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  • 23 de Outubro, 2010
  • Por Carlos Esperança
  • Literatura

O exorcismo da Celeste_1 (Crónica)

Em terras da Beira, depois da guerra, a gratidão para com a senhora de Fátima, pela afeição a Portugal, estendia-se ao senhor presidente do Conselho por nos ter livrado do conflito. No Cume sobrava piedade e faltava comida. Estavam no fim os anos quarenta e os portugueses  longe de começarem a ser gente.

A Celeste morava ao cimo do povo, sozinha, e cismava que se matava. Via-se que não regulava bem da cabeça e adivinhava-se a fome que a apoquentava. Suspeitaram os vizinhos de mau olhado e a ti Catrina, calhada nas benzeduras para tal moléstia, já a tinha ido visitar com outras mulheres embiocadas no xaile e os rostos sumidos na copa de enormes lenços pretos. Das conversas delas nada se disse mas ouviu-se na rua a ladainha:

«Dois to deram, três to tirarão,
foi S. Pedro e S. Paulo e o apóstolo S. João
Sant’Ana pariu Maria, Maria pariu Jesus,
assim como isto é verdade,
livre este corpo de ares, olhares e todo o mal
em louvor de Sant’Ana e Santa Iria…
padre nosso, ave-maria…»

Muitos padre-nossos e ave-marias depois, sem abrandar o mal, as mulheres mais velhas concluíram que deviam ser espíritos que atenazavam a bendita alma da Celeste, tão temente a Deus que ela era, mas nestas coisas de espíritos ruins são estes que escolhem a morada e, embora a oração lhes dificulte a entrada, está provado que não é intransponível a barreira.

A adensar a suspeita ouvia-se na habitação, durante a noite, o barulho de máquina de costura, que não havia, a trabalhar, a perturbar o sono e a aumentar a angústia. À porta juntavam-se pessoas vindas da igreja a ouvir o som que os espíritos produziam. Os poucos que não ouviram, apesar da atenção e do silêncio, conformaram-se com a deficiência auditiva e renderam-se à maioria.

O senhor padre pode ter desconfiado do diagnóstico, o sr. António Bernardo dizia que ela não batia bem da bola, podia até ser dos espíritos, a senhora professora aconselhou um médico, que disparate, o que sabe um médico destas coisas e onde é que o há, mas o povo na sua infinita sabedoria já tinha o veredicto, eram espíritos, só podia ser, falava-se de uma avó falecida há muitos anos, a voz tinha sido reconhecida, faltaram-lhe algumas missas ao trintário na encomendação da alma, não se perde nada em benzer a casa e deixar algum latim – conformou-se, acossado, o padre Pires –, dizem-se as missas em dívida e logo se verá.

A Celeste é mulher e o destino das mulheres serem possuídas, os espíritos malignos aproveitam e, depois de entrarem, são difíceis de expulsar. É um combate para senhores párocos, ou mesmo para um reverendíssimo bispo se as posses da vítima e a malignidade o aconselham. Pouco avezado a tais pelejas, mas com habilitações canónicas e compleição adequada à luta, bem se esforça o padre a desalojá-los. Quem julgue que a força da cruz e do divino devem bastar não conhece os espíritos e o furor que transmitem às mulheres possuídas, levando à exaustão o exorcista que não raro precisa de várias tentativas para se fazer obedecer. Fracassa e fica extenuado, à primeira, o padre Pires, valendo-lhe a gemada que o aguarda com vinho e açúcar, enquanto a ceia e o breviário lhe não retemperam as forças e devolvem a serenidade.

A Celeste não melhora. Continua a ouvir vozes que desconhece, definha. Alguns dias após, no regresso do Carapito, onde tinha ido levar o viático a um moribundo, volta o padre Pires à peleja com o maligno. Pode ser que na vez anterior se tenha entupido o hissope, avariado o crucifixo ou faltado à água a bendição, quem sabe, o senhor prior não costuma partilhar as dúvidas, se dúvidas assaltam o ministro de Deus, isto é um incréu a pensar, a força da fé move montanhas, sempre ouvi dizer, a Celeste pode ter perdido a fé com a fraqueza, e sem fé não adianta, é um esforço inglório, o certo é que o senhor padre volta a entrar naquela casa, se pode chamar-se assim ao sítio, mal nunca faz, senhor eu não sou digna de que entreis na minha morada, isto é uma forma de dizer, a Celeste refere-se a Deus que está em toda a parte, mas quando vem acompanhado do seu representante há-de infundir maior respeito, as pessoas humildes dizem estas coisas, o senhor padre mergulha bem o hissope, asperge-o com vigor, desenha cruzes, vai-se ao demo com o latim e as mãos, põe as pessoas a rezar o terço que a irmã Lúcia recomenda contra o comunismo, que também resulta com os espíritos, tudo obra do demo, deixa a reza para os paroquianos e sai da refrega exausto à procura da gemada com vinho, açúcar e nódoas para a batina, sem saber se os espíritos encurralados no corpo frágil obedeceram à ordem de expulsão, onde resistiam acossados à parafernália de alfaias sagradas e pias intimações.

As pessoas esperam na rua alheias ao perigo de serem apanhadas para refúgio dos espíritos em fuga. Nessa noite a máquina de costura inexistente permanece silenciosa e quieta, calam-se as vozes das almas penadas, a Celeste dorme bem pela primeira vez em muitos dias, depois da canja que lhe levaram. Se os espíritos não saíram estão debilitados.

A Celeste, com pouco alento, é certo, volta à horta e à igreja, o exorcismo resulta. Finou-se algumas semanas depois, completamente curada e liberta de espíritos malignos.

6 thoughts on “O exorcismo da Celeste_1 (Crónica)”
  • antoniofernando

    Sinto-me à vontade para elogiar este texto do Carlos Esperança, porque sempre que não gostei de outros que,dele, não apreciei, critiquei. Vivo num país cheio de lugares – comuns, frases feitas, muita mediocridade intelectual, acentuadas generalizações, escassa destrinça entre o trigo e o jóio, panfletarismo sectário deprimente. Tudo aquilo que aqui já cataloguei de ” nacional- porreirismo”. As tiradas para aplausos a pedido. A falta de seriedade discursiva. E estou tão à vontade para enaltecer este texto, que, se voltarem a ser publicados outros do Carlos Esperança, que não aprecie, é certo que irei novamente verberar.Não sei se alguma vez me cruzei com ele à porta do Café Montalto, na Covilhã. Mas temos ambos em comum uma característica identitária: ele e eu nos reivindicamos livres – pensadores. Por isso digo:faz falta à blogosfera textos como este. De elevado nível, sobriamente contundente, inteligentemente perspicaz. Sou dos que acredita que a alma existe e é eterna. Que a consciência pré – existe à matéria. Que o ser é estruturalmente dual. Que a mente não é o resultado das meras ligações neurónicas.Antes as utiliza para manifestação da maravilha do pensamento humano.Que a evolução aponta no duplo sentido,da progressão das espécies e do aperfeiçoamento espiritual. Que toda e qualquer fenomenologia deve ser cientificamente estudada, sem qualquer entrave ou pré- determinação preconceituosa. Que a vida tem um sentido essencialmente teleológico. Que, no final do devir existencial está Deus. E que, seja como for que vejamos as questões filosóficas e religiosas, cada um de nós é um ser único e singular.É essa singularidade que tanto nos aproxima e nos afasta.Mas talvez o grande respeito que possamos ter uns pelos outros se sinta e consolide sempre que conseguirmos debater e dialogar fraternalmente nas diferenças,por causa das diferenças, e apesar das diferenças…

    • Carlos Esperança

      «… porque sempre que não gostei de outros que,dele, não apreciei, critiquei».

      António Fernando:

      Não o desiludirei. Dar-lhe-ei muitas oportunidades para me zurzir.

      Abraço.

  • antoniofernando

    Sinto-me à vontade para elogiar este texto do Carlos Esperança, porque sempre que não gostei de outros que,dele, não apreciei, critiquei. Vivo num país cheio de lugares – comuns, frases feitas, muita mediocridade intelectual, acentuadas generalizações, escassa destrinça entre o trigo e o jóio, panfletarismo sectário deprimente. Tudo aquilo que aqui já cataloguei de ” nacional- porreirismo”. As tiradas para aplausos a pedido. A falta de seriedade discursiva. E estou tão à vontade para enaltecer este texto, que, se voltarem a ser publicados outros do Carlos Esperança, que não aprecie, é certo que irei novamente verberar.Não sei se alguma vez me cruzei com ele à porta do Café Montalto, na Covilhã. Mas temos ambos em comum uma característica identitária: ele e eu nos reivindicamos livres – pensadores. Por isso digo:faz falta à blogosfera textos como este. De elevado nível, sobriamente contundente, inteligentemente perspicaz. Sou dos que acredita que a alma existe e é eterna. Que a consciência pré – existe à matéria. Que o ser é estruturalmente dual. Que a mente não é o resultado das meras ligações neurónicas.Antes as utiliza para manifestação da maravilha do pensamento humano.Que a evolução aponta no duplo sentido,da progressão das espécies e do aperfeiçoamento espiritual. Que toda e qualquer fenomenologia deve ser cientificamente estudada, sem qualquer entrave ou pré- determinação preconceituosa. Que a vida tem um sentido essencialmente teleológico. Que, no final do devir existencial está Deus. E que, seja como for que vejamos as questões filosóficas e religiosas, cada um de nós é um ser único e singular.É essa singularidade que tanto nos aproxima e nos afasta.Mas talvez o grande respeito que possamos ter uns pelos outros se sinta e consolide sempre que conseguirmos debater e dialogar fraternalmente nas diferenças,por causa das diferenças, e apesar das diferenças…

  • antoniofernando

    Sinto-me à vontade para elogiar este texto do Carlos Esperança, porque sempre que não gostei de outros que,dele, não apreciei, critiquei. Vivo num país cheio de lugares – comuns, frases feitas, muita mediocridade intelectual, acentuadas generalizações, escassa destrinça entre o trigo e o jóio, panfletarismo sectário deprimente. Tudo aquilo que aqui já cataloguei de ” nacional- porreirismo”. As tiradas para aplausos a pedido. A falta de seriedade discursiva. E estou tão à vontade para enaltecer este texto, que, se voltarem a ser publicados outros do Carlos Esperança, que não aprecie, é certo que irei novamente verberar.Não sei se alguma vez me cruzei com ele à porta do Café Montalto, na Covilhã. Mas temos ambos em comum uma característica identitária: ele e eu nos reivindicamos livres – pensadores. Por isso digo:faz falta à blogosfera textos como este. De elevado nível, sobriamente contundente, inteligentemente perspicaz. Sou dos que acredita que a alma existe e é eterna. Que a consciência pré – existe à matéria. Que o ser é estruturalmente dual. Que a mente não é o resultado das meras ligações neurónicas.Antes as utiliza para manifestação da maravilha do pensamento humano.Que a evolução aponta no duplo sentido,da progressão das espécies e do aperfeiçoamento espiritual. Que toda e qualquer fenomenologia deve ser cientificamente estudada, sem qualquer entrave ou pré- determinação preconceituosa. Que a vida tem um sentido essencialmente teleológico. Que, no final do devir existencial está Deus. E que, seja como for que vejamos as questões filosóficas e religiosas, cada um de nós é um ser único e singular.É essa singularidade que tanto nos aproxima e nos afasta.Mas talvez o grande respeito que possamos ter uns pelos outros se sinta e consolide sempre que conseguirmos debater e dialogar fraternalmente nas diferenças,por causa das diferenças, e apesar das diferenças…

  • antoniofernando

    Sinto-me à vontade para elogiar este texto do Carlos Esperança, porque sempre que não gostei de outros que,dele, não apreciei, critiquei. Vivo num país cheio de lugares – comuns, frases feitas, muita mediocridade intelectual, acentuadas generalizações, escassa destrinça entre o trigo e o jóio, panfletarismo sectário deprimente. Tudo aquilo que aqui já cataloguei de ” nacional- porreirismo”. As tiradas para aplausos a pedido. A falta de seriedade discursiva. E estou tão à vontade para enaltecer este texto, que, se voltarem a ser publicados outros do Carlos Esperança, que não aprecie, é certo que irei novamente verberar.Não sei se alguma vez me cruzei com ele à porta do Café Montalto, na Covilhã. Mas temos ambos em comum uma característica identitária: ele e eu nos reivindicamos livres – pensadores. Por isso digo:faz falta à blogosfera textos como este. De elevado nível, sobriamente contundente, inteligentemente perspicaz. Sou dos que acredita que a alma existe e é eterna. Que a consciência pré – existe à matéria. Que o ser é estruturalmente dual. Que a mente não é o resultado das meras ligações neurónicas.Antes as utiliza para manifestação da maravilha do pensamento humano.Que a evolução aponta no duplo sentido,da progressão das espécies e do aperfeiçoamento espiritual. Que toda e qualquer fenomenologia deve ser cientificamente estudada, sem qualquer entrave ou pré- determinação preconceituosa. Que a vida tem um sentido essencialmente teleológico. Que, no final do devir existencial está Deus. E que, seja como for que vejamos as questões filosóficas e religiosas, cada um de nós é um ser único e singular.É essa singularidade que tanto nos aproxima e nos afasta.Mas talvez o grande respeito que possamos ter uns pelos outros se sinta e consolide sempre que conseguirmos debater e dialogar fraternalmente nas diferenças,por causa das diferenças, e apesar das diferenças…

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