevar acima da muita mediocridade intelectual ainda reinante em Portugal, como aqui o Carlos Esperança conseguiu, é sempre a Cultura e todos nós, em geral, que ganhamos com a pedagogia da eloquência.Um dia pediram a Agostinho da Silva que organizasse institucionalmente propósitos governamentais de alfabetização para pessoas escassamente letradas.E ele respondeu magistralmente: ” como posso fazer isso se as pessoas cultas que conheço são precisamente analfabetas ?” Ou seja, a verdadeira sapiência vai muito além da erudição de conhecimentos.E está muito próxima daqueles olhares pausadamente reflexivos que conseguem da vida assimilar o que é intrinsecamente importante para o seu enraizamento no mundo e nas relações sociais. Haverá maior contundência do que a da escrita sóbria, pausada e cadenciada ? Não há, a meu ver.A escrita superior é como a música. A que verdadeiramente nos sensibiliza é de extrema simplicidade Uma das canções dos Beatles que mais me tocou é talvez a mais simples entre todas as que desse mítico agrupamento musical ouvi: ” Because”. Recorda-se Carlos Esperança ? Talvez valha a pena caminharmos todos na direcção da mesma fraternal comunhão humana. As divergências são o fermento que nos poderão conduzir ao domínio dos nossos ” demónios interiores”. Parabéns Carlos Esperança. Obrigado…

    http://www.youtube.com/watch?v=dWlLPJG9Cvg

    • Carlos Esperança

      As divergências são um epifenómeno quando se decidem, apenas, pelo confronto verbal. Nenhum de nós aceita outro.

  • carpinteiro

    É sem dúvida um privilégio escrever textos como este, e poder deliciar-nos com eles.Há um autor que diz, ser o batismo de crianças, o maior crime que qualquer religião pode cometer.Também eu dou comigo a pensar que, deveria poder processar o padre que me batizou, e usa o meu nome para promoção pessoal e da sua organização religiosa sem o meu consentimento.Mas os motivos para o batismo são os mais válidos. O Concilio regional de Cartago, em 418, afirmou:
    “Também os mais pequeninos que não tenham ainda podido cometer pessoalmente um pecado, são verdadeiramente batizados para a remissão dos pecados,…» – Está explicado!?Cristo disse: «Arrependei-vos e convertei-vos e que cada um seja batizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.» – Como pode um recém nascido, arrepender-se de algo ou converter-se? Jesus foi batizado com 30 anos! falta saber se por incúria dos pais ou erro de estratégia de marketing…O temática religiosa sempre me fascinou. A tentativa de controlo social através da religião e o encarceramento psicológico e por vezes físico, traz-me à lembrança um vivente:Em Niterói, uma ONG de defesa dos macacos entrou com um pedido de habeas corpuscom o objetivo de levar o chimpanzé Jimmy do zoológico da cidade para uma reservaecológica. Os ongueiros defendem que os chamados primatas superiores – como oschimpanzés e os humanos – têm a necessidade de constituir família; direito que ocativeiro solitário não daria a Jimmy. Já há até jurisprudência para o caso: em 2009, umjuiz paulista justificou a concessão de habeas corpus a dois chimpanzés alegando que,por contarem com DNA 99% igual ao humano, os macacos também teriam esse direitogarantido.A discussão é muito idêntica àquela que teólogos espanhóis tiveram no séculoXVI para definir se os índios americanos eram ou não gente!… Jimmy nasceu num circo,vive num zoo e pode acabar numa reserva.Em todas as situações, preso. Enquanto segue assim e discutem sua humanidade, muitos dos seus ainda vivem nas selvas d’África, sem direitos ou tutelas; apenas viventes livres sobre a terra.Também nós nascemos livres até ao dia em que um travestido fazendo uso de sinais cabalísticos, nos enfia a cabeça na pia batismal e nos carimba a testa com óleo de carneiro do rebanho religioso que passamos desde então (e sem o nosso consentimento), a enfileirar.Não entrando em comparações, nós por cá, também tentamos ser livres e vamos sobrevivendo aos insultos de pios talibãs que não suportam quem tem a coragem de saltar as correntes psicológicas de uma religião castradora e lhes denuncia os métodos e o negócio.

    • antoniofernando

      “Também eu dou comigo a pensar que, deveria poder processar o padre que me batizou, e usa o meu nome para promoção pessoal e da sua organização religiosa sem o meu consentimento.”

      Não, Caro Carpinteiro. Devia também, para ser equânime, processar também os seus pais…

      • carpinteiro

        Fernando.
        Se tenho a certeza que os meus pais o fizeram “de-boa-“fé, do padre não digo o mesmo.
        Os pais fazem aquilo que pensam ser o melhor para os filhos, o padre faz o que pensa ser melhor para a Igreja. O que é substancialmente diferente.

        • antoniofernando

          Carpinteiro:

          Compreendo a delicadeza do tema, mas o natural afecto pelos seus pais está, em minha opinião a obnubilar-lhe o pensamento crítico e o sentido de justiça. Desde logo porque parte do princípio de que o padre que o baptizou já estaria de ” má fé”.Substancialmente diferente ? Não. Você é que não consegue ultrapassar as suas raivas. Claro que, quanto aos seus padrinhos de baptismo, também já estariam de boa fé. Mau mau só mesmo o padre que acreditava na sua específica mundividência teológica…

  • Antonioporto

    O texto aqui reproduzido é em em reprovação ao cristianismo do catolicismo.
    Se eu dependesse do catolicismo para crer em deus, certamente eu seria ateu.
    Pela descrição do autor, eu tenho a impressão que as pessoas creem em
    deus por medo do inferno.
    Não vejo nada disso no dia a dia. Filas de bancos, na rua, nos bares, etc…
    Eu vejo pessoas religiosas (boas ou más) fazendo coisas erradas e se justificando e tranquilas, temendo ,ás vezes, somente a cadeia, em alguns casos.

  • Sinn-klyss

    Opino que um doc. deva-se ser emitido não para vaticanos e covis do tipo, pois acaba por reconheceer involuntariamente a ‘autoridade’ de quem possuiu direitos sobre sua vida sem que vc os tivesse outorgado;no mais, com nove anos, ainda não se pode dizer que um infante tenha ou tivesse ‘livre-vontade’, com 13 até que sim. E para ser decisivo sobre essa atitude: Uma publicação-declaração em página pública de qualquer página social aberta, e, cópia enviada particularmente ao CNI do respectivo País de nascença ou repatriação, com cópia disponível a blogs e sites atinentes,postada num serviço de fotos gratuitos da web. Pronto.
    Agora, sair de um covil e se prostar em outro, também não tem nem quê nem pra quê, continua-se sujeito a ‘espertos’ feitores de currais de dementes.
    Título do doc. : Carta de Auto-Alforria.

    • Anónimo

      O grupo Imunies-à-Crenças no Yahoo já se pode arquivar essas “Cartas de Auto-Alforria”, muito boa idéia, e direito inalienável de um ser da espécie humana.

  • Anónimo

    o mundo foi remendado
    disse eu
    tenho sobrevivido e evoluído
    disseste tu

    só depois ouvimos um coro que irrompeu do silêncio (não eram anjos)

    os padres, esses, estavam expectantes
    olhavam a torre da igreja

    ¿podemos decir que la percepción es pensamiento?

    é.
    há coisas… recordações.
    e
    no meio delas
    há portas
    há saídas
    é só escolher a que nos agrada

    • antoniofernando

      “Escrever é corrigir a vida, é a única coisa que nos protege das feridas e dos golpes da vida.”

      Enrique Vila-Matas

  • Elmano1948

    Parece que temos percursos semelhantes caro CE. Não fossemos nós Beirões. Mas eu, na preparação para a dita 1ª tive mais azar. Depois de as catequistas me terem inculcado os mesmos medos, de me terem prescrito que o demónio se chamava Lutero, lá fui para o confessionário. Caí na patetice de dizer ao saias que eram 10 os ditos. Podia ter dito 12, ou 15 ou somente 8. Mas pareceu-me que dez era um número mais certinho. Lá arranjei uma pedrada às cabras que teimava em comer os ohos que despontavam das cepas, fazer fogueira com um púcaro de resina e…raio, não me lembrava de mais nenhum. Já me apetecia ir embora, mas não. Se tinha dez pecados, tinha que os confessar todos. E ali fiquei a inventar até me ver livre daquela inquisição. Tive mais sorte que o Carlos. Não levei têpêcês. Fingi rezar mesmo ali nas escadas as lengalengas que o saias me havia aplicado como penitência. E depois ala. Horas depois, para grande indignação e surpresa minha, que pensava que aquilo era segredo, já a minha mãe sabia que eu tinha confessado dez pecados.
    Por isso e até hoje nunca mais me confessei. Admito que, para além de ter sido obrigado a ajoelhar para beijar o anel ao bispo, esta tenha sido uma das maiores humilhações que recordo daqueles tempos em que, por ser criança, ainda não me tinha libertado.

    • Carlos Esperança

      Creio que a experiência é comum a todos os do nosso tempo. Eu limitei-me a dar-lhe forma literária para publicar a memória no Jornal do Fundão.

    • JoaoC

      Humilhação é o insulto à inteligência que estes dois fazem, com a exposição de textos tão infantis quanto insultuosos…

      Mas querem ser levados a sério, veja-se bem!

  • hh

    Isto é uma prova do que este vídeo diz: uma das causas do ateísmo é a falta de conhecimento adulto da religião.

    Os ateus pararam no conhecimento religioso e ficaram com o conhecimento e a experiência de uma criança.

    O Carlos afirma e comprova, exacta e inequivocamente, essa ideia.

    http://www.youtube.com/watch?v=VlBuG8H8zzU&feature=related

    • Trol

      Ser-se estúpido uma vez… vá que não vá. Agora insistir na estupidez… convenhamos que é demasiado.
      ganha juízo meu menino!… vai lá para a catequese que o senhor prior dá-te rebuçados de alteia e mel para não ficares constipado.

      • carpinteiro

        «…que o senhor prior dá-te rebuçados de alteia e mel para não ficares constipado. »

        Numa aldeia do interior o pároco foi substituído por motivo de doença.
        O novo padre ouve em confissão uma jovem:
        – Padre, fiz sexo anal com o meu namorado.
        Como o padre se mantivesse mudo, a jovem pergunta:
        – Então padre, não me dá uma penitência?
        Não sabendo que penitência aplicar, o padre abre ligeiramente a portinhola e pergunta ao sacristão que arrecadava os paramentos:
        – Francisco, que é que o Sr. Prior dava por sexo anal?
        O Sacristão responde:
        – Uns rebuçadinhos senhor padre, uns rebuçadinhos!

    • Elmano1948

      Fraca prova mister hh. O sr. toma a nuvem por Juno. O que atrás relatei foi um simples episódio do que um representante da igreja me fez e fazia para alienar as crianças tornado-as membros efectivos e permanentes do rebanho. Podia contar-lhe dezenas de episódios. Alguns quando já era adulto e ainda crente. Mas não praticante. O último foi quando comecei a ver os meus irmãos a ir para a guerra. Indía, Moçambique…A mim calhou-me Angola, mas já fui por decisão minha. Precisava de contribuir para acabar com ela. O mais velho ficou prisioneiro na Índia. Aí, a tia Conceição achou por bem hipotecar o fio de ouro à Santa para conseguir o regresso do filho, E porque os indianos já conheciam bem a diferença entre Povo e Regime Fascista Português… por negociações da Cruz Vermelha, ele lá voltou. Mas como o fio estva prometido lá foi parar ao pescoço da boneca. Anos de sacrifício para comprar aquilo que era um símbolo. Para matar saudades lá ia ver a dita boneca no altar e na procissão para ver o fio que dela tinha sido. Ao terceiro ano, o fio desapareceu. A igreja precisou de dinheiro e teve de desfazer de algum ouro. Doeu-me ver aquela pobre mulher, minha mãe a chorar. Talvez lágrimas de revolta mas não o revelou. Mas foi depois de muito estudar, de muito ler, que me tornei ateu. Já andava pelos 30 quando limpei todas as dúvidas que ainda persistiam. Não foi por traumas de infância não senhor hh. Foi por convicção e já bem entradote na idade que me tornei ateu.

      • Carlos Esperança

        Pungente realidade que se repetiu pelas aldeias de Portugal.

      • hh

        O texto teu e o do Carlos são tão infantis que nem acredito que tenham sido escritos por gente crescida.

        O Carlos; que há muito se nota ter problemas de senilidade de alzheimer, apenas se lembra dos primeiros anos de vida e vive uma segunda adolescência.

        Quanto a ti, vejo a forma como mentes. Nunca o padre teria falado com a tua mãe sobre a confissão. Estás a mentir. Gente desonesta, para mim, não tem valor nem dignidade para se lhe dirigir a palavra.

        Eu vivi nesse tempo, conheço milhares de pessoas que viveram nesse tempo, mas só aconteceram coisas destes convosco.
        Que azar!

        Um mentiroso como tu, quase de certeza que é casado pela igreja e baptizou todos os seus filhos.

        • Trol

          Oxalá morras cedo para não teres problemas de senilidade de alzheimer… ainda assim, parece-me, pelo que escreves não deves estar, já, muito bem.

  • Carlos Esperança

    Penso que alguns comentadores nem leram a Crónica. Não perderam tempo e fizeram bem. Demoravam a perceber o que tinham lido. Se é que o conseguiam.

    • Anónimo

      o problema aqui, carlos, é que a maioria entra “porta a dentro” com um único fim:…
      a provocação.
      o problema aqui, é uma cultura democrática falha.
      e
      logicamente, o desrespeito pela opinião dos outros.

      tão só isso.

      depois… as portas estão abertas e as moscas entram à vontade.

      porém pelas portas das igrejas não entro.
      mas estas aventesmas entram em tudo o que é sítio…

      só me fazem lembrar os provocadores fascistas a mando da legião e dos bufos (antes de 74) nas reuniões da oposição e nas universidades…

      estes vêm a mando de quem? será que trabalham por conta própria?…

      • Carlos Esperança

        Tinha mais medo quando havia a PIDE.

        • Anónimo

          claro…
          também eu.

          estes só só causam alergia lol

        • hh

          Ru nunca tive medo da PIDE.
          Seria porque me portava mal?

          Os que tinham medo da PIDE ainda hoje têm um comportamento indigno ou merecedor de um correctivo sério!

          • Ca515

            O medo de se ser livre leva a comentários deste calibre. Vai. Vai lá para o teu rebanho.
            Mas fica a saber, já agora, que muitos católicos (padres inclusive) foram violentados pela polícia fascista.
            Sabias?…
            claro que não. tu vens aqui usufruir de uma liberdade que foi conquistada pelos outros… os que souberam dizer não. Não os palermas como tu.

          • carpinteiro

            «nunca tive medo da PIDE.
            Seria porque me portava mal? »

            Não, é porque eras BUFO!

          • carpinteiro

            «nunca tive medo da PIDE.
            Seria porque me portava mal? »

            Não, é porque eras BUFO!

  • antoniofernando

    Também andei na catequese, recebi a primeira comunhão, comunhão solene. E o crisma. Também fazia listas de pecados e tentava discernir entre os mortais e os veniais. E também procurei não comungar em sacrilégio, não fosse o diabo tecê-las. Mas a mim esses tempos não me fizeram mossa. O Deus em que acredito surgiou-me, antes de ir para a catequese,ainda em criança, perante a contemplação das estrelas do firmamento.Conheci na Igreja Católica pessoas afáveis e nunca me apercebi, no plano humano, de catequistas ou sacerdotes menos dignos. Um dia rompi ideologicamente com o Catolicismo, mas mantenho-me crente e cristão.Deambulei depois encantado na abordagem do Hinduísmo, dos Vedas e Upanishads, do Livro Tibetano dos Mortos, do Bhagavad Ghita e do Budismo, que muito prezo e admiro.Hoje, estou aqui, sem qualquer amargura existencial associada ao período catequético da minha infância.Intelectualmente livre de quaisquer dogmatismos ideológicos que me queiram ideologicamente aprisionar. Vou para onde o meu sentimento e a minha razão me levarem. Mas não tenho a menor dúvida de que serei sempre crente em Deus.Na minha concepção do Divino, por certo, sem contudo me circunscrever nem sujeitar ao que outros pensem sobre o conceito de Deus.Quando julguei ter captado Deus na contemplação das estrelas do Céu,senti Bondade e Beleza. Nenhuma outra concepção do Sagrado é, portanto, compatível com o Sentimento Religioso que penso ter intuído da limpidez do Céu de Arcos de Valdevez, Termas de Monfortinho ou Alentejo. Aquilo é demasiado sublime para ter sido obra do Cego Acaso. Claro que depois há questões filosóficas sérias para ponderar: a existência do Mal nomeadamente.Mas essa problemática resolvi-a eu com o sentido de liberdade e de evolução que preponderam na dinâmica da Vida. Deus poderia ter feito um mundo onde todos nós fôssemos simples marionetas ? Onde não existisse nenhuma doença, nenhuma tragédia, nenhum Holocausto, nenhuma perfídia ? Poderia certamente.Porém, será que nós, enquanto seres decorrentes da longa etapa evolutiva, perecemos com a morte física ou nos perpetuamos em novas etapas existenciais ? Será que, em cada momento temporal da vida humana, não há sempre novas relações para ajustar e depurações de defeitos a conseguir ? Onde estão as vítimas do tenebroso Holocausto ? Desfeitas em pó ou sobreviveram à crueldade humana ? Talvez sejamos todos os mesmos. Desde o tempo da pré-história,aos horrores da inquisição, talvez tenhamos já sido todos vítimas ou algozes, incinerados nas fogueiras medievais ou carrascos assassinos.Qual é, afinal, a idade da alma humana ? Condicionada à concreta etapa que estamos a vivenciar. Ou perder-se-á na noite dos tempos ? Acredito na maravilha da transcendência da existência para além da precariedade dos nossos veículos físicos. O Cosmos e a Vida são de uma complexidade tão grandiosa que a equação Deus é a mais forte das probabilidades lógicas. Depois, esta caminhada humana conjunta seria profundamente trágica com a definitiva perda dos nossos entes queridos. Qual de nós verdadeiramente está convicto que nunca mais se irá reencontrar com essas pessoas que já partiram, em relação às quais nos ligam laços de inquebrantáveis afectos ?…

    • JoaoC

      LOL

      Vê lá se com tanta aldrabice (a começar pelo “cristão”) e tanta blasfema a invocar o Nome de Deus para a tua doutrina de bolso junta, vê lá se o nariz não chega ao Brasil e dá cabo da comunista “presidenta” dos pobres…

      Já agora, menos mel tornava a leitura dos teus textos menos enjoativa… andas a concorrer com Almeida Garrett no romanticismo?

      O deusinho self-service que inventaste para ti – ainda por cima és pouco inteligente, sabes o dinheiro que ganhavas com uma seita onde podias difundir a tua doutrina venenosa à vontade? – é meloso demais pah…

      Bem, filósofo-ético-venenoso-disfarçado-de-bonzinho, o teu problema – e de outros ateus já saídos do armário, sem medo de se afirmarem – é outro…

      • antoniofernando

        Não consegues arrancar da tua esquizofrenia paranóide e eu divirto-me tanto com a tua estupidez que nem imaginas.És o melhor remédio para os dias mais cinzentos.Farto-me de rir à brava com as tuas tiradas bacocas…:-)

        • JoaoC

          Epah fico feliz 🙂

          Vai rindo enquanto podes 🙂 É a única coisa que consegues face à Verdade…até um dia quando a Verdade em pessoa te mostrar que não tens nem UM motivo para sorrires sequer 😉

          • antoniofernando

            Ó e eu tão cheio de ” medinho”. Quando abres a boca, só me farto de rir à fartazana…:-)

          • JoaoC

            Ri 😉 quem ri por último, ri melhor…

        • carpinteiro

          Nada tenho que ver com a vossa quezília, nem o Fernando precisa de advogado, sendo que, tem uma capacidade de argumentação que eu admiro, mas, chega a dar-me a incómoda impressão que o Fernando deve fidelidade ao JoaoC.
          Será o JoaoC o mandatado da verdade-verdadinha?Quem é este inepto mental para vir com ameaças bíblicas sobre pessoas que apenas exercem o seu direito à opinião própria (e bem fundamentada por sinal), seja ela divergente ou não?
          Realmente, nalgumas pessoas, a religião, embota o discernimento e omite a noção do patético.

    • JoaoC

      LOL

      Vê lá se com tanta aldrabice (a começar pelo “cristão”) e tanta blasfema a invocar o Nome de Deus para a tua doutrina de bolso junta, vê lá se o nariz não chega ao Brasil e dá cabo da comunista “presidenta” dos pobres…

      Já agora, menos mel tornava a leitura dos teus textos menos enjoativa… andas a concorrer com Almeida Garrett no romanticismo?

      O deusinho self-service que inventaste para ti – ainda por cima és pouco inteligente, sabes o dinheiro que ganhavas com uma seita onde podias difundir a tua doutrina venenosa à vontade? – é meloso demais pah…

      Bem, filósofo-ético-venenoso-disfarçado-de-bonzinho, o teu problema – e de outros ateus já saídos do armário, sem medo de se afirmarem – é outro…

  • Anónimo

    Carlos Esperança:

    Perante mais um belo texto, onde não mais faz que relatar de forma apaixonada a sua vivência, dando-nos a conhecer do seu ponto de vista aquilo que era o “pão nosso” daqueles já distantes tempos, constato com tristeza que haja sempre quem para além de não apreciar a beleza poética nele contido, ainda seja capaz das mais alienadas interpretações.

    Da minha parte lhe digo: obrigado por partilhar connosco e mais uma vez, parabéns.

  • Andreia_i_s

    Apesar de eu ter vivido num tempo diferente do Sr. Carlos Esperança, o seu texto esta de parabéns. Eu no meu tempo de crente lembro-me que fiz: a 1ª comunhão e o crisma somente, sim só fiz isto por muito que seja pouco XD, imagino se tivesse feito tudo o inferno que não seria.
    Mas de facto uma cosia é certa, não consigo compreender porque razão é que os pais não dão tempo à criança para ela mais tarde decidir se quer frequentar uma religião, ou não. É que estar a baptiza-la assim de bebé ou muito miúdo/a é abusivo, por muito bom que os pais queiram o bem ao filho/a.

    • Carlos Esperança

      Andreia:

      Fez a pergunta certa. Porque não dão os pais o direito de decisão aos filhos?

      Numa aldeia da Beira Alta, se a minha mãe não me deixasse ir à catequese, teria sido afastada do ensino, por subversão. Vivia-se na ditadura fascista de Salazar e a Igreja e a ditadura eram cúmplices.

      Serviu-me de vacina e guardo dos meus pais a saudade de quem me preparou para a liberdade. Paguei um preço modesto mas devo-lhes a liberdade de ser livre.

    • Carlos Esperança

      Andreia:

      Fez a pergunta certa. Porque não dão os pais o direito de decisão aos filhos?

      Numa aldeia da Beira Alta, se a minha mãe não me deixasse ir à catequese, teria sido afastada do ensino, por subversão. Vivia-se na ditadura fascista de Salazar e a Igreja e a ditadura eram cúmplices.

      Serviu-me de vacina e guardo dos meus pais a saudade de quem me preparou para a liberdade. Paguei um preço modesto mas devo-lhes a liberdade de ser livre.

  • Haddammann Veron

    O elemento ‘bem’ intencionado que recomenda que um leitor do site também processe os pais para ser ‘equânime’, está já na espreita de fomentar equívocos acerca de uma linha de conceitos que vem sendo divulgada no Brasil; aliás lá tanto cá, podemos ver como esses meliantes agem nos blogs e sites. Então, aproveitando a deixa do leitor e aplicando com esmêro o têrmo e conceito de equanimidade, digo: “Processe também a instituição criminosa pela covardia que a mesma fez até com seus pais. E volto a propor a carta de auto-alforria feita em moção auto-representativa e de deliberação inalienável pautada nos direitos humanos; para protegermo-nos de sermos vítimas de contabilidade de criminosos que se apoderaram de nossas vidas sem nosso consentimento e/ou usando de fraudulentas armas de confusão psicológica.

    • carpinteiro

      «…protegermo-nos de sermos vítimas de contabilidade de criminosos que se apoderaram de nossas vidas sem nosso consentimento…»Caro Haddammann Veron.Por isso a Igreja insiste nos “valores” família.Valores que, quando não são os da Igreja, são apelidados de “errados”, pois representam um perigo para a instituição, por poderem quebrar a “corrente” que permite a hegemonia e perpetuação dos interesses da Igreja na sociedade.

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